sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PRIVACIDADE, SEU AVATAR VULNERÁVEL NA INTERNET

PRIVACIDADE, SEU AVATAR VULNERÁVEL NA INTERNET

case é antigo, mas reaparece vez por outra, para ilustrar lições de marketing de relacionamento. É aquele do sujeito que ligou para a pizzaria e foi atendido pelo nome. A simpática mocinha, que olhava no cadastro, puxado pelo número do telefone, já sabia também as pizzas que o cliente mais pede. Aproveitou para citar a que estava em promoção. Cliente contente, então ela sugere uma sobremesa, que melhorou o ticket para a pizzaria.
Um exemplo bem acadêmico para quem estuda marketing, mas preocupante para quem investiga crimes cibernéticos. Dados de clientes vagam entre sistemas, que podem se conectar a big datas, ficam circulando. É uma parte de você passeando tranquilamente num “condomínio virtual” aparentemente seguro, mas na mira de bandidos engenhosos.
“-Ora, que risco eu corro se alguém descobrir a pizza da minha preferência? Meus cadastros são superficiais, dessas coisas que a gente usa sempre.” Sim, coisas do cotidiano, como um táxi, por exemplo.
Pois é, os hackers que entraram no sistema do Uber podem ter encontrado seu nome, endereço de e-mail e número de telefone. Eles conseguiram esses dados de 50 milhões de usuários do aplicativo pelo mundo. Roubaram mais informações ainda de outros 7 milhões de condutores que prestam serviços pelo Uber. De 600 mil desses, os hackers conseguiram até o número da carteira de motorista. Essa é só a notícia ruim, porque a notícia pior é de que isso aconteceu há um ano. A empresa escondeu até esta semana.
No dia seguinte à divulgação, procuradores dos estados americanos de Nova York e Connecticut já foram à Justiça contra a Uber. Representantes de governos de alguns países, como Inglaterra e Austrália, também estão procurando caminhos para fazerem a mesma coisa.
Sofrer um ataque cibernético é algo a que todas as empresas estão sujeitas. Porém, esconder o fato dos clientes, é quase uma sutil conivência com os criminosos. No caso da Uber, o bode expiatório foi o Diretor de Segurança, Joe Sullivan, já demitido. Ele teria pago US$ 100 mil aos hackers, que prometeram apagar tudinho. Possivelmente, foi no rastro dessa contabilidade que o comando da empresa chegou até o fato.

 SOLUÇÕES MÁGICAS, CONSEQUÊNCIAS MÁGICAS

A gente nem sempre se dá conta de quão invasivas – ou pelo menos vulneráveis – são algumas relações comerciais do nosso dia a dia. Num táxi, os riscos de lado a lado são consideráveis. Do lado do cliente, muitas vezes ele não tem qualquer referencia sobre o condutor. Eis que surge a Uber para cadastrar perfis e reunir avaliações de milhares de clientes. O condutor também se beneficia por ter a certeza de estar atendendo clientes rastreáveis.
Tudo parecia tão perfeito até que os hackers resolveram mostrar que “se a parada é cibernética, tem nóis na fita”. O criminoso do Século XXI fez surgir a saudade do bom e velho taxista.
A Uber garante que não foram acessados dados de cartões de crédito de clientes nem rotas de viagens ou outros dados mais sensíveis. E se foram? E se forem, algum dia?
Serviços que eram sediados em bairros, do dia para a noite surgem em escala global, deixando tudo por conta dos poderosos algoritmos que habitam o mundo digital. Foi assim no caso do Netflix, que acabou com as locadoras de vídeo; está sendo assim com o Uber engolindo empresas de táxis; com o WhatsApp, quebrando as concessões bilionárias pagas por empresas de telefonia. Muitos outros modelos de negócios, baseados na Internet, representam forte concorrência, quando não a sumária substituição de serviços tradicionais.
Agora, até a TV aberta pode deixar os telespectadores mais antenados com questões de segurança. Com o Next Gen TV, ou ATSC 3.0, tecnicamente falando, a privacidade do sofá entra em cheque. Nada que possa devassar o que acontece quando seu filho adolescente assiste à sessão coruja com a namorada. Mas os horários em que a TV é ligada, os canais e programas preferidos e outros dados que a TV a cabo já coleciona, sobre esse seu lazer tão íntimo. Com a diferença de que não há um contrato firmado entre as partes.
O ATSC 3.0 é a terceira geração de TV digital aberta dos Estados Unidos. Vai ser testado a partir de fevereiro próximo, nos Jogos de Inverno da Coreia do Sul. No regulamento proposto pela FCC – a “Anatel” americana – as mais de 100 páginas não trazem a palavra “privacidade” uma única vez.

