sexta-feira, 28 de junho de 2019

A INTEGRAÇÃO DA AMAZÔNIA COM O MUNDO




Se a Amazônia fosse um país estaria entre os maiores do mundo em extensão territorial. Ninguém pensa numa coisa dessas agora, mas na Internet, a maior floresta tropical da Terra pode passar a ter esse nome. O PAIS – Projeto Amazônia Integrada e Sustentável prevê a implantação de um cabo de fibra óptica sub fluvial ao longo de quase todo o leito do rio Amazonas, com extensões em alguns afluentes, possivelmente até com trechos marítimos. 

O empreendimento é gigantesco, com mais de 6 mil quilômetros de cabos. Para efeito de comparação o EllaLink, cabo submarino que vai ligar Fortaleza, no Ceará, à cidade de Sines, em Portugal, terá 9,2 mil Km de extensão. O EllaLink está previsto para ser inaugurado ainda este ano.

À primeira vista pode parecer apenas um sonho regional. Porém, numa avaliação política mais minuciosa, o PAI tem o apoio de um “pai” obstinado e de grande peso no atual cenário do poder. É o senador pelo Amapá Davi Alcolumbre (DEM), atual presidente do Senado Federal e de grande influência junto ao Palácio do Planalto.

A ligação do senador com o empreendimento é visceral. O projeto detalhado já está pronto e foi entregue ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). A equipe de técnicos que trabalhou no desenvolvimento hoje faz parte do quadro de funcionários do gabinete do senador. Entre eles, Carlos Hetzel, ex-funcionário da Embratel. Ele conta que já faz “alguns anos” que o trabalho foi iniciado, com o objetivo de dotar a Região Norte do país com essa infraestrutura.

Outro fator que conta a favor do PAIS é a evidente importância estratégica, assunto muito sensível ao presidente Bolsonaro. O general Augusto Heleno, do GSI, seria um dos principais entusiastas do projeto no governo. A Amazônia Brasileira é uma região riquíssima em biodiversidade, em jazidas minerais e de destaque no mapa mundi pela importância climática. E é um território ainda muito vulnerável do ponto de vista de segurança.

FAZENDO AS CONTAS


Outros fatos recentes podem ser sinais da proteção política que circunda o projeto. Numa edição anterior deste blog foi publicado que já existem especulações para destinar ao PAI, parte das verbas do fundo de compensação social da TV Digital. A previsão é de que as sobras desse fundo cheguem pelo menos a R$ 700 milhões. A gestão desse dinheiro está nas mãos de um colegiado, o Gired, que reúne órgãos do governo, empresas de telefonia, redes de TV e outras organizações relacionadas. Diante das sondagens, membros do Gired anteciparam que só discutiriam a questão depois que a Anatel certificasse que todas as compensações da TV Digital foram cumpridas.

A resposta não demorou nada, veio na semana passada. O Gired foi à Anatel para informar oficialmente que aprovou o estudo relativo à região de Santa Cruz do Sul (RS), o último do país. Com isso, no Brasil, toda a faixa de frequência da antiga TV analógica está a alguns meses de ser liberada para outros usos nas telecomunicações. Daí, para a certificação da Anatel quanto às compensações, é para ser um caminho muito simples e curto.

O PAI está dividido em 7 etapas no Brasil, com um custo total estimado em torno de R$ 260 milhões. A primeira etapa, entre as cidades amazonenses de Tefé e Tabatinga, chegando quase à fronteira com o Peru, pode ser entregue ainda este ano. Os R$ 38 milhões para implantação de 950 Km de cabo sub fluvial já estão disponíveis. Eles vieram de uma emenda aprovada pelo senador Alcolumbre, de aportes dos ministérios da Educação, da Saúde e do MCTIC e ainda, do Conselho Nacional de Justiça.

