sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

HÁBITOS E TECNOLOGIAS NA ORDEM EMPRESARIAL


As diferenças entre um tuner (sintoniza sinal aberto de rádio ou TV) e um modem (sinal de Internet) já foram enormes. A distância pode não ter diminuído tanto em seus projetos, mas em termos de suprimento, hoje são igualmente acessíveis. A escala de produção de modems possivelmente já ultrapassa a produção de tuners.
Isso é apenas um dos sinais de uma disputa que está entrando em sua batalha decisiva. De um lado, a TV digital aberta e, de outro, as mídias sociais.
Um estudo divulgado na semana passada aponta as tendências das mídias sociais para este ano na América Latina. Entre os destaques, o faturamento recorde no ano passado, projetando números maiores para 2018. E a necessidade dessas empresas investirem em plataformas de áudio e de vídeo. Quem assina o estudo é a Kantar Ibope Media, divisão regional da principal especialista em inteligência de mídia no mundo. É a Internet se preparando para ficar mais parecida com a TV.
Enquanto isso, lá na Coreia do Sul, onde vão começar as Olimpíadas de Inverno, a Next Gen TV (NGTV) vai tentar mostrar ao mundo que pode oferecer todas as vantagens que os anunciantes encontram na Internet. Vai ser a estreia global da TV digital aberta ATSC 3.0, nome técnico da NGTV. O sistema foi desenvolvido numa parceria da NAB, a associação americana de emissoras abertas, com empresas coreanas de hardware. Por isso o evento esportivo, que acontece em fevereiro em Pyeongchang, foi escolhido como palco ideal para o novo sistema ser apresentado ao mundo.
Para o telespectador, a NGTV oferece imagens em UHDTV (4K) com HDR, áudio imersivo e serviços interativos, dentre outros requintes tecnológicos. E para os anunciantes dá a possibilidade de obter o perfil de cada telespectador, podendo direcionar a publicidade certa para cada um deles durante o intervalo comercial. O sistema foi aprovado oficialmente em novembro de 2017 pelo governo americano e está disponível aos radiodifusores de lá em caráter opcional. Põe no ar quem quiser.

A REGULAMENTAÇÃO MAIS PRÓXIMA DA REDE

O avanço das mídias sociais, principalmente a partir do surgimento dos smartphones, conferiu a elas uma estatura comercial digna de enfrentar o antigo hábito da TV – aberta ou por assinatura. Porém, a diferença no nível tecnológico entre os tipos de computadores que estão na praça, e também entre as gerações de celulares, é uma dificuldade encontrada em determinadas regiões do planeta, como a América Latina. Incluem-se aí a qualidade da banda larga e outras precariedades de acesso.
A gradativa superação desses gargalos coloca a universalização das plataformas de voz logo em seguida, como importante horizonte a ser alcançado pelas mídias sociais. O estudo da Kantar aponta a voz como fundamental para a interatividade entre os consumidores e as marcas – que anunciam nas mídias sociais. E é aí onde entra também a Inteligência Artificial. É através dela que bots vão poder levar mais facilmente aos clientes os conteúdos personalizados, tão eficientes nas estratégias publicitárias.
Os conteúdos em vídeo, outra tendência apontada pelo estudo, estariam mais na mira das mídias sociais do tipo rede, caso do FacebookInstagramGoogle Plus e outros. O desafio é a construção de um modelo de programação, possivelmente baseado numa mistura do que se tem na TV aberta, mais os streamings do tipo que hoje se vê pelo YouTube, e o OTT (Netflix), que proveria um conteúdo premium.
A parte mais complicada para as mídias sociais é o enfrentamento da questão da privacidade. Um outro estudo da Kantar já apurou que o cidadão tem consciência de que paga, com seus dados pessoais, parte do preço para se manter conectado com o mundo. Por outro lado, o medo crescente de uma exposição indesejada, poderia levar uma parcela dos consumidores a fugir das eventuais interações, o que põe a perder boa parte do esforço comercial dessas mídias.
A proteção de dados, que não deixa de estar relacionada à privacidade, passa a ser uma questão mais séria ainda a partir de maio. É quando entra em vigor, na União Europeia, o GDPR – General Data Protection Regulation. A tão exaltada “liberdade da Internet” vai se encontrar mais de perto com as responsabilidades. Essa regulação protege os dados gerados em publicações dos usuários nas mídias sociais. Prevê multas elevadas para quem não respeitar as normas.
Por último o estudo aponta a tendência de apertar o cerco contra as fake news. A preocupação das grandes redes sociais, como o Facebook, é combater principalmente os anúncios, como os que foram contratados por russos durante a última campanha presidencial americana. O algoritmo do feed de notícias também deve ser aprimorado para rastrear indícios de falsidade nas publicações.