RISCOS INSONDÁVEIS

A questão do crime na Rede tende a se banalizar. Pois ninguém fala em solução para esse tipo de problema. Assim como todas as outras questões de segurança, no mundo cibernético sempre haverá pontos frágeis e também descuidos. O problema maior é que não dá pra imaginar quando uma ação do usuário pode representar “uma janela aberta”, uma “porta destrancada” ou mesmo a “chave esquecida no contato”. A arquitetura desse planeta digital não é visível para a grande maioria das pessoas. 
Outras particularidades do crime na Internet também precisam ser consideradas. Por exemplo, o planejamento. Quem assistiu aos filmes “11 Homens e Um Segredo”, “Golpe de Mestre” ou qualquer das edições de “Missão Impossível”, viveu grande suspense nos momentos da execução tão ousada das ações. O planejamento era apenas curioso. Já no mundo cibernético, depois de planejado o crime é executado sem qualquer suspense, de um lugar qualquer do planeta. Um crime cibernético planejado é praticamente um crime consumado. Toda a violência é psicológica, não necessariamente menos hostil. 
Portanto, o crime cibernético nem exige muita ousadia, mas inteligência, conhecimento, especialização. Foi assim que os “bandígitos” – ou bandidos digitais – atentaram para o valor que reúne o cadastro da Uber. E depois urdiram a invasão.
Outra coisa que tem sido observada com preocupação é a interconexão que está se formando em torno desses crimes. Da mesma forma que sempre aconteceu com os crimes mais comuns. Um sujeito arromba e furta um carro de luxo, do ano, para vender por menos de R$ 5 mil. Quem compra é alguém que vai adulterar o chassis e vender por R$ 10 mil para outro que vai fraudar toda a documentação. E assim vai até que o carro vai aparecer numa agência de usados, para ser vendido a preço de mercado.
O roubo de dados de cartões de crédito já tem quadrilhas prontas para comprar e usa-los das maneiras mais inesperadas. Os dados dos 57 milhões de usuários e condutores do Uber poderiam ter sido adquiridos por criminosos interessados em filtrar nomes “sequestráveis”, ou até de interesses de grupos terroristas.
Não é o caso de ficar aqui conjeturando a respeito de negócios criminosos, pois isso só pode alarmar mais ainda as pessoas. Mas a projeção para o futuro leva a crer que o crime via Internet tende a ser mais ameaçador do que os ilícitos penais tradicionais.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