A partir da segunda etapa as coisas começam a ficar mais difíceis e o dinheiro do Gired é, por enquanto, a principal alternativa no horizonte. A próxima será a maior etapa e a mais cara, com valor estimado em R$ 70 milhões, para implantar 2.260 Km de cabos. O PAI como um todo deve prosseguir até Macapá e Belém, com ramificações para Roraima, Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO). Há ainda a expectativa de uma conexão com a cidade de Iquitos, no Peru e, na outra ponta, com a Guiana Francesa, pelo mar. Por enquanto, os trechos internacionais não estão nem orçados, vão depender de acertos com os outros países beneficiados.

UM DESAFIO DE PROPORÇÕES AMAZÔNICAS


Há algum tempo chegaram a ser implantados 600 Km de cabos sub fluviais pelo Exército, num programa denominado Amazônia Conectada. Era uma parte do que deve passar a ser a primeira etapa do PAI. No entanto o cabo já está fora de operação. De acordo com o site Teletime, que divulgou as informações, durante um período de seca o cabo ficou visível e atraiu a atenção das pessoas. Em vários pontos foram cortados pedaços.

Nos rios da região a movimentação das águas também é muito intensa, exigindo cuidados de manutenção que o Exército não conseguiu bancar. Como não há a necessária redundância para desviar o tráfego de dados dos pontos danificados, todo o investimento foi perdido.

Vários outros obstáculos naturais dificultam a implantação do cabo e a logística na região é bem complicada. Em alguns trechos ainda não há uma solução para implantar a redundância e a experiência do Amazônia Conectada mostra que isso não pode acontecer.

No Nordeste do país a RNP – Rede Nacional de Pesquisas está fazendo um modelo de conectividade semelhante, um backbone para redes de comunicação em geral. O projeto deve integrar o PERT – Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações, previsto para todo o Brasil. A RNP também deve se encarregar da manutenção do PAIS, pelo menos nos dois primeiros anos. A ideia é que, com o tempo, esse trabalho fique por conta de alguma empresa escolhida através de licitação.

A questão é que a exploração comercial do cabo como um todo seria deficitária, embora em alguns trechos o retorno seria vantajoso. Não há ainda um modelo de operação que permita uma avaliação objetiva sobre a viabilidade dessa infraestrutura, tão necessária para aquela região especial do planeta.

Talvez, com a primeira etapa pronta, possam ser testadas as várias possibilidades para operação do projeto como um todo. Ao entregar àquela população o embrião de um projeto tão ambicioso, deve serenar um pouco o afã político de faturar eleitoralmente sobre o empreendimento. O que vai acontecer, de fato, por enquanto é mais um entre os inúmeros segredos da Amazônia. O que se espera é que haja responsabilidade por parte dos gestores públicos para que o cabo sub fluvial não se torne mais uma lendária anaconda a atacar o erário público.

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sexta-feira, 21 de junho de 2019

LEIS QUE SE PERDEM EM POUCO TEMPO




Lei é para ser respeitada. Porém, como diziam os machistas do século passado, uma boa lei “precisa se dar ao respeito”. E, convenhamos, não é exatamente o que tem ocorrido.

A ciência mostra que as boas leis têm que ser descobertas, não inventadas. Até as dez, que Deus mandou por Moisés, foram uma reafirmação da lei que Ele já tinha mandado pela natureza, há muito tempo. Só um “presta atenção!” Mais um bom exemplo a ser seguido. É na natureza onde se revelam as boas leis, o papel do humano é descobri-las, compreende-las. Caso contrário, acabam se impondo mais tarde, em choque com as tentativas de inventar regras.

O primeiro grande estudioso da Economia já advertia sobre a tal “mão oculta do mercado”, uma lei natural que ainda não desvendamos por completo. Vira e mexe damos de cara com ela no meio de uma nova crise econômica. E isso os brasileiros conhecem muito bem.

