sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

MWC 2018 E O OUTRO LADO DOS SMARTPHONES



Não se sabe se foi o sargento Garcia, o Recruta Zero, o Homer Simpson ou alguém mais trapalhão que teria assumido a segurança das grandes fabricantes de celulares. O fato é que só se fala em grandes “vazamentos” de detalhes dos novos modelos de smartphones a serem lançados na semana que vem, durante o MWC 2018, o Mobile World Congress, em Barcelona – Espanha. Segredos da Samsung, Sony, Motorola, LG, Nokia, dentre outras, teriam fugido do controle dessas ingênuas companhias, aguçando os maníacos do mercado.

O uso coincidente da provável estratégia de marketing – anunciar “vazamentos” para despertar curiosidade – já dá uma ideia da carência de novidades a serem apresentadas. Mas se o MWC 2018 está menos para Disneylândia, cresceu mais uma vez enquanto evento técnico de ponta. É o momento máximo anual para se saber em que direção apontam os circuitos nanoscópicos do segmento mobile. Se não vão embaçar as vitrines de tantos suspiros, com certeza estão viabilizando soluções gigantescas na vida cotidiana.

Os celulares, que já foram telefones, hoje estão mais para computadores. A integração de sistemas mobile não escolhe mais lugar. Está crescendo como ferramenta, a exemplo do que foram os desktops nos anos 90. Você achou curioso quando viu, pela primeira vez, um PC no consultório do seu médico. E achou que o mundo tinha se transformado por completo quando viu outro na padaria. Agora você não vai ver mais celulares aparecendo aqui ou acolá, mas vai ver coisas cada vez mais incríveis acontecendo na tela do seu.

Um caso apontado neste blog como “possibilidade” no ano passado, acabou acontecendo mais cedo do que se previa. A Land Hover, aquela mesma, fabricante inglesa de carros de luxo, agora é também uma marca de celular. Vai levar ao MWC 2018 o Land Hover Explore, um smartphone desenvolvido em parceria com o Bullitt Group. Trata-se de um verdadeiro “ogro”, à prova d’água, doce ou salgada, resistente a quedas. A tela full HD pode ser visualizada mesmo sob intensa luz solar e aceita toques de dedos sujos de lama ou até mesmo cobertos com luvas. Chuva, neve, barro, variações bruscas de temperatura, nada disso deve influir no desempenho do robusto celular. Com certeza, a integração celular/carro deve crescer muito a partir dos próximos meses.

O QUE HÁ DE SMART NOS NOVOS SMARTPHONES


Ah, sim, as câmeras! Serão as principais novidades expostas nos estandes. Brinquedos audiovisuais cada vez mais curiosos. Para os Galaxy S9 e S9 plus, da vedete máxima Samsung, o slogan é “a câmera reimaginada”. Dentre outras novidades, apresenta sensores que permitem boas fotos em ambientes com muito pouca luz.

A Sony, que é câmera desde muito antes de ser celular, vai lançar os smartphones Xperia XZ2 e XZ2 Compact num formato curvado. A fabricante japonesa aposta no aspecto 18:9 para suas telas, mais largo do que o 16:9 do full HD. Para ela, que tem longa tradição na produção de câmeras profissionais para emissoras de TV e produtoras de vídeo, esse novo formato pode render outro negócio bilionário. A tela mais larga tem tudo para cair na preferência popular. O que motivaria lançamentos também de TVs no novo formato e obrigaria a troca de câmeras das emissoras para modelos compatíveis. No mais, o XZ2 deve ter um recurso de música associado ao mecanismo de vibração, um semi segredo a ser esclarecido nos próximos dias, durante o evento.

Outros modelos, como o G6 da Motorola e o Nokia 8 Pro, também chegam com tela de aspecto 18:9. Esse último, que seria o lançamento de ponta da marca – que já foi uma das maiores do mercado – deve vir com lentes giratórias, com zoom que se adapta automaticamente à necessidade do usuário. Mesmo a LG, que abriu mão de lançar mais um modelo de ponta, está repaginando os intermediários K8 e K10, com software de câmera capaz de escolher o melhor frame para cada foto e que propicia melhor definição de cores.

