sexta-feira, 27 de outubro de 2017

PROTAGONISTAS E FIGURANTES NA NOVA ERA


Um fundo de estrelas fixas sobre o qual se movimentam o sol, a lua e outras cinco “estrelas errantes”. Com base neste cenário, há mais de 6.000 anos a Astrologia tenta prever o futuro, entender as pessoas e sugerir atitudes. Do outro lado da verdade estão milhares de estudiosos, satélites, supercomputadores e aparelhos sofisticados para prever apenas quando e quanto vai chover. Tudo que os dois conseguiram até hoje foi um pequeno box para cada um em alguma página dos jornais.
Esses dois esforços futuristas só nos convenceram de que previsões servem, antes de mais nada, para influenciar. E também para gerar explicações, depois que não se confirmam.
Alguns fatos deste mês de outubro, num intervalo de pouco mais de dez dias, guardam uma relação sugestiva, com ares de presságios. Um prato cheio para previsões ou, no mínimo, especulações qualificadas.
Começando de trás pra frente, pela campanha “Milhões de Uns”, da Rede Globo. Muito oportunamente, a Direção de Negócios do grupo escolheu um período de picos de audiência para estrelar seu próprio enredo empresarial. O slogan tenta passar a ideia de que a Globo sabe mais sobre cada um, entre os “milhões de uns” que acessam suas plataformas, via TV ou mídias digitais.
Esse tipo de informação sobre a audiência tem sido exatamente o diferencial em favor das mídias digitais sobre os meios tradicionais – TV, jornais impressos, revistas, rádio. A conexão digital via Internet passa por compartilhamento de metadados, que podem conduzir a um amplo conhecimento individual da audiência.
Nesse compartilhamento os dados, obviamente em linguagem digital, ocupam seus lugares automaticamente nos diversos bancos que caracterizam cada “um”: os horários de acesso, tempo médio na plataforma, temas e formatos de preferência, palavras chaves mais usadas ou buscadas. Nos 14 milhões de acessos que as plataformas digitais do Grupo Globo recebem diariamente, obter esses dados é mole. A questão é qual o tipo de informação que a TV Globo obtém dos 100 milhões que sintonizam diariamente a programação de TV. Mesmo com sinal digital o broadcast (TV aberta) é uma modalidade de transmissão que não tem canal de retorno.
Porém, quem quiser pagar pra ver, se prepare para dobrar a aposta. Pois o Grupo Globo quer compartilhar as informações que tem e vai fazer isso em eventos específicos a partir de novembro. Sinal de que não está blefando.

