HÁ ALGO IRRESISTÍVEL NOS BITs. O QUE SERÁ?


Imagine aqueles caras geniais da Física numa mesa de bar. Então você chega e alguém da sua turma precisa te avisar discretamente sobre o QI dos convidados. Só pela conversa deles você não descobriria. Iria desconfiar que era uma trupe de palhaços ou que estavam bêbados demais. Tudo que falam é tão complicado que nem dá raiva, dá sono.

E pensar que todo esse papo de biruta, que só enrola mais a cada década, vai dar na coisa mais simples do mundo. Não é conto de mineiro, não. É, literalmente, a busca pela coisa mais simples do mundo. Essa coisa já foi o átomo, quase 500 anos a.C.. Na Grécia, claro. Disseram que, se dividisse infinitamente qualquer tipo de matéria, a menor fração a que se chegaria seria um átomo. “A” (negação, não) – “tomo” (fração, parcela), ou seja, indivisível. Milênios depois foram descobrindo que dividia, sim. Em prótons, nêutrons e elétrons. Seriam a base da receita para fazer qualquer tipo de matéria no mundo. Ihh, depois viram que tudo isso tem quarks, bósons, hádrons, ... agora estão encontrando mais um. Afinal, cadê a coisa mais simples do mundo!? A partícula elementar, aquilo de que todas as outras coisas foram feitas?

O que eles estão procurando é o bit do mundo real. Um coisa simples no último, a partir da qual se pode fazer qualquer outra coisa, por mais complexa que seja. É isso mesmo que estão fazendo no mundo virtual. Os bits estão construindo um mundo paralelo, completo. Um mundo onde vamos habitar por meio da realidade aumentada, tão logo popularizem algum desses “óculos” de RA. Entre aplicativos específicos foi desenvolvido o SuperWorld. Ele já mapeou o mundo inteiro, para que possamos interagir virtualmente, usando a interface apropriada. Aqui no Brasil, em Nova York ou numa fazenda leiteira da Nova Zelândia.

Vender terrenos na lua não é mais caso de polícia. Que tal uma casa em Marte? Kkkkk, que divertido! Mas também muito caro. A artista canadense Krista Kim e um arquiteto – de software para games – desenvolveram uma escultura de luz com as formas de uma casa, de frente para uma cordilheira “temperamental”, no planeta Marte. A Mars House, como foi chamada a obra, é um arquivo digital que, para ser fruída, precisa de algum computador para rodar e exibir numa tela. Nunca vai ser um espaço físico, nem em Marte e nem na Terra. Mas foi vendida por US$ 500 mil, cerca de R$ 2,75 milhões. Aí está o detalhe...

A casa foi negociada através de um NFT, um código criptografado que o mercado está começando a chamar de “contrato inteligente”. Ele atesta, acima de qualquer suspeita, que aquele é o arquivo original. Pode até surgir uma cópia em algum lugar, mas não terá o NFT. O NFT – non-fungible token, ou token não fungível é baseado na tecnologia blockchain, aquela criada originalmente para o bitcoin e que hoje é usada por uma série de outras criptomoedas. Para a Mars House funciona como uma escritura registrada do imóvel.

Engraçado como essa noção de exclusividade, de propriedade, exerce uma sensação de poder na mente humana. Na última segunda-feira Jack Dorsey, presidente do microblog Twitter, vendeu o primeiro tuíte da história pelo equivalente a US$ 2,9 milhões. No arquivo NFT tudo que pode ser encontrado é a frase "just setting up my twttr", o primeiro tuíte, publicado por Dorsey, em 21 de março de 2006, há exatos 15 anos e um dia do arremate. Quase duas semanas antes a Casa de Leilões Christie’s, a mais tradicional do mundo para obras de arte, marcou outro record. O NFT de uma criação do artista Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, foi arrematada por quase US$ 70 milhões. Em reais, pela cotação do dia, seria o equivalente a mais de R$ 382 milhões. De acordo com o portal UOL, além da nova marca em valor para arte digital, a audiência dos últimos momentos do leilão também bombou. Cerca de 22 milhões de pessoas ao vivo, pela Internet, assistiram à venda.

Plataformas tipo marketplace também são usadas para vendas desse tipo, para qualquer tipo de arquivo digital. Tudo negociado à base de criptomoedas, principalmente o Ethereum. Ricardo Cavallini, do site Tilt, citou outros exemplos de “artigos” digitais negociados por outras motivações, que não passam pelas artes. A Epic Games, do videogame Fortnite, em 2018 teria vendido US$ 2,4 bilhões em “roupas e apetrechos” para personagens do game. É o equivalente ao lucro anual do quinto maior banco brasileiro.
Outra vertente da arte digital que vem crescendo é a produzida por inteligência artificial. Difícil é saber quem é o autor. Por incrível que pareça, como todo grande negócio, os NFTs representam até uma ameaça ambiental. Os blockchains, onde eles são arquivados, são plataformas que consomem muita energia. Ironicamente, os bits que constroem essas obras astronomicamente caras no mundo virtual, dependem da energia desse nosso mundo real.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

COQUELUCHES DA TECNOLOGIA

O SILÊNCIO INOPORTUNO

QUEM VAI PAGAR PRA VER