sexta-feira, 31 de março de 2017

QUANTO VALE UMA BOA CONVERSA


“-Meu Deus, essa coisa fala!” A frase marca historicamente a estupefação imperial, quando D. Pedro II falou pela primeira vez ao telefone. Falar, se comunicar, a ação mais básica da sociedade humana estava ganhando dimensões globais. No caso do telefone, o plus era a privacidade, os conteúdos tinham interesse restrito.
O telefone chegou a ser utilizado para a divulgação de conteúdos de interesse geral. No Brasil veio antes da chatice do telemarketing. Surgiu um número para a hora certa oficial, depois da previsão do tempo, condições de estradas e até entretenimento, como piadas do Ary Toledo. Um disque sexo trazia gravações com vozes femininas em clímax de prazer. Houve até um número multiusuário, para conversar simultaneamente com todos ligados naquele número. Se ainda existem ou não, são sinais de que o humano explora cada nova possibilidade de comunicação para amplia-la, nunca a usa apenas para melhorar o que já fazia.
C-o-n-t-e-ú-d-o. Esta é a palavra. Para falar, para ver, para arrepiar os cabelos de toda a descendência real e muito mais. Parece óbvio, mas não era. No começo deste mês John Stankey, CEO da AT&T Entertainment (palavra difícil de se ver ao lado da poderosa sigla AT&T) afirmou que "por muitos anos medimos a qualidade dos nossos serviços pela velocidade de instalação, número de chamadas interrompidas, mas esses indicadores não dizem nada.” Ele estava falando da importância do conteúdo.
A AT&T, uma das gigantes das telecomunicações, já encampou a DirecTV e a Time Warner e não deve parar por aí. Stankey explicou a estratégia de aquisições como uma forma de “partir de uma posição de relevância e escala“ no segmento, ao invés de começar do zero.
O que isso deve significar para os produtores de conteúdo só o tempo vai dizer. Entre os profissionais que estão no ramo parece que a grande maioria ainda não se deu conta da realidade.

CESTEIRO QUE FAZ UM CESTO, FAZ UM CENTO

Em quase todas as formações profissionais nesses tempos o foco é muito limitado. Um jornalista, por exemplo, aprende técnicas de comunicação escrita, oral e presencial para transmitir informações jornalísticas. Aprende a apurar fatos, analisa discursos, observa, pra depois colocar tudo numa notícia. E se ele tiver que contar as coisas de uma forma diferente, se não for por meio de notícia? Essa é uma pergunta que dá trabalho. Primeiro para responder, depois dá trabalho com carteira assinada.
Os grandes veículos de mídia, principalmente impressa, enxugaram muito seus quadros. Ah, foi culpa da Internet. Quem sabe a gente não realoca essa mão de obra especializada em sites de notícias? A pergunta que ainda quer calar é “por que não em sites de outros tipos de conteúdo, não apenas noticioso?” Pode ser ficcional, de humor, de uma série de outras coisas que exigem habilidades de comunicação. Em outros formatos, porém.
O mesmo vale para ilustradores, publicitários, musicistas, designers, arquitetos, professores, engenheiros, médicos,... opa, nesses últimos já inverteu o apelo. Profissionais que dominam conteúdos específicos também têm prósperas oportunidades na Internet, mesmo sem as técnicas de comunicação. Basta se associar aos bons de conversa ou procurar desenvolver essa habilidade tão intrinsicamente humana.
Aplicativos do tipo Globo Play ou EiTV Play já estão rendendo milhões de moedas de todos os tipos com a venda de conteúdos. Tanto por obras artísticas como por difusão de conhecimentos de bons profissionais que produzem vídeos do próprio celular. Eles podem ser vistos em qualquer lugar do mundo, pelo público em geral ou por pessoas que adquiriram esses conteúdos pelas plataformas audiovisuais.
Como enfatiza o próprio John Stankey, o "conteúdo é o que impulsiona o uso da rede. O que move as pessoas não é a quantidade de Gs da rede (3G, 4G, 5G) ou Gbps,  ou a tecnologia que utilizamos, mas sim a conexão emocional que elas estabelecem com os conteúdos."