TECNOLOGIAS QUE VÊM E QUE VÃO

Já existe uma solução tecnológica para obter certas informações de retorno na transmissão broadcast. É o ATSC 3.0, um sistema híbrido desenvolvido pela associação das emissoras de TV aberta dos Estados Unidos, em parceria com empresas da Coréia do Sul. Nos Jogos de Inverno que começam no próximo mês de fevereiro, na cidade coreana de PyeongChang, o sistema vai fazer a estreia global. Ele promete os poderes de rastreamento da Internet, mesmo na TV aberta.
Para o Brasil este sonho ainda está distante. Implantar aqui o ATSC 3.0 exigiria investir em mudanças mais radicais do que estamos vendo do analógico para o digital. O novo sistema primeiro tem que fazer muito sucesso nos Estados Unidos e Coréia, enfrentando comercialmente os formatos concorrentes nativos da Internet. Depois tem que confirmar essas qualidades em outros países ricos, para então ser pensado no Brasil. A EiTV já implementa tecnologias para o novo sistema, por enquanto, apenas para o mercado americano.
O impacto da Internet está abalando outras tecnologias de massa. É o caso das operadoras de telefonia móvel. Há 5 anos, era um dos negócios mais rentáveis no mundo. Os celulares já vinham evoluindo muito rapidamente. E permitiram o embarque de plataformas como o WhatsApp, totalmente baseada na Internet. O resultado é que o “telefone” celular deu espaço para a “Internet celular”. Os planos mais comercializados hoje são baseados no provimento de acesso à Rede, a telefonia móvel vem de troco. Nessa imensidão de conectados, o que viceja é o mercado de conteúdos.
Netflix, por exemplo, só pensa em crescer. Neste ano, além do tradicional sucesso com séries, produziu 8 longas metragens. E já prevê lançar outros 80 longas em 2018. Anunciou investimentos da ordem de US$ 8 bilhões em produções para programação não linear de TV, numa estratégia que aproxima também produtores de outros países. E pra não falar mais um “8”, chegou a um total de 104 milhões de assinantes da plataforma OTT. Todo esse sucesso não intimidou os concorrentes, pelo contrário, estão tomando mais fôlego para enfrentar a líder e ocupar toda tela disponível. As mais numerosas, como se sabe, são as de celulares.
Neste cenário, fica difícil para as operadoras procurarem alternativas de negócios em produção de vídeo. Para a Vivo, o conteúdo escolhido para alavancar as margens da empresa são os games. Há pouco mais de uma semana a empresa anunciou o lançamento da plataforma Vivo Games4U. Assumiu o patrocínio de uma equipe brasileira de eSports e ainda vai produzir uma websérie sobre gamers brasileiros.
Até o Governo Federal está engajado no mercado de games e eSports. O Recine, um regime tributário especial, que incentiva investimentos na cadeia cinematográfica brasileira, agora vai valer também para os desenvolvedores nacionais de jogos eletrônicos.

O BONDE QUE NÃO PASSA MAIS

A presença crescente da Internet nas atividades humanas em geral atinge leis e regulamentos em níveis cada vez mais elevados. Na semana passada o Governo Colombiano enviou ao parlamento um projeto de lei que unifica a autoridade reguladora para Tecnologia de Informação e Comunicação, TV e Rádio. Dois órgãos reguladores atuais devem desaparecer. Vão dar lugar à Comisión de Comunicaciones, que terá como objetivos atender as "dinâmicas atuais do setor” e facilitar o “relacionamento entre os agentes, assim como entre os usuários e o Estado".
Financial Times divulgou nesta semana um vídeo sobre as estratégias governamentais para o controle de fluxo de dados. Elas passam pela exigência de uso de servidores locais e políticas de privacidade restritivas, cujo interesse principal seria novo tipo de protecionismo.
Um exemplo citado seria o provimento de peças de reposição para equipamentos de alta tecnologia. As matrizes das empresas podem disponibilizar impressoras 3D nas filiais espalhadas pelo mundo e enviar por e-mail as soluções demandadas, em arquivos para rodar as impressoras. Os governos não têm controle sobre esse fluxo e não teriam como tributar a entrada desses bens.
A Internet, portanto, mais do que a “convergência” tecnológica, está promovendo uma verdadeira “absorção” das soluções para a mundo real. Ela não apenas derruba fronteiras, como delimita novos domínios, regidos pelo conhecimento. Assim, uma nação fisicamente continental, como o Brasil, pode ser reduzida às pequenas ilhas de excelência que conseguem sobreviver ao despautério da gestão pública.
É o que se vê no caso da operadora Oi. Acumula uma dívida maior do que o orçamento de grande parte das nações da América Latina e tem 55 mil credores. Não consegue homologação para uma recuperação judicial porque não quer abrir mão do controle acionário e nem da falta de governança interna. São justamente os dois prováveis centros geradores da crise atual. Então o Governo Federal, que já apoiou muito a Oi via BNDES, resolve que vai editar medida provisória para socorrer a empresa falimentar.
É o esforço que se faz para não perder mais um bonde da história, sem perceber que o tempo não passa mais pelos trilhos do bonde.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