O LOCAL E O GLOBAL

Nessa disputa que TV e Internet travam pelo anunciante, a última está mais na posição de franco atirador. Ela chegou como um avanço da humanidade, para ser mantida até pelos orçamentos públicos, se necessário. Em pouco tempo engoliu espaços grandes de todas as mídias existentes e continua avançando, em ritmo cada vez maior, sobre toda a comunicação humana. E não humana também. Trouxe novas formas de negócios e viabilizou uma publicidade mais barata para todos e muito eficiente. Por isso e muito mais, muita gente pode até especular sobre o fim do mundo. Mas essa seria a única hipótese para se falar no fim da Internet.
Já a televisão é passível de desaparecer sumariamente. Particularmente a TV aberta, cada vez mais uma atipicidade no espectro eletromagnético. Ali, naquele precioso oceano de frequências, por onde fluem as ondas da telefonia móvel, dos dados, uma imensa avenida, com faixas de 6 MHz, abre o tráfego para o sinal do principal lazer da população mundial.
NGTV é um sistema híbrido. Ela chega para colar no tradicional tuner um sofisticado modem. A TV aberta passa a ser uma mídia social “turbinada” por um tuner, que preenche algumas carências da Internet. Vai manter a possibilidade broadcast na mídia eletrônica e assim vai sustentar o estilo “retrô” de programação consagrado no mundo todo. E com boa parte dos atrativos da Internet, tudo num só aparelho.
Em princípio, com essas qualidades a TV aberta só não supera as TVs pagas porque ocupa espaço no espectro eletromagnético. Está em faixas de frequências concorridas e, em 2023, o uso do espectro vai ser repensado para o mundo todo. Se os anunciantes estiverem contentes com a TV aberta, as chances de continuar no ar aumentam.
Para o público em geral a TV aberta oferece pelo menos um diferencial de natureza “cidadã”. É a produção local ou microrregional – desde que de qualidade – tanto cultural como jornalística. Nas TVs por assinatura e nas mídias sociais esse espaço existe, pode até crescer, mas jamais terá o vigor abrangente que só o broadcast pode disseminar.
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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

SORRIA: VOCÊ PODE ESTAR SENDO FILMADO


O que escândalos envolvendo bancos têm em comum com grandes falhas nos sistemas de TI? Ora, nos dois casos, quando explodem na mídia, todos querem saber se perderam ou se podem perder alguma coisa, mesmo não tendo culpa nenhuma. A outra semelhança é que a explicação costuma ser complicada, difícil de entender.
No caso em questão o problema é com equipamentos de TI, bilhões de unidades pelo mundo. Dessa vez não se trata de vírus. São defeitos em componentes, mais especificamente, “vulnerabilidades” de CPUs, por onde podem entrar vírus que ainda não existem.
Sim, pois os bandidos ainda não sabiam que tem uma porta aberta no “cérebro” (CPU) de notebooksdesktopssmartphonestablets e até em servidores de grandes datacenters. Quem descobriu primeiro foram os pesquisadores ligados ao Google Project Zero, que deram o alerta nos dias iniciais de 2018. Um alerta que também chegou aos bandidos. Muitos deles devem estar agora preparando vírus para invadir sistemas pelo mundo todo.
As vulnerabilidades foram encontradas em processadores das marcas Intel e ARM e as fabricantes já disponibilizaram soluções para o problema. A questão é que cada usuário terá que tomar as providências para verificar se a sua CPU tem o problema e então, baixar os patches de segurança que as fabricantes oferecem.
Pelo fato desses problemas estarem nas CPUs, todo o sistema é afetado, desde o hardware, passando pelos softwares e até o sistema operacional em si. O importante é você saber que o funcionamento do seu equipamento não está ameaçado por causa disso. Pois essas vulnerabilidades não impedem a execução dos aplicativos. Não será através delas que vão passar invasores do tipo WannaCry, capazes de corromper, apagar ou modificar arquivos. O risco está relacionado à leitura dos dados da memória. Portanto, um prato cheio para espiões, que vão ver suas fotos, ler os e-mails e até obter senhas e chaves de criptografia. Digamos que é do tipo que “pode até espiar sua mulher nua, mas não vai acabar com o seu casamento”.

