VIDA DE ROBÔ NÃO ANDA NADA FÁCIL


Quem pensa que robôs existem há pouco tempo deveria procurar os arquivos mais remotos da TV brasileira. Em programas de auditório, vez por outra aparecia um robô. Duas pernas, dois braços, cabeça, tudo quadrado. E algumas luzes intermitentes. Costumava vir acompanhado de um jovem, que se apresentava como universitário, criador da engenhoca. Daí o apresentador do programa fazia algumas perguntas para o robô, corriam algumas piadinhas e no final, criador e criatura saíam do palco sob aplausos. No fundo, o público desconfiava que tinha alguém lá dentro. Com ou sem, o certo é que aquilo tudo não servia para nada.

De alguma forma robô sempre remeteu a algo dotado de alguma “inteligência” artificial. Tanto que, nos dias atuais, a maioria dos robôs são softwares, mudaram até de nome: bots. Robôs mesmo ficaram apenas aquelas máquinas eletromecânicas, comuns nas montadoras de automóveis. “Pensam” menos, trabalham muito e não têm qualquer característica androide.

É nessa capacidade de “pensar” que mais se investe hoje em dia na robótica. Mas isso está cada vez mais complicado. Não investir, está complicado pensar. Nas últimas décadas surgiu um certo “algoritmo” – entendendo por algoritmo um conjunto de regras – que interfere muito no comportamento humano em sociedade. É o “politicamente correto”. Seja lá quem inventou isso, tinha boas intenções. Possivelmente pretendia estabelecer um consenso sobre alguns avanços civilizatórios que a humanidade já alcançou. A partir daí as pessoas enfatizariam a importância de incluir esses avanços no comportamento cotidiano.

A coisa não ficou assim. Houve quem entendesse como sendo regras sumárias, com certo poder judicante. E que essas regras poderiam ser enunciadas por qualquer pessoa cheia de boas intenções. Daí o ódio de muita gente contra qualquer coisa que se refira ao politicamente correto. Como os bots estão vocacionados a atender pessoas, estão se deparando com uma infinidade de regras instáveis de convivência. A boa notícia é que, se providências de manutenção desses programas forem tomadas rapidamente, o politicamente correto – aquele honesto, dos consensos – tende a ajudar bastante.

A página Tilt/UOL divulgou nesta semana um estudo da ONG Transparência Brasil sobre o uso da inteligência artificial em órgãos públicos. E concluiu que 64% dos programas catalogados interferem em decisões ou até decidem de forma autônoma. Decisões que seriam de competência exclusiva de humanos. Quando é simplesmente para mandar notificar uma das partes em um processo judicial, tudo bem. Mas as tarefas são muitas. E, em geral, os bots são amigos íntimos de bancos de dados. Quase não existe segredo entre eles. É quando informações sensíveis de pessoas ou instituições são lançadas em documentos de livre consulta. Um exemplo citado no estudo é o bot da Polícia Federal que rastreia sites de pornografia infantil. Tudo que ele localiza é remetido para muito mais pessoas do que a lei permite. A privacidade de crianças e adolescentes, principalmente nesses casos, precisa ser preservada ao máximo.

Esses sistemas vão ter que ser orientados com base em razões muito subjetivas, impossíveis de serem alcançadas por inferência. A simples referência à cor da pele, em alguns casos, gerou distorções sem qualquer fundamento. Essas questões precisam ser analisadas permanentemente, de forma muito cuidadosa. Sem contar que, em vários casos, não vai ser possível aceitar que decisões aparentemente simples, passem a ser tomadas por um robô. Situações muito especiais, que só um humano será capaz de perceber, vão exigir que todas as decisões sejam antes analisadas por gente.

Por enquanto, nada disso chegar a provocar uma grande preocupação. Então que se ocupem, o quanto antes, de atuar para solucionar esses problemas. Afinal, a presença dos bots em nossas vidas é inexorável. Basta olhar alguns resultados práticos. Também nesta semana a Vivo divulgou economia de R$ 1,5 bilhão, em três anos, só com a digitalização do atendimento ao cliente. Em se tratando de operadoras de telefonia, aqui no Brasil, não surpreende o fato de que esse atendimento, que já não era bom, perdeu mais ainda em qualidade. Mas quem sabe, se as empresas se contentassem em economizar “apenas” metade disso, a qualidade do atendimento não teria sido tão comprometida. É mais uma questão onde o politicamente correto, de raiz, deveria ser considerado.

Avanços tecnológicos trazem benefícios múltiplos. No entanto, nenhum deles, deve estar acima dos interesses do humano. Por mais que a economia das empresas seja, em parte, repassada para o usuário, o conceito de progresso deve ter por base a mais ampla satisfação das pessoas.

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