ALGUMA COISA ACONTECE NO MEU BOLSO


Veja só que grande sacanagem! Ainda bem que todo mundo tem um amigo altruísta para lançar alertas - pelo WhatsApp! - como o que vem a seguir, em respeito à privacidade dos cidadãos: "-Galera, a última atualização do WhatsApp veio com uma parada de compartilhamento automático com o Facebook. Ou seja, suas conversas automaticamente são filtradas e, de alguma forma, o Facebook fica sabendo dos seus assuntos de interesse e poderá utilizar esses dados inclusive para fins comerciais. Assim sendo, sugiro que todos vocês retirarem essa opção..." O alerta, que rolou há duas semanas, deve ter passado por sua conta. Afinal, do bilhão de pessoas que utilizam o WhatsApp pelo mundo, 100 milhões são brasileiros. Muito provável você ser um deles.

E já que o assunto é sacanagem, recorde esta outra, divulgada no início de maio deste ano no jornal "Correio Brasiliense", o principal diário da Capital Federal. Veio sob o título "Bloqueio do WhatsApp deixa rastro de prejuízos pelo país". Alguns trechos são quase trágicos: "... alguns usuários que utilizam o aplicativo como ferramenta de trabalho saíram prejudicados financeiramente com a paralisação. As vendas de mariscos e camarões do autônomo Márcio Capeloni, 48 anos, foram afetadas. Capeloni, que negocia o transporte dos produtos do estado do Pará para Brasília pela plataforma, acabou perdendo clientes com o bloqueio. “As minhas encomendas são combinadas através do WhatsApp. Tive que gastar dinheiro com ligações de longa distância para o prejuízo não ser maior”, afirmou." E a reportagem sobre o bloqueio judicial de então contra o aplicativo continuou: "Muitas vezes sem opção, os profissionais têm que suspender negociações e vendas por não terem condições de arcar com gastos de créditos para celular. “Eu trabalho com produtos de beleza. A venda é feita exclusivamente através do WhatsApp. Com essa paralisação, deixei de vender”, lamentou a vendedora Glauciane Rodrigues, 34 anos."

Que mundo sacana!

VALE OU NÃO VALE??


Em tempos de capitalismo selvagem a gente dizia: "-De graça, até injeção na testa." Uma metáfora do sofrimento a que uma pessoa seria capaz de se submeter, para conseguir algo sem pagar. Na verdade, era uma maneira de se referir à dificuldade de se encontrar algo gratuito, num mundo onde tudo tem um preço. Ora, será que o capitalismo acabou? Com certeza não! Está crescendo tanto que põe preço em tudo. Até o seu endereço, os seus sonhos e preocupações, estão valendo. Você pode não saber, mas quem já soube logo resolveu sair vendendo. Sacanagem, claro!

Será que só existe sacanagem neste mundo!? A gente tem visto - particularmente aqui no Brasil - que até esse pessoal muito puro (??), que sai por aí para "denunciar as sacanagens", não é assim "uma Sandy". Num mundo que nasceu sob a lei do mais forte, da competição entre as espécies, não seria a única espécie inteligente a mais ingênua de todas. Até a ideia de "inovar", tão em voga nesses tempos, sempre trouxe embutida alguma esperteza.

É o bom senso, que já virou até nome de "sindicato" de jogador de futebol, que vai ser o seu próprio juiz. Se o WhatsApp não é importante para você, é só desinstalar do seu celular. Tem outras opções com as mesmas funcionalidades, mas ninguém garante que nenhuma delas ganhe nada em cima de você. Para ter certeza de que você não enriquece ninguém é só não assistir à TV aberta, não ouvir música ou notícias pelo rádio, nem olhar para a publicidade de rua. Entrar na Internet, nem pensar. Mais fácil mudar de planeta. Ou então, aceitar jogar o jogo deste mundo comercial, onde há chances reais de você também ganhar alguma coisa, sem ficar no prejuízo.

SANTO, TAMBÉM NÃO


Há algo surpreendente neste mundo: algo... ritmo! Os algoritmos substituíram fios e cabos, vozes, armas, tratamentos médicos, profissões mais simples e até algumas bem complicadas. É com eles que criaram shoppings, restaurantes delivery, viagens, companhias telefônicas free, coisas nunca antes imaginadas, como o Facebook. E muitas outras vão vir.

Mais uma vez, analisando sob o ponto de vista brasileiro, há vícios históricos que nos tornam mais vulneráveis a essas peripécias capitalistas. Fomos acostumados a valorizar coisas de graça. De graça!? Por exemplo, o serviço público de saúde é de graça para todo e qualquer brasileiro, rico ou pobre. O transporte coletivo urbano é um alvo recente da onda da gratuidade. Mas no real, é fácil notar que nada disso sai de graça. É o imposto que todos pagam que dá uma volta enorme nos sistemas públicos - de saúde, de transporte, de previdência, ... - deixa um tantão pelo caminho e chega corroído no prestador final de serviço. Ele fica bravo, os usuários também, mas... é de graça!

Que pode ter sacanagem nos presentes cibernéticos, ninguém discute. O WhatsApp, por exemplo, criou uma alternativa para o usuário escolher compartilhar ou não os dados pessoais. Mas a alternativa não é do conhecimento da maior parte dos usuários. O Google também já rastreia suas preferências há muito tempo. E como todos esses algoritmos são tão surpreendentes, a gente demora a perceber que papel estamos fazendo. O momento cibernético ajuda a compreender, de uma vez por todas, que qualquer gratuidade é mais esperta do que supomos. Se é assim, então vamos "vender" alguns daqueles valores que temos, mas não podemos negociar sozinhos, diretamente. E enfim, ficar um pouco mais tranquilos neste capitalismo selvagem que, pelo menos não assusta tanto, porque não mostra mais os dentes.

Quanto à esperteza, toda prudência é pouca! Você nem tinha todos seus dentes de leite e já se achava muito esperto, ganhando docinhos e sorrisos no colo do Papai Noel. Mal sabia que tudo acontecia só para a turminha dele esticar a mão na carteira do seu papai real.

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