TEORIAS DE CONSPIRAÇÃO

Os nomes comerciais dos dois mais recentes fantasmas digitais são Spectre e Meltdown. O Meltdown assombra os computadores e o Spectre está nos processadores de dispositivos móveis, como tablets e smartphones.
Os patches que estão sendo distribuídos pela IntelAppleGoogle (Android) são pequenos programas que desviam o fluxo de dados daquela camada física onde está a vulnerabilidade do processador. É uma solução imediata totalmente eficiente. Por outro lado, esse “congelamento” de parte do processador pode deixar o equipamento mais lento para algumas funções, em alguns programas.
Para evitar pânico convém saber também os nomes que essas vulnerabilidades levam nas “certidões” e respectivas famílias. Assim quando você ouvi-los, não vai achar que são novas falhas: de batismo, Spectre são os irmãos CVE-2017-5753: bounds check bypass e CVE-2017-5715: branch target injection. O Meltdown assina CVE-2017-5754: rogue data cache load. Mas isso não é tudo. A Intel, maior fabricante de processadores do mundo, trata ambos por “side channel analysis exploit”.
Tratar essas vulnerabilidades como sendo falhas é mais fácil na roda de conversas. Porém, tecnicamente, a Intel não admite como falhas porque não há prejuízo para o funcionamento do equipamento. Faz todo sentido. É como instalar um porta na entrada da sua casa. Se um ladrão consegue uma chave mestra para abrir a fechadura, a porta não falhou. Foi a ação maliciosa do invasor que causou o prejuízo. Diante dessa nossa realidade, qualquer um está sujeito a esse tipo de vulnerabilidade.
No caso dos processadores essas vulnerabilidades seriam bem discretas. Especialistas das grandes fabricantes de equipamentos, como Apple, garantem que o desenvolvimento de qualquer malware para espionar através dessas portas exige muito conhecimento e muito trabalho. Por outro lado, não têm dúvida de que é uma questão de tempo. Esse critério deve servir para facilitar as investigações logo em seguida.
Por todos esses detalhes, também é uma questão de tempo até que teorias de conspiração sobre o caso passem a circular. Por exemplo, sobre eventuais interesses militares em ter essas portas abertas nos processadores mais usados no mundo. A estimativa é de que pelo menos 1 bilhão de celulares estão, neste momento, abertos à espionagem de quem conseguir encaixar um malware nas vulnerabilidades descobertas. Elas podem dar acesso a programas capazes de espionar os usuários de um sistema de armazenamento do tipo cloud, desde que um desses programas infecte o aparelho de algum dos usuários. Como o problema está presente nas CPUs de várias gerações de equipamentos, sistemas mais antigos ou de IoT podem estar, na prática, permanentemente vulneráveis.
Essa seria uma outra inspiração para mais especulações. A única solução integral e definitiva para qualquer aparelho é a troca por um novo, cuja CPU virá sem essas vulnerabilidades. Ou seja, se você acabou de ganhar um aparelho novo no Natal, nada impede que você peça outro ao Papai Noel para o final deste ano.

