sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A NOVA EXPERIÊNCIA EM FRENTE À TV




Agora ninguém mais esconde, a TV vai desaparecer. Ou melhor, esconde a TV porque é impossível que ela desapareça da rotina doméstica. Televisor flexível, “enrolável” (no popular), é uma tendência para esses tempos de casas menores, espaços menores. Locais que precisam ser conciliados com uma tela grande, quando é hora de conforto e prazer para olhos e ouvidos. A solução é esconder a tela quando ninguém estiver assistindo a nada. Então, enrola-se. A TV fica presa no teto e desenrola quando liga.

Outras soluções vão surgindo nessa mesma linha, como a grande tela inteiriça instalada na parede, cobrindo uma grande faixa. Pode até exibir uma imagem aqui, outra ali, como obras de arte, quadros decorativos do ambiente. Ou assumir uma cor uniforme, como se fosse apenas uma parede pintada naquela cor. Ao ligar para ver um filme basta escolher o tamanho da tela que será reservado para exibi-lo. O resto da grande tela continua apagado, colorido ou com as imagens decorativas.

Cá entre nós, esses novos conceitos parecem mais formados para gerar novas necessidades de consumo: “-Você não está incomodado com esse trambolho no meio da sua sala não!!??” “-Ué, eu nem tinha percebido, acho que até atrapalha, sim.” E o lojista esfregando as mãos à sua espera, para lhe vender um televisor novo, para substituir aquele ainda novo, que você levou nem faz tanto tempo. “Marquetismo” ou não, uma nova necessidade não dá para ser inventada sem nenhum fundamento. Algum fundo de verdade, existe. Estamos falando do lazer mais consumido no mundo. Tecnologia criando e aperfeiçoando recursos cada vez melhores, tanto de imagem como som. O consumidor fica mal acostumado, mais exigente, quando se trata daquelas horas diárias de lazer.

A tecnologia digital levou o consumidor a descobrir mais claramente o quanto ama aquela “janela fantástica”. E a engenharia de software não deixou por menos. Aquilo que já foi exclusivamente plug and play agora tem muito mais funções, fez crescer a dúvida “play o quê”? O que era televisor virou também videogame, rádio, loja de tudo, play list de produções alternativas, OTT, tem Google, Amazon Prime, Youtube, Apple TV, Netflix.... E você só ligando na hora da novela!? Que desperdício.

A solução mais bem sucedida para a desejável “gestão do lazer audiovisual” surgiu nos Estados Unidos em 2008. A Roku (“seis”, em japonês) surgiu no mercado em um pequeno set-top box, como são Chromecast e Apple TV. Uma modalidade de streaming na qual se tornou líder nos Estados Unidos, mesmo diante de concorrentes desse porte. A empresa desenvolveu novas funcionalidades, somou oito gerações de modelos, em busca de um jeito Roku de ver TV. Passou a ser integrada diretamente em televisores smart de várias marcas. Foi essa última opção que a Roku escolheu para chegar ao Brasil. 

Já disponível nas Casas Bahia, Ponto Frio e Extra, os dois modelos de televisores Roku são fabricados pela AOC. O menor tem 32 polegadas e o maior 43. No mercado brasileiro a novidade chega como um “integrador de serviços de streaming”, capaz de rastrear mais de 5 mil serviços do tipo Netflix e tantos outros. A empresa aposta no crescimento desses serviços no país, já que somos um dos maiores mercados de streaming na atualidade. Em certos casos, funciona como um “Google” de filmes e séries. O usuário coloca o nome do filme, o sistema localiza e direciona para a página de vendas do serviço. 

Especialistas brasileiros, questionados pelo site Infomoney, elogiaram a estratégia de entrada da Roku no Brasil. Começa por apresentar a marca como sendo um televisor. Mais forte do que uma caixinha (set-top box), passível de ser confundida com tantos aparelhos piratas que circulam na praça. Nesses televisores Roku o usuário pode acessar muitos outros aplicativos. O GloboPlay vai ter um botão no controle remoto, para acesso imediato. O celular também pode ser usado como controle remoto e até reproduzir todo o som da programação. Assim, com um fone de ouvido, você pode assistir a um jogo ouvindo pelo fone de ouvido, mantendo sua casa em silêncio. A TV aberta é um dos aplicativos em que o usuário pode clicar.