A HORA E A VEZ

No momento, tudo parece conspirar em favor de quem produz conteúdo. O mais novo aliado aqui no Brasil é ninguém menos que o STJ, o Superior Tribunal de Justiça. Em decisão pronunciada dia desses ficou estabelecido que as emissoras afiliadas de TV também devem pagar direitos autorais sobre a programação retransmitida da rede da qual fazem parte.
A situação surgiu de uma cobrança de direitos autorais por parte do Ecad – Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, contra a emissora do estado do Espírito Santo afiliada da Rede Bandeirantes. Houve contestação da cobrança mas o relator do caso, Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, tomou como base o artigo 31 da Lei 9.610/98, segundo o qual “as diversas modalidades de utilização da obra artística são independentes entre si”.
Embora a decisão esteja relacionada apenas a emissoras de TV é evidente o status que a produção de conteúdo está conseguindo. Não pela benevolência difusa, mas pelo valor que tais conteúdos representam objetivamente para poderosos círculos empresariais.
Ainda pelas palavras do CEO da AT&T, a maior ou menor qualidade das conexões, neste momento, é o que menos importa para os novos modelos de negócios das teles. “O que importa é a relevância que elas dão aos nossos produtos, e hoje somos cada vez menos relevantes".
Estaríamos confirmando o alerta que começamos a ouvir logo nas primeiras lições da alfabetização. Não devemos julgar um livro pela capa. Precisamos, sim, estar atentos ao conteúdo. Só assim vamos dar qualidade às nossas horas de leitura.

sexta-feira, 24 de março de 2017

CRIATIVIDADE NA TV, DENTRO E FORA DA PROGRAMAÇÃO


É o Pato Donald que aparece na capa de todos os gibis da franquia, no título dos desenhos animados da série. Mas o que seria dele sem Huguinho, Zezinho e Luisinho, seus sensacionais sobrinhos!? Eles nunca foram meros coadjuvantes, mas protagonistas, ainda que com menor espaço. Atuam de maneira decisiva para que as tramas façam a alegria do grande público.
A televisão brasileira tem uma emissora “Pato Donald”, com maior visibilidade, presença marcante, destaque entre o público. Mas este entretenimento criativo, o mais consumido pelo público brasileiro, seria um porre tremendo se não houvesse outras opções no ar.
Esse fato vem sendo ignorado pelas operadoras de TV por assinatura no Brasil. Para elas, basta pagar para ter a Globo no line up e as outras que se acomodem no espaço que sobrar. É a chance delas continuarem na disputa pelo segundo lugar.
Tudo bem, se a gente não vale nada, então nada, mais nada, mais nada, pela aritmética básica é igual a nada. Não é esse número que aparece na calculadora do Ibope. Somando-se a audiência apenas do SBT, Record e RedeTV! ocupam-se 20% da massa de assinantes na cidade de São Paulo. E com dois dígitos não se brinca.
Pois são elas, SBT, Record e RedeTV! as três emissoras que resolveram negociar em grupo com as operadoras. Formaram a Simba Content, uma joint venture que nasceu no final do ano passado, com a responsabilidade de negociar o conteúdo total das três redes junto às operadoras. Elas esperaram até a data do switch off (encerramento definitivo do sinal analógico de TV aberta) na Grande São Paulo – para iniciar as negociações. Agora elas têm voz. Como já dizia o velho ditado, “a união faz... dois dígitos”.