DURMA-SE COM UM SILÊNCIO DESSES

Este ano de 2018 começou com fatos que conduzem a reflexões profundas sobre tecnologia. O mais emblemático foi o apagão durante a CES – Consumer Electronics Show, realizada em Las Vegas, na semana passada. A maior feira de tecnologia de consumo no mundo ficou por duas horas às escuras, por falta do insumo mais básico de suas estrelas: a energia elétrica.
O caso Meltdown e Spectre também é sugestivo. É muito diferente de um recall em que uma determinada montadora convoca os proprietários de determinado modelo para resolver algo. É um alerta global, para bilhões de usuários de diversos equipamentos.
No caso particular das tecnologias de informação há uma concentração gritante. Não se tem notícia de que uma linha de CPUs possa aparecer no mercado em condições de concorrer com Intel e ARM. Para isso, antes seria necessário ter equipamentos baseados num novo sistema operacional, desenvolvido em conformidade com a nova CPU. E então uma parte considerável do planeta teria de decidir mudar todos seus sistemas, gastando para comprar tudo novo, treinar todo seu pessoal e acreditando que haveria assistência técnica suficiente para atender qualquer necessidade. Hmm...
O desenvolvimento de novas tecnologias no segmento de TI exige investimentos de dimensões globais. As plantas industriais para produzirem novos componentes, os materiais, as máquinas, só são viáveis em escala mundial. Os dedos de uma única mão sobram para contar as fabricantes.
Por fim, quando aparecem falhas ou vulnerabilidades tão abrangentes, quem descobre são os inovadores de sempre. Não foram os alemães, ou franceses, nem japoneses ou tigres asiáticos. O “globalismo” se rende a quem, historicamente, mais investiu em gestão, em educação e pesquisa.
Fontes:
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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

NÃO MEXA COM ELES!


A capacidade de amar é uma das características que difere a espécie humana de todas as outras. Um sentimento que se projeta intensamente sobre outro, além da nossa própria existência, tornando-o objeto do nosso amor. Historicamente, esse sentimento intenso se manifestou sob as formas mais curiosas, entre os homens e as mulheres: houve o tempo do canivete, de joias em geral, casacos de pele, relógio de ouro, chinelo de couro. Mas nenhum deles mereceu lugar tão especial como os carros.
A eletrônica apresentou fortes concorrentes, como o computador pessoal, que acabou arrebatado pelo celular. Mas o carro ainda não perdeu sua majestade. Amor pode não ter explicação, mas nesses dois casos em especial parece existir algo em comum: os dois ampliam a nossa interação com o mundo, aumentam o nosso espaço na Terra. O celular/computador porque nos traz documentos, lugares e pessoas dos pontos mais remotos. E o carro porque nos leva presencialmente a um raio bem mais amplo de espaço e tempo.
Pode não ser nada disso, mas que celular e carro são muito amados pelos seus donos, ah são, sim. Não convém mexer com eles, criticar, desmerecer. É mais ou menos como a mulher do outro. Só ele pode falar mal e, quem estiver ouvindo, é melhor não concordar nem discordar. A regra é ficar calado.
A confirmação desses amores inquestionáveis se vê, por exemplo, no volume de dinheiro que a indústria movimenta. A do automóvel, segundo recente divulgação do site UOL, fatura US$ 3,5 trilhões por ano no mundo, cerca de R$ 11 trilhões. Desse valor, 80% correspondem à venda de carros novos. Os 20% restantes ficam por conta dos serviços de manutenção, que envolvem também troca de peças.
Quanto ao celular, que tem o potencial de se tornar o mais traiçoeiro inimigo de quem está ao volante, o detalhe relevante nessa abordagem não é o faturamento. Mas a crescente pressão para harmoniza-lo com o carro, como um super acessório, talvez até um “assessor”.