A Roku acredita que, com o tempo, várias outras marcas de televisores vendidos por aqui vão adotar a plataforma, disponibilizando o sistema para telas bem maiores. A meta principal, por enquanto, é fazer com que mais e mais brasileiros se acostumem a interagir com a TV através da plataforma Roku. Na medida em que isso aconteça, a tendência é de que mais fabricantes se interessem em produzir televisores com o sistema operacional da marca.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

QUE TEMPO SERÁ O FUTURO DO PRESENTE





Todo mundo é capaz de relaxar e meditar. É o que promete a Muse S, uma espécie de bandana, cheia de sensores que, fixada na cabeça, lê ondas mentais e responde com sinais eletromagnéticos, fazendo relaxar. É uma das novidades apresentadas na CES – Consumer Electronics Show, na semana passada. Outra novidade, o Motion Pillow, possivelmente não iria lhe custar nada! O travesseiro, também equipado com IA, se deforma automaticamente ao sinal de ronco, até encontrar uma posição mais confortável para você respirar. Imagine se sua esposa não te daria um desses de presente.

A CES começa todo ano com algumas “iscas” para ver onde o consumidor vai morder. Pelo menos é o que parece. A grande maioria do que ela traz enche os olhos, vira conversa, mas não vai pra casa. O Mateo, por exemplo, é um tapete de banheiro que reage ao contato mostrando o peso, dados vitais e até aponta eventuais sinais de alerta para procurar um médico. Agora, pense bem, quem gosta de saber o próprio peso todos os dias? Braços mecânicos na cozinha, para fazer receitas automaticamente, chuveiro sob comando de voz, também cortinas, um show de inutilidades curiosíssimas. Até a TV enrolável tentou, mais uma vez, enrolar o público sedento por esquisitices.

É verdade que uma parte desses engenhos pode revelar utilidade no futuro, num novo estilo de vida. No entanto, a eletrônica digital tem avançado comercialmente mais na área de entretenimento. O smartphone é muito mais um brinquedo do que um telefone móvel. Os jogos disputam o primeiro lugar nas telas de TV com as superproduções do cinema. No mais, por enquanto, parece que o povão prefere o conservadorismo doméstico.

Alguns espaços começam a se abrir para tarefas cotidianas mais cansativas. Por exemplo, os aspiradores de pó automáticos, que não precisam de nenhum operador. Na CES apareceu um separador de lixo reciclável, um dos temas sensíveis que deve entrar na pauta de todas as grandes cidades do mundo. É mais provável que aparelhos com essas funções mais pesadas estejam em breve nas casas, onde chuveiros e cortinas vão continuar sendo abertos com as mãos. Ou até funções não tão pesadas, mas chatas, como escovar os dentes. Um aparelho, na forma da arcada dentária, passou pela CES prometendo a sua higiene bucal em 10 segundos. Concorria com ele um aparelho com outro compromisso: identificar as placas bacterianas e indicar os dentes onde precisa escovar mais.

Essas questões de mercado parecem ter uma referência divertida na infância. Desenhos animados como Os Jetsons, apresentando uma família que vivia num futuro parecido com sonhos daquele presente (já passado há bastante tempo). Ou como os Flintstones que, ao contrário, viviam na idade da pedra. Nos dois casos, as famílias tinham os mesmos hábitos e perrengues do presente. O trânsito, o chefe chato, compromissos sociais com os amigos, dramas da adolescência dos filhos. O que mudava era a “tecnologia” prosaica de cada época, por exemplo, o pássaro bicudo dos Flintstones que funcionava como agulha do toca-discos – discos de pedra. Ou a robô que trabalhava como empregada doméstica dos Jetsons.