COMPLICAR MAIS, PARA SIMPLIFICAR DEPOIS


Sabe aquele seu cunhado folgado, que não faz nada e passa o dia em frente à TV, zapeando pra cima e pra baixo? Pois é, convém lançar um olhar diferente sobre o moço. Ele pode se tornar o precursor de uma das profissões mais valorizadas num futuro bem próximo. Talvez essa profissão seja denominada “Curador de Conteúdos Audiovisuais”. Quem sabe, Personal Screen, uma vez que personal está na moda e já existe até para arrumar gavetas e guarda-roupas.
Um estudo realizado pelo ConsumerLab TV and Media, da Ericsson, traz indicadores surpreendentes, sendo que um deles trata dessa grande oportunidade para o seu cunhado. O tempo gasto pelo consumidor de audiovisual para procurar conteúdo está próximo a uma hora por dia! Só no último ano essa média de tempo cresceu 13%. A situação é consequência da gigantesca produção disponível. E o povo acompanha. Estamos batendo novo recorde histórico da média de consumo audiovisual, chegando a 30 horas por semana. Isso sem contar a hora diária para escolha.
A pesquisa foi feita em 13 países (coincidência!), Brasil entre eles, claro. Na amostragem de 20 mil entrevistados online foram selecionados apenas os que têm banda larga residencial, acessam a Internet quase que diariamente e assistem à TV ou vídeo pelo menos uma vez ao mês. Os organizadores do estudo dizem que essa amostra representa um universo de cerca de 1 bilhão de consumidores.
Para efeito de conteúdo, o estudo inclui tudo que pode passar em uma tela: TV linear, serviços ao vivo, VOD (Internet), DVR e os “tiozinhos” tecnológicos DVD e Blu-ray. A preferência é pelos serviços sob demanda (VOD), segundo declararam 60% dos espectadores. Em 2010 essa preferência estava em 40%. A tendência pela escolha, diante de uma oferta cada vez maior de conteúdo, fez com que 70% dos entrevistados citasse a necessidade de um “Google” do audiovisual, capaz de rastrear tudo que estiver disponível na TV e nos outros serviços audiovisuais existentes. Apple TV Android TV já oferecem algo do tipo. Quem passa o dia em frente a uma tela deve ter alguma contribuição a oferecer.

VALORIZAÇÃO DO INDIVÍDUO

A plataforma usada por esses consumidores é outro detalhe importante do estudo. Foram consideradas também as móveis, como notebookstablets e celulares. A TV da sala ainda lidera, mas a previsão é de que as plataformas móveis se igualem como meio para este consumo até 2020. Atualmente, a quantidade dessas plataformas móveis no mercado aumentou 85%, se comparado com o que tinha em 2010. Quem puxou a média foram os smartphones, que hoje passam de 2 vezes e meia o total de aparelhos do gênero disponíveis no final da década passada.
Da quantidade de minutos de audiovisual consumidos por pessoa, 20% são exibidos pelo smartphone. Isso inclui TV aberta e por assinatura, além dos outros serviços via Internet.
Essa combinação de “preferência por serviços sob demanda (VOD)” e “plataformas móveis” é auto explicativa, já que apontam para o consumo individual. Outro dado relevante é que a maior parte dos consumidores de vídeo sob demanda está numa curta faixa etária, entre 16 e 19 anos, ou seja, nativos digitais que tinham menos de 10 anos quando surgiu o smartphone. Dessa turma aí, mais de 60% usam o smartphone para assistir audiovisuais em geral.
Os dados são especialmente relevante se considerar que eles estão na fase da vida em que assumem o controle quase total sobre o que consomem. Tem ainda o fato de que serão os adultos do futuro e tendem a puxar toda uma geração para o mesmo caminho. A forte variável fica por conta das novas tecnologias que podem surgir nos próximos anos. Os óculos VR, por exemplo, são fortes candidatos a assumirem um lugar de destaque entre os dispositivos móveis. Muita coisa ainda pode vir pela frente.