PERDIDO NO ESPAÇO EM VERSÃO BRASILEIRA



O “funcionário fantasma” é uma figura bem popular no Brasil, já virou até personagem de série de TV. Ele consome recursos do erário público mas sequer comparece para prestar nenhum serviço à nação. É mais ou menos a condição atual do SGDC – que não são as iniciais de algum implicado num processo em segredo de justiça, mas do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação.
É o primeiro satélite operado 100% pelo Brasil, o primeiro “cidadão brasileiro” em órbita, que chega ao espaço trazendo esses maus hábitos da troposfera. A “posse” foi no início do último mês de maio, quando foi lançado pelo foguete Ariane 5. O investimento de R$ 2,8 bilhões foi literalmente para o espaço, porque a maior parte da infraestrutura em terra para receber o sinal não existe.
Essa situação criada na Telebrás, como as mazelas em geral dos órgãos públicos, é fruto da falta de planejamento e de contingências políticas. O SGDC foi concebido no final do Governo Lula para ser um servidor público, autêntico “barnabé”, como se diz no jargão sindical. O sobrenome “Defesa” se deve aos serviços a serem prestados às forças armadas, para a vigilância das fronteiras, dentre outros. E o “Comunicação” descende do compromisso de levar banda larga de qualidade para milhares de escolas, ao SUS de todo o país e para pequenos provedores, que se incumbiriam de distribuir o sinal ao cidadão comum nos mais distantes rincões.
Com esse projeto o satélite foi construído na França, tendo a participação de pesquisadores brasileiros, para transferência de tecnologia. Quando foi lançado, no entanto, o governo já tinha mudado. Outro discurso, outro orçamento e o nosso cidadão celeste há quase 40 mil quilômetros de Brasília, em rota vertical.
A estratégia inicial era custear a operação terrestre com grandes clientes do Governo, como o Dataprev, que têm contratos milionários com operadoras privadas. Passariam a pagar menos e para o próprio governo. Com as mudanças políticas, os gestores mais identificados com outras correntes ideológicas, quiseram disponibilizar a capacidade do satélite para as operadoras privadas de telefonia móvel. Prepararam um leilão, foi feito um roadshow prévio passando por vários países, mas no dia de bater o martelo não apareceu um único interessado. O problema é que a maior parte do prejuízo ainda está por vir.

O QUE É QUE HOUVE, O QUE É QUE HÁ

É difícil entender todos os motivos que levaram as operadoras a desprezarem o leilão. A falta de definições claras no PNBL – Plano Nacional de Banda Larga, o projeto do satélite para cobrir totalmente o imenso território brasileiro, estão entre as razões. Mas o custo da banda larga pela banda Ka – em que o satélite opera – pode ser até dez vezes menor. Esse seria apenas um dos bons motivos para os clientes se interessarem.
Na esfera privada o satélite pode ampliar muito a demanda por banda larga no agronegócio, vai viabilizar padrões de conectividade até agora inacessíveis para pequenas empresas. Se você fosse dono de uma operadora móvel, desprezaria esses mercados? É daí que surge a hipótese de que a ausência no leilão pode ter sido uma decisão cartelizada. As empresas estariam colocando o governo sob maior pressão, para que condições mais favoráveis lhes fossem oferecidas.
Tem ainda o outro lado da moeda. Os vários interesses entranhados na administração pública podem ter encontrado resistência de empresas que estão lucrando com a precariedade das nossas telecomunicações. Por isso estariam pressionando internamente para que as condições apresentadas no edital fossem tão restritivas.
Enquanto isso, o servidor brasileiro mais remoto custa muito caro para atender apenas as forças armadas (pela banda X, capacidade totalmente dedicada ao Ministério da Defesa). E já tem data para aposentadoria: 18 anos, que corresponde à vida útil do satélite.
Para tentar resolver o impasse, o Presidente da Telebrás, Maximiliano Martinhão, já fala na possibilidade de alugar equipamentos para implantar a infraestrutura terrestre e vender a capacidade no atacado. Ou até em oferecer diretamente no varejo, se ninguém se habilitar para tal. Essa é a parte que mais assusta. Porque ficaríamos sem as imensas vantagens para os serviços públicos em locais remotos ou periféricos e ainda ganharíamos mais uma legião de funcionários fantasmas no novo setor da estatal.
Não se trata de pessimismo. O fato é que o Ministério do Planejamento criou um índice de governança para classificar as empresas públicas nacionais quanto à
Gestão, Controle e Auditoria; Transparência; e qualidade técnica dos Conselhos, Comitês e Diretoria. Nesse caso, a Telebrás não está nas alturas. Pelo contrário, teve o pior nível de classificação.

QUANTO VALE?