As tecnologias são as revelações mais esplendorosas das leis da natureza, harmonizadas pela inteligência humana. Por isso é tão difícil usar regras para tentar limita-las. Veja o caso do Uber. Usaram a tecnologia para recriar um antigo hábito social. Acontecia só entre vizinhos, ficou bem mais abrangente:

“-Ei, amigo! Estou precisando chegar rápido num lugar distante. Você pode me levar? Eu pago suas despesas, o seu tempo de trabalho.”

E o WhatsApp? Nunca pediu e nem procura licença para existir. A própria Internet em si, demorou bastante para alguma lei funcionar em torno dela. No Brasil, onde se faz lei até para curar resfriado, os legisladores, acusados constantemente de não trabalhar, tentam mostrar muito serviço e acabam criando confusão. A pérola da vez é a lei do SeAC, os Serviços de Acesso Condicionado, no caso, TV por assinatura.

A lei foi criada há pouco tempo, em 2011. Parece claro que o propósito era mais resguardar os interesses das empresas relacionadas ao serviço, do que propriamente o consumidor. Talvez esteja aí o ponto fraco dessas normas.

DECISÃO PARA CONFUNDIR E NÃO PARA EXPLICAR


A norma é do tipo “cada macaco no seu galho”, mais tecnicamente, estabelece um “modelo de competição”. Determina, por exemplo, que uma empresa operadora de Telecomunicações não pode produzir conteúdo. Jabuticaba aparentemente azeda, uma vez que essa restrição não existe em outros países.

Ainda de acordo com a lei brasileira empresas de streaming, como Netflix e Globoplay, podem entregar suas produções livremente pela Internet. O assinante escolhe o que quer ver e pronto. No caso do canal linear da TV Globo, que tem uma grade de programação própria, ele pode ser acessado pelo Globoplay gratuitamente. Só repete a mesma programação da TV linear aberta, que é gratuita, sintonizada por antena.

No ano passado a Fox e a Turner resolveram oferecer canais lineares (com grade de programação pronta) ou eventos ao vivo, pela Internet, diretamente para os assinantes. A Claro, que é operadora de TV por assinatura, se viu prejudicada. Afinal, pela lei, qualquer canal linear deve seguir as normas do SeAC. Na interpretação da Claro, Fox e Turner estariam atuando como operadoras de TV por assinatura. E, como empresas produtoras de conteúdo, não podem acumular a atividade de operadora de TV. A Claro foi bater na porta da Anatel com uma representação. Isso foi no final do ano passado.

Nessa segunda quinzena de junho a área técnica da Anatel decidiu, por medida cautelar, proibir a Fox de continuar a vender seu canal linear diretamente aos assinantes. De acordo com o site Teletime, no caso da Turner, que vende conteúdo ao vivo – outra característica de TV linear – a área técnica da Anatel não acolheu, pois são conteúdos eventuais.

As entidades que representam os radiodifusores foram pra cima! A ABERT – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e a ABRATEL – Associação Brasileira de Rádio e Televisão, publicaram uma nota conjunta de repúdio. O inconformismo é quanto à decisão cautelar, que não passou pela apreciação do Conselho Diretor da Anatel e nem pela Procuradoria Federal Especializada. Decisões cautelares só são tomadas quando há fortes evidências favoráveis e, mesmo assim, são deliberadas por um órgão colegiado.

As entidades viram na cautelar um “retrocesso no direito do consumidor” e uma “violação à livre iniciativa e concorrência, à liberdade econômica e à inovação tecnológica”. Entendem que o assunto nem é da conta da Anatel, uma vez que o mercado de programação é regulado pela Ancine. Até o princípio da neutralidade da rede, constante do Marco Civil da Internet, estaria sendo desrespeitado.

QUEM PRECISA DE LEIS?


A própria Anatel, em ocasiões recentes, já havia reclamado da Lei do SeAC, por considera-la ultrapassada, fora da realidade atual. Por isso a decisão, aparentemente contraditória, no nível cautelar, para alguns pareceu até uma provocação. Uma forma de tornar o problema suficientemente grande, para que ninguém possa ignorar.

