sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

AS DECISÕES E O DESTINO


Mais uma vez, foi a televisão aberta. A tarefa mais complexa das telecomunicações brasileiras em 2017, do ponto de vista operacional, era o desligamento do sinal analógico de TV. Aconteceu com sucesso nas principais regiões, superou os gargalos e, daqui em diante, tende a transcorrer com tranquilidade.
No Brasil a televisão aberta tem tradição no quesito “fazer acontecer”. E é um setor todo movimentado pela iniciativa privada. Do ponto de vista das ações de governo nessa jornada, o destaque cabe ao ex-Ministro Ricardo Berzoini. A despeito das críticas que alguns possam ter em relação a esta ou aquela medida, em seu tempo Berzoini sentou-se à mesa para fazer acontecer. Tinha uma proposta mas também ouviu, ponderou e decidiu. Cumpra-se! Com o novo governo, Gilberto Kassab pouco teve como interferir no caso.
Decisão foi tudo o que faltou em outro tema de relevância das telecomunicações neste ano. A recuperação judicial da Oi foi um fantasma que assombrou o Executivo, o Judiciário e o mercado. Tanto que, até agora, não apareceu um nome para assinar como dono da situação.
Curiosamente, o que parece ter sido decisivo para o primeiro passo – a aprovação do Plano de Recuperação pelos credores – foi justamente a unanimidade em torno do que seria o “inimigo a ser superado”. O empresário Nelson Tanure, da Societè Mondiale, empresa sócia da Oi, entrou em todas as brigas que pôde e assim incorporou essa unanimidade. Em função disso, os outros players parecem ter acreditado que só um consenso poderia salva-los. Agiram por auto preservação.
Freud certamente teria mais a acrescentar. Porém, o apoio psicanalítico vai ser muito mais importante daqui para frente. Muito do que foi acertado ficou condicionado a mudanças que ainda não aconteceram. E o Governo Federal, através da Anatel, vai levar sua crise de identidade para o divã judicial. Mesmo torcendo pelo acordo, votou contra. Vai à Justiça para pedir que seus haveres fiquem fora do que foi pactuado. O entendimento é de que a lei prioriza as dívidas com o Governo, que não podem ser incluídas no rol de credores privados.
Essa postura de sacralidade, uma vez aceita, vai complicar mais ainda o recebimento por parte da Anatel. E corre o risco de prejudicar seriamente os outros termos do acordo. Entenda como quiser, mas governo é governo.

E ENTÃO, COMO FICA?

Uma questão aparentemente subliminar em relação ao acordo da Oi pode se tornar, do ponto de vista histórico, o principal fato desse episódio. É o controle acionário da empresa.
Existe a possibilidade de uma pulverização das ações ordinárias, o que tende a descaracterizar os esforços que deram origem à Oi. Ela surgiu como resposta a uma necessidade de soberania nacional. É fundamental que um país com o tamanho do Brasil conte com uma grande operadora de telecomunicações, cujo controle acionário seja brasileiro. Claro que esse argumento foi usado indevidamente para beneficiar espertos. Mas isso não o torna menos verdadeiro.
As telecomunicações são estratégicas desde o tempo do telégrafo. Mas, hoje em dia, fazem parte de tudo que acontece com cada um dos terráqueos. A tecnologia envolvida é muito mais complexa do que no passado, e fica mais complicada a cada dia. Mais cara. Mais instável. Portanto, muito mais estratégica.
Agora sim, uma questão concreta de identidade a ser seriamente considerada: que país queremos ser?
Essa resposta passa por outro assunto momentoso. É o interesse da Boeing pela Embraer. Diferentemente das telecomunicações, na indústria aeronáutica o Brasil construiu uma sólida capacidade tecnológica, reconhecida mundialmente. Não é à toa que a maior empresa do mundo no setor está interessada.
Essa capacidade tecnológica não foi conquistada em um ano, nem em uma década. Foi muito tempo até se chegar a um patamar de excelência, totalmente sustentável. Somos exímios fabricantes de aeronaves. Todas as outras tecnologias embarcadas são importadas, como turbinas, instrumentos, comunicações. Mas o principal é a parte “voadora” dos projetos.
Não há qualquer ufanismo nessa questão. A aviação é hoje o principal diferencial de defesa. Por isso a Boeing tem relações íntimas com o Governo Americano. No episódio da venda de caças para a FAB manifestou interesse, mas ficou claro que não haveria transferência de tecnologia.
Uma indústria tão excepcionalmente cara como a aviação militar precisa do mercado civil para manter seus projetos. E, no segmento de aviação regional, a Boeing ficou para trás, depois que a europeia Airbus tomou conta da canadense Bombardier, principal concorrente da Embraer. Este será o lugar definitivo e inescapável da Embraer nas mãos da Boeing: aviação civil regional.
A Boeing está preocupada com a aviação regional nos Estados Unidos, um mercado que cresceu muito rapidamente. As aeronaves de que ela dispõe não são competitivas, porque privilegiou outros projetos. Ora, se o discurso do momento é o livre mercado, a abertura econômica, a valorização da competência, então que se abra o mercado americano ao melhor fornecedor: a Embraer. Por que isso só pode acontecer se a empresa tiver capital americano? Não seria excesso de nacionalismo.

UM LUGAR AO SOL

O empresariado brasileiro precisa ter coragem para concorrer. Não precisa brigar para isso, o quê estaria mais para uma expressão de ódio. Mas precisa lutar, isso significa competir dentro de regras, para atingir objetivos nobres. Demanda muito esforço, mas a bravura é o grande diferencial dos vencedores.
O Governo Brasileiro já entendeu que passou a fase de colocar o estado como único empreendedor capaz de superar grandes desafios. Foi útil para fazer surgir, dentre outros, a Embraer, o Sistema Telebrás. Nesse último caso, a privatização embarcou na cantilena da modernidade econômica. Essa mesma que Donald Trump rechaça veementemente. Sobrou para o cidadão fornecedores de serviços pouco eficientes e caros. Além da necessidade de inventar um fornecedor nacional, a Oi, que dispensa comentários.
No caso da Embraer ninguém acreditava que brasileiro fosse capaz de gerir a fabricação de aviões de qualidade, dentro das regras de mercado. O arremate acabou sobrando para investidores daqui, que deram conta do recado muito bem. Não há porque reverter essa sorte que o destino nos reservou. A história da empresa mostra que ela cresceu, na medida em que as próprias aeronaves cresceram. Esse é o futuro que ela tem pela frente.
Parece muito pouco provável que a Boeing queira associar a marca dela ao nome Embraer. Que queira ser a menor, dentro da menor. Isso pode acontecer num momento inicial, para passar pela porta. Depois, não deve ser nada confortável ter um gigante tão poderoso dentro de casa. A sabedoria mineira já dizia, “passou boi, passa a boiada”.
O capital estrangeiro é muito bem vindo na Embraer. E virá, uma vez que estamos falando de uma empresa de alto nível, consolidada no mercado. Que esse capital venha de empresas de outros setores. Fundos de pensão internacionais, bancos e muitos outros tipos de investidores não concorrentes.
Esta, possivelmente, será para o Brasil a marca histórica de 2017: o ano em que a decisão mais importante começou a exigir uma resposta definitiva.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

NEUTRALIDADE DA REDE E SOBERANIA


Quantos chuveiros tem na sua casa? E ar condicionado, também tem? Dependendo do seu padrão de conforto, mais robusta tem que ser a rede elétrica. Alguns padrões para sua escolha, com respectivos preços, e estamos conversados.
A quebra do princípio da “neutralidade da rede” entre provedores de Internet passa por este modelo. As empresas de telecomunicações, que dão acesso à Internet, pelo princípio da neutralidade não podem cobrar mais por determinados conteúdos.
Um caso clássico foi o Netflix. Chegaram a ser cobrados valores a mais, alegando que o tráfego de filmes entupia a rede e não rendia nada para as operadoras. Com a “neutralidade”, as cobranças extras acabaram. Foi durante o governo Obama.
Trump voltou tudo como era antigamente. Mas isso não deve constituir um problema, como muitos alardeiam.
Em recente artigo o Jornalista Samuel Possebon posiciona a questão no ponto exato de observação ao microscópio. E descreve, dentre os contornos, o relevo comercial que se visualiza com destaque. Além de muito pertinente, essa ótica é acessível a quase todo mundo, pois qualquer consumidor entende as regras básicas de mercado.
Historicamente as atividades relacionadas ao tráfego de conteúdos surgiram da iniciativa privada. Foi assim que os jornais se espalharam pelo mundo, passando por cima de limites de logística e até orçamentários, para surpreender os leitores todas as manhãs, com as notícias do dia anterior. O modelo de negócio evoluiu, a propaganda foi pagando uma parte cada vez maior da conta, de forma que rádio e TV já nasceram abertos, sem assinatura. Esses caras da mídia aprenderam muito lidando com os consumidores em geral.
Eis que adiaram o fim do mundo e a rede apocalíptica perde a finalidade original. 
Foi pra rua e se anunciou à plebe com o nome de Internet, vocação pacificadora, científica, compartilhável e aberta. Não deu outra, virou a super mídia, ou mais, a meta mídia, a comunicação entre toda natureza de comunicação que a sociedade pratica. Da fofoca ao diagnóstico médico, do varejo aos grandes investimentos, do jornal à realidade aumentada, cabe tudo e sobra espaço.
Será que, agora, em meio a tantos atores poderosos, serão os provedores de acesso que vão confinar todo esse planeta virtual? Poderão tentar, como os turcos otomanos tentaram, ao fechar a passagem por Constantinopla. Mas não vão conseguir. Neste novo mundo, o caminho de Vasco da Gama é tão rápido quanto a rota do mediterrâneo. E o grande imperativo, como nos tempos de Vasco da Gama, há de ser o interesse comercial em questão.