Como verdadeiras paródias da curiosidade humana, essas séries traziam certa “sinceridade” em relação à expectativa das pessoas em relação à tecnologia de consumo: ela tem que resolver nossas simples questões do dia a dia. As mudanças no modo de vida demoram um pouco mais para acontecer, como a imersão que se vê hoje nas redes sociais. Ou a relativa importância que o automóvel está adquirindo num mundo com aplicativos de transporte. Abrir a cortina, por enquanto, não parece demandar alguma solução especial.

Se antes a inovação demorava anos para aparecer, hoje é o excesso delas que confunde o consumidor. O que pode ser avaliado de imediato para optar por qualquer novidade é o custo benefício no curto prazo. Afinal ninguém sabe se aquela novidade vai vingar, nem por quanto tempo vai existir assistência técnica ou sequer um endereço para o cliente questionar alguma falha.

Uma das facilidades tem sido o esforço de padronização, baseado no fato de que o digital se transformou numa grande plataforma, em cima da qual tudo pode ser edificado. Celulares digitais, televisores, rádios, eletrodomésticos, automóveis, tudo equipado com componentes de altíssimo valor agregado, cujos preços vão caindo em função da escala de produção. Do lado do consumidor, certos padrões, mediados por entidades técnicas internacionais, facilitam o acesso a essas tecnologias.

A propósito, com o surgimento de um outro grande fornecedor de produtos digitais, no caso a China, a guerra comercial começa a esbarrar em sérias dificuldades para os consumidores. Na luta pelo mercado do 5G os Estados Unidos estão resistindo a apoiar essa padronização. Tomara que cheguem logo a um acordo. Ou então teremos que contar com um robô similar ao dos Jetsons para dominar as tecnologias do futuro.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

QUEM VAI TOMAR CONTA DO BICHO HOMEM ?





Os olhos grudados num televisor em preto e branco. Era o ano de 1969 e não se tratava de nenhum pênalti a ser batido em final de campeonato. A Apollo 11, lançada do Cabo Canaveral, na Flórida, levaria o homem à lua. Só hoje é possível ter uma noção do que foi a fantasia em torno daquele momento histórico.

Nada a ver com teorias conspiratórias. Pelo contrário, no front mais crente e inspirado, muita gente supunha com a convicção de quem sabia: “-O combustível é atômico.” Que nada, foi querosene, mais de 10 toneladas consumidas nos primeiros segundos do lançamento. “Computadores com superpoderes...” que, na verdade, não tinham nenhuma capacidade maior do que uma pequena fração do disponível no celular que está no seu bolso. Se hoje, que existe o Google, fala-se tanta besteira sobre qualquer coisa, imagine naqueles tempos.

Tecnologia é assim, um ente que nasce meio metafísico, fantasmagórico, mas em pouco tempo está sujando mãos de graxa ou dando choque elétrico em vacilão. Nos últimos tempos, esse interregno entre o fantasmagórico e o choque, tem sido mais longo. Bem mais! E a quantidade de pessoas capazes de entender o que acontece é cada vez menor. Não que falte doutores. Tudo está tão especializado que ninguém sabe nada fora do seu quadrado.

O povão, “nóis na fita”, já reagimos de maneira diferente hoje. Ainda não faz nem 10 anos que a primeira colisão de hádrons aconteceu no CERN. Hahã! O que é hádron (não fui eu que vendi o seguro dessa coisa) e onde fica o tal CERN? Às vésperas do evento houve especialistas que teorizaram sobre os riscos dessa colisão de partículas. Mas até entender que risco é esse, deixa pra lá.

Afinal, é pra rir ou pra chorar!? Eis a dúvida que aparece quando se ouve falar numa nova descoberta científica ou em grandes tecnologias disruptivas. Há um ano, quando o chinês He Jiankui anunciou seus bebês geneticamente modificados, parecia que ele se achava um herói. E no mês passado foi preso por crimes que seu experimento representa. Pensar em seres humanos transgênicos imunes à AIDS é ótimo, mas daí para uma super raça que vai controlar as gerações anteriores, é só um pulinho.

Sem qualquer risco de “cana” foi anunciado nesta semana um micro robô vivo, feito de pele de sapo. Isso não parece estória de bruxa!? O tamanho desse micro robô é em torno de um milímetro e, por enquanto, foi desenvolvido para aplicações na medicina e proteção do meio ambiente.