A defesa do Ouvidor Thiago Botelho, da Anatel, é contraditória. Ao mesmo tempo em que ele concorda com a decisão cautelar, faz questão de colocar como “... evidente que a evolução tecnológica estabelece novas dinâmicas na oferta de conteúdo audiovisual e liberta o consumidor da necessidade de adquirir grades de programação. O problema é que a lei brasileira ignora esta realidade e precisa ser modificada". A falta de evidências favoráveis à decisão eliminaria a aplicação cautelar.

O mero princípio do bom senso, que poderia ser aplicado pelo colegiado, aponta no sentido contrário à decisão cautelar. Pelo menos no entendimento do Ouvidor, pois considera que a "... legislação estabelece barreiras injustificadas à livre concorrência em prejuízo ao consumidor.” E prossegue dizendo que "a lei é atrasada, restringe a competição, impede novos negócios e limita a liberdade de escolha dos consumidores.  Ou seja, está na contramão da realidade internacional".

Leis desse tipo, que aparentemente são feitas para dar segurança aos investidores, acabam por gerar uma sensação inversa no mercado. Bastou que a capacidade de transmissão aumentasse a velocidade da Internet e que os televisores tipo smart dominassem a praça, para que a lei caducasse.

Ao criar um modelo de competição, numa área de negócios tão sujeita a mudanças nos dias atuais, a Anatel legislou para empresas. Ao que parece, a natureza aponta num outro sentido. Normas produzidas para valorizar o consumidor costumam ser bem sucedidas. Com efeito, “consumidor” é um conceito mais uniforme, onde todos se encaixam igualmente, ou seja, é o nível onde a natureza nos identifica. Assim é mais fácil fazer justiça.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

PESOS E MEDIDAS NOS INVESTIMENTOS SOCIAIS



Nos anúncios do Google, no Facebook, mensagens que chegam pelo e-mail, banners que aparecem em meio a um artigo importante de um portal de notícias. Nesses lugares de onde o olhar nunca escapa é comum encontrar propagandas sobre alguém que faz previsões. Videntes e até e-videntes prometendo prever seu futuro, o futuro da humanidade.

Que grande balela, concluem os mais esclarecidos. Para traçar alguns cenários num horizonte próximo de tempo é necessária muita matemática! Antes, precisa de muitas informações, avaliação de contextos, estabelecer pesos. Ao final, encaixa tudo em fórmulas sofisticadas e dá-lhe cálculos pesados.

Cálculos que aparentemente conversam em outra língua. Um idioma proibido entre os gestores públicos brasileiros. Caso ilustrativo está na mudança da faixa de frequência da TV analógica para o 4G.

Quando as operadoras de telefonia móvel pediram ao governo que antecipasse a migração da faixa, o Ministério fez uma exigência: as teles teriam de arcar com o custo das compensações sociais, quer dizer, bancar os gastos para os conversores das famílias carentes, a divulgação e orientação da população e algumas outras providências. As empresas fizeram “bico” mas, de imediato, toparam. Depois de consumada a transferência foi formado um fundo de R$ 3,6 bilhões, com dinheiro das teles, para que elas cumprissem o prometido.

Foi quando começou a guerra de cálculos, na tentativa de reverter o combinado. As empresas queriam que o governo reduzisse as metas de compensação. Alegavam que os R$ 3,6 bilhões seriam insuficientes. Mas, por que as teles estariam tão preocupadas em economizar o dinheiro que já não era delas? Possivelmente por apostarem na possibilidade de um estorno.

Na ocasião o Ministro da área era Ricardo Berzoini, que bateu o pé e exigiu que fossem distribuídos conversores do melhor padrão. O tempo passou, as exigências foram cumpridas e a sobra de caixa das compensações hoje é de R$ 1 bilhão. São quase 30% de erro no cálculo! É verdade que houve redução no número de munícipios que tiveram o sinal analógico desligado. Mas os motivos foram técnicos, baseados em dados disponíveis desde o começo das negociações. Isso também faz parte dos cálculos, são fatores que não poderiam ter sido ignorados na formulação do acordo. Governo e concessionárias, no vício de esconder dados, mostraram que os cálculos das tarifas pagas por diversos serviços públicos concedidos, não devem refletir os interesses dos consumidores.