IGUALDADE À BRASILEIRA

A quebra da neutralidade nem chegou aqui no Brasil, mas já virou pauta ideológica, tema de campanhas: “-É certeza que as teles brasileiras vão querer a mesma coisa”, advertem os arautos da defesa popular. E vão tentar mesmo. Como todos os sindicatos aumentaram os preços de seus serviços, depois que a contribuição compulsória foi extinta. Mais ainda, no mercado, o hábito é criar maneiras de ganhar em cima do sucesso do outro, “meter a colher” em cada prato cheio que estiver ao alcance. Não é ético, mas continua ligado no automático.
Por aqui, o Marco Civil da Internet, além de outras leis específicas, são estruturas mais robustas do que as “portarias” americanas que sustentavam a neutralidade por lá. E isso é necessário, pois se trata de uma infraestrutura global, com perfil colaborativo, e que se tornou indispensável no modelo de sociedade atual. Em nenhum espaço físico do mundo existem tão variadas e abundantes informações sobre tantas pessoas.
Porém, tudo isso ainda é muito novo. Legislar sobre essas questões é um exercício importante, mas as salvaguardas criadas sempre vão ser frágeis. Regimes fortes, como da Arábia Saudita e da China, tentam limitar a Internet ou até proibir. Do lado inverso do mercado, procuram argumentos diferentes, com o mesmo objetivo de domar a Rede. Por dólares ou por consciências, todos querem o domínio do espaço cibernético. Mas nada indica que esse esforço se sustente ao longo do tempo. A Primavera Árabe é só um dos capítulos da história que demonstra essa impossibilidade.
Por isso tudo, as leis dos mais diversos estados nunca vão determinar limites para a Internet. Nem os segmentos tecnológicos, que fazem essa infraestrutura toda funcionar, são capazes de para-la. Pois ninguém sabe quando vai pular um outro “WhatsApp” ou um substituto do Facebook de uma cartola, dessas que cobrem cérebros criativos. As possibilidades são infinitas e podem mudar, em alguns meses, hábitos universalizados no uso da rede. As eventuais tentativas de limitação tendem a capitular diante da necessidade de uma Internet cada vez mais entranhada e aceita pela sociedade.

 PENSE BEM! PENSE MELHOR.

O fim da neutralidade, proposta dentro do governo Trump, ainda não se justificou sob nenhum aspecto. A despeito dos argumentos, foi mais uma tentativa de obscurecer Barack Obama, que bancou a neutralidade para oferecer mais garantias ao cidadão comum que acessa a Internet.
No momento, o grande risco da rede não parece estar na forma como os usuários a acessam. Mas nos rastros que todos somos obrigados a deixar quando passamos por ali. E, nesse particular, não haverá norma legal capaz de controlar a ameaça. A única defesa possível está na capacidade tecnológica, esta mesma que vemos negligenciada no Brasil por questões orçamentárias.
O SGDC, o satélite com capacidade de cobertura de todo o território nacional, é uma salvaguarda muito mais efetiva para o internauta brasileiro do que qualquer lei. Levou ao espaço alguns bilhões de reais e, daqui da Terra, não desfrutamos de muito do que ele faz lá nas alturas. Porque não houve competência administrativa nem investimento para implantar toda a infraestrutura de recepção.
A redução do orçamento federal para a Ciência e Tecnologia em 2018 vai obrigar várias pesquisas a serem paralisadas, inclusive na área de Telecomunicações. Estudantes e professores de Tecnologia da Informação estão se sentido obrigados a procurar espaço de atuação em outros países, uma vez que o governo está cortando verbas para bolsas e equipamentos.
Limitações de conhecimento não vão ser compensadas por qualquer lei que seja apresentada a um algoritmo. Afinal, trata-se de um código matemático. Só pode ser superado por outra estrutura lógica, mais precisa e eficiente. É assim que, nos dias de hoje, se neutraliza a soberania de um povo, de uma nação.

x

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

TRAGÉDIA E COMÉDIA NO CASO OI


A situação da Oi cada vez mais se assemelha à tripulação de um grande navio, brigando entre si pelo único bote salva vidas a bordo. Cada um tem como meta se dar bem, sem nenhuma preocupação com o rumo do navio, muito menos com a legião de incautos que embarcaram na maior boa fé e ainda não se deram conta dos sérios problemas.
A empresa, que está em recuperação judicial, precisa apresentar aos credores um plano para se recuperar. E este plano deveria ser analisado e votado numa Assembleia Geral de Credores, marcada para a próxima terça-feira, dia 19 de dezembro. Já é a terceira vez em que a data da assembleia foi transferida e deve ser, mais uma vez, adiada.
A briga, que acontece entre alguns setores do Conselho e a Diretoria da companhia, caiu na pura baixaria, segundo matéria publicada pela Revista Piauí. No mês passado o Presidente da empresa, Marco Schroeder, pediu pra sair e fez constar em ata que sofreu “ameaças à sua integridade física”, como represália contra os encaminhamentos que teria apresentado para salvar a companhia. As ameaças foram anônimas, por telefones fixo e celular. E mesmo tendo todos os especialistas de uma empresa de telecomunicações à disposição, não conseguiu rastrear a origem. Coisa de profissional!
Eurico Telles, que foi diretor jurídico da Oi e assumiu a presidência com a saída de Schroeder, precisou ir mais longe. Foi até a Delegacia Anti Sequestro quando soube de alguém investigando toda a vida dele, inclusive na Junta Comercial. A polícia chegou ao suspeito que afirmou apenas estar interessado em escrever um livro sobre a vida do advogado. Biógrafo que não fala diretamente com o biografado, vivo? No mínimo, estranho.
Até a CVM, órgão da Bolsa de Valores que faz as vezes de uma agência reguladora do mercado de capitais, foi instada a intervir. Como a Oi tem ações em pregão, dois conselheiros independentes, que representam o BNDES – um dos maiores credores da empresa – denunciaram à CVM pressões variadas, “através do vazamento de informações confidenciais, de notícias inverídicas, factoides ou distorção de fatos na mídia”. Tais pressões foram atribuídas a “diferentes grupos”, sem citar mais detalhes.
Isso tudo acontece dentro da empresa que é a maior operadora de telefonia fixa do país, que atua em todos os estados brasileiros. Tem a segunda maior rede de fibras óticas do mundo e um total de 330.000 Km de cabos. Atende ainda vários serviços estratégicos do Governo Federal como, por exemplo, toda a comunicação das Forças Armadas. É ainda quem cuida do tráfego de dados das urnas eletrônicas durante as eleições.

A QUEDA DE BRAÇO

A bagunça é generalizada. O fundo Societé Mondiale, por exemplo, que detém cerca de 5% das ações da Oi, também se associou a um grupo de credores. Está, portanto, nas duas pontas da negociação. De qual lado ele vai lutar, quais os interesses que vai defender?
O grupo de credores é do tipo bondholder. São empresas cujo principal negócio consiste em comprar dívidas, para ganhar na eventual recuperação da empresa devedora. Muitos credores, que precisam de dinheiro no curto prazo, aceitam receber apenas uma fração da dívida, repassando os títulos de cobrança a quem pagar, no caso, os bondholders. Dívidas da Oi chegaram a ser negociadas a 20% do valor de face.
O interesse desses grupos passa a ser o recebimento do valor integral da dívida, que compraram com grandes descontos. No mínimo vão lutar para receber o maior valor possível. Do outro lado, os acionistas estarão brigando para pagar o menor valor possível, na tentativa de preservar o caixa da empresa para investimentos e pagamento de outras dívidas. O conflito de interesses é evidente.
No Conselho da Oi o Societé Mondiale se antecipou à Diretoria e fez, ele próprio, um plano de recuperação para apresentar aos credores. Isso foi há cerca de dois meses. A Diretoria recusou, dizendo que o plano favorecia claramente os credores associados ao fundo. E que, se implementado, seria desastroso para a operadora.
É exatamente o que o Societé alega agora, contra a diretoria da Oi, que apresentou recentemente outro plano de recuperação. O plano deveria ser votado na assembleia de credores do dia 19, porém, nesta semana, uma ação foi ajuizada pedindo o adiamento. Dirigentes do fundo acusam a diretoria de favorecimento e ameaçam uma avalanche de ações na Justiça para anular as decisões da assembleia de credores, caso ela ocorra.
Quem está à frente do Societé é o empresário Nelson Tanure. De acordo com a agência Bloomberg, executivos do fundo de hedge americano Aurelius Capital Management, um dos maiores do mundo no segmento, dizem nunca ter encontrado pela frente alguém como Tanure. O Aurelius, atua na reestruturação da Oi e já enfrentou contenciosos históricos, como a negociação da dívida soberana da Argentina.

