sexta-feira, 27 de março de 2015

NEGÓCIOS TECNOLÓGICOS NAS LOJAS SÃO MAIS SEGUROS DO QUE NOS BANCOS


Há muito tempo, antes da ciência existir, a inteligência humana estava perturbada, procurava caminhos para criar, inventar. Um grupo desses cérebros inquietos, denominado alquimistas, observava mistura de compostos na tentativa de transformar vil metal em ouro. Isso mesmo, queriam misturar ao ferro, ao cobre, alguma coisa que os transformasse em ouro. Os otimistas podem dizer que eles conseguiram dar início à Química, uma ciência que, hoje, vale muito mais do que todo o ouro do mundo. À época, porém, os mais realistas devem ter tido a sensação de que perderam tempo. Ainda bem que os investidores de risco da época ainda não tinham chegado às fórmulas atuais de financiamento de startups. Iam ficar no prejuízo.

A ambição humana pelo poder sempre teve o traço patológico que a diferencia da ambição pelo saber. O poder quer gerar valor além da utilidade prática que cada coisa tem. Por exemplo, o valor que o petróleo atingiu, muito acima do ouro, justamente em função do que a química agregou àquela matéria prima tão especial. Se tem dúvida é só consultar o volume de negócios em ouro e comparar como o negociado em petróleo nas bolsas dos grandes centros financeiros. Taí, olha só! Outra forma de gerar valor do nada, o mercado financeiro. Lá, papel vale mais que ouro, do que petróleo, soja, arroz, algodão, vale mais do que qualquer coisa. Até dívida, num bom papel, se vende lá.

O estado da arte na geração de valor, atualmente, é vender pensamento. Embarcado num bom hardware, pensamento vale bilhões. Tanto que já tem papel circulando num mercado financeiro só pra pensamento.

É MUITA ABSTRAÇÃO


As máquinas do passado tinham um "pensamento" só. Estava no projeto e dava uma utilidade específica a cada máquina. Com a tecnologia da informação isso acabou. Num mesmo hardware cada pensamento dá uma utilidade diferente à mesma máquina. Gera um valor, de fato. O problema é que essa mágica gera também uma perturbação perigosa naquele lado patológico da ambição humana. Eles criam um papel em cima disso e saem por aí, permutando fortunas por possibilidades de lucro. Como foi, para alguns, no malfadado final da "bolha pontocom", no início da década passada. Negócios da Internet viraram uma panaceia, que enriqueceu os espertos que entraram no começo e empobreceu os incautos que saíram no final.

Agora estão arrumando um outro nome para outra rodada de transações malucas. "Tech Momentum" é a pegada, escrita assim, em latim, talvez pra parecer alguma coisa sagrada, redentora. Já vem com um signo detonador de compulsões, o "momentum", que é para os "patos" não terem tempo de pensar, entrarem de cabeça. E ao pé do arco íris, no caldeirão de ouro, está a Internet móvel, os novos aplicativos para tablets e, principalmente, celulares.

APLICATIVOS X APLICAÇÕES


O que pode confundir os cidadãos normais é que muitos valores reais vão surgir e convencer. Você já pode usar cartão de crédito no seu celular para fazer pagamentos, novos aplicativos vão simplificar muito o trânsito, o acesso ao transporte de massas, as tarefas domésticas, a segurança da casa. Até o acompanhamento da sua saúde, o exame e controle das suas funções vitais, vão passar por celulares, reduzindo drasticamente o tempo despendido em filas e em deslocamentos. Mas tudo isso, tenha certeza, vai custar muito pouco. Serão aplicativos que você vai baixar pagando alguns dólares, que vão facilitar a sua vida, render muita economia.

O problema é quando o seu banco vier oferecer um fundo de investimento "tech momentum", lastreado em papéis dessas empresas. Ali estará o grande risco! É verdade que, no mercado financeiro, o conceito de risco é o mais exato, porque se considera os dois lados. Lá se compra e vende o risco de ficar rico. O que ninguém fala é que esse risco é bem menor do que o de ficar pobre. Se tem dúvida, o endereço para tirar a prova é insuspeito: a biblioteca da Bolsa de Nova York. Os dados das movimentações de "players" que atuam diretamente no pregão foram usados por cientistas, em várias épocas, para concluir que o saldo da maioria fica no vermelho. Estão mais para jogadores compulsivos do que para investidores calculistas. Só se dá bem quem consegue sair na hora certa, mesmo que seja com pouco.