O marketing da Apple, que há tempo aposta na soberba de marca lendária, está fazendo de conta que o MWC 2018 nem vai acontecer. Só fala no lançamento de um celular simples para meados deste ano. A chinesa Huawei fez parecido. Quer lançar seu smartphone de ponta no mês que vem, num evento em Paris. Para o MWC vai levar o Watch 3, um modelo de pulso, no estilo relógio. O sistema seria capaz de projetar nas costas da mão ou no braço uma área sensível, que funciona como uma extensão de algumas funções da tela. Sobre ela, o usuário pode usar o dedo da outra mão para acessar aplicativos.

Na escalada do glamour que (ainda) envolve o lançamento de celulares, a Apple vai perder pelo menos uma posição. O smartphone mais caro deve passar a ser o Galaxy S9 plus. Embora o preço ainda não tenha sido divulgado, aposta-se entre US$ 997,00 e US$ 1.250,00. Se é que isso tem alguma importância para você...

QUEM VÊ CARA, NÃO VÊ CORAÇÃO


Em 2017, pela primeira vez desde 2004, a venda de celulares no mundo não registrou aumento. A queda foi de 5,6%. Possivelmente, trata-se de um sinal de que o gadget mais célebre do mundo está, mais uma vez, mudando de identidade. Começou como telefone, passou para equipamento audiovisual, depois computador de mão e agora se prepara para tornar-se uma ferramenta mais séria, quase indispensável para o futuro breve.

A integração com o carro já é uma realidade e só tende a aumentar. Com o avanço do IoT o celular também vai assumir um papel importante. E além das aplicações para saúde, segurança e muitas outras, o aparelho deve consolidar o potencial de plataforma audiovisual interativa. As funcionalidades tendem ao infinito, quando associado a sistemas cloud.

O grande diferencial na composição dessas duas tecnologias está na qualidade do aplicativo. Ele pode permitir um total controle de exibições e interações, em circuitos abertos ou fechados, submetendo variáveis de tempo e espaço ao comando do usuário, em qualquer uma das pontas: exibidor ou cliente. As perspectivas de monetização aumentam geometricamente. E sem exigir altos investimentos. Palestrantes, profissionais especializados, produtores de cursos on-line, igrejas, departamentos de recursos humanos, profissionais de saúde e muitos outros, já descobriram esse potencial.

O EiTV Play, aplicativo para sistemas móveis da EiTV, lotou a agenda de reuniões da empresa durante o MWC 2018. Em poucos anos já está presente em muitos empreendimentos no Brasil e no Exterior, sempre aprimorando as funcionalidades, de acordo com o que aparece de novidade nas tecnologias mobile e cloud. Com os novos cenários tecnológicos que se aproximam, o uso do aplicativo só tende a aumentar. A grande vantagem é que, neste caso, o glamour está na drástica redução de custos, não no maior preço.

Esta é a face da tecnologia mobile que só aumenta a importância de um evento como o MWC. Pois, independentemente do quão impressionantes possam ser as ferramentas agregadas, a integração do celular às mais diversas soluções vai crescer muito mais por conta da capacidade de processamento e da inteligência na programação do sistema.
x