Cientistas da Universidade Tufts (nome de “carochinha”) e da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, dizem que se trata do primeiro organismo vivo programável. O canadense Joshua Bongard, um dos líderes da pesquisa, explicou que foi preciso projetar o organismo num supercomputador. A máquina usou vários padrões de vida simples e fez combinações, até chegar a formas prováveis de vida, passíveis de serem programadas. De acordo com o site Tecmundo, entre os projetos apresentados os cientistas escolheram o que lhes pareceu mais apropriado. Daí separaram células tronco retiradas da pele de um sapo e a incubaram, fazendo sei-lá-o-quê para que nascesse algo programável. O “micróbio”, por assim dizer, poderá levar inúmeras frações de medicamentos, em porções exatas, para pontos do organismo humano, muito difíceis de serem atingidos. Outro poderá ser programado para caçar micro plástico no oceano.

Mas quem garante que o Xenobot – nome experimental do bicho – não pode ser usado para levar vírus entre populações em guerra? Ou se ele “se assustar” com algum hormônio que o organismo descarregue por algum efeito imprevisto? É aquela história, você andando na rua com seu poodle e vê um pitbull solto. Daí aparece o dono e diz: “-Fique tranquilo, ele é adestrado”. Ora, é adestrado mas é um pitbull. E se... Como segurar esses “organismos”, potencialmente agressivos, se eles decidirem algo diferente?

E se você gosta de bruxaria cibernética, o que acha de uma revelação sobre OVNIs? Há uma semana o Pentágono confirmou que há documentos ultrassecretos, no Departamento de Defesa dos Estados Unidos, sobre um objeto perseguido por caças F-18 no ano de 2004. Um vídeo já correu pela Internet, foi gravado pelo sistema de um dos caças. Muita gente pensou que era montagem, agora o Pentágono confirma a veracidade do vídeo. Os caças decolaram do porta aviões US Nimitz para perseguir o objeto que acabara de ser avistado.

Militares que fizeram parte da operação, e hoje estão reformados, garantem que há mais gravações sobre o incidente. E sobre muitos outros OVNIs. A maioria não descarta a possibilidade de serem projetos desenvolvidos por outras nações, talvez para desorientar sistemas de defesa. E você!?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

QUEM DESDENHA QUER COMPRAR





Teve um tempo em que toda escola tinha a festa da Primavera. E a conversa é exatamente com você, que passou pelas festas de primaveras, que hoje está numa idade madura, e que agora tem a experiência necessária para compreender coisas confusas da adolescência.

Você – ou outro personagem da turma – tinha sido destaque nos jogos colegiais do primeiro semestre. Era amigo de todos, sempre o queriam por perto, tinha “espigado” naquele ano, altura quase de adulto. A roupa daquela tarde lhe caiu bem, destacava-o no pátio da escola, as meninas observavam furtivamente.

Daí chega a Mariana, seu crush, fazendo questão de chamar a atenção de todos. Daquele jeito espevitada, via uma amiga e dava gritinhos, abraçava como quem esperou anos por aquele momento. Ela via o Paulinho, depois o Zezinho, para cada um fazia aquela cena toda, beijinhos e gracinhas. Até que chega a vez do rapaz “destaque” da temporada. Ela dá um sorriso discreto e estende a mão para cumprimentar.

Aqui a segunda pessoa está no masculino pois o papel da terceira pessoa, a Mariana, é mais típico de meninas adolescentes. Ou era. A questão é que não se pretende nenhuma crítica ou censura. Aquele gelo, mais tarde, se confirmou como a prova mais evidente do interesse dela pelo esnobado. No calor da paixão, possivelmente ele se confundiu. Mas muitos dos seus concorrentes perceberam o sinal invertido na atitude dela. Talvez a Mariana hoje esteja aí, do seu lado, seja sua esposa, mesmo assim ela dificilmente vai confessar que fez aquilo para chamar sua atenção.