TECNOLOGIA RESOLVE TUDO

Nessa história do audiovisual o Brasil já tem um lugar guardado. Temos a tradição da TV aberta, que chega em casa de graça, com qualidade suficiente para manter boa parte da família na sala. Mesmo assim, cerca de 20% dos entrevistados no estudo já pagam por algum serviço por assinatura, TV ou VOD. O audiovisual, se não é um gênero de primeira necessidade, com certeza é de primeira comodidade. Tem que ter alguém que nos atenda, que assuma o compromisso de nos trazer algo cada vez melhor. Não dá mais para ficar sem TV porque as 3 ou 4 novelas daquele horário não agradam.
É a tecnologia descobrindo o homem. Os novos recursos permitiram avanços consideráveis nas produções, aumentam a qualidade, reduzem custos, facilitam a operação. O ritmo das transformações é crescente. Com a quantidade de conteúdo disponível, a resposta do mercado não foi pelo mais barato, mas se consolida cada vez mais em direção ao melhor. Sendo assim, pagar passa a ser natural. Por isso TV aberta e por assinatura se complementam. A guerra pelo espaço no mercado audiovisual não existe, porque ele se expande mais e mais.
O público dá sinais claros de que não quer abrir mão de nenhuma das alternativas disponíveis. Até porque a tecnologia, novamente ela, encontrou todas as soluções para a nossa ansiedade. A tela do celular teve rápidas soluções para sintonizar a TV aberta digital, como a tecnologia 1-SEG, baseada em uma antena UHF integrada no aparelho.
Mesmo assim o mundo broadcast vem descobrindo nas novas plataformas, como a EiTV CLOUD, novos rumos para atrair ainda mais a audiência. Uma solução que já superou expectativas e mesmo assim não está esgotada, uma vez que novos recursos são implementados semanalmente na EiTV CLOUD.
É assim que o audiovisual está rompendo as referências de tempo. A questão não é mais saber o que vai passar na TV num tal horário. Mas sim o que quero assistir, à hora em que eu quiser e de acordo com o astral do momento. Com certeza, se puder complicar mais na escolha, a gente não vai deixar passar.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O PODER QUE NÃO PODEMOS TER


Quando ficção científica e terror começaram a se misturar no cinema e na TV, dois temas estiveram presentes em grande parte dos filmes: invasões da Terra por extraterrestres e o domínio da máquina sobre o homem.
Um pouco de cada coisa já começa a aterrorizar setores do poder no mundo todo. Os alienígenas da vez seriam “avatares humanos”, como podem ser chamados os perfis falsos espalhados pela Internet – o outro mundo, ainda que virtual. E as máquinas dominadoras podem ser, por exemplo, os robôs dotados de inteligência artificial, já apelidados de social bots.
Aqui no mundo real esses robôs também encarnam perfis falsos e discutem, com pessoas reais, temas para os quais são programados. Provocam, armam confusões e incitam práticas abomináveis como racismo e xenofobia.
Como amostra de poder, o último feito dos invasores pode ter sido a escolha do homem mais poderoso da Terra. O congresso americano está juntando provas de que eles foram decisivos na eleição de Donald Trump. Depois da confirmação por parte do Facebook e do microblog Twitter, agora foi o Google que revelou a ação russa pela Rede para favorecer Trump na eleição.
Por enquanto, o que esses gigantes da Internet confirmam taxativamente é o uso comercial de suas páginas por clientes russos ocultos, favorecendo o candidato republicano. Eles teriam gasto pelo menos US$ 100 mil em anúncios no Facebook e outros US$ 100 mil em endereços do Google, como o Youtube, Gmail e a rede de publicidade DoubleClick. No Twitter a conta foi mais alta. Já identificaram cerca de US$ 274,1 mil em publicidade durante o ano passado.
Em todos esses casos os anúncios exaltavam principalmente Trump e outros candidatos, à exceção de Hillary Clinton. Ela era a candidata favorita e que, de fato, teve a maior votação pelo país. Só não levou o cargo porque teve votação mais concentrada em alguns colégios eleitorais e isso não é aceito no sistema americano.
O maior empenho nesses anúncios era a desinformação. Notícias mentirosas para minar a candidatura democrata.