FRAGILIDADE INSTITUCIONAL

A Oi tem atualmente 70 milhões de clientes e cresceu a partir de favorecimentos governamentais suspeitos, porém, para fins nobres. O objetivo era ter uma grande empresa de telecomunicações brasileira, para não depender somente de empresas estrangeiras, numa atividade tão estratégica.
Ao longo dessa empreitada a Oi contou com dinheiro público e apoio do Governo Federal para expansão. Participou de aquisições, fusões e outros negócios fracassados, que enriqueceram muitos espertalhões e deixaram para a empresa uma dívida de R$ 64 bilhões. Surgiu originalmente do grupo Telemar, um consórcio entre a Construtora Andrade Gutierrez, o grupo La Fonte e fundos de pensão de estatais, que arrematou empresas publicas de telefonia no leilão de privatizações de 1998.
Até hoje os vícios de gestão estariam fazendo parte da rotina da operadora. Executivos do Societé Mondiale afirmam que os diretores da Oi custam R$ 45,8 milhões anualmente, entre bônus, salários e outros benefícios. A concorrente Vivo, que tem resultados muito melhores, não dispende tanto com sua diretoria, diz o Societé.
A fragilidade institucional brasileira seria outro fator adverso à grandes corporações privadas em áreas estratégicas. De acordo com as leis brasileiras, durante o período de recuperação judicial fica mantida a mesma diretoria, presumivelmente a responsável pela gestão prejudicial à empresa. As leis americanas, por exemplo, para casos similares, preveem mudanças compulsórias na direção.
A própria Anatel, no papel de agência reguladora do setor, foi permissiva e se mostra frágil neste momento em que a bola de neve já se transforma em avalanche. O atual governo, acuado por uma série de acusações graves, também não se mostra suficientemente forte para agir, ainda que na posição de maior credor da Oi. É num cenário desses que um único player, como o empresário Nelson Tanure, coloca de joelhos até a própria Justiça, assustada com o tamanho da responsabilidade que tem em mãos.
A solução para a Oi pode começar por um posicionamento claro e soberano por parte das instituições, talvez até a partir da recusa em adiar a assembleia do dia 19. Pode vir de uma negociação com a China Telecom ou por vários outros caminhos. Porém o certo é que ainda haverão muitas outras etapas a serem superadas até a definitiva recuperação. E a experiência deverá servir de base para mudanças. É necessário chegar a um arcabouço legal mais sólido, capaz de dar a segurança jurídica necessária a uma economia mais dinâmica.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

PAIXÕES E RAZÕES NOS DESTINOS DA TECNOLOGIA


O caso teria acontecido num posto da Polícia Rodoviária Federal, numa estrada que corta uma reserva ambiental. O guarda manda parar um carro de passeio e, ao se aproximar, percebe um tatu numa espécie de gaiola, ao lado do motorista:
“-Quero ver seus documentos e os documentos do carro. E já adianto que o senhor vai ter problemas, porque tatu é um animal silvestre da fauna brasileira e não pode ser retirado do habitat natural.”
“-Seo guarda, o senhor está enganado. Esse tatu eu achei ferido há muito tempo, ele era filhote, cuidei dele e criei como animal de estimação.”
“-Sugiro que o senhor diga isso ao juiz. A lei prevê pena de prisão para quem prende animais silvestres.”
“-Ô, seo guarda, peraí! Eu posso provar, o tatu é adestrado, se eu o chamar ele vem como um cachorrinho.”
“-Que interessante...”
“-Sim, é muito interessante! Aposto que o senhor nunca viu um tatu adestrado.”
“-Meu amigo, interessante é o senhor querer que eu acredite nessa conversa. Eu estou há mais de 20 anos na beira de estrada.”
“-Que isso, seo guarda! Eu posso provar. Veja como ele me obedece.”
O motorista abriu a porta do carona e o tatu pulou como um corisco para o meio do mato. O guarda, então, achou que era a vez:
“-Muito bem! Agora chame o tatu pra gente ver se ele vem.” E o motorista, mais enfático do que nunca:
“-Tatu!? Como assim, que tatu!?”
A piada ilustra a situação de muitos consumidores que passam pelo papel do guarda. Empresas vendem produtos em grande escala, com defeitos, praticamente inacabados, depois “tiram os tatus” para quem reclama. E fica como se nada de anormal tivesse acontecido. Invertem a ordem das coisas. Primeiro recebem, entregam um rascunho do produto e só terminam de fabricar, de fato, depois de reclamações.

RICOS TAMBÉM LEVAM “MICOS”?

O “mercado de tecnologia”, nome que se dá atualmente aos produtos essencialmente digitais, já saiu com vários “tatus” em seus lançamentos. Mais conhecidos como bugs, os tatus desapareciam rapidamente da vista dos encantados clientes, depois do atendimento do suporte. Foi assim nas primeiras versões do Windows, que prometiam recursos surpreendentes para aqueles tempos, mas que a imensa maioria dos usuários sequer acessava. Quem tentava, encontrava o tatu. Mas eram tão poucos reclamantes que o suporte dava conta de fazer os arremates ao longo do tempo. O dinheiro já estava no caixa e assim tudo fica bem mais simples.
É um paradigma que vem do século passado. Desde o tempo em que o Japão começou a vender relógios, rádios de pilha e outros eletrônicos populares. Nos Anos 70 eram considerados produtos inferiores, mas o preço baixo tornava acessível o sonho de consumo, o tal rascunho pelo menos anestesiava o desejo.
Nos Anos 90 os eletrônicos japoneses já tinham outro conceito, a qualidade era inquestionável. A posição de camelô global ficou para os tigres asiáticos, como Taiwan e Coréia do Sul, que produziam em grande quantidade para vender barato. Também enriqueceram, e em pouco mais de 10 anos aprimoraram a qualidade, conquistaram um bom conceito. É mais ou menos o mesmo enredo que a China protagoniza hoje.
Até então, a estratégia funcionou para produtos virtuais – onde fica fácil para o tatu desaparecer – ou aparelhos mais populares. Ninguém imaginava que poderia chegar a itens tão sofisticados como carros de luxo. É disso que a Tesla está sendo acusada. Ou difamada, porque há pouca consistência nas dúvidas que estão sendo lançadas.
Numa matéria divulgada há alguns dias pela Agência Reuters são descritos relatos de nove funcionários demitidos recentemente. Eles dizem que “mais de 90%” dos carros que saem das linhas de produção na fábrica em Freemont – Califórnia, apresentam defeitos e precisam passar por reparos. A Tesla desmente esses números e justifica eventuais reparos por conta de seu controle de qualidade “excepcionalmente rigoroso”.
Como a Reuters tem apenas a afirmação dos demitidos, fica a palavra deles contra a da Tesla. A empresa, no entanto, tem outros argumentos fortes. Uma pesquisa do Consumer Reports apurou que 91% dos clientes da Tesla comprariam um modelo da marca novamente.
Ainda assim a matéria da Reuters aponta riscos para eventuais investidores da marca. Cita genericamente “especialistas” que colocam a sobrevivência da empresa na dependência de sua capacidade de fazer carros de alta qualidade em grande quantidade.
A Tesla só fabrica veículos elétricos e lançou recentemente seu primeiro modelo “popular”, com preço na faixa dos US$ 35 mil. É o Model 3 que, ao contrário dos anteriores, deve ser produzido em grande escala, para competir frente a frente com modelos das marcas mais tradicionais, que têm motorização ciclo Otto ou diesel. Até então a Tesla só tinha no mercado os modelos de luxo Model S, um sedan, e o SUV Model X, ambos produzidos em pequena escala.

