sexta-feira, 30 de setembro de 2016

JOGA EM CIMA DA GENI


Tentaram inventar um mundo livre e veja só no que deu. "Tudo bem, nem é real, são só palavras, imagens, vozes." De fato, a Internet não pode tirar ninguém de onde está e levar a algum lugar perigoso e chocante. Mas provou na prática que é muito pior levar esses lugares e pessoas ameaçadoras até muita gente, ao mesmo tempo. Os milhares de delegacias contra crimes cibernéticos pelo mundo real que o digam. Pela Internet se rouba dinheiro, privacidade, reputações. Gera-se rancores, amores, famílias. A Primavera Árabe, movimento espontâneo iniciado pela Internet, derrubou em cascata antigos regimes antidemocráticos do Oriente Médio. Até dar de frente com o apoio militar russo na Síria e deixar para a Europa a crise dos refugiados.

Ainda bem que o lado bom do mundo real trouxe muito mais coisas boas para a Internet. Compensa disparado toda a “neura” virtual. A questão é que a Internet, cada vez mais, vai ser um lugar onde se deve ter muito cuidado. Porque num mundo livre tem que ter mais responsabilidade. Mas, quem!? Esse planeta abstrato ultrapassa fronteiras nacionais, costumes e autoridades. Ele tem poderes sobre esposas, sobre maridos, sobre filhos, é um personagem novo e imprevisível na vida da maior parte das pessoas. Quem responde por ele?

Se você está pensando em procurar no Google mais essa resposta, pode esquecer. A Google Brasil Internet Ltda. está sendo alvo de uma ação civil do Ministério Público Federal por, supostamente, não saber de suas responsabilidades perante crianças e famílias brasileiras. O centro da polêmica é a plataforma de vídeo YouTube, de propriedade da Google.

NINGUÉM TEM NADA COM ISSO


O Ministério Público, em nota, aponta a materialidade da culpa em vídeos postados por particulares, tendo como apresentadores crianças de até 12 anos. "As crianças não têm maturidade suficiente para discernir entre fantasia e realidade ou para resistir a impulsos consumistas."  E continua: “Quando atingem grande número de visualizações, os youtubers mirins tornam-se pequenas celebridades. Em decorrência dessa exposição, acabam atraindo a atenção do mercado, que as faz atuar como promotoras de vendas, protagonizando anúncios comerciais de produtos dirigidos ao público infantil".

Hmm! Até aqui temos como personagens “particulares” que postam vídeos, o “mercado”, que cresce os olhos sobre as celebridades mirins e “produtos dirigidos ao público infantil”. Mas parece que o MPF não está preocupado com eles, a culpa é da Google...

Antes mesmo da notificação oficial, a empresa veio a público para dizer que o YouTube é uma plataforma aberta, para o público adulto, e o uso para crianças deve ser orientado e acompanhado pelos pais. Na ação, o Ministério Público Federal pede algo nesse sentido, que tenha um aviso na página inicial do YouTube, lembrando a proibição de veicular merchandising ou propaganda de produtos ou serviços destinados a crianças, ou usá-las na promoção desses anúncios. A plataforma de vídeo precisaria ainda disponibilizar meios para que qualquer internauta pudesse denunciar a presença desses “abusos” em qualquer vídeo do canal. Será que é só isso que a ação do MPF pretende?

MUITO MAIS DO QUE 15 MINUTOS DE FAMA


Nos últimos anos o Brasil tem enfrentado um período tenso pela afirmação da primazia da lei sobre os interesses privados. Isso é salutar, historicamente relevante. Tanto que tem gerado uma notoriedade estrondosa para alguns personagens dessa batalha.

Por outro lado, diante da busca crescente da Justiça para qualquer litígio, os próprios magistrados e procuradores têm promovido campanhas, orientando as pessoas a buscarem acordos, antes de sentenças judiciais. Um dos instrumentos para ajudar a conversar mais, antes de brigar, é o famoso TAC – Termo de Ajuste de Conduta. É um documento, onde o representante do Ministério Público pactua, com a parte desajustada, os termos para se chegar à conformidade com a lei. Não seria o caso de primeiro propor esse caminho para o YouTube?