O SGDC, como muitos projetos brasileiros, custou bem além do previsto. Dos R$ 1,1 bilhão estimados inicialmente, saltou para R$ 2,8 bilhões até agora. Mas o verdadeiro valor dele para o país é inestimável. Só a aplicação de defesa, que não estaria atrasada, pode valer todo o investimento, uma vez que ninguém sabe quantos problemas existem nas fronteiras e podem ser agora equacionados. Previsões de fenômenos extremos, apoio à saúde, drástica redução nos gastos públicos, prestação de mais e melhores serviços, quanto podem valer. Afinal, estamos num país onde, até geograficamente, só olhamos para o próprio umbigo. A maior parte do nosso corpo territorial não é visível para os gestores públicos.
As grandes concessionárias de serviços de telecomunicações já entenderam a lógica governamental. E usam em favor próprio. A Telefônica está prestes a receber um generoso presente por não ter atendido à padrões de qualidade. Isso mesmo! Está fazendo um acordo com a Anatel para converter as multas que teria de pagar, em investimentos para cumprir os serviços que prometeu aos clientes. Um Termo de Ajuste de Conduta está sendo negociado. Deveria impor prazos para o cumprimento de metas de qualidade, mas até agora nem foi apresentado de forma transparente.
A Anatel estaria exigindo investimentos da Telefônica em conectividade nas “áreas com completa carência de infraestrutura”. A Abrint – Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações, teme que a companhia invista em áreas onde já existe alguma infraestrutura, que é justamente onde atuam os pequenos provedores regionais . No início desta semana a entidade pediu publicamente que a Anatel divulgue a classificação das áreas incluídas no TAC, para que a Telefônica não use da oportunidade apenas para expandir seus negócios.
O apoio quase maternal à recuperação da Oi é outro sinal de que a agência está de joelhos diante das operadoras. E elas sabem disso. Mais uma vez estamos à espera de que uma solução dos céus chegue até nós.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

HUMANISMO E HUMANADAS NO CIRCO HI-TECH


Se você não tem uma resposta para a seguinte questão, pergunte a um comediante: “-O que leva uma pessoa a passar uma noite fria de outono na rua, em Nova York, esperando abrir a loja da Apple para comprar um iPhone X?” A resposta dele deve ser engraçada. Mas se você quiser uma resposta mais divertida e criativa, talvez o melhor seja perguntar a um psicólogo freudiano.
Não que os psicólogos sejam palhaços, é o comportamento humano que está ficando mais engraçado. Ou mais triste, para os pessimistas. Com certeza, está mais verdadeiro, na medida em que a gente se conhece mais. São halter egos ocultos que representamos, num faz-de-conta tosco em que o mundo virtual nos recebe. Nos videogames, por exemplo, já fugimos do Pacman, passamos pela ingenuidade do Super Mario Bross, pela crueldade de lutadores monstruosos, até pela habilidade do Neymar. Atitudes estranhas? Faz tempo, mas você já riu de alguém falando alto e gesticulando na rua só para mostrar que está ao telefone celular. Se é que não foi você o próprio personagem.
Para quem presta atenção, as redes sociais sempre trazem novidades sobre o comportamento humano, que também inclui “humanadas”. Ou, o humano em manada. Faz parte do ser social, inteligente ou não. Na Internet, o efeito surge da combinação de extremos, onde se tem a máxima privacidade da sua tela, para interagir em meio a uma mega manada.
Isso leva muito além do frio na quinta avenida, dos US$ 999,00 pagos pelo iPhone X, ou dos US$ 250,00 que uma brasileira pagou só por um lugar na fila. Chega aos tomógrafos parados na manutenção ou na linha de fabricação, por falta de memórias digitais.
Lenda cibernética ou não, é o que corre na “rádio peão” dos varejistas do setor. A demanda da Apple e consequente reação dos concorrentes enxugou a oferta de memórias digitais utilizadas para fabricar uma infinidade de outros aparelhos digitalizados. Fala-se que a mordida da maçã, desta vez, chegou a 100 milhões de iPhones X para inundar o mercado. As cotações das ações da empresa na Nasdaq subiram a ponto de aproximar o valor total da Apple ao estratosférico US$ 1 trilhão. “Vox Populi, vox Market”.