A GEOPOLÍTICA DO ABSURDO

Enquanto o congresso pressiona as gigantes da Internet para fazerem varreduras em suas contas, o governo Trump pouco apoia o esforço de investigação. Desde o ano passado a CIA e o FBI já confirmaram os indícios de ações do Kremlim nas eleições. E a única consequência disso foi a demissão de James Comey, então Diretor do FBI, que conduzia as investigações sobre o caso.
Os anúncios podem ser apenas a ponta do iceberg que Moscou deslocou contra os planos de Hillary. O Facebook afirmou que fechou 470 páginas associadas aos anúncios de origem russa. Elas não teriam se ajustado à política da rede social. No Twitter foram 210 contas fechadas pelo mesmo motivo, com as mesmas características. Como centros difusores, em todos esses casos, estariam o site noticioso RT e a Internet Research Agency. No Google, os contratantes “laranjas” seriam outros, o que aponta para uma rede maior ainda.
Se os anúncios já têm origem clara, a ação underground ainda não foi dimensionada. Entre os casos mais rumorosos estaria o vazamento de e-mails de Hillary que estavam na conta do Partido Democrata. A divulgação foi do WikiLeaks, mas a obtenção das mensagens teria sido obra de hackers russos. Eles estariam atuando até hoje, fomentando embates em questões sensíveis como o controle na venda de armas e a permanência de imigrantes nos EUA. Temas que podem promover instabilidades políticas em função de recentes posicionamentos de Trump. A ingerência começou na eleição, agora que “passou boi, passa a boiada”.
Enquanto tragédias como a do atirador de Las Vegas não conseguem mobilizar a política americana para mudar leis, o front da Internet amedronta muito mais alguns segmentos do poder. No mundo virtual a geopolítica é completamente outra. Governos russo e americano derrubam funcionários chave em órgãos de segurança dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que, na diplomacia real, os dois países vivem o pior momento depois do fim da guerra fria, por causa de um bombardeio americano contra instalações militares sírias.
Nesse diapasão, quem faria sucesso por lá seria o deputado brasileiro Áureo Lídio Moreira Ribeiro, do partido Solidariedade, do Rio de Janeiro. Ele conseguiu aprovar emenda na reforma política para submeter provedores e redes sociais às ordens de candidatos citados em publicações. A denúncia de “discurso de ódio” por parte de qualquer candidato seria suficiente para que o gestor fosse obrigado a retirar a publicação do ar. O conteúdo só voltaria depois de confirmada a identidade do autor. O motivo seria barrar a ação dos que se escondem por trás de perfis falsos.
Aqui no Brasil a reação à emenda do deputado foi tão contundente que ele próprio foi ao Presidente Temer pedir o veto ao dispositivo, aprovado pelos seus pares.