A Internet é um fenômeno ainda recente para a humanidade e estamos aprendendo a utiliza-la enquanto a construímos. Só isso já suscita o caminho da conversa. Mas o Brasil, que já se recusou a assinar alguns tratados internacionais sobre a grande rede, alegando zelar pela soberania, tem os juízes e promotores mais injuriados com ela! Para quem gosta, é um quixotismo de máxima repercussão. Porém, com a colateral e indesejável impressão hipo-civil sobre os nativos desta Pátria.

Se as instituições não conseguem cobrar responsabilidades objetivamente previstas em lei, há muitos anos, sobre pais, sobre fabricantes de produtos e intermediadores de vendas, por que agora o mundo livre da Internet é o culpado? Na melhor das hipóteses é uma lamentável preguiça por parte da instituição encarregada de cuidar do grande pacto legal que sustenta nossa sociedade. O Império da Lei, que o Brasil só agora parece começar a trazer para os filhos deste, precisa se firmar a partir do solo-mãe-gentil, real e tangível. Só assim haverá um exemplo concreto para edificar o penhor dessa igualdade nos fugazes bits.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A INTERNET E A REDUÇÃO DA POPULAÇÃO DE CONTROLES REMOTOS


Imagine que você está com a sua turma na praça de alimentação de um shopping. Aquele monte de mesinhas, vocês escolhem sentar em frente a uma grande rede de pizzarias. O atendente traz um cardápio enorme, com várias páginas, você abre na primeira e vê uma longa lista de lanches com hambúrguer:

"-Aqui também faz hambúrguer?"

"-Não, hambúrguer é lá naquela loja, do outro lado."

"-Então por que está aqui no seu cardápio!!?"

"-É que saiu uma lei obrigando a ter um único cardápio para toda a praça de alimentação. Assim o cliente fica sabendo de todas as opções e escolhe com mais comodidade."

Uma proposta da FCC - o órgão regulador dos Estados Unidos equivalente a "Anatel" brasileira - apresenta uma norma mais ou menos assim para as operadoras de TV por assinatura.  A proposta vai ser votada nesta última semana de setembro e, se aprovada, vai obrigar todas as operadoras a oferecerem aos assinantes a alternativa de acesso ao conteúdo via Internet. Inclui também a possibilidade de "pesquisa cruzada", ou seja, o assinante terá no guia de programação os conteúdos da operadora e outros disponíveis na Internet. A associação das operadoras americanas (NCTA) está assustada e quer mais esclarecimentos sobre a proposta.

O argumento da FCC, em princípio, não justifica em nada a pesquisa cruzada. O órgão regulador alega que pretende reduzir os custos para o consumidor, que tem de pagar pela manutenção de redes exclusivas e pelo aluguel do set-top box exclusivo para cada serviço. É comum encontrar mais de um set-top box nos lares americanos.  E por que um guia de programação aberto ajuda nesse caso? Não ajuda nada. O Governo afirma que nesse caso o propósito é promover os pequenos programadores, que não contam com distribuidores para seus conteúdos.

APLICATIVOS PREDATÓRIOS


A norma obriga as operadoras a oferecerem o acesso via IP como alternativa, por meio de um aplicativo próprio. O assinante não é obrigado a aderir, pode ficar com as redes exclusivas (ou dedicadas) via cabo, satélite (DTH) ou IPTV. Com certeza, fora do APP, vai pagar mais caro. Quanto ao aplicativo, cada operadora pode desenvolver o seu, na linguagem e estrutura que achar melhor, obrigatoriamente em versões para celular, tablets, smart TVs e até caixas conectadas, como as usadas pelos serviços OTT (Roku, Apple TV, Fire TV, Google Chromecast, etc). Fica garantido às operadoras o controle dos conteúdos de ponta a ponta, a ordem dos canais e a exibição da publicidade contratada, o que significa que os conteúdos não serão liberados em arquivos que possam ser abertos fora do aplicativo.