FALA-SE EM DOBRAR A RECEITA

Quando a Simba Content foi formada houve uma forte pressão contrária por parte das operadoras. Elas temiam ser “abusadas” pelas, até então, inofensivas pequenas redes. Foi necessário que o CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica – analisasse a situação. Uma das condições para a autorização da parceria comercial foi o uso de 20% do faturamento da Simba para a produção de novos conteúdos.
As três redes não viram nenhum problema nessa imposição. E até já fazem planos para um outro segmento de negócios da joint venture. Em pouco tempo deve iniciar o empacotamento de conteúdo adquirido de outras produtoras, que vão para a mesma prateleira onde estarão as produções conjuntas do grupo. A venda de séries que já foram ao ar pode também ser oferecida para comercializar no menu de VOD das operadoras.
A expectativa é de que o switch off analógico em São Paulo seja o embalo para a Simba negociar a programação das três emissoras em todo o país, onde existem cerca de 19 milhões de assinantes das várias operadoras. A receita estimada pode chegar a um valor equivalente ao que SBT, Record e RedeTV! faturam na TV aberta com publicidade.
Embora o otimismo tenha tomado boa parte dos executivos das três redes ainda não dá para fazer altas apostas. Com o sinal digital gratuito está crescendo um outro fenômeno observado no mundo todo: é o chamado cord cutter, o cancelamento das assinaturas de TV, já que a qualidade do sinal aberto digital ficou pelo menos igual ao enviado por cabo ou satélite. Essa grande jogada das três redes tem potencial para mudar, no médio prazo, o cenário do setor televisivo no Brasil.

JOGANDO SEMPRE “NA BOLA”

No mercado de TV aberta não há como pensar em parceria entre as emissoras. A relação é direta com o público, então é cada um por si. Mas as operadoras vendem pacotes de emissoras e isso abriu espaço para um pacotinho disputar lugar entre tantas estrelas. Se a fórmula for nova pode inspirar experiências semelhantes em outros países.
Um dos apoios que a Simba Content espera trazer para a disputa são os simpatizantes mais identificados com a imagem que cada uma delas construiu. São quase “torcedores” da emissora, tanto no caso do SBT, como da Record e até de outras redes menores. Um fenômeno que as redes sociais parecem ter fortalecido. Por algum motivo, parcelas do público acabam assumindo uma defesa desta ou daquela emissora. Talvez, para o telespectador, valha como uma prova de que ele foi capaz de descobrir um valor que outros estão demorando para perceber. Mais ou menos como apresentar aos amigos uma cachaça que você descobriu num pequeno sítio e que é melhor do que os rótulos mais caros. “-Ah, aquela cachacinha do Lelo!”
Até aí seria uma mobilização legítima e muito pertinente. Tomara que fique assim. Porque alguns comentários acusam estratégias inadequadas, que ninguém quer acreditar que sejam verdadeiras.
Uma publicação recente fala de uma autêntica chantagem que estariam urdindo no contexto de uma jogada imoral. Seria baseada no PLC 79, que já foi barrado numa tentativa sorrateira de aprovação por parte de congressistas, no final do ano passado. O projeto de lei complementar altera a Lei Geral das Telecomunicações com benesses inexplicáveis para as operadoras de telefonia. Pode somar quase R$ 100 bilhões em benefícios, incluindo anistia a multas que as teles vem acumulando há anos.
De acordo com a publicação, como as teles atualmente também operam TVs por assinatura, elas seriam pressionadas pelas três emissoras da Simba Content a aceitar a inclusão do pacote em suas programações. Caso contrário, as três redes sairiam em campanha para denunciar a imoralidade que o PLC 79 carrega.
Comentários desse tipo mancham o brilho de uma hábil e criativa composição empresarial. O pacote televisivo tem potencial para se sustentar pela qualidade. Não haveria motivo para trair dessa forma a audiência.