UM POUCO DE TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

O mundo anda muito complicado ultimamente para fazer previsões ou formular teorias sobre o futuro. Mas a associação entre alguns fatos faz surgir certa desconfiança sobre tanta preocupação lançada contra a Tesla.
Estranhamente, a matéria da Reuters se baseia no depoimento de apenas 9 trabalhadores, para levantar imensas suspeitas contra uma empresa que conta com alto nível de aprovação por parte dos clientes. Quem seriam esses trabalhadores? Pessoas que exigiram anonimato para falarem, é tudo que se sabe sobre eles. No mais, a Reuters conseguiu críticas muito tímidas contra a Tesla de duas consultorias, a J.D. Power e a Morningstar. Nada comprometedor.
A Tesla, ao decidir lançar um modelo popular com motorização elétrica, está afrontando duas indústrias poderosíssimas: a de veículos e a de petróleo. Para essa última, o projeto da Tesla é uma ameaça quase fatal. Se os carros elétricos – que também já estão sendo fabricados por marcas tradicionais – crescerem no mercado, a indústria do petróleo vai sofrer um impacto sem precedentes. Isso tenderia a desequilibrar um mercado vigoroso e a maior estrutura logística do mundo, que faz a distribuição de petróleo e derivados.
Por outro lado, agrupando consumidores de combustíveis fósseis por determinado critério, em primeiro lugar estaria a frota militar americana, espalhada pelo mundo todo, em terra, ar e água. Se a eficiência da indústria do petróleo for comprometida por uma brusca redução do mercado, objetivos estratégicos estariam sendo ameaçados.
Afinal, a ideia de que aviões de guerra e carros de combate sejam movidos a eletricidade, parece algo distante, levando em conta a potência que alcançam esses motores. Ademais, fica difícil pensar em tanques de guerra, no deserto, ligados em tomadas por algumas horas, até recarregarem as baterias. Nada indica que as linhas inimigas dariam trégua aos batalhões tecnológicos.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O BITCOIN VAI ENTRAR NO JOGO


Bitcoin é uma palavra que hoje lembra dois excessos: muito dinheiro e muita dúvida. No último mês de agosto um artigo deste blog chamava a atenção para a oportunidade de ganhar muito dinheiro “nos próximos meses” com as moedas virtuais, ou criptomoedas, nome mais em moda no momento. Não deu outra. Elas estão valorizando até hoje e, nas próximas semanas, podem dar outro salto. É quando devem ser lançados os contratos futuros de bitcoins na CME, a Bolsa de Mercadorias de Chicago, a maior do gênero no mundo. Isso vai fazer os bitcoins ganharem um novo status no mercado e então... mais dúvidas.
Só neste ano o valor do bitcoin, até agora, multiplicou por 10. Nenhum outro tipo de investimento teve um desempenho próximo a isso. E sabe qual o motivo dessa valorização? Eis aí uma grande dúvida. Ninguém sabe dizer exatamente.
Quem atua no mercado financeiro sabe que, para avaliar um investimento qualquer, existem dois tipos de análises: a análise de fundamentos e a técnica. No caso de uma ação, os fundamentos são os lucros ou prejuízos da empresa, a variação do patrimônio, como está crescendo o ramo em que ela atua (remédios, alimentos, petróleo, metalurgia, etc), esses dados mais concretos do negócio. Atualmente, qual seria um fundamento para analisar o bitcoin? Praticamente não existe.
A análise técnica simplesmente reflete o histórico das reações do mercado. Por exemplo, no histórico das grandes bolsas do mundo, talvez nunca um tipo de investimento qualquer tenha engatado tantas altas seguidas como os bitcoins. Mas os bitcoins nunca foram negociados em bolsas. Vão “debutar” em Chicago, só então vão entrar no mercado pra valer. A alta prevista de imediato deve ser consequência do grande número de investidores que tendem a experimentar o novo negócio da bolsa. O que eles vão achar e como vão reagir é o que deve selar o futuro das criptomoedas.

O MERCADO, ESSE GRANDE CASSINO

Como os investimentos em geral, bitcoin é algo que a maioria das pessoas não sabe como funciona. Mas alguém em quem você confia, como o gerente do banco, num belo dia liga e diz: “- O swap de câmbio tá bombando! Acho que vale investir um dinheiro nisso.” E lá está você, com o seu nome na clearing da BM&F, como investidor em contratos. No fim do mês é creditado um dinheiro na sua conta e você comemora o tal do swap de câmbio, que continua um completo desconhecido.
As bolsas, na prática, são um grande cassino, um balcão de apostas. A diferença é que elas mantêm sistemas de negociação que tornam muito seguro o recebimento do prêmio para quem apostou certo.
Por exemplo, os contratos futuros, na prática, são apostas baseadas em preços imprevisíveis, como os das commodities, matérias primas negociadas em grandes quantidades. O café, por exemplo. Ou o boi gordo, ouro, minério de ferro, soja, açúcar e muitos outros. O investidor pode escolher a commodity e de que lado ele quer apostar. Pode entrar “comprado” ou “vendido”.
Quem entra do lado “comprado” aposta na alta e, quando o preço sobe, recebe a diferença. Se o preço cair, ele paga a diferença para a outra parte do contrato, o “vendido”. O “vendido” é quem apostou na queda do preço, por isso recebe a diferença quando o preço cai e paga para a parte comprada quando o preço sobe.
Por isso, valores que tendem a manter estabilidade não interessam para as bolsas. Elas vivem das oscilações, das surpresas que este ou aquele valor pode trazer durante a semana. Simples assim. A moça do tempo disse que vem uma frente fria para o sul de Minas Gerais – a maior região produtora de café do mundo – e “pode” gear. A cotação do preço futuro do café sobe. Na outra semana, o instituto de meteorologia informa que a geada acabou não acontecendo, o preço futuro do café cai. Para o mercado do café o clima é um fundamento. Os relatórios sobre estoques do produto são outro, entre vários fundamentos.
A análise técnica, fica focada no histórico do comportamento do mercado, no “humor” dos negócios. Ela pode fazer o preço variar por motivos que não tem nada a ver com o mercado daquela commodity. Por exemplo, se o preço futuro do café já subiu vários dias seguidos, a tendência é de que as posições compradas sejam muito negociadas, porque os donos dessas posições querem fazer lucros dessa alta. Não mudou nada nas fazendas, nem nas torrefações ou no varejo do café. Mas o aumento da oferta de contratos comprados de café fez os preços futuros caírem, sem nenhum motivo real para isso. É aposta ou não é!?
Num jogo desse tipo, algo tão imprevisível como bitcoin cai como um ás de ouro numa mesa de baralho.

AGORA VAI SER COM OS GRANDES

Nessa primeira década de existência do bitcoin ele está valorizando por vários supostos motivos. Ninguém pode afirmar exatamente por quê o mercado está reagindo assim. Mas um dos motivos deve ser a confirmação da segurança do sistema. Um bitcoin – ou uma outra criptomoeda qualquer – é um par de chaves de criptografia. Uma chave de criptografia é somente uma sequência aleatória de algarismos. No caso dessas moedas, uma é a chave pública, que qualquer um pode ver. A outra é a respectiva chave privada. Essa só o dono sabe qual é.
O algoritmo que criou esse sistema é baseado em blockchains, que são redes p2p de computadores, formadas por quem baixa o aplicativo. As pessoas que estão nos “nós” dessa rede são escolhidas aleatoriamente pelo sistema para checar operações que acontecem com a moeda no mundo. É o próprio sistema que também faz a distribuição das operações a serem conferidas. Por isso não tem como disseminar um vírus ou trojans que infestem toda a rede. Até porque cada nó é trocado periodicamente, é gente que entra e que sai. Uma criptomoeda é, portanto, uma “coisa” que ninguém tem igual e pode ter a autenticidade comprovada por um sistema.
Registros recentes dão conta de que existem mais de 1.300 criptomoedas no mundo, o bitcoin é só a mais famosa entre elas. E mesmo com tantas delas, o valor total que elas somam ainda é muito pequeno, perto dos outros investimentos mais tradicionais. Praticamente só pequenos investidores, pessoas físicas, negociam essas moedas em pequenas corretoras. Uma fração mínima dos investimentos no mercado de ações, se migrar para as moedas virtuais, vai representar um salto expressivo nas cotações.
Por isso, toda essa expectativa! Ao entrar no mercado, sendo negociado na Bolsa de Chicago, o bitcoin passa a ter uma garantia aceita universalmente. Vai aparecer num portfólio que circula entre grandes investidores. O que eles vão achar disso, só o tempo dirá. Muita gente prevê que o bitcoin deve valorizar até formar uma bolha de mercado, um valor superestimado. Mas ninguém arrisca dizer quando isso pode acontecer. Pode ser em um mês, ou demorar anos.
Por enquanto, o aumento do valor do bitcoin não pode ser analisado do ponto de vista mercadológico, ou seja, é o aumento da procura por pequenos investidores que faz a cotação variar. O “fundamento” que começa a permitir uma análise mais objetiva é a aceitação pelo mercado. No Japão já é uma moeda aceita no comércio. Entrando na Bolsa de Chicago, fica mais negociável. O Amazon.com dá sinais de que vai passar a aceitar o bitcoin. Tudo isso começa a trazer fundamentos mais sólidos para esse mercado das moedas virtuais.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PRIVACIDADE, SEU AVATAR VULNERÁVEL NA INTERNET