Essa perigosa combinação de "pensamento que agrega valor muito rápido" com a compulsão pelo risco, ainda vai fazer muita história nesse mundo. O importante é você decidir se quer apenas ter uma vida mais prática, utilizando os melhores aplicativos, ou se quer arriscar ficar rico, através das grandes aplicações no mercado financeiro.

sexta-feira, 20 de março de 2015

TECNOLOGIA EFICIENTE É AQUELA QUE DÁ BONS NEGÓCIOS


O que acontece quando o modelo de negócio de TV mais rentável do mundo começa a crescer no país que tem uma das melhores programações de TV aberta do mundo? A resposta a essa pergunta só pode ser dada no Brasil. A TV por assinatura, via satélite ou a cabo, é o modelo de negócio mais rentável para emissoras, geradores de conteúdo e distribuidoras de sinal. Mas no Brasil, onde a TV por assinatura é um negócio relativamente recente, os canais abertos ainda são os mais assistidos, por causa da qualidade da programação. Somos o maior país do mundo onde a TV aberta lidera.

Os hábitos vão mudando e a TV por assinatura está vivendo uma segunda onda por aqui. Está crescendo de maneira sólida. Ao mesmo tempo, o sinal aberto de TV digital está expandindo e garantindo uma alta qualidade de som e imagem para qualquer aparelho que tenha uma antena simples. No centro dessa concorrência empresarial está o poder regulador, o governo, que tem arrecadado bilhões de reais com simples licenças de operação no setor.

Agora o governo está preparando a abertura de mais licenças para operadoras de TV por assinatura, que serão concorrentes das atuais como a NET e a Sky. Com as novas tecnologias chegando, estão tentando mudar algumas regras no chamado Regulamento do Serviço de Acesso Condicionado (SeAC). São as regras do jogo. A reunião sobre o assunto acaba de ser adiada mais uma vez. Quando o regulamento foi criado, a quantidade de emissoras locais era pequena. As empresas de TV por assinatura passaram a ser obrigadas a colocar todas as emissoras abertas locais na lista de canais para o assinante.

REGRAS E MAIS REGRAS


Atualmente, a quantidade de emissoras locais é muito maior. Algumas TVs educativas, com sinal aberto apenas para um município, querem fazer parte do line-up, a lista de canais dos assinantes. Até algumas afiliadas locais de grandes redes chegam a ficar fora dos canais por assinatura. A Anatel - Agência Nacional de Telecomunicações, que regula o setor, está propondo que os set-top boxes das TVs por assinatura passem a ter 2 tuners, que são os sintonizadores. Um traria os canais da lista do assinante e outro, o sinal de TV digital aberta, tudo numa mesma caixa. Mas as operadoras contestam. Dizem que já são milhões de assinantes pelo Brasil e que a troca de cada caixa teria custos impraticáveis.

Como meio termo, a Anatel fala na exigência da caixa com dois tuners só para os assinantes que estejam em localidades onde o line-up da assinatura já tenha disponível alguma emissora local. Por exemplo, se os assinantes da cidade de Campo Grande-MS tiverem disponível no line-up a emissora local da Rede Globo, terão que ter a caixa com 2 tuners. Ou a distribuidora de sinal deverá incluir todas as outras emissoras abertas da cidade no line-up dos assinantes.

Ainda assim, as TVs por assinatura acham que não seria possível. Afinal, são as cidades maiores que tem emissoras locais, e é justamente onde está a grande maioria dos assinantes.

DE GRAÇA É MELHOR


O impasse regulatório é consequência do choque entre os dois modelos de negócios: emissoras nacionais abertas, de grande sucesso e emissoras internacionais só para assinantes. Como combiná-los numa única fórmula? Fica mais difícil ainda de resolver porque a saga regulatória brasileira é fenomenal. Enquanto concessões públicas, canais de TV aberta ou fechada são cercados de regras, pode isso, não pode aquilo. E regras oficiais são sujeitas a injunções políticas, à pressões, que geraram também uma série de direitos aos radiodifusores - em grande parte, políticos com mandatos eletivos.

A transição tecnológica pode trazer a solução. Quando o sinal digital já estiver implantado na grande maioria das emissoras abertas, o carregamento de sinal aberto deixará de ser obrigatório. Mas, alguns setores da Anatel pensam diferente. Entendem que a obrigatoriedade continua para os distribuidores de sinal. O que cai é a obrigatoriedade de TVs abertas disponibilizarem gratuitamente a programação para as distribuidoras de sinal, como Net e Sky. Emissoras de grande audiência, como afiliadas da Rede Globo, vão poder cobrar para que suas programações apareçam no line-up das TVs por assinaturas. Com a qualidade do sinal digital, muitos assinantes podem desistir de pagar para assistir uma programação que chega com a mesma qualidade, de graça, pela velha e boa antena.

sexta-feira, 13 de março de 2015

QUEM TEM MEDO DO BRASIL 4D?