CIÊNCIA COM FRONTEIRAS

Pode ser folclore, mas a verdade é que hoje, de fato, faltam memórias digitais para fábricas dos mais diversos segmentos. E é aí onde outra realidade humana se revela.
A fabricação de memórias e outros componentes digitais está altamente centralizada. Muitos desses endereços estão na Ásia. A geopolítica da alta tecnologia está setorizando a produção dos componentes mais sofisticados.
Possivelmente pelo fato de que as instalações industriais para produzir esses componentes são extremamente caras. Isso leva à necessidade de produção em escala global para fazer frente aos custos de fabricação. Por exemplo, todas as telas que disputam as atenções dos seus olhos são fabricadas na Ásia. Do celular ao wallTV, aquela do elevador, a tela de propaganda no vagão do metrô ou do ônibus. Resultado de uma política de estado adotada pelo Governo Japonês nos anos 70, que apostou nas telas LCDs e similares.
A geopolítica da alta tecnologia também tem razões menos nobres. Além da mão de obra mais qualificada, tem que ser mais barata e bem comportada. Nações com tensões trabalhistas mais frequentes representam um risco em cadeia. Tanto faz se essa estabilidade se sustenta em relações de trabalho mais justas ou se vai na base da pressão governamental, como se vê na China.
Aliás, a fábrica de memórias que está abastecendo a Apple e desabastecendo as outras indústrias fica na China. Na década passada, por conta dessa mesma centralização, um incêndio em uma fábrica chinesa de componentes de alto valor agregado impactou os custos de toda a indústria de bens digitalizados.
O Brasil faz parte dessa cadeia. Porém, pela grande oferta de mão de obra barata. Grandes marcas de celulares enviam componentes para fábricas no Brasil, para serem montadas dentro do aparelho. Mais ou menos como se “fabrica” televisores na Zona Franca de Manaus. Passa pelos dedos ágeis de operárias e operários brasileiros e recebe a pequena inscrição “Made in Brazil”. E assim marcamos presença na indústria do futuro, ainda que o Governo Federal tenha reduzido pela metade os investimentos em tecnologia, neste ano e para 2018. E agora, o que é mais contraditório? As prioridades orçamentárias do Governo ou a fila do iPhone X?

EM BUSCA DE SOLUÇÕES

São essas contradições nacionais que não se ajustam à lógica de um mundo em que inovar e produzir convergem para o mesmo significado. Hoje produzimos, amanhã estamos projetando e, depois de amanhã, a sorte está lançada. Quem inovar mais fica com as fichas da mesa.
O ritmo das mudanças está pautando a economia. Lembra quando carro de rico era Mercedes? Televisão de ponta já foi Telefunken, relógio moderno era japonês e até celular era monopolizado pela marca Motorola. Tudo isso mudou. Por quanto tempo o Windows será o sistema operacional dominante? A grande questão nem é o que vai cair, mas sim o que virá para ocupar os novos lugares.
O Brasil está a 25 anos de se tornar uma das nações mais poderosas do mundo. Assim como estão todos os outros países, uma vez que esse tempo é suficiente para investir na Educação – o que inclui Ciência e Tecnologia – e formar uma geração de cérebros inovadores.
Como essa “fórmula científica” é conhecida há muito tempo e repetida insistentemente, a prática que nunca aconteceu pode começar agora pelo mundo virtual. Quem sabe pela experiência acumulada em jogos como o Simcity, onde o jogador assume o papel de construtor e gestor de uma cidade. Ou mesmo utilizando a inteligência artificial, como um grupo brasileiro fez para acompanhar as contas de deputados federais.
Eles desenvolveram um robô que acompanha os reembolsos que a Câmara faz aos seus integrantes, mediante apresentação de notas fiscais de despesas individuais. Com base em vários bancos de dados que “instruem” a verificação, o software separa as notas fiscais suspeitas, tipo tapioca que custa R$ 250,00. Depois, as mais suspeitas são analisadas por auditores humanos. As irregularidades encontradas somam quantias estarrecedoras. Mais impressionantes ainda são as explicações dos deputados.
Não é preciso muita inteligência para fazer melhor pelo país. Um robô mais eficiente até que poderia ser candidato em 2018. O marqueteiro da campanha provavelmente mudaria o nome para bot, já que foneticamente “robô” é muito associado aos políticos mais tradicionais.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