Foi mais ou menos o que se viu com o Netflix nesse Globo de Ouro. Recorde de 34 indicações, metade para cinema, metade para TV. Nenhum dos maiores e mais tradicionais estúdios do cinema recebeu 17 indicações. E na grande noite, apenas duas premiações. Menos do que outros que receberam menos indicações. Será que os correspondentes estrangeiros, que fazem a seleção inicial, estiveram bebendo exageradamente no período de indicações? O que os teria levado ao recorde de erros na avaliação das produções? Pois é, o júri do Globo de Ouro se fez de Mariana: “-Não vou pagar essa pra você, não se sinta a última bolacha do pacote.”

Ao longo do tempo essas contradições vão se explicar por si só e a esnobação adolescente do Globo de Ouro tende a ser um marco histórico na ascensão do modelo de negócios nascido numa locadora de vídeo, em Los Gatos. Na mídia, não se viu referencia ao Globo de Ouro deste ano sem que o nome Netflix fosse citado. A grande ante-surpresa foi o maior destaque da festa, antes de qualquer filme, ator ou diretor.

No final das contas fica a grande dúvida: o que há de errado com o modelo do Netflix? O negócio dinamizou fortemente a indústria cinematográfica, aumentou os contratos com atrizes e atores, diretoras e diretores – embora nenhuma diretora tenha conseguido sequer indicação para este ano – mobilizou profissionais de todos os setores da sétima arte. Mas... (mas o quê?).

O melodrama em exibição tem uma grande dose de saudosismo. Por isso caiu bem começar pela festa da primavera. Nada a criticar, somos assim, temos saudade daquilo que tanto nos preencheu, que emoldurou momentos marcantes de nossas vidas e que conserva ritos que nos foram tão solenes. Imagine para aqueles que hoje são a história viva de Hollywood! Estão vendo seus amigos, executivos de grandes estúdios, de operadoras de TV, desesperados pelo risco de perderem seus empregos. Já viveram histórias assim em seus papéis, o drama da existência humana, os rumos que nos são impostos.

Das produções delivery – se é que se pode chamar assim o que chega em nossas casas, pela TV – o Globo de Ouro mostrou que só está de bem com as operadoras de TV por assinatura, aquelas que sempre guardaram seus devidos lugares, abaixo das telonas, é claro. Os serviços de streaming via boxes também mereceram algum respeito. A Hulu, maior do setor nos Estados Unidos, recebeu premiações, também a Amazon. Mas aquele streaming via Internet, do qual o Netflix é um ícone, virou o gangster da festa, o intruso, prepotente.

Virá o tempo em que o espírito empreendedor de Reed Hasting e de Marc Randolph terão um justo julgamento pelo que representaram na história das produções audiovisuais. A conquista das telas de celulares, tablets, de todos os espaços onde a dramaturgia fosse desejada. É em função desse fenômeno que a média de tempo dedicada a esse tipo de lazer está crescendo.

Tudo isso não aconteceu apenas por conta da descoberta do mais prático sistema de entrega. Mas pela visão de seus fundadores, que foi além, que buscou perscrutar cada detalhe do conforto humano, em busca do modelo de produção exato para cada situação. Haverá de surgir também a primavera, depois desse rigoroso inverno que se abate sobre o Netflix.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A FRONTEIRA MAIS CONFIÁVEL É A TECNOLÓGICA





O seguro obrigatório do carro, ou DPVAT, é útil para a sociedade brasileira? Ou a extinção daquele seguro foi apenas uma forma de atingir um desafeto político do presidente? É o que dizem vários analistas políticos.

E a Amazon? Estaria sendo “queimada” por Trump apenas para atingir Jeff Bezos, desafeto do presidente americano? É o que está escrito num processo que corre em segredo de justiça numa corte americana.

Está cada vez mais difícil dizer “só poderia ser no Brasil”. Lamentável que a coisa esteja se nivelando por baixo mas, o que se vê claramente, é que os adornos éticos que contornavam fronteiras estão sumindo. Quem critica Bolsonaro pela indelicadeza com a primeira dama da França, tem que lembrar de Trump dando as costas e saindo na frente de uma senhora quase centenária. Uma grossura, inaceitável em qualquer ponto de ônibus da periferia paulistana. Só que a velhinha que Trump ignorou era Elisabeth II, rainha da Inglaterra.

