PAIXÕES E RAZÕES NOS DESTINOS DA TECNOLOGIA


O caso teria acontecido num posto da Polícia Rodoviária Federal, numa estrada que corta uma reserva ambiental. O guarda manda parar um carro de passeio e, ao se aproximar, percebe um tatu numa espécie de gaiola, ao lado do motorista:
“-Quero ver seus documentos e os documentos do carro. E já adianto que o senhor vai ter problemas, porque tatu é um animal silvestre da fauna brasileira e não pode ser retirado do habitat natural.”
“-Seo guarda, o senhor está enganado. Esse tatu eu achei ferido há muito tempo, ele era filhote, cuidei dele e criei como animal de estimação.”
“-Sugiro que o senhor diga isso ao juiz. A lei prevê pena de prisão para quem prende animais silvestres.”
“-Ô, seo guarda, peraí! Eu posso provar, o tatu é adestrado, se eu o chamar ele vem como um cachorrinho.”
“-Que interessante...”
“-Sim, é muito interessante! Aposto que o senhor nunca viu um tatu adestrado.”
“-Meu amigo, interessante é o senhor querer que eu acredite nessa conversa. Eu estou há mais de 20 anos na beira de estrada.”
“-Que isso, seo guarda! Eu posso provar. Veja como ele me obedece.”
O motorista abriu a porta do carona e o tatu pulou como um corisco para o meio do mato. O guarda, então, achou que era a vez:
“-Muito bem! Agora chame o tatu pra gente ver se ele vem.” E o motorista, mais enfático do que nunca:
“-Tatu!? Como assim, que tatu!?”
A piada ilustra a situação de muitos consumidores que passam pelo papel do guarda. Empresas vendem produtos em grande escala, com defeitos, praticamente inacabados, depois “tiram os tatus” para quem reclama. E fica como se nada de anormal tivesse acontecido. Invertem a ordem das coisas. Primeiro recebem, entregam um rascunho do produto e só terminam de fabricar, de fato, depois de reclamações.

RICOS TAMBÉM LEVAM “MICOS”?

O “mercado de tecnologia”, nome que se dá atualmente aos produtos essencialmente digitais, já saiu com vários “tatus” em seus lançamentos. Mais conhecidos como bugs, os tatus desapareciam rapidamente da vista dos encantados clientes, depois do atendimento do suporte. Foi assim nas primeiras versões do Windows, que prometiam recursos surpreendentes para aqueles tempos, mas que a imensa maioria dos usuários sequer acessava. Quem tentava, encontrava o tatu. Mas eram tão poucos reclamantes que o suporte dava conta de fazer os arremates ao longo do tempo. O dinheiro já estava no caixa e assim tudo fica bem mais simples.
É um paradigma que vem do século passado. Desde o tempo em que o Japão começou a vender relógios, rádios de pilha e outros eletrônicos populares. Nos Anos 70 eram considerados produtos inferiores, mas o preço baixo tornava acessível o sonho de consumo, o tal rascunho pelo menos anestesiava o desejo.
Nos Anos 90 os eletrônicos japoneses já tinham outro conceito, a qualidade era inquestionável. A posição de camelô global ficou para os tigres asiáticos, como Taiwan e Coréia do Sul, que produziam em grande quantidade para vender barato. Também enriqueceram, e em pouco mais de 10 anos aprimoraram a qualidade, conquistaram um bom conceito. É mais ou menos o mesmo enredo que a China protagoniza hoje.
Até então, a estratégia funcionou para produtos virtuais – onde fica fácil para o tatu desaparecer – ou aparelhos mais populares. Ninguém imaginava que poderia chegar a itens tão sofisticados como carros de luxo. É disso que a Tesla está sendo acusada. Ou difamada, porque há pouca consistência nas dúvidas que estão sendo lançadas.
Numa matéria divulgada há alguns dias pela Agência Reuters são descritos relatos de nove funcionários demitidos recentemente. Eles dizem que “mais de 90%” dos carros que saem das linhas de produção na fábrica em Freemont – Califórnia, apresentam defeitos e precisam passar por reparos. A Tesla desmente esses números e justifica eventuais reparos por conta de seu controle de qualidade “excepcionalmente rigoroso”.
Como a Reuters tem apenas a afirmação dos demitidos, fica a palavra deles contra a da Tesla. A empresa, no entanto, tem outros argumentos fortes. Uma pesquisa do Consumer Reports apurou que 91% dos clientes da Tesla comprariam um modelo da marca novamente.
Ainda assim a matéria da Reuters aponta riscos para eventuais investidores da marca. Cita genericamente “especialistas” que colocam a sobrevivência da empresa na dependência de sua capacidade de fazer carros de alta qualidade em grande quantidade.
A Tesla só fabrica veículos elétricos e lançou recentemente seu primeiro modelo “popular”, com preço na faixa dos US$ 35 mil. É o Model 3 que, ao contrário dos anteriores, deve ser produzido em grande escala, para competir frente a frente com modelos das marcas mais tradicionais, que têm motorização ciclo Otto ou diesel. Até então a Tesla só tinha no mercado os modelos de luxo Model S, um sedan, e o SUV Model X, ambos produzidos em pequena escala.

UM POUCO DE TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

O mundo anda muito complicado ultimamente para fazer previsões ou formular teorias sobre o futuro. Mas a associação entre alguns fatos faz surgir certa desconfiança sobre tanta preocupação lançada contra a Tesla.
Estranhamente, a matéria da Reuters se baseia no depoimento de apenas 9 trabalhadores, para levantar imensas suspeitas contra uma empresa que conta com alto nível de aprovação por parte dos clientes. Quem seriam esses trabalhadores? Pessoas que exigiram anonimato para falarem, é tudo que se sabe sobre eles. No mais, a Reuters conseguiu críticas muito tímidas contra a Tesla de duas consultorias, a J.D. Power e a Morningstar. Nada comprometedor.
A Tesla, ao decidir lançar um modelo popular com motorização elétrica, está afrontando duas indústrias poderosíssimas: a de veículos e a de petróleo. Para essa última, o projeto da Tesla é uma ameaça quase fatal. Se os carros elétricos – que também já estão sendo fabricados por marcas tradicionais – crescerem no mercado, a indústria do petróleo vai sofrer um impacto sem precedentes. Isso tenderia a desequilibrar um mercado vigoroso e a maior estrutura logística do mundo, que faz a distribuição de petróleo e derivados.
Por outro lado, agrupando consumidores de combustíveis fósseis por determinado critério, em primeiro lugar estaria a frota militar americana, espalhada pelo mundo todo, em terra, ar e água. Se a eficiência da indústria do petróleo for comprometida por uma brusca redução do mercado, objetivos estratégicos estariam sendo ameaçados.
Afinal, a ideia de que aviões de guerra e carros de combate sejam movidos a eletricidade, parece algo distante, levando em conta a potência que alcançam esses motores. Ademais, fica difícil pensar em tanques de guerra, no deserto, ligados em tomadas por algumas horas, até recarregarem as baterias. Nada indica que as linhas inimigas dariam trégua aos batalhões tecnológicos.

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