Porém, com o aplicativo via OTT, vai ser difícil garantir a velocidade de acesso e a qualidade na exibição do conteúdo. Nesse último caso, há exigências de programadoras, que não aceitam a distribuição de conteúdos por meio de APPs. Há dúvidas até sobre o uso de aplicativos de uma operadora na banda larga de outra. Se a norma for aprovada, as grandes terão dois anos para disponibilizar a nova alternativa para os assinantes. As de porte médio terão quatro anos e as pequenas, que têm menos de 400 mil assinantes, estão liberadas do cumprimento da norma. É uma confusão tão grande que não parece se justificar apenas pelos objetivos que a FCC apresenta. Se não é só isso, o que o Governo Americano de fato pretende com essas mudanças? Há hipóteses que apontam em algumas direções.

AFINAL, ONDE VAI PARAR O CONTROLE?


Quando o controle remoto acabou com a distância entre o sofá e o televisor, ninguém imaginava o quanto esse caminho era penoso. Fez da engenhoca item obrigatório na sala e logo engoliu também a distância até o aparelho de som, o ar condicionado, o portão da garagem. Surgiu uma superpopulação desse acessório, que passou a ser tratado pelo nome preocupante de “controle”. Aos poucos, a tecnologia está cuidando de reduzir, ou pelo menos racionalizar a presença deles, começando lá do início, no sofá.

É no sofá onde o controle é real. Ele limita seus movimentos ao ato de zapear, uma marcha para percorrer o guia de programação. A prática confirma que quando alguém entra num guia de programação é difícil sair de lá. Assunto hoje para leis de isonomia aqui no Brasil!

A Internet é o lugar mais fácil para fundir guias de programação num mundo só, dispensando vários controles remotos. Mais do que isso, a Internet é universal, mas os Estados Unidos reinam absolutos quando o céu e a terra, a água e o ar são feitos de silício. A “vida” por ali é obra de um certo pensar, transcrito em códigos, que reconfiguram circuitos para tudo ou qualquer coisa acontecer. A aprovação da norma vai ser um duro golpe nos fabricantes de set-top boxes dedicados, de materiais para redes de TV a cabo e, claro, de controles remotos. Por outro lado, vai centralizar na Internet o tráfego de arquivos e os hábitos ligados ao entretenimento mais consumido no mundo ocidental: a TV. 

Acontecendo lá, os novos aplicativos tendem a se espalhar pelo mundo, colocando na Internet os metadados de tudo que circula pelas TVs por assinatura. O “controle” continua uma obsessão cada vez maior.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

JABUTICABA TIPO EXPORTAÇÃO


Primeiro o milagre, depois o santo. Já se falou tanto do bendito por aqui que alguns leitores podem ter a sensação de que o artigo é repetido. Mas, pelo milagre, a surpresa vai ser suficiente para avançar na conversa.

Ninguém menos do que a Intel tem planos baseados em duas legítimas jabuticabas para um projeto que pode alcançar dimensões globais. Numa ponta, a primeira "pretinha doce" é a grande rede nacional de TV aberta, a de maior penetração entre todos os países do mundo. Já nos acostumamos a falar da ampla cobertura de TV digital aberta que o Brasil tem, mas talvez nunca tenhamos olhado para o "digital" dessa rede com o interesse que a Intel está demonstrando. A empresa tem planos de colocar na outra ponta da rede o PC Sticker, um dongle de altíssimo desempenho, que ficaria conectado como um conversor digital na própria TV. Assim o canal de dados da TV aberta poderia ampliar a cobertura de banda larga para soluções de Internet das Coisas (IoT) e serviços para cidades inteligentes.

Quem fez a afirmação foi o Diretor de Inovação da Intel Brasil, Max Leite, conforme publicado na bela matéria de Cristina de Lucca no site IDGNow. A outra jabuticaba é o Ginga, santo da nossa história tecnológica, que estaria sendo visto como a principal alternativa para dar esse potencial ao sistema. O software 100% brasileiro é considerado pela UIT - União Internacional de Telecomunicações - como o melhor middleware de sistemas de TV digital no mundo. O canal de retorno ficaria por conta de conexão tipo Wi-Fi. Com uma plataforma dessas qualquer OTT funciona, sem usar as bandas dengosas das operadoras, que tanto reclamam da grande demanda de dados do Netflix. Êta cabloquinho bom, esse tal de Ginga!