O HALTER EGO MAIS PERIGOSO

O poder que a Internet entrega nas mãos de qualquer internauta é muito maior do que a maioria das pessoas é capaz de administrar. A ameaça começa pelo potencial de disseminação de vírus, passa pela campanha falsa que repercutimos ingenuamente e chega aos ataques contra empresas cujos dados são sequestrados.
O perfil que temos na rede nem sempre é exatamente o nosso, mas dos nossos sentimentos mais reprimidos. Começa por uma foto onde muitos “editam” uma beleza surpreendente. Ali se acumulam histórias de vaidades, de conquistas fúteis, frases de grande altivez, outras de puro ódio. É nessa confusão de halter egos que surge o perfil falso, livre de toda a vigilância do politicamente correto. A identidade de cada um tende a uma “pátria moral”, cujos símbolos apontam os valores que verdadeiramente prezamos. É onde Trump e Putin parecem ter mais em comum, são concidadãos.
Criar um mundo talvez não fosse uma missão apropriada para a Humanidade. Mas ele está aí, na rede, e é irreversível. Aliás, com todos os defeitos que possa ter, ele oferece muito mais soluções do que problemas. É uma questão de saber organiza-lo da melhor forma. Vamos torcer para que o congresso americano avance nesse objetivo. Da nossa parte, se não servir a ideia do deputado Áureo Lídio Ribeiro, quem sabe a solução seja mandar o Sergio Moro pra eles.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

OI TENTA UM TCHAU PARA A FALÊNCIA


Como novela não serviria, porque é complicado demais. Então a recuperação judicial da Oi se tornou um reality show frenético, onde melindres, ameaças e especulações produzem reviravoltas que acompanham os ponteiros de um relógio. Até cansativo de se acompanhar, mas vale a pena só pelo próximo capítulo, sem precedentes na história.
Se tem alguma dúvida, preste atenção nos números. Comece por considerar que somente cerca de 10% das cidades brasileiras têm mais do que 55 mil habitantes. Pois este é o número de credores que a Oi tem relacionados para receberem os quase R$ 64 bilhões que ela deve. À exceção dos estados de São Paulo e Minas Gerais, nenhum outro estado brasileiro tem um orçamento que aponte valor igual ou superior para funcionar durante todo este ano.
Diante da impossibilidade prática de reunir tanta gente, a companhia está propondo um acordo a parte para quem quer receber, de imediato, até R$ 50 mil reais. Cerca de 53 mil credores teriam a receber valor igual ou inferior a esse.
A Oi precisou criar escritórios específicos para atendimento de credores em todos os estados, além de vários no Rio de Janeiro, onde estaria a maioria dos que esperam pagamentos. Uma plataforma eletrônica está no ar com vários sites e telefone 0800 para atendimento pessoal. Os que se dispuserem a fazer acordos têm que fazer cadastro prévio pela Internet e agendar visita presencial para assinar a papelada.
O grande momento está marcado para o próximo dia 23 de outubro, no centro de convenções Riocentro. Será a Assembleia Geral de Credores, que deve ter cerca de 3 mil participantes. A Justiça determinou que a empresa entregue, individualmente para cada credor, relatórios contábeis e financeiros atualizados, além da lista completa de credores.
Cada credor terá o direito de opinar diante das questões propostas durante a assembleia. Por isso, nos últimos dias estavam estudando como será o sistema de votação e apuração, capaz de assegurar a participação de todos. Você tem alguma sugestão?