sexta-feira, 17 de março de 2017

ARROZ, FEIJÃO E TECNOLOGIA DE PONTA


Boa parte da atual população do planeta viveu o tempo em que, dentro de casa, alta tecnologia não tinha nem pra remédio. Dito sério, pois até a formulação dos xaropes, comprimidos e fortificantes era bem mais simples.
As engenhocas domésticas eram tecnologias assimiláveis, sempre tinha alguém por perto que dava conta de consertar o básico. Quase todo chefe de prole sabia arrumar alguma coisa na mecânica do carro – isto é, entre os que tinham carro em casa. Um primo mais velho, mais curioso, desmontava rádios, às vezes até trocava válvulas de televisores. Era assim também com geladeiras, máquinas de lavar, liquidificadores.
Esse foi o ambiente tecnológico ideal para o surgimento da poderosa “gambiarra”. Um arame aqui, gota de cola ali, muita sorte e o aparelho funcionou! Deixa assim, dá um tapinha aqui se falhar, quando piorar a gente chama o técnico. Era quando vinha a bronca pelo “servicinho de porco”.
Tudo bem, um dia isso virava marchinha de carnaval e a gente se divertia. Ninguém acreditava que iria viver para ver “o milhão no milímetro”: até um milhão de componentes num milímetro quadrado de um chip, é o que já se pode ter hoje. Ver mesmo não dá, mas as tarefas que um celular realiza provam que os componentes estão lá.
A marchinha de carnaval, por exemplo, neste ano o aplicativo Globo Play mostrou ao vivo, por plataformas digitais como o celular, para 3,3 milhões de pessoas. Outros 6,8 milhões baixaram imagens do carnaval em horários variados, de acordo com a conveniência pessoal.
A pergunta é: será que coisas tão inovadoras como essas, dentro do paradigma “milhão no milímetro”, podem acontecer na base da gambiarra? Com certeza, não.

INTELIGÊNCIA OU ESPERTEZA?

O nível de complexidade das tecnologias atuais não é compatível com qualquer improvisação. Não dá mais pra “dar um jeito”. Isso pode ser confirmado pelo número de pessoas que viviam – e bem! – prestando assistência técnica sem vínculo com fabricantes. Hoje, quase não existem mais. O trabalho de manutenção reduziu-se à troca de módulos e peças de alto valor agregado, que chegam lacradas das fábricas. Mais comum ainda é a substituição do aparelho por um novo. Ou é a inovação que acrescentou muitas vantagens ao modelo mais recente ou é a armadilha da obsolescência programada.
Num balanço, fica claro que a indústria da tecnologia investiu muito mais inteligência do que esperteza em seus novos produtos. Seria desejável que essa ênfase fosse mantida em proporção semelhante também na cadeia de serviços que muitos desses produtos precisam para chegar ao público. Por exemplo os telefones celulares, que dependem dos serviços das teles para que o consumidor possa usar. O mesmo para as TVs por assinatura.
No Brasil, no entanto, parece que não é assim. Por aqui, esses serviços costumam ser vendidos com uma dose exagerada de esperteza. E não adianta dizer que é perseguição dos procons. No ranking MVP (Mais Valor Produzido) da Consultoria DOM, apurado em 2016, nenhuma das operadoras de telefonia chegou entre os 50 primeiros colocados na contagem geral do país. Quantos outros serviços são mais utilizados no Brasil do que a telefonia móvel? Se a experiência dos usuários com as teles fosse boa, eles não esqueceriam de citar.
Nos Estados Unidos, o Google acaba de anunciar que o Youtube  vai ter um canal de TV por assinatura em breve, ao preço de US$ 35,00/mês. A distribuição será OTT, ou seja, via Internet, como o Netflix. A diferença é que a TV Youtube terá dezenas de canais lineares, além de programação premium e capacidade ilimitada de gravação na nuvem. Imagine como um serviço desses poderia ser oferecido por aqui com a qualidade da conexão de que dispõem os internautas.