OS GINGAS ATRAVÉS DOS TEMPOS


A matéria do IDGNow ( http://idgnow.com.br/blog/circuito/2016/09/10/tv-digital-fabricantes-e-operadoras-de-telefonia-querem-fim-da-interatividade/ ) teve oportunidade a partir de um pedido encaminhado ao Governo Federal, na semana passada, pela Eletros, a associação que reúne os montadores de aparelhos de TV aqui no Brasil (mais conhecidos como fabricantes de TV). Eles querem que o Governo revogue a obrigatoriedade de carregar o Ginga nos aparelhos. Dizem que isso custa R$ 50,00 a mais para o consumidor final e que "ninguém usa". Talvez seja apenas mais um desaforo pra cima do Ginga, que tanta gente gosta de esculachar. É verdade, sim, que aquele Ginga que está em todo aparelho com o logo "DTVi" não serve para quase nada. É mais ou menos como instalar um telefone 0800 e não colocar ninguém para atender do outro lado. Sem conteúdo produzido pelas emissoras, o Ginga fica meio inútil.

Mas o principal problema não é esse. Quando se fala em Ginga, fala-se de várias implementações existentes. É a implementação "C" do middleware que tem potencial para baixar vídeos, para exibição sobre à programação que está no ar ou armazenar para rodar mais tarde. Por isso o set-top box que as famílias carentes do Cadastro Único vão receber tem mais memória e velocidade de processamento. Levando em conta que as vendas de aparelhos de TV no Brasil registram uma preferência de mais de 80% pelos modelos smart, dá para entender por que as fabricantes torcem o nariz para o Ginga. Mesmo considerando que o hardware dos televisores tipo smart suportaria uma versão mais avançada do Ginga, a versão do Ginga que é carregada atualmente por determinação governamental é muito simples, tem poucas funcionalidades. O mais sensato seria carregarem o Ginga C para a distinta freguesia. Ou então, vão ter que esperar o PC Sticker da Intel, que pode chegar com tudo como acessório para televisores (além das inúmeras outras funcionalidades do poderoso dongle).

NÃO DÁ PRA DESPREZAR


Desqualificar o Ginga é fácil, desde que se escolha a implementação mais simples, que foi útil para outros tempos. O conceito Ginga é outra coisa, mais fácil de ser compreendido a partir da implementação "C". Ele abre todas as possibilidades para que a TV digital aberta deixe de ser apenas uma imagem muito melhor. Dá mais inteligência e abrangência ao sistema, possibilitando inclusive a integração Broadcast - Broadband (IBB). Não são os R$ 50,00 a mais que o consumidor paga que deixam os fabricantes tão preocupados. Mas o caminho que o Ginga aponta, na contramão de uma indústria que só pensa no mercado global e na linha de aparelhos que o Primeiro Mundo pode pagar. O Ginga é eficiente, mas usa sandálias de dedo. Se entende melhor com as necessidades desse povão "em desenvolvimento", que procura aliados versáteis e de baixo custo para ajudar na tarefa de se desenvolver.

O Ginga está mais para bancada do que para ferramenta. É sobre ele que muitas funcionalidades vão ser montadas. Isso é muito importante para uma indústria que não pode abrir mão de nada que ajude a justificar a própria sobrevivência. A TV, do jeito que está, é toda ultrapassada. Daqui a pouco mais de cinco anos o televisor precisa ser um equipamento doméstico totalmente novo para conseguir lugar na sala de todos os lares. Só assim o mundo aceitará manter o espaço que a TV aberta precisa para trafegar no espectro eletromagnético.