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

GOVERNOS E AS AMEAÇAS À SEGURANÇA NACIONAL



“Ele pode estar lá! Toda atenção é pouca.” “Onde você menos espera, está o risco.” “Procure nos vasos de plantas.”
Quase imperceptível, muito traiçoeiro, um mosquito, um pernilongo ou mutuca, é a grande ameaça ao povo brasileiro. Estamos em campanha há décadas, mas ainda não conseguimos superar esse mal, que supera a si mesmo na acumulação de novos vírus, novas doenças.
Os governos que entram e saem não conseguem dar novos rumos ao combate. O que lhes resta é apelar à população, repetindo campanhas que não trazem nada de novo.
Agora imagine um apelo de segurança apresentado conjuntamente pelo FBI, CIA, NSA e pelo Diretor de Inteligência Nacional dos Estados Unidos. Qual seria a causa capaz de exigir a manifestação conjunta de instituições tão poderosas? Seria uma bomba atômica nas mãos de terroristas em solo americano? Não, é a venda crescente de celulares chineses.
No último mês de setembro a marca Huawei vendeu mais celulares no mundo do que a Apple, perdendo apenas para a líder Samsung. A também chinesa ZTE é a outra companhia que os guardiães da galáxia estadunidense colocam abertamente como suspeita.
As empresas ainda produzem sistemas para infraestrutura de telecomunicações. De acordo com o site IDG Now, o Diretor do FBI, Chris Wray, disse que o governo não quer empresas ligadas a governos estrangeiros atuando no setor, dentro de suas fronteiras. A Huawei, por exemplo, desde 2014 está proibida de participar de compras públicas por lá. No ano passado ela quase lançou o modelo Mate 10 Pro em parceria com a operadora americana AT&T, mas as pressões políticas teriam inviabilizado o acordo.
Na última terça-feira, durante audiência do Comitê de Inteligência do Senado Americano, houve a recomendação explícita para que os cidadãos evitem usar produtos ou serviços dessas duas companhias chinesas.

ENTÃO É VERDADE, ISSO PODE MESMO ACONTECER? 

Aqui nesses trópicos, onde estamos “em desenvolvimento” há quase 50 anos, o discurso que chega é outro. Cuidados estratégicos em relação à tecnologia estrangeira são “meras teorias conspiratórias”, quando não “histeria de militares neuróticos”. Enquanto clientes, nós teremos “absoluto controle” sobre tudo o que vai e vem por esses sistemas.
O Diretor Chris Wray, do FBI, não pensa bem assim. Ele afirma que empresas que atuam na infraestrutura de telecomunicações podem alcançar a capacidade de “realizar espionagem não detectada”, ou “modificar e roubar informações maliciosamente".
Huawei teria contra si própria até a presença de seu fundador, um ex-engenheiro do Exército Popular de Libertação da China, o que dá à marca, aos olhos de vários políticos americanos, o status de "braço do governo chinês". A desconfiança é tal que estaria sendo encaminhado um projeto de lei dentro do congresso americano, que proíbe funcionários públicos federais de usarem celulares das duas marcas chinesas.
Situações desse tipo colocam em cheque a hipocrisia globalista, segundo a qual precisamos apenas considerar as vantagens de ter alta tecnologia, ao menor preço possível, disponível para os consumidores locais. Esse tipo de pensamento só vale em relação às nações “café com leite”, aquelas cuja presença no jogo geopolítico pouco preocupa.
O mantra da globalização até já foi mais convincente, por exemplo, quando informática estava para os chineses, mais ou menos como o mandarim está para os americanos. Mas agora é diferente. Se falhas do tipo Spectre e Meltdown demoraram tanto tempo para serem, digamos, percebidas pelo Google, quem garante que os processadores chineses também não têm “lapsos” tão oportunos? Ou ainda, será que os chineses já tinham descoberto essas portas na tecnologia Intel e estariam fazendo uso delas? É difícil saber. 
Mais difícil, a cada dia, está ficando o saber. A Sociedade do Conhecimento avança numa velocidade capaz de colocar de joelhos até as poderosas estruturas de estado. Há cerca de 2 anos, quando a Apple se recusou a quebrar o sigilo do celular de um cliente investigado pelo FBI, soou um alerta que o próprio governo americano desconhecia o tom. Ao contrário da indústria armamentista, muitos outros setores do mundo high tech pouco dependem de governos como clientes. São empresas estabelecidas mundialmente, que dizem “não” às autoridades parisienses, como o Uber, dão de ombros aos magistrados brasileiros, como o WhatsApp e que manipulam livremente dados pessoais de cidadãos do mundo todo, como FacebookGoogle e tantas outras. Quem sabe mais, manda mais. 

AFINAL, SABER O QUÊ?