"-A novela é nesse botão aqui."
"-Nossa, que maravilha de imagem!!"
"-Mas isso não é nada. Tem muitas outras coisas aqui. Nesse outro botão você pode procurar vagas de emprego."
"-Não acredito, deixa ver. Olha, quantas opções! E dá pra procurar muito mais fácil."
"-Calma, tem mais,  vou apertar outro botão. Isso aí é um curso profissionalizante que você pode fazer pela TV. Tem vários pra escolher."
"-Cara, isso é muito prático! Imagina quanto tempo e passagem de ônibus eu já ganhei só nesses dois botões!"
"-Então anota aí: neste outro botão você marca consulta no postinho, neste aqui é pra reservar vaga na escola, dá também pra ver o boletim do seu filho, fazer consulta no banco, ......."

Esta é uma conversa que provavelmente se repetiu em boa parte dos cem domicílios que participaram do "Brasil 4D". O objeto em questão era o controle remoto. O aparelho de TV, daqueles antigos, tipo analógico e os moradores, beneficiários do programa Bolsa Família. A diferença é que em cada um desses aparelhos estava conectado um set-top box de alto desempenho, com uma implementação avançada do software Ginga.

Há um ano, um projeto-piloto está avaliando o desempenho do software Ginga - 100% brasileiro - junto a 100 famílias de Samambaia, no Distrito Federal. Elas sintonizam o sinal digital de TV aberta. Mas em 2013, um relatório do Banco Mundial divulgou resultados excepcionais do projeto-piloto Brasil 4D realizado em João Pessoa - PB. Dentre as conclusões categóricas, o modelo representaria uma economia de R$ 7 bilhões em 10 anos, no orçamento de 10 milhões de famílias atendidas. Imaginem a economia para o trânsito das cidades, para o atendimento de serviços públicos e até para o meio ambiente.

É BOM OU NÃO É?


O Projeto Brasil 4D, implementado pela estatal EBC - Empresa Brasileira de Comunicação, é um colecionador de prêmios de TV pelo mundo. Ele é baseado no uso do software Ginga para propiciar a máxima interatividade, utilizando a transmissão digital de TV. O Ginga já foi reconhecido internacionalmente como o melhor middleware para TV digital do mundo. Mas comercialmente, não se tornou um bom negócio.

É que em muito pouco tempo, as novas tecnologias para celulares e tablets fizeram surgir a "segunda tela". Vieram ainda as TVs da linha Smart. Então o brasileiro Ginga ficou esquecido. Tão esquecido como os milhões de brasileiros que não podem comprar TVs Smart e nem celulares de última geração ou tablets.

Então, para responder se o Ginga é bom, precisa saber quem está perguntando. Para aquela base do eleitorado, tão adulada pelos políticos em época de eleição, aqueles "que mais precisam", tenha certeza de que o Ginga é muito bom. Mas, para aqueles que compram todos os gadgets que aparecem nas lojas de tecnologia, o Ginga é dispensável. Mas atenção: por enquanto é dispensável!

SEDUZIU E ABANDONOU


O Projeto Brasil 4 D serviu para tirar a prova de quanto é eficiente o Ginga! Pra deixar o país inteiro com "água na boca". Se o mesmo set-top box do Brasil 4D fosse implantado em 10 milhões de lares, haveria uma grande audiência potencial para implantação de novos aplicativos. Bancos privados, consultórios, fast food, agências de viagens, poderiam investir em aplicativos muito práticos. Daí o Ginga ficaria interessante até para aqueles que tem TVs Smart e celulares de última geração. Afinal, a variedade de aplicativos disponíveis pelo sinal da TV digital aberta iria concorrer com os recursos das Smart TVs e celulares.

A única chance de ter a implementação avançada do software brasileiro em mais de 10 milhões de TVs, seria com o dinheiro das compensações pagas pelas operadores de celulares no ano passado no leilão da faixa de 700MHz. Elas pagaram as compensações para ficar com faixas de frequência utilizadas por parte das emissoras de TV. Existe um fundo de cerca de R$ 3,6 bilhões de reais, que poderia ser utilizado para colocar o Brasil 4D nos 14 milhões de domicílios atendidos pelo Bolsa Família. O resto, o mercado iria se encarregar.

Porém, na semana passada, fontes oficiais comentaram que o grupo que estuda a aplicação das compensações, decidiu que a interatividade do set-top box que o governo vai distribuir será "pontual", sem a possibilidade de utilização da maior parte das aplicações desenvolvidas para o projeto Brasil 4D.