O mundo já viu desaparecer engenhos considerados indispensáveis como a máquina de escrever, o telex e o carburador. O telefone fixo está definhando, assim como jornais impressos e tantas outras tecnologias de longa tradição. Os fabricantes de televisores devem ter os cenários mais claros do futuro do seu mercado. Mas qualquer cenário na área de tecnologia é muito volátil. Se o poder aquisitivo dos países em desenvolvimento é limitado, em poucos anos isso pode passar a ser uma vantagem para quem vende televisores. Porque as inovações mais sofisticadas como Apple TV, Roku, Chromecast e Fire TV, podem substituir as smart TVs nos países ricos. Além disso, é nas nações mais pobres onde a TV se fortalece como “instituição”. É melhor colocar mais ginga no planejamento estratégico dos grandes fabricantes, o que pode abrir espaço para o Ginga nas novas gerações de televisores.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

ALGUMA COISA ACONTECE NO MEU BOLSO


Veja só que grande sacanagem! Ainda bem que todo mundo tem um amigo altruísta para lançar alertas - pelo WhatsApp! - como o que vem a seguir, em respeito à privacidade dos cidadãos: "-Galera, a última atualização do WhatsApp veio com uma parada de compartilhamento automático com o Facebook. Ou seja, suas conversas automaticamente são filtradas e, de alguma forma, o Facebook fica sabendo dos seus assuntos de interesse e poderá utilizar esses dados inclusive para fins comerciais. Assim sendo, sugiro que todos vocês retirarem essa opção..." O alerta, que rolou há duas semanas, deve ter passado por sua conta. Afinal, do bilhão de pessoas que utilizam o WhatsApp pelo mundo, 100 milhões são brasileiros. Muito provável você ser um deles.

E já que o assunto é sacanagem, recorde esta outra, divulgada no início de maio deste ano no jornal "Correio Brasiliense", o principal diário da Capital Federal. Veio sob o título "Bloqueio do WhatsApp deixa rastro de prejuízos pelo país". Alguns trechos são quase trágicos: "... alguns usuários que utilizam o aplicativo como ferramenta de trabalho saíram prejudicados financeiramente com a paralisação. As vendas de mariscos e camarões do autônomo Márcio Capeloni, 48 anos, foram afetadas. Capeloni, que negocia o transporte dos produtos do estado do Pará para Brasília pela plataforma, acabou perdendo clientes com o bloqueio. “As minhas encomendas são combinadas através do WhatsApp. Tive que gastar dinheiro com ligações de longa distância para o prejuízo não ser maior”, afirmou." E a reportagem sobre o bloqueio judicial de então contra o aplicativo continuou: "Muitas vezes sem opção, os profissionais têm que suspender negociações e vendas por não terem condições de arcar com gastos de créditos para celular. “Eu trabalho com produtos de beleza. A venda é feita exclusivamente através do WhatsApp. Com essa paralisação, deixei de vender”, lamentou a vendedora Glauciane Rodrigues, 34 anos."

Que mundo sacana!

VALE OU NÃO VALE??


Em tempos de capitalismo selvagem a gente dizia: "-De graça, até injeção na testa." Uma metáfora do sofrimento a que uma pessoa seria capaz de se submeter, para conseguir algo sem pagar. Na verdade, era uma maneira de se referir à dificuldade de se encontrar algo gratuito, num mundo onde tudo tem um preço. Ora, será que o capitalismo acabou? Com certeza não! Está crescendo tanto que põe preço em tudo. Até o seu endereço, os seus sonhos e preocupações, estão valendo. Você pode não saber, mas quem já soube logo resolveu sair vendendo. Sacanagem, claro!

Será que só existe sacanagem neste mundo!? A gente tem visto - particularmente aqui no Brasil - que até esse pessoal muito puro (??), que sai por aí para "denunciar as sacanagens", não é assim "uma Sandy". Num mundo que nasceu sob a lei do mais forte, da competição entre as espécies, não seria a única espécie inteligente a mais ingênua de todas. Até a ideia de "inovar", tão em voga nesses tempos, sempre trouxe embutida alguma esperteza.

É o bom senso, que já virou até nome de "sindicato" de jogador de futebol, que vai ser o seu próprio juiz. Se o WhatsApp não é importante para você, é só desinstalar do seu celular. Tem outras opções com as mesmas funcionalidades, mas ninguém garante que nenhuma delas ganhe nada em cima de você. Para ter certeza de que você não enriquece ninguém é só não assistir à TV aberta, não ouvir música ou notícias pelo rádio, nem olhar para a publicidade de rua. Entrar na Internet, nem pensar. Mais fácil mudar de planeta. Ou então, aceitar jogar o jogo deste mundo comercial, onde há chances reais de você também ganhar alguma coisa, sem ficar no prejuízo.