Se o saber está se tornando a chave do poder, acima de qualquer estrutura, qual seriam os tipos de conhecimentos mais importantes? As pistas mais recentes indicam que seriam as Ciências Humanas, como gestão de pessoas, marketing, entretenimento.
Pelo menos é o que pode-se depreender de recentes comentários do americano Michio Kaku, reconhecido como um dos maiores físicos teóricos da atualidade. O nome e o fenótipo indicam que ele tem ascendência asiática, mas é nascido em San Jose, na Califórnia.
De acordo com Kaku o sistema de ensino americano é comparável ao de qualquer país de Terceiro Mundo. Isso nos dá a forte impressão de que ele não conhece o Brasil. Ou, de que nós não sabemos nada sobre o ensino básico nos Estados Unidos. Convém levar em conta o que o popular Professor Kaku, que tem 3 programas no Discovery Channel, está falando com veemência. Ele não escolhe outras palavras para tratar da questão, quando anuncia uma “geração de burros” que está saindo das escolas americanas.
De forma irônica, Kaku faz referência a uma “arma secreta” que estaria sustentando o sucesso tecnológico por lá. Chama-se “H1B”, e explica que esse é o código do visto para estrangeiros que chegam para fazer mestrado ou doutorado nas grandes universidades americanas. Sem isso, ele garante, a ciência pode entrar em colapso nos Estados Unidos.
O Prof. Kaku não fala nas ciências humanas, ao contrário, acha que é necessário mais físicos e engenheiros americanos. Mas ele se espanta ao perceber que seu país tem “o imã que suga todos os cérebros do mundo”. É daí que se obtém a licença para concluir que o conhecimento americano sobre marketing, relações públicas e, principalmente, sobre gestão, está entre os saberes que fazem o grande diferencial.
A ideia não é lançar aqui uma campanha de desenvolvimento da simpatia nacional. Mas atentar para detalhes capazes de destruir esforços que custam milhões em reais e muitos anos de dedicação. São vários os casos de cientistas brasileiros respeitados no Exterior, que produzem em grandes centros de pesquisas internacionais, mas não conseguem trabalhar por aqui.
Quem sabe, se a sociedade brasileira estivesse acostumada a menos mi mi mi, intrigas e melindres, algum dia possamos contribuir mais com a ciência. Afinal, o saber de que o mundo tanto necessita, cada vez mais deixa de ser domínio de um povo, para surgir de um arranjo de culturas, baseado no respeito e na tolerância.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

QUANTO CUSTA A CONFIANÇA



Dois garotos, duas certezas:
“-Quanto você quer apostar!?”, desafiou um deles.
“-R$ 10,00. Tenho certeza de que eu estou certo. Lelo, vem cá, corta aqui.”
Ninguém lá tinha mais de 12 anos. Os dois contendores de mãos dadas e o Lelo, que cortou a aposta, para ser a testemunha do que acabara de ser apostado.
Sempre foi assim. Atendentes de cartório devem distribuir diariamente mais autógrafos, como testemunhas em contratos, do que o Neymar Jr. como ídolo do futebol. As incertezas dos humanos quanto aos outros humanos são muitas, alguém tem que tomar conta, ver e confirmar tudo, quem estava lá, o que disse, o que ouviu. Até no casamento. E mesmo assim os tribunais estão atolados em mal-entendidos, interpretações, “mais ou menos”, “quase isso”, ...
Os custos dessas incertezas, em todos os níveis, são astronômicos. Para a simples compensação de um cheque, depois de conferir todos os dados e valores, é necessária a assinatura de um gerente, como garantia. É a chamada “terceira parte”, mais ou menos o papel do Lelo, quando “cortou” a aposta entre seus dois amiguinhos. São muitos sistemas de controle, protocolos, procedimentos encadeados, muitas vezes com arquivos filmados.
Ainda bem que, num belo dia, alguém – que pode ser uma pessoa ou um grupo de pessoas – resolveu inventar um banco central descentralizado. É exatamente a plataforma aberta denominada blockchain, criada para movimentar bitcoins. A plataforma, de código aberto, surgiu para ser uma espécie de câmara de compensação de bitcoins, portanto, totalmente virtual. Mas, principalmente, precisaria ser mais segura do que os bancos reais.
Se esses objetivos de eficiência e segurança fossem alcançados, a moeda virtual poderia circular independentemente de bancos centrais nacionais, com total autonomia diante de governos. Inclusive, independência em relação ao sistema financeiro internacional. Depois de quase 10 anos de existência, o bitcoin ainda procura se firmar como uma autêntica reserva de valor. Mas a plataforma blockchain já comprovou a eficiência e segurança.
Tanto que o tradicional sistema financeiro internacional está lançando mão da plataforma blockchain para aumentar enormemente a própria eficiência e reduzir muito os custos de operações em geral. No Brasil, o banco Itaú anunciou na semana passada que está implantando o sistema para negociações com bancos parceiros, na troca de garantias com base em derivativos.