PRIVACIDADE, SEU AVATAR VULNERÁVEL NA INTERNET

case é antigo, mas reaparece vez por outra, para ilustrar lições de marketing de relacionamento. É aquele do sujeito que ligou para a pizzaria e foi atendido pelo nome. A simpática mocinha, que olhava no cadastro, puxado pelo número do telefone, já sabia também as pizzas que o cliente mais pede. Aproveitou para citar a que estava em promoção. Cliente contente, então ela sugere uma sobremesa, que melhorou o ticket para a pizzaria.
Um exemplo bem acadêmico para quem estuda marketing, mas preocupante para quem investiga crimes cibernéticos. Dados de clientes vagam entre sistemas, que podem se conectar a big datas, ficam circulando. É uma parte de você passeando tranquilamente num “condomínio virtual” aparentemente seguro, mas na mira de bandidos engenhosos.
“-Ora, que risco eu corro se alguém descobrir a pizza da minha preferência? Meus cadastros são superficiais, dessas coisas que a gente usa sempre.” Sim, coisas do cotidiano, como um táxi, por exemplo.
Pois é, os hackers que entraram no sistema do Uber podem ter encontrado seu nome, endereço de e-mail e número de telefone. Eles conseguiram esses dados de 50 milhões de usuários do aplicativo pelo mundo. Roubaram mais informações ainda de outros 7 milhões de condutores que prestam serviços pelo Uber. De 600 mil desses, os hackers conseguiram até o número da carteira de motorista. Essa é só a notícia ruim, porque a notícia pior é de que isso aconteceu há um ano. A empresa escondeu até esta semana.
No dia seguinte à divulgação, procuradores dos estados americanos de Nova York e Connecticut já foram à Justiça contra a Uber. Representantes de governos de alguns países, como Inglaterra e Austrália, também estão procurando caminhos para fazerem a mesma coisa.
Sofrer um ataque cibernético é algo a que todas as empresas estão sujeitas. Porém, esconder o fato dos clientes, é quase uma sutil conivência com os criminosos. No caso da Uber, o bode expiatório foi o Diretor de Segurança, Joe Sullivan, já demitido. Ele teria pago US$ 100 mil aos hackers, que prometeram apagar tudinho. Possivelmente, foi no rastro dessa contabilidade que o comando da empresa chegou até o fato.

 SOLUÇÕES MÁGICAS, CONSEQUÊNCIAS MÁGICAS

A gente nem sempre se dá conta de quão invasivas – ou pelo menos vulneráveis – são algumas relações comerciais do nosso dia a dia. Num táxi, os riscos de lado a lado são consideráveis. Do lado do cliente, muitas vezes ele não tem qualquer referencia sobre o condutor. Eis que surge a Uber para cadastrar perfis e reunir avaliações de milhares de clientes. O condutor também se beneficia por ter a certeza de estar atendendo clientes rastreáveis.
Tudo parecia tão perfeito até que os hackers resolveram mostrar que “se a parada é cibernética, tem nóis na fita”. O criminoso do Século XXI fez surgir a saudade do bom e velho taxista.
A Uber garante que não foram acessados dados de cartões de crédito de clientes nem rotas de viagens ou outros dados mais sensíveis. E se foram? E se forem, algum dia?
Serviços que eram sediados em bairros, do dia para a noite surgem em escala global, deixando tudo por conta dos poderosos algoritmos que habitam o mundo digital. Foi assim no caso do Netflix, que acabou com as locadoras de vídeo; está sendo assim com o Uber engolindo empresas de táxis; com o WhatsApp, quebrando as concessões bilionárias pagas por empresas de telefonia. Muitos outros modelos de negócios, baseados na Internet, representam forte concorrência, quando não a sumária substituição de serviços tradicionais.
Agora, até a TV aberta pode deixar os telespectadores mais antenados com questões de segurança. Com o Next Gen TV, ou ATSC 3.0, tecnicamente falando, a privacidade do sofá entra em cheque. Nada que possa devassar o que acontece quando seu filho adolescente assiste à sessão coruja com a namorada. Mas os horários em que a TV é ligada, os canais e programas preferidos e outros dados que a TV a cabo já coleciona, sobre esse seu lazer tão íntimo. Com a diferença de que não há um contrato firmado entre as partes.
O ATSC 3.0 é a terceira geração de TV digital aberta dos Estados Unidos. Vai ser testado a partir de fevereiro próximo, nos Jogos de Inverno da Coreia do Sul. No regulamento proposto pela FCC – a “Anatel” americana – as mais de 100 páginas não trazem a palavra “privacidade” uma única vez.

RISCOS INSONDÁVEIS

A questão do crime na Rede tende a se banalizar. Pois ninguém fala em solução para esse tipo de problema. Assim como todas as outras questões de segurança, no mundo cibernético sempre haverá pontos frágeis e também descuidos. O problema maior é que não dá pra imaginar quando uma ação do usuário pode representar “uma janela aberta”, uma “porta destrancada” ou mesmo a “chave esquecida no contato”. A arquitetura desse planeta digital não é visível para a grande maioria das pessoas. 
Outras particularidades do crime na Internet também precisam ser consideradas. Por exemplo, o planejamento. Quem assistiu aos filmes “11 Homens e Um Segredo”, “Golpe de Mestre” ou qualquer das edições de “Missão Impossível”, viveu grande suspense nos momentos da execução tão ousada das ações. O planejamento era apenas curioso. Já no mundo cibernético, depois de planejado o crime é executado sem qualquer suspense, de um lugar qualquer do planeta. Um crime cibernético planejado é praticamente um crime consumado. Toda a violência é psicológica, não necessariamente menos hostil. 
Portanto, o crime cibernético nem exige muita ousadia, mas inteligência, conhecimento, especialização. Foi assim que os “bandígitos” – ou bandidos digitais – atentaram para o valor que reúne o cadastro da Uber. E depois urdiram a invasão.
Outra coisa que tem sido observada com preocupação é a interconexão que está se formando em torno desses crimes. Da mesma forma que sempre aconteceu com os crimes mais comuns. Um sujeito arromba e furta um carro de luxo, do ano, para vender por menos de R$ 5 mil. Quem compra é alguém que vai adulterar o chassis e vender por R$ 10 mil para outro que vai fraudar toda a documentação. E assim vai até que o carro vai aparecer numa agência de usados, para ser vendido a preço de mercado.
O roubo de dados de cartões de crédito já tem quadrilhas prontas para comprar e usa-los das maneiras mais inesperadas. Os dados dos 57 milhões de usuários e condutores do Uber poderiam ter sido adquiridos por criminosos interessados em filtrar nomes “sequestráveis”, ou até de interesses de grupos terroristas.
Não é o caso de ficar aqui conjeturando a respeito de negócios criminosos, pois isso só pode alarmar mais ainda as pessoas. Mas a projeção para o futuro leva a crer que o crime via Internet tende a ser mais ameaçador do que os ilícitos penais tradicionais.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

PERDIDO NO ESPAÇO EM VERSÃO BRASILEIRA



O “funcionário fantasma” é uma figura bem popular no Brasil, já virou até personagem de série de TV. Ele consome recursos do erário público mas sequer comparece para prestar nenhum serviço à nação. É mais ou menos a condição atual do SGDC – que não são as iniciais de algum implicado num processo em segredo de justiça, mas do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação.
É o primeiro satélite operado 100% pelo Brasil, o primeiro “cidadão brasileiro” em órbita, que chega ao espaço trazendo esses maus hábitos da troposfera. A “posse” foi no início do último mês de maio, quando foi lançado pelo foguete Ariane 5. O investimento de R$ 2,8 bilhões foi literalmente para o espaço, porque a maior parte da infraestrutura em terra para receber o sinal não existe.
Essa situação criada na Telebrás, como as mazelas em geral dos órgãos públicos, é fruto da falta de planejamento e de contingências políticas. O SGDC foi concebido no final do Governo Lula para ser um servidor público, autêntico “barnabé”, como se diz no jargão sindical. O sobrenome “Defesa” se deve aos serviços a serem prestados às forças armadas, para a vigilância das fronteiras, dentre outros. E o “Comunicação” descende do compromisso de levar banda larga de qualidade para milhares de escolas, ao SUS de todo o país e para pequenos provedores, que se incumbiriam de distribuir o sinal ao cidadão comum nos mais distantes rincões.
Com esse projeto o satélite foi construído na França, tendo a participação de pesquisadores brasileiros, para transferência de tecnologia. Quando foi lançado, no entanto, o governo já tinha mudado. Outro discurso, outro orçamento e o nosso cidadão celeste há quase 40 mil quilômetros de Brasília, em rota vertical.
A estratégia inicial era custear a operação terrestre com grandes clientes do Governo, como o Dataprev, que têm contratos milionários com operadoras privadas. Passariam a pagar menos e para o próprio governo. Com as mudanças políticas, os gestores mais identificados com outras correntes ideológicas, quiseram disponibilizar a capacidade do satélite para as operadoras privadas de telefonia móvel. Prepararam um leilão, foi feito um roadshow prévio passando por vários países, mas no dia de bater o martelo não apareceu um único interessado. O problema é que a maior parte do prejuízo ainda está por vir.