PEQUENAS PROBABILIDADES QUE SE CONFIRMARAM

Há 20 anos, quando a Anatel foi constituída como órgão regulador das telecomunicações, ninguém sonhava que esses dias chegariam. Até porque, teoricamente, uma agência reguladora teria os instrumentos legais suficientes para impedir que o volume de problemas crescesse a este ponto. Se tem os tais, não usou quando deveria. E agora, os que sobraram, são difíceis e muito desgastantes, quando entram em ação.
O primeiro deles seria a intervenção na empresa. A Oi é a segunda maior companhia de telecomunicações do Brasil. Portanto, responde por grande parte de uma infraestrutura estratégica e indispensável até para as tribos de índios. Imagine se a Anatel não acerta a mão! Imagine como seria a infestação de interesses políticos, uma vez que estamos neste Brasil que a Lava Jato está nos dando a conhecer! Além disso, há conselheiros da agência que esperam uma reação, via judiciário, imediatamente após eventual intervenção.
A outra hipótese é a deflagração de um processo de caducidade da Oi. Significa que a empresa poderia ter cassada a concessão dos serviços públicos essenciais que presta – como a telefonia fixa – e a nulidade das autorizações para outros serviços que oferece ao mercado. Formalmente, a caducidade é um processo interno da Anatel e, no caso de uma grande empresa como a Oi, deve demorar pelo menos dois anos.
Durante este período a agência poderia exigir da Oi um plano de recuperação que considerasse consistente. Se não chegar a bom termo a Anatel vai ter que arrumar alguém para tocar toda essa estrutura. Inclusive alguma empresa privada que topasse assumir os serviços públicos que a Oi presta, dentre eles, os orelhões, que estão sucateados e sob gratuidade obrigatória, por penalização.
E então, entre intervenção ou caducidade, qual o caminho a seguir? Adiar, ora essa! Há menos de 2 semanas era para ser analisado o início do processo de caducidade, que já tem até o voto do conselheiro relator (ainda não divulgado). A reunião foi suspensa. O processo de intervenção até conta com setores favoráveis porém, ainda pelos bastidores.
Antes de mais nada a Anatel é a maior credora da Oi. Tem pelo menos R$ 11 bilhões a receber, entre multas e outras penalizações impostas. Será que uma empresa que merece tantas punições poderia ter chegado até aqui assim? Agora isso não importa tanto. A realidade presente é que, do outro lado estão milhões de brasileiros que precisam dos serviços de telecomunicações que a empresa oferece, além de outros 55 mil que têm mais de R$ 50 bilhões a receber (descontando a parte da Anatel).

PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR

Nessas horas, é difícil entender por quê e a quem interessaria a falência da Oi. A obrigação mais imediata da empresa é apresentar um Plano de Recuperação Judicial, a ser votado na Assembleia Geral de Credores. Mas esse plano não chega. Um dos motivos estaria na recusa dos atuais sócios em abrir mão do controle acionário da empresa. Engraçado, né!? Uma empresa que dá um prejuízo de R$ 64 bilhões e coloca a Justiça, o órgão regulador e mais 55 mil credores atrás dos donos, e mesmo assim o amor por ela só aumenta...
Se agrupados, os principais credores atualmente são os chamados bondholders. São grupos estrangeiros que saem comprando as dívidas pelo mercado com deságio, para depois tentar lucrar com a recuperação da empresa. Pela demora da Oi em apresentar o Plano de Recuperação, um desses grupos decidiu levar uma alternativa à recuperanda. Antes, um dos principais acionistas, o empresário egípcio Nelson Tanure, do grupo Société Mondiale, já tomara a mesma inciativa. A Oi nem quis assinar o recebimento do plano e até rolou um barraco na reunião. Pouco depois caiu o diretor financeiro Ricardo Malavazi, que renunciou ao cargo na Oi.
A nova proposta, de bondholders, começa pela troca de R$ 26,1 bilhões em dívidas por 88% do capital da empresa. Entre outros detalhes tem ainda a injeção de mais R$ 3 bilhões como dinheiro novo. Mas até agora tudo isso é muito volátil. A própria Oi, há meses, tentou apresentar outros planos de recuperação que a Justiça não aceitou nem levar para a assembleia.
Tudo está nebuloso. Eis aí um cenário que tem interessados em tempo integral: o mercado de capitais. Instabilidade é sinal de muitos negócios em bolsas de valores brasileiras e estrangeiras. Muita gente vive da apostar na queda ou no pulo dos preços de ações. Um palpite certeiro pode render milhares de reais a um investidor em um único dia.
Ao final desta leitura, boa parte do que está aqui já pode ter mudado. Sem contar os outros inúmeros detalhes que sequer couberam. A própria assembleia deveria ser realizada nesta segunda-feira, dia 9 de outubro. Arriscado apostar que irá acontecer, de fato, no dia 23.
A certeza é de que, enquanto o tempo passa, muitos negócios, de vários tipos, acontecem em função dessa situação numa gigante como a Oi. E muita gente ganha com isso.