DESCENTRALIZAÇÃO, TRANSPARÊNCIA, RASTREABILIDADE

A eficiência e a segurança blockchain surgiram em função das características dessa estrutura de dados. Começa que a base desses dados é totalmente descentralizada. É uma rede do tipo P2P, onde cada usuário que baixa a implementação da plataforma se torna um nó daquela rede.
Ao dar entrada numa transação o sistema executa alguns algoritmos para que os dados e registros sejam arquivados num bloco. Esse bloco é assinado eletronicamente, ou seja, recebe um hash, é criptografado. O hash é ligado ao bloco anterior, contém um número sequencial e o número do próximo bloco, que é gerado automaticamente, quando o bloco da transação é concluído. Datas e horários também fazem parte desses registros. Tudo isso é compartilhado com todos os nós da rede P2P, descentralizando totalmente a base de dados.
bitcoin, por exemplo, foi a primeira implementação na plataforma blockchain. Cada negociação, de cada bitcoin, está registrada numa sequencia de blocos que formam uma determinada cadeia. Os algoritmos executados a cada negociação começam por conferir todos os dados daquela cadeia de blocos daquele bitcoin, desde sua origem. O sistema verifica se existe um “consenso” sobre os dados, comparando com os registros de todos os nós da rede, para que então seja permitida a nova negociação.
É isso que torna praticamente impossível corromper um bloco de uma cadeia (blockchain). Porque seria necessário que toda a cadeia fosse corrompida, em todos os nós da rede, ao mesmo tempo. Como isso é praticamente impossível, todos esses dados podem ser apresentados publicamente, dando total transparência e rastreabilidade ao sistema.
Com base nesse sistema já surgiu o que se chama de blockchain 2.0, uma evolução que permite novas aplicações. Dentre elas, a criação de organizações autônomas descentralizadas (DAO), que seriam empresas virtuais, baseadas num conjunto de regras, descritas num “contrato inteligente”.
Uma das aplicações mais evidentes é nos sistemas de logística. A IBM está investindo pesadamente nessa área. O setor bancário já tem vários grupos reunidos para desenvolvimento de sistemas baseados em blockchain, contando inclusive com a participação de startups dedicadas a essa plataforma. Especialistas fazem projeções surpreendentes sobre o futuro dessa tecnologia.