O QUE É QUE HOUVE, O QUE É QUE HÁ

É difícil entender todos os motivos que levaram as operadoras a desprezarem o leilão. A falta de definições claras no PNBL – Plano Nacional de Banda Larga, o projeto do satélite para cobrir totalmente o imenso território brasileiro, estão entre as razões. Mas o custo da banda larga pela banda Ka – em que o satélite opera – pode ser até dez vezes menor. Esse seria apenas um dos bons motivos para os clientes se interessarem.
Na esfera privada o satélite pode ampliar muito a demanda por banda larga no agronegócio, vai viabilizar padrões de conectividade até agora inacessíveis para pequenas empresas. Se você fosse dono de uma operadora móvel, desprezaria esses mercados? É daí que surge a hipótese de que a ausência no leilão pode ter sido uma decisão cartelizada. As empresas estariam colocando o governo sob maior pressão, para que condições mais favoráveis lhes fossem oferecidas.
Tem ainda o outro lado da moeda. Os vários interesses entranhados na administração pública podem ter encontrado resistência de empresas que estão lucrando com a precariedade das nossas telecomunicações. Por isso estariam pressionando internamente para que as condições apresentadas no edital fossem tão restritivas.
Enquanto isso, o servidor brasileiro mais remoto custa muito caro para atender apenas as forças armadas (pela banda X, capacidade totalmente dedicada ao Ministério da Defesa). E já tem data para aposentadoria: 18 anos, que corresponde à vida útil do satélite.
Para tentar resolver o impasse, o Presidente da Telebrás, Maximiliano Martinhão, já fala na possibilidade de alugar equipamentos para implantar a infraestrutura terrestre e vender a capacidade no atacado. Ou até em oferecer diretamente no varejo, se ninguém se habilitar para tal. Essa é a parte que mais assusta. Porque ficaríamos sem as imensas vantagens para os serviços públicos em locais remotos ou periféricos e ainda ganharíamos mais uma legião de funcionários fantasmas no novo setor da estatal.
Não se trata de pessimismo. O fato é que o Ministério do Planejamento criou um índice de governança para classificar as empresas públicas nacionais quanto à
Gestão, Controle e Auditoria; Transparência; e qualidade técnica dos Conselhos, Comitês e Diretoria. Nesse caso, a Telebrás não está nas alturas. Pelo contrário, teve o pior nível de classificação.

QUANTO VALE?

O SGDC, como muitos projetos brasileiros, custou bem além do previsto. Dos R$ 1,1 bilhão estimados inicialmente, saltou para R$ 2,8 bilhões até agora. Mas o verdadeiro valor dele para o país é inestimável. Só a aplicação de defesa, que não estaria atrasada, pode valer todo o investimento, uma vez que ninguém sabe quantos problemas existem nas fronteiras e podem ser agora equacionados. Previsões de fenômenos extremos, apoio à saúde, drástica redução nos gastos públicos, prestação de mais e melhores serviços, quanto podem valer. Afinal, estamos num país onde, até geograficamente, só olhamos para o próprio umbigo. A maior parte do nosso corpo territorial não é visível para os gestores públicos.
As grandes concessionárias de serviços de telecomunicações já entenderam a lógica governamental. E usam em favor próprio. A Telefônica está prestes a receber um generoso presente por não ter atendido à padrões de qualidade. Isso mesmo! Está fazendo um acordo com a Anatel para converter as multas que teria de pagar, em investimentos para cumprir os serviços que prometeu aos clientes. Um Termo de Ajuste de Conduta está sendo negociado. Deveria impor prazos para o cumprimento de metas de qualidade, mas até agora nem foi apresentado de forma transparente.
A Anatel estaria exigindo investimentos da Telefônica em conectividade nas “áreas com completa carência de infraestrutura”. A Abrint – Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações, teme que a companhia invista em áreas onde já existe alguma infraestrutura, que é justamente onde atuam os pequenos provedores regionais . No início desta semana a entidade pediu publicamente que a Anatel divulgue a classificação das áreas incluídas no TAC, para que a Telefônica não use da oportunidade apenas para expandir seus negócios.
O apoio quase maternal à recuperação da Oi é outro sinal de que a agência está de joelhos diante das operadoras. E elas sabem disso. Mais uma vez estamos à espera de que uma solução dos céus chegue até nós.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

HUMANISMO E HUMANADAS NO CIRCO HI-TECH


Se você não tem uma resposta para a seguinte questão, pergunte a um comediante: “-O que leva uma pessoa a passar uma noite fria de outono na rua, em Nova York, esperando abrir a loja da Apple para comprar um iPhone X?” A resposta dele deve ser engraçada. Mas se você quiser uma resposta mais divertida e criativa, talvez o melhor seja perguntar a um psicólogo freudiano.
Não que os psicólogos sejam palhaços, é o comportamento humano que está ficando mais engraçado. Ou mais triste, para os pessimistas. Com certeza, está mais verdadeiro, na medida em que a gente se conhece mais. São halter egos ocultos que representamos, num faz-de-conta tosco em que o mundo virtual nos recebe. Nos videogames, por exemplo, já fugimos do Pacman, passamos pela ingenuidade do Super Mario Bross, pela crueldade de lutadores monstruosos, até pela habilidade do Neymar. Atitudes estranhas? Faz tempo, mas você já riu de alguém falando alto e gesticulando na rua só para mostrar que está ao telefone celular. Se é que não foi você o próprio personagem.
Para quem presta atenção, as redes sociais sempre trazem novidades sobre o comportamento humano, que também inclui “humanadas”. Ou, o humano em manada. Faz parte do ser social, inteligente ou não. Na Internet, o efeito surge da combinação de extremos, onde se tem a máxima privacidade da sua tela, para interagir em meio a uma mega manada.
Isso leva muito além do frio na quinta avenida, dos US$ 999,00 pagos pelo iPhone X, ou dos US$ 250,00 que uma brasileira pagou só por um lugar na fila. Chega aos tomógrafos parados na manutenção ou na linha de fabricação, por falta de memórias digitais.
Lenda cibernética ou não, é o que corre na “rádio peão” dos varejistas do setor. A demanda da Apple e consequente reação dos concorrentes enxugou a oferta de memórias digitais utilizadas para fabricar uma infinidade de outros aparelhos digitalizados. Fala-se que a mordida da maçã, desta vez, chegou a 100 milhões de iPhones X para inundar o mercado. As cotações das ações da empresa na Nasdaq subiram a ponto de aproximar o valor total da Apple ao estratosférico US$ 1 trilhão. “Vox Populi, vox Market”.

CIÊNCIA COM FRONTEIRAS

Pode ser folclore, mas a verdade é que hoje, de fato, faltam memórias digitais para fábricas dos mais diversos segmentos. E é aí onde outra realidade humana se revela.
A fabricação de memórias e outros componentes digitais está altamente centralizada. Muitos desses endereços estão na Ásia. A geopolítica da alta tecnologia está setorizando a produção dos componentes mais sofisticados.
Possivelmente pelo fato de que as instalações industriais para produzir esses componentes são extremamente caras. Isso leva à necessidade de produção em escala global para fazer frente aos custos de fabricação. Por exemplo, todas as telas que disputam as atenções dos seus olhos são fabricadas na Ásia. Do celular ao wallTV, aquela do elevador, a tela de propaganda no vagão do metrô ou do ônibus. Resultado de uma política de estado adotada pelo Governo Japonês nos anos 70, que apostou nas telas LCDs e similares.
A geopolítica da alta tecnologia também tem razões menos nobres. Além da mão de obra mais qualificada, tem que ser mais barata e bem comportada. Nações com tensões trabalhistas mais frequentes representam um risco em cadeia. Tanto faz se essa estabilidade se sustenta em relações de trabalho mais justas ou se vai na base da pressão governamental, como se vê na China.
Aliás, a fábrica de memórias que está abastecendo a Apple e desabastecendo as outras indústrias fica na China. Na década passada, por conta dessa mesma centralização, um incêndio em uma fábrica chinesa de componentes de alto valor agregado impactou os custos de toda a indústria de bens digitalizados.
O Brasil faz parte dessa cadeia. Porém, pela grande oferta de mão de obra barata. Grandes marcas de celulares enviam componentes para fábricas no Brasil, para serem montadas dentro do aparelho. Mais ou menos como se “fabrica” televisores na Zona Franca de Manaus. Passa pelos dedos ágeis de operárias e operários brasileiros e recebe a pequena inscrição “Made in Brazil”. E assim marcamos presença na indústria do futuro, ainda que o Governo Federal tenha reduzido pela metade os investimentos em tecnologia, neste ano e para 2018. E agora, o que é mais contraditório? As prioridades orçamentárias do Governo ou a fila do iPhone X?