Você pode estar pensando qual seria o motivo de jogar fora algo tão valoroso e brasileiro? A explicação pode estar na necessidade de redução de custo do set-top box, principalmente em virtude da escalada da valorização do dólar nos últimos meses. Mas será que a economia proporcionada em médio e longo prazo pelo Brasil 4D não justificaria ao Governo Federal o aporte de mais recursos para a compra de set-top boxes de alto desempenho com suporte ao Ginga avançado? Em época de corte de orçamento e ajuste fiscal, esta com certeza é uma equação difícil de responder.

sexta-feira, 6 de março de 2015

DEMOCRACIA E TV


Um canal de TV aberta que já está no ar, em breve vai ter a maior programação de todo o Brasil. Uma programação maior do que a de todas as grandes redes somadas, incluindo aí TV Globo, Band, SBT, Record. Trata-se da Rede Legislativa de TV que, ao final de 2014, já mantinha no ar as TVs de 33 câmaras municipais, além da TV Câmara Federal, TV Senado e as TVs de algumas assembleias legislativas estaduais.

A rede, que compartilha o espectro eletromagnético, permite também um compartilhamento orçamentário. Isso torna viável, para muitos municípios, a implantação da TV Câmara local, oferecendo ao morador da cidade a alternativa de assistir, pelo mesmo canal, também a TV da assembleia legislativa do estado e as TVs Câmara Federal e Senado. Como o Brasil tem mais de 5 mil municípios, dá pra imaginar o potencial de programação a ser gerada de cidade em cidade. Talvez o canal da Rede Legislativa de TV se torne o de maior programação do planeja, já que a China, que tem população e tecnologia de sobra pra passar na frente, não tem lá tanta democracia assim pra colocar no ar durante 24 horas por dia.

Pra quem acha que a audiência das casas legislativas brasileiras é pouca, o Deputado Beto Mansur, Secretário da Câmara Federal e empresário do setor na iniciativa privada, garante que a audiência é alta. Em tempos de efervescência política, a Rede Legislativa domina durante boa parte do dia.

COMPRIMINDO, CABE


O que torna viável a Rede Legislativa é a tecnologia de transmissão digital, a já famosa TV digital. Essa tecnologia permite "comprimir" o sinal e aproveitar muito mais o espectro eletromagnético.

O espectro, no caso, é uma forma de organizar as várias faixas de frequência que estão no ar. Pode parecer piada mas isso foi necessário quando as emissoras de rádio de grandes cidades americanas começaram a se multiplicar, há mais de 80 anos. O ouvinte não tinha como encontrar a emissora que queria. Daí resolveram organizar os sinais, passando para o governo esse controle da divisão em faixas e a distribuição de uma faixa para cada emissora.

Há décadas, a faixa de cada emissora de TV ocupa em torno de 6 megahertz (6 MHz) do espectro eletromagnético. Com a tecnologia de transmissão digital, numa faixa com esta mesma capacidade (6MHz) dá para transmitir até duas programações em HD, ou 8 programações em SD - que é o nível de qualidade máximo da TV analógica. No caso da Rede Legislativa eles decidiram dividir em 4 programações diferentes. Então, em cada cidade, o canal aberto pode ter programações diferentes nos subcanais 1, 2, 3 e 4. O subcanal 1 normalmente é da câmara municipal da cidade, o 2 da assembleia legislativa daquele estado, o 3 do Senado e o subcanal 4 da Câmara Federal. Mas isso pode ser trocado, de acordo com cada cidade.

COMPARTILHAR É O CAMINHO


A potência do sinal de uma emissora normalmente é suficiente para cobrir uma cidade. No caso das emissoras regionais comerciais, elas instalam as antenas repetidoras para levar o sinal até as cidades vizinhas.

Na Rede Legislativa, a câmara municipal de cada cidade já tem garantida uma faixa no espectro, no caso, um canal de 6MHz da TV aberta. A potência autorizada para a câmara municipal é suficiente para cobrir a cidade inteira. As TVs do Senado, da Câmara Federal e da Assembleia Legislativa só chegam pelo satélite. Para que qualquer aparelho de TV da cidade possa sintonizar essas programações, a emissora local, que é aberta, precisa repetir o que capta do satélite. Por isso, ela pode receber apoio orçamentário da Câmara Federal, do Senado e da assembleia estadual para manter o sinal no canal aberto.

Esse é um exemplo prático de que a tecnologia atual da TV brasileira permite uma otimização fantástica do espectro. O que torna um desperdício manter tanto espaço vazio no ar. A partir desse exemplo, o Governo Federal deveria pensar com mais carinho num pleito das emissoras comerciais, que prestaria um grande serviço aos cidadãos. As grandes redes querem disponibilizar, no espaço de geração 1-seg - para pequenas telas, como celulares e tablets - uma programação paralela, um pouco diferente.

Hoje as emissoras geram para o 1-seg a mesma programação que vai para o sinal HD. O problema é que, em pequenas telas, muitas imagens em HD não são apropriadas. Com uma programação a parte, o telespectador poderia ter um formato mais agradável para assistir pelo celular. Um esforço do governo para alterar a lei seria uma resposta democrática aos telespectadores brasileiros.