UMA NOVA INTERNET

Na semana passada, durante a Campus Party, um nome lendário ligado à Internet falou com bastante entusiasmo sobre blockchain. O canadense Don Tapscott, numa das conferências do evento, afirmou que essa nova tecnologia nos traz a Internet do Valor, algo além da Internet da Informação, essa tradicional que tanto conhecemos.
Para ele o blockchain, ao trazer esse nível de confiança para operações feitas via Internet, permite que tudo que tenha valor e um dono possa ser negociado na rede. Ele vê na tecnologia blockchain um horizonte mais promissor do que qualquer outra tecnologia do momento, como Internet das Coisas, Inteligência Artificial, Robótica. Pois, enquanto “protocolo de confiança”, permite que todas as outras tecnologias sejam negociáveis pela rede, dando maiores possibilidades econômicas a elas.
Ele aponta ainda as perspectivas para as companhias virtuais, baseadas na confiabilidade dos dados para que decisões sejam tomadas autonomamente, com segurança. Isso dará à pequenas empresas a agilidade e abrangência de grandes empresas. Destacou também a importância que esses sistemas terão na gestão pública, uma vez que permitem total transparência dos dados e procedimentos, tudo em tempo real.
Por enquanto os bancos começam a contar quantos tipos de operações podem migrar para sistemas blockchain. Com a perspectiva de evolução desses sistemas, será que chegaremos a bancos totalmente virtuais? De fato, muito da importância das instituições financeiras está no papel de “terceira parte”. Na produção de registros e segurança destes. Seus insumos e produtos são quase que totalmente expressos em números, entes preferenciais no universo digital. Para quem entende que os bancos representam uma economia especulativa, que se contrapõe à economia produtiva, o blockchain pode surgir como uma grande solução.
Os idealizadores dessa tecnologia a desenvolveram para dar sustentação às moedas virtuais, que teriam a autonomia necessária para se desligarem dos vícios financistas. Mas, o que parecia impossível para o bitcoin atingir, pode estar mais ao alcance do seu sistema nativo. O Lelo até pode continuar cortando as apostas, mas os bancos talvez se vejam na necessidade de mostrar maior importância nos serviços que prestam à sociedade.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

ISSO NÃO É DA SUA CONTA


Vizinha fofoqueira é um personagem garantido quando se tenta caracterizar um bairro, um ambiente social. Pelo menos nas séries de TV, desde os anos 60, nunca se esqueceram delas quando baseadas em estórias do cotidiano.
A Clips, câmera que o Google colocou à venda no último final de semana nos Estados Unidos, é quase a versão high tech do personagem tão inconveniente. Ela tem o tamanho aproximado de duas caixas de fósforos e é dotada de inteligência artificial – possivelmente comparável à inteligência de quem se dedica a bisbilhotar a vida alheia – para começar a colher imagens automaticamente.
A inteligência artificial, segundo o fabricante, vai identificar “momentos genuínos” do seu dia a dia. Ela identifica rostos e caras – de animais, no caso – e, ao longo do tempo vai “entendendo” quem é mais importante para você e como esses personagens se comportam mais comumente. Com base nesses dados a Google Clips vai estabelecer os “momentos genuínos” para disparar sozinha as próprias gravações. Normalmente, são vídeos de 7 segundos.
Com certeza esses recursos vão ajudar a obter momentos muito especiais do seu bebê, ou seu pet, e outras situações que, até então, dependiam de muita sorte e presença de espírito para serem registradas. Mas deve melhorar também a sorte de “arapongas” ocupados em investigar a intimidade dos outros. É só receberem a câmera do eventual interessado, com a memória suficientemente abastecida de dados a respeito da vítima a ser invadida. A criatividade típica dos fofoqueiros deve prever muitas outras formas de uso para um gadget desses.
Não se trata de acusação. Mas será que essa ideia surgiu numa inspiração mais do lado de quem quer imagens surpreendentes do bebê, ou do outro lado do muro, da vizinha fofoqueira? Durante todo o desenvolvimento do aparelho, quantas vezes essas questões estiveram presentes?
Em tempos de ultra exposição em redes sociais, fotos e vídeos instantâneos, parece que a indústria cibernética está descobrindo a fofoca como mais um grande negócio.
Esse é o lado divertido do desenvolvimento desses brinquedos. Mas é bem provável que essas criações sejam apenas novos arranjos de tecnologias utilizadas em situações nada divertidas.