QUEM QUER R$ 1 BILHÃO?


Erros de cálculo dessa magnitude são sempre muito estranhos. Pode dar cadeia, como já se viu num sentido inverso. Nem faz muito tempo, a Petrobrás pagou mais de três vezes o preço para construir uma refinaria em Pernambuco, que ainda assim não ficou pronta.

No caso do fundo de compensação para migração de sinal, a administração do uso do dinheiro ficou por conta de um colegiado, o Gired, formado por empresas de vários segmentos e órgãos do governo. Até agora nenhuma tramoia apareceu, pelo contrário, só um saldo de R$ 1 bilhão no caixa. Mas por que alguém quis deixar todo esse dinheiro vagando num país em crise? Fica a pergunta.

Teoricamente, o dinheiro deveria ser usado somente na radiodifusão, mas existe uma pressão para destinar parte para as telecomunicações. É uma prima próxima porém, muito rica. O governo, como de hábito, já faz gestões para conseguir parte da verba. A proposta apresentada ao Gired demanda R$ 300 milhões para o projeto de implantação de uma rede principal de banda larga na Região Norte do país.

A história desse tesouro, encontrado nas arcas do planejamento público brasileiro, ainda deve render muitos debates e notícias. Porém, uma nova luz surge no fim do túnel, com perspectivas de clarear os cálculos dos empreendimentos nacionais. Nesta semana o Deputado Tiago Mitraud (NOVO/MG) apresentou um projeto da Câmara Federal para organizar um Sistema Brasileiro de Administração Pública Digital.

A proposta é parte da resposta à Estratégia Brasileira para a Transformação Digital. Prevê o desenvolvimento de aplicativos e de ferramentas de Inteligência Artificial para propiciar mais comodidade e segurança ao contribuinte. Vários serviços devem ser disponibilizados via Internet aos contribuintes. Os órgãos públicos, das 3 esferas de governo, devem oferecer aos cidadãos a possibilidade de fazerem agendamento de consultas e serviços pela Internet, solicitações de informações e serviços, acompanhamento das providências que estarão sendo tomadas em cada caso, petições e ainda, manifestar opiniões sobre a qualidade dos serviços obtidos.

Para o planejamento e as “previsões” em geral uma base de dados poderá ser formada, principalmente a partir do Painel Digital Unificado. Dele devem constar o volume de solicitações, tempo médio de atendimento e o nível de satisfação dos usuários. Cada serviço ou órgão da administração pública terá de ter esses dados disponíveis para consulta.

OS RECURSOS E A CIDADANIA


Os ajustes desse sistema vão demorar alguns anos, mesmo depois da total implantação. Dados tão subjetivos, como o nível de satisfação no atendimento e mesmo o efetivo atendimento, são facilmente manipuláveis. Por exemplo, um cidadão informa que tem um buraco na rua. A prefeitura responde com uma explicação das causas do surgimento do buraco (chuvas intensas, por exemplo) e considera que “atendeu” a solicitação.

Durante a implantação do sistema muita coisa pode melhorar na administração pública. A começar pela melhor definição dos serviços, os setores responsáveis, a descrição dos procedimentos em cada caso. Seria uma “carta de serviços” objetiva, o que em si representará um grande avanço. Aos poucos, vão surgir critérios mais objetivos para a ação dos órgãos públicos.

Uma parte importante para o sucesso desse sistema vai estar nas mãos dos cidadãos. E é muito comum o brasileiro se omitir em determinadas situações, em que só a ação dele pode apontar as falhas.