SANTO, TAMBÉM NÃO


Há algo surpreendente neste mundo: algo... ritmo! Os algoritmos substituíram fios e cabos, vozes, armas, tratamentos médicos, profissões mais simples e até algumas bem complicadas. É com eles que criaram shoppings, restaurantes delivery, viagens, companhias telefônicas free, coisas nunca antes imaginadas, como o Facebook. E muitas outras vão vir.

Mais uma vez, analisando sob o ponto de vista brasileiro, há vícios históricos que nos tornam mais vulneráveis a essas peripécias capitalistas. Fomos acostumados a valorizar coisas de graça. De graça!? Por exemplo, o serviço público de saúde é de graça para todo e qualquer brasileiro, rico ou pobre. O transporte coletivo urbano é um alvo recente da onda da gratuidade. Mas no real, é fácil notar que nada disso sai de graça. É o imposto que todos pagam que dá uma volta enorme nos sistemas públicos - de saúde, de transporte, de previdência, ... - deixa um tantão pelo caminho e chega corroído no prestador final de serviço. Ele fica bravo, os usuários também, mas... é de graça!

Que pode ter sacanagem nos presentes cibernéticos, ninguém discute. O WhatsApp, por exemplo, criou uma alternativa para o usuário escolher compartilhar ou não os dados pessoais. Mas a alternativa não é do conhecimento da maior parte dos usuários. O Google também já rastreia suas preferências há muito tempo. E como todos esses algoritmos são tão surpreendentes, a gente demora a perceber que papel estamos fazendo. O momento cibernético ajuda a compreender, de uma vez por todas, que qualquer gratuidade é mais esperta do que supomos. Se é assim, então vamos "vender" alguns daqueles valores que temos, mas não podemos negociar sozinhos, diretamente. E enfim, ficar um pouco mais tranquilos neste capitalismo selvagem que, pelo menos não assusta tanto, porque não mostra mais os dentes.

Quanto à esperteza, toda prudência é pouca! Você nem tinha todos seus dentes de leite e já se achava muito esperto, ganhando docinhos e sorrisos no colo do Papai Noel. Mal sabia que tudo acontecia só para a turminha dele esticar a mão na carteira do seu papai real.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A NOVA ERA JÁ ERA


"-Hmm, como assim?" Essa pergunta já foi a “senha” mais temida na SET Expo, até há uns 5 anos, mais ou menos. Significava que o cliente que acabara de ouvir sua explicação era um profissional de televisão, mas ainda não sabia nada sobre a tecnologia digital. Você virava professor por meia hora, psicólogo também, porque esses clientes chegavam estressados, pela responsabilidade perante suas emissoras. Na semana passada, durante a edição 2016 da SET Expo, praticamente não se ouviu a frase desafiante. O dialeto digital já faz parte desse mundo “torres & telas”, habitado por seres que mantêm avatares explorando minuciosamente o universo virtual.
Lá estava também aquela idosa bilionária, no crepúsculo de seus 10 anos, pedindo cuidados especiais com sua descendência aqui no Brasil. A sra. HDTV não perdeu a elegância, aquela fineza, mas já não domina mais os olhares pela feira. As atenções agora se voltam um padrão brasileiro UHD - ultra high definition. O tema foi destaque na SET Expo durante as atividades de comemoração dos 10 anos do SBTVD, que marca a digitalização da TV aberta no Brasil. O presidente da Sociedade de Engenharia de Televisão, Olímpio Franco, falou sobre a necessidade de uma mobilização nesse sentido, com a participação de entidades como Abert, Abratel, ABTA, Abine e Eletros. Elas vão fazer parte de um novo fórum, específico para o UHD. Ao que tudo indica, o Fórum UHD vai ser um lugar mais para ouvir, do que pra falar. O que você acha?

