A INTERNET E A REDUÇÃO DA POPULAÇÃO DE CONTROLES REMOTOS


Imagine que você está com a sua turma na praça de alimentação de um shopping. Aquele monte de mesinhas, vocês escolhem sentar em frente a uma grande rede de pizzarias. O atendente traz um cardápio enorme, com várias páginas, você abre na primeira e vê uma longa lista de lanches com hambúrguer:

"-Aqui também faz hambúrguer?"

"-Não, hambúrguer é lá naquela loja, do outro lado."

"-Então por que está aqui no seu cardápio!!?"

"-É que saiu uma lei obrigando a ter um único cardápio para toda a praça de alimentação. Assim o cliente fica sabendo de todas as opções e escolhe com mais comodidade."

Uma proposta da FCC - o órgão regulador dos Estados Unidos equivalente a "Anatel" brasileira - apresenta uma norma mais ou menos assim para as operadoras de TV por assinatura.  A proposta vai ser votada nesta última semana de setembro e, se aprovada, vai obrigar todas as operadoras a oferecerem aos assinantes a alternativa de acesso ao conteúdo via Internet. Inclui também a possibilidade de "pesquisa cruzada", ou seja, o assinante terá no guia de programação os conteúdos da operadora e outros disponíveis na Internet. A associação das operadoras americanas (NCTA) está assustada e quer mais esclarecimentos sobre a proposta.

O argumento da FCC, em princípio, não justifica em nada a pesquisa cruzada. O órgão regulador alega que pretende reduzir os custos para o consumidor, que tem de pagar pela manutenção de redes exclusivas e pelo aluguel do set-top box exclusivo para cada serviço. É comum encontrar mais de um set-top box nos lares americanos.  E por que um guia de programação aberto ajuda nesse caso? Não ajuda nada. O Governo afirma que nesse caso o propósito é promover os pequenos programadores, que não contam com distribuidores para seus conteúdos.

APLICATIVOS PREDATÓRIOS


A norma obriga as operadoras a oferecerem o acesso via IP como alternativa, por meio de um aplicativo próprio. O assinante não é obrigado a aderir, pode ficar com as redes exclusivas (ou dedicadas) via cabo, satélite (DTH) ou IPTV. Com certeza, fora do APP, vai pagar mais caro. Quanto ao aplicativo, cada operadora pode desenvolver o seu, na linguagem e estrutura que achar melhor, obrigatoriamente em versões para celular, tablets, smart TVs e até caixas conectadas, como as usadas pelos serviços OTT (Roku, Apple TV, Fire TV, Google Chromecast, etc). Fica garantido às operadoras o controle dos conteúdos de ponta a ponta, a ordem dos canais e a exibição da publicidade contratada, o que significa que os conteúdos não serão liberados em arquivos que possam ser abertos fora do aplicativo.

Porém, com o aplicativo via OTT, vai ser difícil garantir a velocidade de acesso e a qualidade na exibição do conteúdo. Nesse último caso, há exigências de programadoras, que não aceitam a distribuição de conteúdos por meio de APPs. Há dúvidas até sobre o uso de aplicativos de uma operadora na banda larga de outra. Se a norma for aprovada, as grandes terão dois anos para disponibilizar a nova alternativa para os assinantes. As de porte médio terão quatro anos e as pequenas, que têm menos de 400 mil assinantes, estão liberadas do cumprimento da norma. É uma confusão tão grande que não parece se justificar apenas pelos objetivos que a FCC apresenta. Se não é só isso, o que o Governo Americano de fato pretende com essas mudanças? Há hipóteses que apontam em algumas direções.

AFINAL, ONDE VAI PARAR O CONTROLE?


Quando o controle remoto acabou com a distância entre o sofá e o televisor, ninguém imaginava o quanto esse caminho era penoso. Fez da engenhoca item obrigatório na sala e logo engoliu também a distância até o aparelho de som, o ar condicionado, o portão da garagem. Surgiu uma superpopulação desse acessório, que passou a ser tratado pelo nome preocupante de “controle”. Aos poucos, a tecnologia está cuidando de reduzir, ou pelo menos racionalizar a presença deles, começando lá do início, no sofá.

É no sofá onde o controle é real. Ele limita seus movimentos ao ato de zapear, uma marcha para percorrer o guia de programação. A prática confirma que quando alguém entra num guia de programação é difícil sair de lá. Assunto hoje para leis de isonomia aqui no Brasil!

A Internet é o lugar mais fácil para fundir guias de programação num mundo só, dispensando vários controles remotos. Mais do que isso, a Internet é universal, mas os Estados Unidos reinam absolutos quando o céu e a terra, a água e o ar são feitos de silício. A “vida” por ali é obra de um certo pensar, transcrito em códigos, que reconfiguram circuitos para tudo ou qualquer coisa acontecer. A aprovação da norma vai ser um duro golpe nos fabricantes de set-top boxes dedicados, de materiais para redes de TV a cabo e, claro, de controles remotos. Por outro lado, vai centralizar na Internet o tráfego de arquivos e os hábitos ligados ao entretenimento mais consumido no mundo ocidental: a TV. 

Acontecendo lá, os novos aplicativos tendem a se espalhar pelo mundo, colocando na Internet os metadados de tudo que circula pelas TVs por assinatura. O “controle” continua uma obsessão cada vez maior.

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