EM BUSCA DE SOLUÇÕES

São essas contradições nacionais que não se ajustam à lógica de um mundo em que inovar e produzir convergem para o mesmo significado. Hoje produzimos, amanhã estamos projetando e, depois de amanhã, a sorte está lançada. Quem inovar mais fica com as fichas da mesa.
O ritmo das mudanças está pautando a economia. Lembra quando carro de rico era Mercedes? Televisão de ponta já foi Telefunken, relógio moderno era japonês e até celular era monopolizado pela marca Motorola. Tudo isso mudou. Por quanto tempo o Windows será o sistema operacional dominante? A grande questão nem é o que vai cair, mas sim o que virá para ocupar os novos lugares.
O Brasil está a 25 anos de se tornar uma das nações mais poderosas do mundo. Assim como estão todos os outros países, uma vez que esse tempo é suficiente para investir na Educação – o que inclui Ciência e Tecnologia – e formar uma geração de cérebros inovadores.
Como essa “fórmula científica” é conhecida há muito tempo e repetida insistentemente, a prática que nunca aconteceu pode começar agora pelo mundo virtual. Quem sabe pela experiência acumulada em jogos como o Simcity, onde o jogador assume o papel de construtor e gestor de uma cidade. Ou mesmo utilizando a inteligência artificial, como um grupo brasileiro fez para acompanhar as contas de deputados federais.
Eles desenvolveram um robô que acompanha os reembolsos que a Câmara faz aos seus integrantes, mediante apresentação de notas fiscais de despesas individuais. Com base em vários bancos de dados que “instruem” a verificação, o software separa as notas fiscais suspeitas, tipo tapioca que custa R$ 250,00. Depois, as mais suspeitas são analisadas por auditores humanos. As irregularidades encontradas somam quantias estarrecedoras. Mais impressionantes ainda são as explicações dos deputados.
Não é preciso muita inteligência para fazer melhor pelo país. Um robô mais eficiente até que poderia ser candidato em 2018. O marqueteiro da campanha provavelmente mudaria o nome para bot, já que foneticamente “robô” é muito associado aos políticos mais tradicionais.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

AS HORAS DA LEI E OS MINUTOS DA TECNOLOGIA


Fim de ano vem chegando e muita gente já está organizando as Festas. São famílias escolhendo a casa onde vai ser o Natal, são turmas decidindo se vai ser praia ou campo e cada um calculando se vai ser no cartão ou do décimo terceiro. A questão é que, independente do que ficar resolvido, no dia 25 de dezembro vai ser Natal e no dia 31, o Réveillon.
As famílias, as turmas, todo mundo sabe disso. O tempo passa e as coisas acontecem. Para acontecerem do jeito que queremos, devemos nos ajustar ao tempo.
Essa sensibilidade quanto ao poder do tempo ainda não se nota na política de vários países, caso também do Brasil: “-Ah, isso aí a gente precisa ver como vai ficar.” Pode ter funcionado durante um tempo, mas no atual ritmo das mudanças tecnológicas não pode ser.
A Lei do SeAC, que regulamenta os serviços de TV por assinatura, não vai mais exigir a chamada “caixa híbrida” no DTH, que permitiria sintonizar tanto o sinal do satélite quanto o da TV aberta. Ou melhor, na verdade isso nunca foi uma exigência, mas fazia parte de uma proposta de 2014, que jamais chegou a ser colocada em prática.
O DTH, ou TV por assinatura tipo Sky, sintonizada com aquela pequena antena parabólica que fica do lado de fora da casa, trafega o sinal por satélite. Não dispõe de banda suficiente para colocar todas as emissoras locais disponíveis pela caixa (set-top box) da operadora em cada cidade. Como as operadoras não abrem mão de oferecer a emissora Globo local (por exemplo, a TV Anhanguera, em Goiânia – GO) então, pela lei, teriam de oferecer todas as outras emissoras locais. Diante dessa limitação técnica a solução seria ter numa mesma caixa – na prática, num único controle remoto – a sintonia dos canais por assinatura e a sintonia dos canais abertos que seriam recebidos por uma segunda antena, do tipo UHF.
Mas isso poderia ser importante em 2014. Até o final deste ano a maioria da população brasileira – que mora nos grandes centros ou arredores – já vai ter sinal digital de TV aberta, que é regulado por uma outra lei, com outras bases. A maioria dos televisores oferecidos no comércio já tem mais de uma entrada, o que também facilitaria a sintonia dos canais abertos. Mesmo assim a Anatel está rediscutindo a questão e um conselheiro já pediu vistas do processo.
Esse tipo de procrastinação está empacando outras importantes questões no Brasil.

O TEMPO E O ESPAÇO

As agências reguladoras, como Anatel, Aneel e muitas outras, surgiram de um modelo voltado para agilizar decisões legais num mundo em constante transformação comercial e tecnológica. Nesta semana a Anatel comemorou 20 anos de existência. A oportunidade comemorativa serviu para algumas avaliações históricas sobre o papel da agência. A repercussão dos discursos traz a impressão de que a Anatel ainda vive uma crise existencial. Ora os agentes políticos invadem o espaço de atuação da agência, ora atiram no colo dela decisões que não lhe cabem.
O tema em discussão na Anatel mais polêmico no momento é o PNBL, o Plano Nacional de Banda Larga. As ingerências políticas, as guinadas orçamentárias, vão atrasando as decisões e o tal Plano não sai. Os reflexos desse vazio são os mais diversos. Por exemplo, o fracasso do leilão do SGDC – Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações. Foi nesta semana e nenhuma empresa apresentou proposta para contratar alguma parte da capacidade do satélite. De acordo com um levantamento feito pela Convergecom, potenciais interessados disseram que não poderiam aceitar as cláusulas do contrato antes de saberem o que o PNBL vai exigir como serviços obrigatórios.
Até o projeto técnico que o Governo impôs ao satélite estaria dimensionado de forma equivocada. Com tudo isso, um projeto de R$ 2,8 bilhões não vai para o espaço, fica aqui, respirando oxigênio. Pra outro “espaço” vai o investimento. Sem nenhum interessado que pudesse amortizar esse custo e sem prestar nenhum serviço ao cidadão brasileiro, perde-se o tempo e o dinheiro dedicados.
Quem quer contar com a participação da iniciativa privada precisa saber como as empresas poderão explorar comercialmente o empreendimento. Não adianta construir um satélite com todos os requintes tecnológicos, sem saber como ele pode oferecer caminhos rentáveis para quem vai pagar. É aí onde a Anatel, como órgão técnico, teria um papel fundamental. Mas ela está estudando assuntos como a caixinha do DTH, uma tecnologia muito mais volúvel do que um satélite e que vai impactar apenas um reduzido conjunto de pessoas, que são os assinantes de TV pagas. Normas que não chegam para uma tecnologia que está passando.