DECISÕES GLOBAIS, MUDANÇAS LOCAIS

A alta tecnologia está se tornando uma condição incontornável no mundo de hoje. Tão indispensável quanto o arroz com feijão. A Internet é o ambiente nativo de boa parte delas. A gestão das chamadas “cidades inteligentes” vai depender da participação dos cidadãos, trocando informações em tempo real para decidirem deslocamentos, opções de serviços, agendas pessoais.
No começo deste mês a americana Qualcomm e a chinesa ASE anunciaram uma joint venture para construção de uma fábrica de chips de alta densidade em Campinas, no Interior de São Paulo. Lá serão encapsulados chips de tecnologia ACSIP que integram, numa única peça, vários componentes semicondutores, como processadores, memórias, filtros de recepção e transmissão, dentre outros. Esses chips serão utilizados para celulares, modems 4G, 5G e dispositivos conectados IoT, a “Internet das coisas” (em inglês, Internet of Things).
A demanda prevista para projetos que envolvam IoT é algo sem precedentes. Máquinas estarão conectadas entre si, desempenhando tarefas autonomamente, com base em dados compartilhados via rede. E se a Internet não funcionar? Equipamentos não sabem dar jeitinho quando não recebem as informações necessárias.
Situações embaraçosas, como a Operação Lava Jato, demonstram que a opção pela esperteza tem raízes mais profundas do que se supunha. Não deve ter sido por acaso que tantos serviços caros e de má qualidade escolheram justamente o Brasil para operar. Porém, de qualquer lado que se olhe, parece que o mal feito não será mais sustentável. Se não for por inviabilidade técnica, vai ser pelas mãos da polícia.

sexta-feira, 10 de março de 2017

BOTs OU ALIENÍGENAS DOS NOVOS TEMPOS


O homem sempre gostou de “brincar de Deus”. Quer inventar, fazer e acontecer. No começo o desafio era enfrentar as tradições religiosas, impregnadas do primitivismo humano, de obscurantismo. Mas não teve como, as luzes foram chegando e revelando inclusive a nossa natural vocação para o saber, nossa essência “à imagem e semelhança de Deus”. “Não há nada que não deva ser descoberto e revelado a todos”, diz uma citação bíblica.

A grande questão é que não passaram a receita. Que sopro foi exatamente aquele que deu vida ao homem? O que mais foi na massa daquele barro onde Adão foi moldado? À parte da linguagem figurada, que veio de nossos antepassados primitivos, o que nos resta é quebrar a cara em laboratórios, livros, estatísticas, para descobrir ou inventar nossos modestos milagres. Foi assim que o milho nativo se transformou nos grãos amarelos e macios dos quais é feita a pamonha. Frutas ficaram mais doces e suculentas e cachorrinhos mais parecidos com personagens de desenhos animados. Para o bem e para o mal, é assim a gênese que podemos escrever.

No atual limiar dessa divindade desajeitada que podemos ser, entre os destaques está a inteligência artificial. Os bots, nome mais atual dos mitológicos robôs, precisam se tornar uma marcante presença humanoide na sociedade. E já estão convencendo! Bem discretamente, trocando mensagens escritas, como fazem os chatbots. Esses sistemas de conversa por texto estiveram entre os principais assuntos da MWC-17, em Barcelona.

FALTA VIRAR UM BOM NEGÓCIO


Já faz um bom tempo que um chatbot conseguiu convencer interlocutores de que era humano. No verão britânico de 2014 a Universidade de Reading organizou um evento na Royal Society, em Londres, para testar o software Eugene Goostman. Ele foi desenvolvido pelo pesquisador russo Vladimir Veselov e pelo ucraniano Eugene Demchenko. No teste, cada juiz teve que conversar ao mesmo tempo, através de um chat, com um ser humano e com uma máquina. Depois dizer quem era o computador e quem era o ser humano. Eugene Goostman convenceu 10 dos 30 juízes de que era um menino de 13 anos. O organizador do evento, Kevin Warwick, disse que foi a primeira vez que um software passou nesse tipo de teste. De lá para cá já avançaram muito os vários programas similares, como o Watson, da IBM ou o Google Assistant. Pelo menos no cumprimento das funções. O que ainda precisam ser resolvidos são os detalhes do modelo de negócio que vai chegar ao mercado.