Um exemplo foi o movimento, há mais de dez anos, para reduzir a demora nas filas de bancos. Diante de tantas reclamações, vários municípios aprovaram leis que determinavam o controle do horário de chegada e atendimento dos clientes. Um prazo máximo de espera na fila foi definido. O papel dos clientes é, ao chegar no caixa, solicitar que seja anotado o horário. Comparado ao horário de chegada na fila, vai ser apurado se o tempo de espera está dentro do prazo da lei. Se exceder, o cliente leva a prova ao Procon da cidade.

De início, sindicatos de bancários divulgaram a lei, uma vez que a redução das filas exigiria a contratação de mais empregados. Mas a população, que tanto reclamou, parece ter ficado satisfeita apenas com a assinatura da lei. Até os bancos descobriram, nos registros de chegada às filas, uma boa solução para organizar os clientes em espera. O que não chegou aos procons foram as reclamações formais e as filas continuam.

A transformação digital, com certeza, vai trazer muitos benefícios para qualquer comunidade onde for implantada. Os bits são poderosos! Mas nunca vão substituir a cidadania.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

NEM LENÇO, NEM LUVAS DE PELICA




Tem aquele garoto que mostra um monte de chocolates na lancheira e diz que só vai distribuir para quem for do time dele. Tem o que grita que a bola é dele e sem ele não tem jogo. Tem ainda aquele que lembra que o campinho é no quintal da casa dele, por isso ele mora no jogo. E tem o Trump, senhor do maior mercado do mundo, que resolveu impedir a Huawei de vender qualquer coisa lá.

Crianças são mais autênticas do que os adultos. E como Trump não pode parecer um reles menino ruim de bola, está acusando a Huawei e outras gigantes chinesas de TIC – Tecnologia da Informação e Telecomunicações – de serem espiãs. Por sinal, tudo começou pelas acusações de espionagem. Prosseguiu com a “recomendação” para os funcionários do setor público não utilizarem celulares chineses, depois proibiu órgãos do governo de adquirirem produtos e serviços de lá. Até que, pela Lei de Segurança Nacional americana, praticamente impediu a Huawei, líder mundial na tecnologia 5G, de vender nos Estados Unidos.

Se há alguma inteligência nessa estratégia, ou se ao menos há estratégia conduzindo essas atitudes, ainda não dá para vislumbrar. Os Estados Unidos estão usando o poder – que, de fato, têm – da forma que jamais se imaginou que fariam. Nada sutil, entrou como um elefante numa loja de cristais.

Na semana passada a Huawei divulgou comunicado sobre o afastamento imposto a ela pela Wi-Fi Alliance e pela SD Association. São duas organizações não governamentais, sem fins lucrativos, voltadas à certificação e padronização de TICs. Essas associações não têm bandeira. Teoricamente! Foram criadas para aproximar comunidades de código aberto, para gerar alianças industriais de cooperação. Atuam na padronização e desenvolvimento de normas de interesse das indústrias e consumidores.

Nenhuma delas fez qualquer acusação sobre descumprimento de normas associativas por parte da Huawei. Mero cumprimento da ordem executiva do presidente Trump ou, como diríamos aqui no Brasil, sinal de instrumentalização dessas entidades por parte do governo americano. Esses ataques devem gerar os prejuízos previstos contra os chineses. Mas do outro lado da balança transformam a indústria mandarim numa vítima de sua própria competência. Num balanço, de quem seria o maior prejuízo?


O PODER FALA MAIS ALTO


A extensão do poderio americano é muito grande para ser exposta tão vulgarmente numa guerra comercial. O IEEE – Institute of Electrical and Electronic Engineers, uma entidade internacional com a visão de ser “essencial para a comunidade técnica global e profissionais técnicos em todos os lugares...”, só suspendeu as restrições à Huawei após ser liberada pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos. É verdade que o IEEE foi criado nos EUA em 1963, pela junção de outras entidades locais. Mas, a partir de então, assumiu uma posição internacional autônoma. Muitos engenheiros chineses são sócios da entidade, assim como brasileiros, sauditas, japoneses e de todas as nacionalidades.