Se quiser culpar a tecnologia pela falta de educação, até dá. Pessoas mais esclarecidas vão discordar, no entanto, abaixo da linha do bom senso há teses que, suficientemente deturpadas, serviriam de base. Poderia começar pela ideia de “aldeia global”, famosa nas palavras do filósofo canadense Marshall McLuhan. Estávamos na segunda metade do século passado e McLuhan, no livro “A Galáxia de Gutenberg”, refletia no que o mundo se transformava a partir da tecnologia dos meios de comunicação de massa, principalmente a TV, e dos meios de transporte, principalmente aéreo. Caminhávamos, segundo ele, para uma cultura mais ou menos universalizada, onde a facilidade de transporte físico ou virtual aproximaria tanto as diversas culturas, que traria de volta hábitos do provincianismo das aldeias. Culpa da TV, do avião a jato, dos carros e caminhões modernos? Só se for a mesma culpa impingida ao relógio, pelas rugas que nos aparecem na cara.

Tecnologia sempre foi a chave do poder. Se fosse diferente, o poder econômico teria garantido a vitória dos estados do sul na guerra da secessão americana. Hoje, nem o poder econômico escapa do domínio tecnológico. Depois que Bill Gates se tornou o homem mais rico do mundo, nunca mais um grande produtor de petróleo voltou a liderar a lista. Eventuais trocas, sempre acontecem entre empresários do setor de tecnologia.

O efeito que tem se agravado é a distância extrema de poder entre as nações capazes de desenvolver inovações e as que simplesmente compram os últimos lançamentos. Num passado remoto, valentia até superou a tecnologia dos exércitos de então. Hoje, não mais. Muitos testemunharam o que foi o conflito entre argentinos e ingleses pelo domínio das ilhas Malvinas. E hoje, a iminência de uma guerra entre Irã e Estados Unidos, nos faz raciocinar sobre os estreitos limites de possibilidades para quem queira atacar solo americano.

A convivência virtual que a Internet nos permite com todo tipo de gente, a grande circulação de maus exemplos pelas redes sociais, trazem uma toxidade que nenhuma tecnologia produziu. As máquinas e algoritmos simplesmente multiplicam, seja lá o que for carregado – por nós – na memória eletrônica.

Para os mais esperançosos, o Brasil ainda vive um momento de escolha. No ano passado, a balança comercial brasileira voltou a formar superávit com base nas vendas de commodities, produtos de baixíssimo valor agregado. Itens como minério de ferro, soja, carnes, café, suco de laranja. Será esse o caminho?

Com ou sem guerra, em 2020 precisa nascer novamente a convicção de que o país precisa, antes de mais nada, investir em ciência e tecnologia. Commodities e mão de obra barata, pouco qualificada, precisam reduzir muito o lugar na pauta de exportações. Não pela redução de oferta desses bens, mas por um crescimento muito maior de produtos exportados com maior valor agregado.

O Brasil é o oitavo maior fabricante de veículos do mundo e, nesse quadro, é o único país que não tem uma marca própria. O país também está entre os 10 maiores mercados mundiais de automóveis. Num momento em que a tecnologia de motores está migrando para a tração elétrica, diferenciais como disponibilidade de muitos minerais para produção desses motores, energia elétrica sustentável e abundante, podem representar uma vantagem competitiva para o Brasil. Falta saber em que direção aponta a política industrial, para que planos de investimentos possam ser projetados.

Uma piada antiga diz que, a cada espirro de um país rico, o Brasil pega uma pneumonia. O “elixir” capaz de nos permitir respirar aliviados em momentos de tensão no planeta, só vai existir quando as universidades e instituições de pesquisas estiverem trabalhando muito no desenvolvimento de tecnologias próprias. Até que isso aconteça, a neve do Hemisfério Norte vai continuar trazendo calafrios para o nosso Brasil, tão tropical.