PELAS RUAS DA CIDADE

Tudo isso acontece num momento em que todas as camadas da população acompanham atentamente o impacto de outra tecnologia: os aplicativos para transporte tipo Uber, 99 e Cabify, dentre outros.
O PLC 28/2017 já tinha passado na Câmara dos Deputados num formato que sufocaria a economia dos aplicativos. O Senado, de forma surpreendente, deixou às prefeituras municipais apenas a prerrogativa de investigar, e não a de autorizar ou impedir. Derrubou também a exigência de placa vermelha e flexibilizou outras regras proibitivas aprovadas na Câmara. Avançou no interesse público, deixando de lado o meramente corporativo.
Com a aprovação dessas alterações o projeto vai voltar a ser discutido na Câmara. O grupo conservador – sim, conservador, do ponto de vista semântico e não na tradição retórica – está preocupado com o dinheiro que os aplicativos internacionais ganham aqui. Mas está desprezando o dinheiro que fazem circular, a geração de renda mais distribuída e principalmente, os benefícios de custos e maior oferta de serviços para a população.
Os serviços tradicionais de taxis tiveram de ser tão regulamentados porque, quando surgiram, havia muito menos carros no mundo, como também no Brasil. Não havia qualquer possibilidade comparável de controle de rotas, de qualidade de serviços, de valores. Uma vez que tudo isso passou a ser resolvido, é natural que os taxis percam espaço, pela relativa obsolescência que representam.
Parece difícil que, na Câmara Federal, os avanços do Senado refluam neste caso. Se acontecer, desde já podem se preparar para o surgimento de serviços precários via aplicativos clandestinos. É algo do tipo que esse conservadorismo exalta. Aplaudiram e defenderam a clandestinidade das “peruas” que concorriam com os ônibus urbanos. Anos depois regulamentaram esses serviços, de forma a torna-los mais caros e de menor qualidade. Afagam a clandestinidade dos ônibus intermunicipais e interestaduais, “alternativa para os pobres que não podem pagar”. E sempre mantiveram relativa simbiose com o comércio informal, também clandestino.
Não parece desejável reverenciar nossas limitações, propondo uma igualdade expandida pela base. Ou nossas leis estarão baseadas na capacidade de avançarmos, de sermos competitivos na criação e implementação de novas soluções, ou vamos ser apenas um obstáculo desprezível a mais no caminho dos que ousarem escrever a história.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

PROTAGONISTAS E FIGURANTES NA NOVA ERA


Um fundo de estrelas fixas sobre o qual se movimentam o sol, a lua e outras cinco “estrelas errantes”. Com base neste cenário, há mais de 6.000 anos a Astrologia tenta prever o futuro, entender as pessoas e sugerir atitudes. Do outro lado da verdade estão milhares de estudiosos, satélites, supercomputadores e aparelhos sofisticados para prever apenas quando e quanto vai chover. Tudo que os dois conseguiram até hoje foi um pequeno box para cada um em alguma página dos jornais.
Esses dois esforços futuristas só nos convenceram de que previsões servem, antes de mais nada, para influenciar. E também para gerar explicações, depois que não se confirmam.
Alguns fatos deste mês de outubro, num intervalo de pouco mais de dez dias, guardam uma relação sugestiva, com ares de presságios. Um prato cheio para previsões ou, no mínimo, especulações qualificadas.
Começando de trás pra frente, pela campanha “Milhões de Uns”, da Rede Globo. Muito oportunamente, a Direção de Negócios do grupo escolheu um período de picos de audiência para estrelar seu próprio enredo empresarial. O slogan tenta passar a ideia de que a Globo sabe mais sobre cada um, entre os “milhões de uns” que acessam suas plataformas, via TV ou mídias digitais.
Esse tipo de informação sobre a audiência tem sido exatamente o diferencial em favor das mídias digitais sobre os meios tradicionais – TV, jornais impressos, revistas, rádio. A conexão digital via Internet passa por compartilhamento de metadados, que podem conduzir a um amplo conhecimento individual da audiência.
Nesse compartilhamento os dados, obviamente em linguagem digital, ocupam seus lugares automaticamente nos diversos bancos que caracterizam cada “um”: os horários de acesso, tempo médio na plataforma, temas e formatos de preferência, palavras chaves mais usadas ou buscadas. Nos 14 milhões de acessos que as plataformas digitais do Grupo Globo recebem diariamente, obter esses dados é mole. A questão é qual o tipo de informação que a TV Globo obtém dos 100 milhões que sintonizam diariamente a programação de TV. Mesmo com sinal digital o broadcast (TV aberta) é uma modalidade de transmissão que não tem canal de retorno.
Porém, quem quiser pagar pra ver, se prepare para dobrar a aposta. Pois o Grupo Globo quer compartilhar as informações que tem e vai fazer isso em eventos específicos a partir de novembro. Sinal de que não está blefando.

TECNOLOGIAS QUE VÊM E QUE VÃO

Já existe uma solução tecnológica para obter certas informações de retorno na transmissão broadcast. É o ATSC 3.0, um sistema híbrido desenvolvido pela associação das emissoras de TV aberta dos Estados Unidos, em parceria com empresas da Coréia do Sul. Nos Jogos de Inverno que começam no próximo mês de fevereiro, na cidade coreana de PyeongChang, o sistema vai fazer a estreia global. Ele promete os poderes de rastreamento da Internet, mesmo na TV aberta.
Para o Brasil este sonho ainda está distante. Implantar aqui o ATSC 3.0 exigiria investir em mudanças mais radicais do que estamos vendo do analógico para o digital. O novo sistema primeiro tem que fazer muito sucesso nos Estados Unidos e Coréia, enfrentando comercialmente os formatos concorrentes nativos da Internet. Depois tem que confirmar essas qualidades em outros países ricos, para então ser pensado no Brasil. A EiTV já implementa tecnologias para o novo sistema, por enquanto, apenas para o mercado americano.
O impacto da Internet está abalando outras tecnologias de massa. É o caso das operadoras de telefonia móvel. Há 5 anos, era um dos negócios mais rentáveis no mundo. Os celulares já vinham evoluindo muito rapidamente. E permitiram o embarque de plataformas como o WhatsApp, totalmente baseada na Internet. O resultado é que o “telefone” celular deu espaço para a “Internet celular”. Os planos mais comercializados hoje são baseados no provimento de acesso à Rede, a telefonia móvel vem de troco. Nessa imensidão de conectados, o que viceja é o mercado de conteúdos.
Netflix, por exemplo, só pensa em crescer. Neste ano, além do tradicional sucesso com séries, produziu 8 longas metragens. E já prevê lançar outros 80 longas em 2018. Anunciou investimentos da ordem de US$ 8 bilhões em produções para programação não linear de TV, numa estratégia que aproxima também produtores de outros países. E pra não falar mais um “8”, chegou a um total de 104 milhões de assinantes da plataforma OTT. Todo esse sucesso não intimidou os concorrentes, pelo contrário, estão tomando mais fôlego para enfrentar a líder e ocupar toda tela disponível. As mais numerosas, como se sabe, são as de celulares.
Neste cenário, fica difícil para as operadoras procurarem alternativas de negócios em produção de vídeo. Para a Vivo, o conteúdo escolhido para alavancar as margens da empresa são os games. Há pouco mais de uma semana a empresa anunciou o lançamento da plataforma Vivo Games4U. Assumiu o patrocínio de uma equipe brasileira de eSports e ainda vai produzir uma websérie sobre gamers brasileiros.
Até o Governo Federal está engajado no mercado de games e eSports. O Recine, um regime tributário especial, que incentiva investimentos na cadeia cinematográfica brasileira, agora vai valer também para os desenvolvedores nacionais de jogos eletrônicos.

O BONDE QUE NÃO PASSA MAIS

A presença crescente da Internet nas atividades humanas em geral atinge leis e regulamentos em níveis cada vez mais elevados. Na semana passada o Governo Colombiano enviou ao parlamento um projeto de lei que unifica a autoridade reguladora para Tecnologia de Informação e Comunicação, TV e Rádio. Dois órgãos reguladores atuais devem desaparecer. Vão dar lugar à Comisión de Comunicaciones, que terá como objetivos atender as "dinâmicas atuais do setor” e facilitar o “relacionamento entre os agentes, assim como entre os usuários e o Estado".
Financial Times divulgou nesta semana um vídeo sobre as estratégias governamentais para o controle de fluxo de dados. Elas passam pela exigência de uso de servidores locais e políticas de privacidade restritivas, cujo interesse principal seria novo tipo de protecionismo.
Um exemplo citado seria o provimento de peças de reposição para equipamentos de alta tecnologia. As matrizes das empresas podem disponibilizar impressoras 3D nas filiais espalhadas pelo mundo e enviar por e-mail as soluções demandadas, em arquivos para rodar as impressoras. Os governos não têm controle sobre esse fluxo e não teriam como tributar a entrada desses bens.
A Internet, portanto, mais do que a “convergência” tecnológica, está promovendo uma verdadeira “absorção” das soluções para a mundo real. Ela não apenas derruba fronteiras, como delimita novos domínios, regidos pelo conhecimento. Assim, uma nação fisicamente continental, como o Brasil, pode ser reduzida às pequenas ilhas de excelência que conseguem sobreviver ao despautério da gestão pública.
É o que se vê no caso da operadora Oi. Acumula uma dívida maior do que o orçamento de grande parte das nações da América Latina e tem 55 mil credores. Não consegue homologação para uma recuperação judicial porque não quer abrir mão do controle acionário e nem da falta de governança interna. São justamente os dois prováveis centros geradores da crise atual. Então o Governo Federal, que já apoiou muito a Oi via BNDES, resolve que vai editar medida provisória para socorrer a empresa falimentar.
É o esforço que se faz para não perder mais um bonde da história, sem perceber que o tempo não passa mais pelos trilhos do bonde.