AS HORAS DA LEI E OS MINUTOS DA TECNOLOGIA


Fim de ano vem chegando e muita gente já está organizando as Festas. São famílias escolhendo a casa onde vai ser o Natal, são turmas decidindo se vai ser praia ou campo e cada um calculando se vai ser no cartão ou do décimo terceiro. A questão é que, independente do que ficar resolvido, no dia 25 de dezembro vai ser Natal e no dia 31, o Réveillon.
As famílias, as turmas, todo mundo sabe disso. O tempo passa e as coisas acontecem. Para acontecerem do jeito que queremos, devemos nos ajustar ao tempo.
Essa sensibilidade quanto ao poder do tempo ainda não se nota na política de vários países, caso também do Brasil: “-Ah, isso aí a gente precisa ver como vai ficar.” Pode ter funcionado durante um tempo, mas no atual ritmo das mudanças tecnológicas não pode ser.
A Lei do SeAC, que regulamenta os serviços de TV por assinatura, não vai mais exigir a chamada “caixa híbrida” no DTH, que permitiria sintonizar tanto o sinal do satélite quanto o da TV aberta. Ou melhor, na verdade isso nunca foi uma exigência, mas fazia parte de uma proposta de 2014, que jamais chegou a ser colocada em prática.
O DTH, ou TV por assinatura tipo Sky, sintonizada com aquela pequena antena parabólica que fica do lado de fora da casa, trafega o sinal por satélite. Não dispõe de banda suficiente para colocar todas as emissoras locais disponíveis pela caixa (set-top box) da operadora em cada cidade. Como as operadoras não abrem mão de oferecer a emissora Globo local (por exemplo, a TV Anhanguera, em Goiânia – GO) então, pela lei, teriam de oferecer todas as outras emissoras locais. Diante dessa limitação técnica a solução seria ter numa mesma caixa – na prática, num único controle remoto – a sintonia dos canais por assinatura e a sintonia dos canais abertos que seriam recebidos por uma segunda antena, do tipo UHF.
Mas isso poderia ser importante em 2014. Até o final deste ano a maioria da população brasileira – que mora nos grandes centros ou arredores – já vai ter sinal digital de TV aberta, que é regulado por uma outra lei, com outras bases. A maioria dos televisores oferecidos no comércio já tem mais de uma entrada, o que também facilitaria a sintonia dos canais abertos. Mesmo assim a Anatel está rediscutindo a questão e um conselheiro já pediu vistas do processo.
Esse tipo de procrastinação está empacando outras importantes questões no Brasil.