Um chatbot não pode ser concebido com a oniciência capaz de tratar de todos os assuntos. Ele deve surgir por meio de uma plataforma, onde será desenvolvido um aplicativo específico para cada uso. Durante a MWC-17 Rob High, da IBM, afirmou que três tipos de dados são indispensáveis para o desenvolvimento de um chatbot qualquer: dados sobre o assunto para o qual vai ser usado, por exemplo, num call center de determinada empresa; dados para “treinar” o sistema cognitivo de cada aplicativo e finalmente o histórico de conversas, que permite personalizar os diálogos com cada usuário. É o suficiente para que um bot possa relacionar a cada questão uma resposta adequada.

High reclama que os SDKs aparecem nas várias plataformas sem seguir qualquer padronização e isso dificulta a tarefa dos desenvolvedores. Assim fica complicado atender as exigências desse mercado.

OS BOTs QUE SE PREPAREM


Esses indivíduos cibernéticos não vão chegar assim, numa boa, nesta sociedade complicada de carne e osso. Eles vão ter de sentir nos bits o que é ser um membro respeitável entre a massa humana. Por exemplo, zelando pela ética e os bons costumes. Krit Sharma, da empresa Sage, está preocupada com o impacto que essa “convivência” entre bots e pessoas pode trazer para as gerações futuras. Ela quer bots politicamente corretos para interagir com as pessoas.

Bom dia, por favor, muito obrigado devem fazer parte de um mínimo repertório ético, a ser devidamente encaixado nas conversas. Sharma está preocupada até com o excesso de vozes femininas nos assistentes pessoais, como aquela dos GPSs que usamos no carro. O risco seria aumentar o preconceito de gênero.

Se, na Era do rádio as estórias versavam sobre vozes encantadoras pelas quais os usuários se apaixonavam – para depois, em alguns casos, se decepcionarem diante da imagem física – os bots podem trazer inconvenientes bem mais dramáticos. Vamos admitir a possibilidade desses sistemas passarem a ser usados para diálogos mais íntimos, como auto ajuda ou até outros bem menos nobres, caso do sexo virtual. Não será surpresa se alguns se apaixonarem por um chatbot. Pelo caminho que vão usar, a probabilidade não é pequena. Basta olhar para o vasto histórico de casamentos bem sucedidos que começaram em conversas pela Internet.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O CONGESTIONAMENTO QUE NÃO APARECE NA TV


“-Então fica combinado: durante um mês a gente desliga todas as transmissões de TV para a Grande São Paulo, troca todos os canais para o digital e depois religa. Beleza!?” Seria mais fácil parar a Operação Lava Jato do que apresentar uma proposta dessas. O que resta como alternativa para o desligamento do sinal analógico de TV é alguma coisa como trocar um pneu com o carro andando. Pelo menos na Grande São Paulo, que engloba 38 cidades além da capital e concentra a maior quantidade de canais de TV no país.
Quem está encarregada da tarefa é a EAD – Empresa Administradora da Digitalização, criada por determinação legal para promover a transição do sinal analógico para o digital nas emissoras brasileiras. O capital da EAD foi todo bancado pelas empresas de telefonia, as teles, que vão ficar com algumas faixas de frequência que são usadas por emissoras de TV. Essas faixas estão em torno dos 700 MHz que, no atual momento tecnológico, são as melhores para a formação de serviços em redes de longa distância. As teles vão usar as novas frequências para expandir a Internet 4G no Brasil.
Essa mudança foi encaixada no calendário de desligamento do sinal analógico, ou switch off. Hoje, em quase todas as cidades brasileiras, cada emissora de TV transmite a mesma programação por um sinal analógico e também por um sinal digital. É o que se chama de simulcast. Assim o telespectador sintoniza de acordo com o aparelho que tem em casa. Com a transferência de parte da faixa para a Internet 4G o calendário de digitalização teve que ser adiantado em várias regiões. É aí que os detalhes técnicos fizeram muita diferença.