O BURACO É MAIS EM BAIXO

A combinação carro/celular deve continuar excluindo o cômodo do tipo volante. Esse lugar em especial deve receber os afagos de muitos componentes da família celular, que estarão espalhados em todos os cantos do carro. Basicamente chips e sensores, capazes de oferecer informações em tempo real sobre falhas em peças do automóvel e outros problemas potencialmente comprometedores para a segurança. Mas isso é só o começo.
Estima-se que hoje existam em torno de 5,5 milhões de carros conectados no mundo e, cada um deles, gera 25 GB de dados por dia. Como big datas em geral estão aí pra crescer indefinidamente, a indústria se prepara para otimizar a oferta de dados, para os mais diversos usos. Que indústria? Pois é...
No mercado já se dá de barato que Google e Apple desistiram de virar marcas de automóveis. Perceberam que nessa praia não basta prancha, parafina e as gírias mais descoladas. E estariam percebendo também que, o que já têm a oferecer para os carros, pode ser mais rentável do que vão conseguir assinando calendários de mulheres nuas nas oficinas mecânicas.
Isso tende a tornar as gigantes de TI as melhores amigas das montadoras. A possibilidade de uma tentar dar o bote na outra fica cada vez mais remota. Porque na ponta, essas duas tecnologias tendem a se tornar mais complexas e seus respectivos consumidores, mais exigentes. Um eventual celular da Ford demoraria um tempo inviável para vingar. E o carro da Google, se fosse viável, não teria aberto o bico antes de entrar na primeira revenda.
Um exemplo presente ilustra o desafio de se fabricar automóveis hoje. Num acordo inusitado, japoneses da Nissan, alemães da Mercedes Benz e franceses da Renault se juntaram para construir uma plataforma única para lançamentos de carros que vão concorrer entre si. A plataforma é modular, o que dá uma certa versatilidade para alterar o jeitão de cada projeto em particular. Assim, Nissan Frontier, Mercedes Benz Classe X e Renault Alaskan vão para o ringue do mercado sem que a maior parte da plateia saiba que eles são “priminhos”. Ora, se até fabricantes de automóveis concorrentes, todas muito experientes, decidem se unir para continuarem brigando no mercado, é porque a parada não é fácil. Só o custo de uma plataforma nova, que envolve também mudanças na linha de produção, está estimado na ordem de US$ 1 bilhão. E o carro nem ficou pronto, estamos falando só da plataforma.
Esse exagero de custos e prazos – nunca menos de dois anos – para se chegar a um modelo novo aparece no mercado de forma curiosa. Especialistas garantem que, aquela rotina de lançamentos de concorrentes com características semelhantes, é uma tentativa de diminuir os riscos para os fabricantes. Aqui no Brasil, por exemplo, como o povão está consagrando uma preferência pelo Onix da Chevrolet, é natural que próximos lançamentos de concorrentes sejam bem semelhantes. As fabricantes não estão interessadas em prêmios de originalidade, como os que são distribuídos nas exposições de arte. Querem mais é seus modelos circulando nas ruas.

RAZÕES IMPONDERÁVEIS DA PAIXÃO

Como em boa parte das uniões felizes e duradouras, o que motiva um amor do tipo Google e Chevrolet só poderia ser muito dinheiro. E isso viria da enxurrada de dados que novos sistemas móveis podem obter a partir dos carros. Fala-se em algo na casa de US$ 1 trilhão em dez anos. E não é uma estimativa de prancheta.
As gigantes de TI, que agora se aproximam das montadoras, aprenderam a faturar muito dinheiro com os dados que oferecemos pelo simples fato de carregar um celular pra cima e pra baixo. Boa parte desses dados chegam graciosamente para eles. Considerando a mobilidade muito maior de um carro, imagine onde podem chegar – os lucros. Além das informações de segurança e de outros detalhes de apoio ao pós venda, um carro pode gerar informações sobre o trânsito, clima, poluentes e muitos mais. Dados que interessam às montadoras, mas também à sistemas de crédito, de comércio dos mais diversos segmentos, seguradoras, gestores de trânsito, etc, etc. Tanto que a preocupação está passando a ser a geração de eletricidade que o carro seria capaz de suportar, para manter funcionando tanta cibernética.
E por falar em eletricidade, em energia, aí está um fator decisivo para alguns rumos da indústria da mobilidade. Dele descendem o tipo de motorização – se elétrica ou à explosão – e a condução.
Como objeto de paixão, o automóvel guarda um vínculo que vai além da utilidade. Houve tempos em que se vendia escapes muito mais caros, simplesmente pelo ronco que propiciavam aos motores. A paixão faz com que adolescentes sonhem com o dia em que vão conduzir um carro. Depois continuam sonhando, ao longo da vida, em dirigir mais este, e aquele outro. Falar em carros autônomos não parece nada sedutor para esses aspirantes a piloto. Tudo bem, os autônomos podem representar soluções eventuais. Mas os custos envolvidos com a segurança desses sistemas e com a possível necessidade de centralização da gestão desse tráfego – pelo menos em parte – podem não compensar os benefícios que prometem. É só mais um quadrante do complicado tabuleiro, onde essa indústria e o mercado jogam este desafio.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