O instituto se viu numa saia justa com a decisão de Trump, uma vez que o cumprimento das leis americanas é dever de todos os engenheiros cidadãos americanos. Talvez o impensável, até então, seria uma medida tão drástica antes que qualquer prova da alegada espionagem chinesa embeded tenha sido apresentada.

Enquanto isso, o governo de Pequim continua fazendo de conta que não está vendo nada disso. Nem a cidadã chinesa, herdeira da Huawei, que está presa no Canadá a pedido da justiça americana. Essa sim, parece ser a estratégia. Enquanto esgrima diplomaticamente outras retaliações americanas, impostas através de tarifas de importação, o governo chinês demonstra uma atitude pacífica, limitada ao revide, como uma legítima defesa. E para o mundo permanece a dúvida sobre qual seria o pecado mandarim para merecer tantos ataques.

O que Trump parece desconsiderar é que os Estados Unidos não nos acostumaram apenas a assistir às vitórias que vêm conquistando em todos os desafios globais. O tio Sam tem impressionado mais pela forma como vence, com elegância, com respeito ao adversário, exaltando a ética. É este o grande peso da liderança americana, que pode estar sendo eclipsado por uma solução de ocasião.

Por outro lado, a questão concreta que parece se impor é a temida liderança tecnológica chinesa na área mais sensível do mundo, exatamente a TIC. Tudo é atingido pela informática e qualquer coisa pode ser transformada, da noite para o dia, por um algoritmo convenientemente embarcado. O governo americano sabia disso o tempo todo e não se precaveu quanto à concorrência internacional. As consequências estão aí e a alternativa que Trump está tentando não mostra como pode se transformar numa solução.


O BRASIL MANTÉM O PRAGMATISMO


Aqui no Brasil a tecnologia chinesa, por enquanto, está bem à vontade. Na semana passada, por ocasião do lançamento da primeira loja brasileira da Xiaomi, cenas de autêntico frisson foram reportadas no site UOL. Uma fila se formou à espera da abertura das portas da loja, no Shopping Ibirapuera, em São Paulo. Os primeiros a entrar esperaram por dois dias na fila.

A marca capitalizou o momento de chegada com ofertas tentadoras para seus celulares de ponta. E foi além, apresentando vários outros produtos, de vestuário até bicicletas. Marketing com requintes de capitalismo dominador.

No mês passado, durante o Painel Telebrasil 2019, foi um diretor da Huawei no Brasil, Carlos Lauria, que se referiu ao boicote americano como um fator de aproximação da empresa com os clientes daqui. Grandes operadoras de telefonia, por exemplo, pressionadas pela situação, precisaram se posicionar sobre equipamentos e serviços da marca. Não poderiam dizer outra coisa que não fosse elogios, uma vez que a Huawei está presente em larga escala em seus sistemas.

O potencial desgaste do governo Trump pode repercutir em outras instituições americanas de peso. A Huawei, mesmo sem algum dia ter ensaiado no estado chinês, está movendo processos na justiça americana contra o governo. As chances de vitória parecem ser boas, segundo o advogado Glen Nager, contratado para representar a empresa. Segundo o site Teletime, Nager considera que as medidas de segurança nacional aplicadas contra uma empresa privada, sem nenhuma prova apresentada até agora, violam frontalmente a Constituição dos EUA. Por isso acredita que um julgamento sumário, mais simples e mais rápido, seja o suficiente para reafirmar os direitos da Huawei em solo americano.

Até o final de 2019 essa contenda promete muito alvoroço nas discussões legais. Porém, em se tratando de tecnologia digital, nunca se pode desprezar a possibilidade de os Estados Unidos aparecerem com uma nova solução disruptiva para conexões móveis. Foi assim com a TV digital. Os EUA foram pioneiros porém, com uma tecnologia tímida. Mas pouco depois apresentaram os sistemas mais completos para o setor.