ISSO VAI MUDAR A SUA CONTA... NA REDE SOCIAL

Há quase 30 anos um consultor, encarregado de reestruturar toda a comunicação interna em uma planta industrial de grande porte, surpreendeu a equipe de apoio que o acompanhava na visita ao chão de fábrica. Ele olhou os quadros de avisos, os cartazes, mas também teve o interesse em conhecer cada um dos banheiros do pessoal da produção. Ele queria saber o que as pessoas que trabalhavam ali queriam dizer aos outros quando se sentiam na intimidade daquele espaço sanitário. Estava nos desenhos, nas frases escritas na tampa das privadas, nas portas e paredes.
Já houve outras mídias populares que carregavam algumas mensagens interessantes, como os para-choques de caminhões. Menos anônimos, o que costuma ajudar na qualidade do que é apresentado. Os corações e as juras de amor aparecem cada vez menos nos espaços populares, o povo manifesta mais interesse em protestar raivosamente.
Que o diga a TV Globo! Resolveu abrir um espaço na programação para levar ao ar os protestos de brasileiros de cada cidade do país. Quinze segundos para dizer “que Brasil eu quero para o futuro”. Sim, é uma clara incitação ao protesto. Porém, ao pedir que os brasileiros caracterizassem ao fundo da gravação a cidade onde moram, muitos protestos se voltaram contra a emissora, que estaria “interessada em mostrar o lado bonitinho das coisas”. Não se fala no quanto a caracterização do local ajuda na repercussão do protesto. Enfim...
Tudo isso deveria começar a se disciplinar com o surgimento das redes sociais. Tinham tudo para ser o local ideal para todas essas manifestações. Mas inventaram os perfis falsos. Mais do que isso, inventaram doutores, beneméritos e outros fidalgos que postam mensagens pedindo para que repassem. E lá se vão recomendações absurdas e perigosas, como tratar queimaduras com farinha de trigo. Apelos baseados em fotos chocantes, pedindo para ajudar no tratamento de uma criança enferma. Como? Simplesmente repassando. Um conjunto de armadilhas e bobagens, que cheiram bem pior do que os banheiros mais sujos das fábricas.
Por isso o Facebook está lançando uma campanha. Começou na segunda-feira da semana passada, apresentando os seus “Princípios de Privacidade”. E deve continuar com a publicação de uma série de vídeos no feed de notícias dos usuários. Prevê ainda a criação de um Centro Global de Configurações de Privacidade, cuja primeira missão será criar um único local para que cada um possa definir claramente onde e quais dados pessoais podem ser usados.
Não por acaso o anúncio desse Centro foi feito num evento em Bruxelas. A partir de abril começa a valer, nos 28 países da União Europeia o GDPR, um regulamento de proteção de dados. É o primeiro tão abrangente no mundo e deve ser um novo marco na Internet.

TODOS PAGAMOS A CONTA

No fundo dessa questão pode estar a surpreendente capacidade de ataque que um ser humano tem, quando dispõe de instrumentos para tal. A Internet, a rede social, a tampa da privada, são apenas alguns desses instrumentos. Mas podem ser também caminhões, carros, bombas. E então uma única pessoa pode se tornar uma ameaça para a segurança de uma nação.
Haverá os que fazem em protesto, os que apenas querem se divertir, os que queriam brincar mas erraram ao medir as consequências. O jeito é se proteger o máximo possível de todos eles. Uma verdadeira guerra, que passa a ser a “situação nada divertida” onde possivelmente surgiram tecnologias para invadir privacidades. Pois é na privacidade de um único homem que pode estar uma grande ameaça.
A história mostra que a guerra se tornou um grande propulsor do progresso tecnológico. Foi dela que surgiu, por exemplo, o protetor solar. E até a própria Internet. Por que não as câmeras inteligentes?
A privacidade, enquanto valor pessoal, está perdendo para a segurança, enquanto valor social. Como todo ser humano é social e indivíduo, trata-se de escolher o que aceitaremos perder.
Tudo indica que a tecnologia deve trazer, cada vez mais rapidamente, instrumentos muito úteis para todos. Ao mesmo tempo, essa utilidade toda pode ter aplicações nefastas, quando mal utilizada. Você vai precisar pensar “que mundo eu quero para o futuro”. Afinal, o poder de transformarmos para melhor, ou para pior, vai crescer para todos.