DICIONÁRIOS VÃO À FORRA


Insignificante.
Deve ser o estágio mais primitivo da existência. Uma coisa que já existe porque, afinal, é. Mas é insignificante, não quer dizer nada, não representa nada. Os dicionários sabem bem o que é isso. Eles existem para tornar diferente do insignificante tudo mais que existe. Guardam os significados das palavras e lhes dão longevidade, não sem encher de armadilhas as respectivas grafias.
Mas vem o mundo novo, virtual, e escraviza os dicionários, que trabalham gratuitamente para os senhores cibernéticos. Pode ser culpa dos bots, que eram estranhos aos dicionários e assim, sorrateiramente, tiveram facilidade para subjuga-los. Coisa do tal mercado, pra adular os clientes internautas – olha outro recente alienígena aí – que agora escrevem suas besteiras com a correção automática da grafia. Sobrou, como valor, o significado.
É onde os dicionários estão retomando a importância para o mercado. Escolhem a “palavra do ano” e viram manchetes mundo afora, inclusive na Internet. O novo mister dos dicionários passou a ser os novos significados que dão às palavras, ou melhor, que reconhecem em meio ao discurso midiático. E, diferentemente do que sempre foi ao longo da história, elegem palavras oni-idiomáticas (essa é nova, quem sabe emplaca no ano que vem).
A ortodoxia ainda não reconhece o verbete viralização, mas bem que vem tentando viralizar há algum tempo. Conseguiu no ano passado, elegendo uma palavra. “Pós-verdade” foi a palavra do ano para o Dicionário Oxford. Uma palavra (já foi locução, porque tem dois vocábulos) que remete à atitude de dar maior valor à própria crença do que aos fatos mais evidentes no presente. O passado e um futuro improvável assumem maior valor do que a verdade visível naquela situação.
Em 2017 o Oxford não mandou bem ao eleger youthquake (terremoto jovem, em inglês) a palavra do ano. Significa "uma mudança cultural, política ou social significante provocada pelas ações ou influência de pessoas jovens". Parece o junho de 2013 no Brasil, ou o maio de 1968, na França. A expressão teria sido criada há 50 anos por uma editora de uma revista de moda. Mas você já tinha ouvido essa palavra antes!?
Melhor para o Dicionário Collins, que elegeu fake news a palavra do ano. E é aí onde se percebe que significar está mudando de significado. É um outro lado da verdade que só poderia ser conhecido num mundo tão interligado.