O TEMPO E O ESPAÇO

As agências reguladoras, como Anatel, Aneel e muitas outras, surgiram de um modelo voltado para agilizar decisões legais num mundo em constante transformação comercial e tecnológica. Nesta semana a Anatel comemorou 20 anos de existência. A oportunidade comemorativa serviu para algumas avaliações históricas sobre o papel da agência. A repercussão dos discursos traz a impressão de que a Anatel ainda vive uma crise existencial. Ora os agentes políticos invadem o espaço de atuação da agência, ora atiram no colo dela decisões que não lhe cabem.
O tema em discussão na Anatel mais polêmico no momento é o PNBL, o Plano Nacional de Banda Larga. As ingerências políticas, as guinadas orçamentárias, vão atrasando as decisões e o tal Plano não sai. Os reflexos desse vazio são os mais diversos. Por exemplo, o fracasso do leilão do SGDC – Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações. Foi nesta semana e nenhuma empresa apresentou proposta para contratar alguma parte da capacidade do satélite. De acordo com um levantamento feito pela Convergecom, potenciais interessados disseram que não poderiam aceitar as cláusulas do contrato antes de saberem o que o PNBL vai exigir como serviços obrigatórios.
Até o projeto técnico que o Governo impôs ao satélite estaria dimensionado de forma equivocada. Com tudo isso, um projeto de R$ 2,8 bilhões não vai para o espaço, fica aqui, respirando oxigênio. Pra outro “espaço” vai o investimento. Sem nenhum interessado que pudesse amortizar esse custo e sem prestar nenhum serviço ao cidadão brasileiro, perde-se o tempo e o dinheiro dedicados.
Quem quer contar com a participação da iniciativa privada precisa saber como as empresas poderão explorar comercialmente o empreendimento. Não adianta construir um satélite com todos os requintes tecnológicos, sem saber como ele pode oferecer caminhos rentáveis para quem vai pagar. É aí onde a Anatel, como órgão técnico, teria um papel fundamental. Mas ela está estudando assuntos como a caixinha do DTH, uma tecnologia muito mais volúvel do que um satélite e que vai impactar apenas um reduzido conjunto de pessoas, que são os assinantes de TV pagas. Normas que não chegam para uma tecnologia que está passando.

PELAS RUAS DA CIDADE

Tudo isso acontece num momento em que todas as camadas da população acompanham atentamente o impacto de outra tecnologia: os aplicativos para transporte tipo Uber, 99 e Cabify, dentre outros.
O PLC 28/2017 já tinha passado na Câmara dos Deputados num formato que sufocaria a economia dos aplicativos. O Senado, de forma surpreendente, deixou às prefeituras municipais apenas a prerrogativa de investigar, e não a de autorizar ou impedir. Derrubou também a exigência de placa vermelha e flexibilizou outras regras proibitivas aprovadas na Câmara. Avançou no interesse público, deixando de lado o meramente corporativo.
Com a aprovação dessas alterações o projeto vai voltar a ser discutido na Câmara. O grupo conservador – sim, conservador, do ponto de vista semântico e não na tradição retórica – está preocupado com o dinheiro que os aplicativos internacionais ganham aqui. Mas está desprezando o dinheiro que fazem circular, a geração de renda mais distribuída e principalmente, os benefícios de custos e maior oferta de serviços para a população.
Os serviços tradicionais de taxis tiveram de ser tão regulamentados porque, quando surgiram, havia muito menos carros no mundo, como também no Brasil. Não havia qualquer possibilidade comparável de controle de rotas, de qualidade de serviços, de valores. Uma vez que tudo isso passou a ser resolvido, é natural que os taxis percam espaço, pela relativa obsolescência que representam.
Parece difícil que, na Câmara Federal, os avanços do Senado refluam neste caso. Se acontecer, desde já podem se preparar para o surgimento de serviços precários via aplicativos clandestinos. É algo do tipo que esse conservadorismo exalta. Aplaudiram e defenderam a clandestinidade das “peruas” que concorriam com os ônibus urbanos. Anos depois regulamentaram esses serviços, de forma a torna-los mais caros e de menor qualidade. Afagam a clandestinidade dos ônibus intermunicipais e interestaduais, “alternativa para os pobres que não podem pagar”. E sempre mantiveram relativa simbiose com o comércio informal, também clandestino.
Não parece desejável reverenciar nossas limitações, propondo uma igualdade expandida pela base. Ou nossas leis estarão baseadas na capacidade de avançarmos, de sermos competitivos na criação e implementação de novas soluções, ou vamos ser apenas um obstáculo desprezível a mais no caminho dos que ousarem escrever a história.