AUTONOMIA, SÓ SE FOR SUSTENTÁVEL

O UHD via terrestre, que no ano que vem vai ao ar na Coréia do Sul, veio empacotado num sistema complexo. Trata-se de um empreendimento bastante arrojado, bancado pela indústria broadcast americana e que leva o nome ATSC 3.0. A estreia de um sistema americano em outro país sugere dificuldades de regulação, além das tecnologias coreanas agregadas. De fato, no imenso e concorrido mercado americano, uma reviravolta dessas em tão pouco tempo encontraria barreiras. Mas, se num breve futuro os telespectadores coreanos fizerem inveja aos americanos, fica mais fácil falar sobre essas mudanças.
Nessa mesa o Brasil vai ter dificuldade de se acomodar – por isso deve ouvir mais do que falar. E o motivo desse silêncio tem a ver com a impossibilidade de sustentar posições. Há um abismo tecnológico que impede o Brasil de tomar determinadas decisões, mesmo sobre a TV que teremos por aqui. O ATSC 3.0, por exemplo, não é apenas um sistema UHD terrestre. Ele incorpora recursos inéditos, como a publicidade segmentada, contagem de acessos em tempo real, interatividade e conexão, tudo dentro da banda de 6 MHz. É o máximo que pode ser feito para a TV aberta. Seria o ideal para o Brasil, maior país do mundo com predominância da TV aberta. Mas, se esse sistema e similares não vingarem globalmente, quem vai manter essa tecnologia disponível no mercado? O Brasil e os países pobres em geral – onde a TV aberta tem preferência – vão justificar investimentos nessa tecnologia?
O Primeiro Mundo, que fabrica os componentes e os sistemas, que desenvolve os softwares mais complexos, pode decidir que o negócio TV vai passar a ser apenas para quem paga. A TV aberta sobraria como um serviço muito simples, subsidiado pelos governos, com uma programação pouco atraente do ponto de vista comercial. Tudo porque os espaços publicitários da Internet estão reduzindo as margens para o negócio televisão. Mais provável é que apenas um modelo de negócio para TV sobreviva, ou por assinatura, ou a TV aberta paga pelos comerciais.

EVOLUIR PARA MELHOR

A tecnologia digital está mostrando que veio para pôr fogo na fogueira da disputa entre TV aberta e TV por assinatura. No entanto, o bônus tecnológico trouxe alternativas para muitas outras áreas. É que no mundo digital a parte tangível, o device, ficou mais na categoria de ferramenta, do que propriamente um equipamento, um aparelho. Ele precisa se compor com outras ferramentas – os softwares – para, enfim, assumir esta ou aquela funcionalidade. E é aí, no software, onde a competência não tem nacionalidade. É o que faz da EiTV uma produtora de soluções globais.
A SET Expo 2016 foi mais uma confirmação desse status enquanto player global. Soluções no âmbito ISDB-T, para emissoras e equipamentos voltados para a TV digital nacional, foram tão procuradas quanto as soluções broadband, de aplicação em qualquer parte do Planeta. No primeiro caso, o EiTV Inspector despertou interesse de emissoras brasileiras, por oferecer muito mais funcionalidades no equipamento que grava e arquiva a programação para efeito legal. O EiTV Inspector analisa todos os parâmetros de qualidade do sinal, permitindo acesso remoto e configurações para situações específicas. O EiTV CC Box, muito mais simples, permite uma programação independente dos avisos obrigatórios aos telespectadores, no prazo que antecede o switch off do sinal analógico. O que eles têm em comum? O fato de terem surgido a partir do conhecimento desenvolvido para a tecnologia digital de TV.
Em nível global, a plataforma EiTV CLOUD e o app EiTV Play atendem demandas de clientes de países que não têm qualquer relação com o padrão ISDB-T. Mas foram desenvolvidos a partir da mesma base de conhecimento que a tecnologia digital de TV trouxe para o Brasil. Por isso, a participação na criação de um UHD tupiniquim é uma tarefa que já está incorporada, com destaque, na agenda da EiTV. Um investimento que se justifica não apenas pelo eventual sucesso do UHD terrestre no Brasil, mas também pelo conhecimento que certamente será agregado a várias outras soluções audiovisuais.