E ENQUANTO VOCÊ ASSISTE À SUA NOVELA...

As transmissões por radiofrequência precisam ser divididas em faixas, para que um sinal não interfira na qualidade do outro. É essa divisão de faixas de frequências que é chamada tecnicamente de “espectro eletromagnético”. Mais ou menos como as rotas aéreas. O espaço aéreo, de acordo com a altura, é dividido em rotas e cada rota é para determinado tamanho de aeronave trafegar.
No caso do espectro tem as faixas para rádio AM, outras para o FM, para TV, para celulares, rádios militares, etc, etc. A transmissão simultânea dos dois sinais, no caso das TVs, é provisória. Não faria sentido manter um único sinal ocupando dois canais do espectro. Por isso, nesse período de transição, os sinais digitais foram alocados em faixas de frequência nem sempre das mais adequadas. Já estava previsto que, dentro de alguns anos, o digital voltaria para a melhor faixa, com o desligamento definitivo do analógico. O que não estava previsto é ter o 4G em parte da mesma faixa.
Agora, além de voltar para uma faixa mais robusta, os sinais de TV vão ter de dividir espaço com o 4G. Na cidade onde tem mais emissoras isso cria uma espécie de quebra cabeças, mais ou menos como jogos de baralho do tipo “paciência” ou free cell. Para mover uma carta até o lugar em que ela precisa ficar é necessário ter espaço provisório para deixar as cartas que estão “atrapalhando”. Há regras específicas para usar os poucos espaços provisórios disponíveis.
No caso das TVs da região da Grande São Paulo não há espaço sobrando nas faixas mais concorridas do espectro. Precisa estudar quais sistemas de comunicação podem ser transferidos para faixas menos concorridas, abrindo espaço para as TVs e para o 4G. Depois de preparada toda a infraestrutura a mudança dos sinais é agendada para acontecer num exato momento.
O último fator complicador é o tempo. As teles pagaram bilhões ao Governo Federal para terem o direito de trafegar na banda de 700 MHz. O prazo termina em 2018.

UMA ADOLESCÊNCIA CONTURBADA

A TV brasileira está vivendo a “síndrome da digitalização”. Claro que a comparação não é com uma doença, mas algo parecido com uma adolescência. Um período de muitas transformações, incômodos e até dores, mas que conduz a uma fase de plenitude.
Foi assim em todos os setores da economia onde a digitalização já passou. A turma de cabeça branca lembra bem o que era fazer uma ligação telefônica entre cidades no começo dos anos 70. Ou obter um extrato bancário no final daquela década. E fazer uma declaração de renda há 30 anos? Em todos esses setores houve remanejamentos, extinção de cargos, criação de outros, suor e lágrimas porém, o progresso alcançado é inquestionável.
A digitalização da TV em todo mundo pode ser uma mudança mais radical ainda. Porque a adolescência da TV aberta deve conduzir diretamente à velhice. Sim, o que existe em termos de TV digital aberta no mundo é algo que já ficou velho, diante dos avanços da Internet. Os horizontes estão no ATSC 3.0, sistema de TV aberta que a associação americana de emissoras desenvolveu com parceiros coreanos e deve ser lançado este ano, nos Jogos Olímpicos de Inverno.
A outra alternativa está na tecnologia cloud. São servidores espalhados pelo mundo para armazenagem e gerenciamento de dados, que incluem muitos tipos de conteúdos. Esses sistemas estão evoluindo tanto que podem simular emissoras e até operadoras de vários canais por assinatura, tudo via OTT. No caso dessa tecnologia a grande vantagem é que aumenta muito as possibilidades de novos modelos de negócios na TV aberta. E esta é a questão decisiva para consolidar qualquer tipo de inovação.