QUEM GOSTA DA MENTIRA

A vedete semântica da vez tem um significado muito claro: fake news é notícia falsa. Falsa significa mentira e notícia significa – neste caso! – informação. Sim, pois jornalisticamente, notícia é uma informação que deve agregar uma série de qualidades. A comunicação é o ato mais natural entre humanos mas, para os jornalistas, comunicação tem que ter qualidades específicas. Vendo por esse prisma “notícia falsa” nem existiria, pois sendo falsa, não tem a qualidade essencial de notícia.
Mas isso não interessa. O que interessou no Internet Governance Forum foi o uso do termo fake news para perseguir fontes alternativas na América Latina. Durante o evento, realizado no mês passado na Suíça, um grupo que assumiu o significado de “representantes da sociedade civil da América Latina” questionou o debate em torno das fake news aqui no continente. Eles querem uma nova abordagem, descolada do significado que o termo teria na América do Norte. Por aqui o grande problema seria o "longo histórico de concentração de mídia e manipulação". Os noticiosos estabelecidos no mercado estariam usando o debate apenas para enfraquecer a “mídia independente” e "abrir espaço para monitoramento, manipulação de conteúdo e censura das plataformas". Não parece o contrário? Não seria esta a exata intensão dos promotores de fake news, inclusive na América de cima?
“Falso” tem um significado tão claro que até computador entende. Faz parte da lógica matemática, não dá para relativizar. É claro que as nossas instituições atrapalham pelo excesso. Já estão querendo definir fake news em lei brasileira como “conteúdo falso e incompleto”. Tudo indica que, por conta do “incompleto”, que os dicionários não autorizam no caso, vão tentar proteger reputações de suas próprias incompletudes. Mas não se pode tomar esse desespero nas tentativas – ainda não há nada definido a respeito – para facilitar que o “falso” faça parte das liberdades democráticas.
Os exageros aqui no Brasil começaram pela proposta de se criar um "conselho governamental composto, entre outros, por representantes do Exército e da Agência de Inteligência para monitorar 'fake news' durante as eleições", conforme cita o comunicado dos representantes latino americanos. Mas não cabe, do lado inverso, liberar a irresponsabilidade barata.
Publicar é um verbo que está há séculos nos dicionários. Um ato de alcance cada vez maior, que se tornou uma forma de poder nas mãos de poucos. Houve abusos, como em tudo onde o poder se manifesta. Porém, como a prerrogativa de publicar era restrita, foi possível criar formas de coibir os abusos. Agora que publicar é um ato ao alcance de todos, fica difícil estabelecer limites para quem age nas redes sociais com interesses apenas em ações de poder.

MAIS CLARO, IMPOSSÍVEL

Por mais que a gente queira manipular significados, eles têm uma associação difícil de ser refeita. Por exemplo, a fake news que os alternativos – não os “independentes” – defendem, são notícias baseadas em convicções pessoais ou políticas. É, portanto, uma decorrência da pós-verdade! Aquele desejo que Descartes identificou de tentarmos tornar verdade o que queremos e não o que realmente é.
Outro rastro importante: Quem celebrizou fake news foi Donald Trump, o presidente americano que está sendo investigado por custear uma estrutura internacional de... fake news! Um antigo ditado brasileiro diz que “gato ruivo, do que usa, cuida”. Teria sido um presságio sobre a cabeleira do mais célebre editor de fake news que surgiria no mundo?
Trump quer convencer a Justiça Americana de que são fake news que denunciam a maior multinacional fabricante de fake news de que o mundo já teve notícia. Aliás, um empreendimento supostamente sustentado por ele. Se comprovado esse patrocínio, a fragmentação das fontes enganosas vai se evidenciar como a grande estratégia para manter essa indústria da mentira. E essa estratégia foi construída justamente para escapar das responsabilidades sobre o que se afirma.
Nesse formato micro fragmentado, não é à toa que a defesa das fake news se apoie nos defeitos dos grandes, os macro conglomerados da mídia. De fato, têm defeitos, vícios antigos. Mas o que você prefere? Notícias falsas de origem desconhecida, sem rastreabilidade ou notícias eventualmente tendenciosas de origem conhecida?
A resposta a essa pergunta não deve ser nada evidente. O mais provável é que as duas preferências vão aparecer em quantidades bem equilibradas. Isso seria uma prova de mais um fenômeno que o mundo super conectado pode estar revelando: uma grande parte das pessoas tem prazer em consumir notícias falsas. De ouvir algo muito parecido com o que ela gostaria que fosse verdade. Se vier travestido com os mínimos adereços para ser defendido, será suficiente. E a verdade? Ora, “ela é relativa” ou, pelo menos, não tem um histórico de nos trazer sempre alegrias.
Em tempos de interação global a sociedade poderia conhecer melhor a verdade. Se isso não acontece, só pode ser pelo prazer que mentiras podem propiciar. Enganar os outros é ainda altamente lucrativo. Basta prestar atenção, por exemplo, nas afirmações dos advogados que defendem os mais famosos mentirosos. E que ecoam entre as fake news da vida.