sexta-feira, 29 de julho de 2016

SELVAGERIA DIGITAL


Existir, para a natureza, tem uma lógica peculiar. Começa por sobreviver diante dos predadores. Mesmo assim, o destino mais feliz que se pode sonhar é fazer parte de uma cadeia alimentar, é conviver com a ameaça permanente que vem não se sabe de onde. A inteligência, por enquanto, foi só uma habilidade a mais que os humanos desenvolveram, cuja principal finalidade é compreender essa lógica. Leis e tratados podem maquia-la, até que um dia aparece de cara limpa, para confirmar a mesma realidade de sempre.

Nos dias eletrônicos, mesmo digitais, há um quê evolutivo no ar, a civilização se diferencia mais ainda da primitiva natureza, e uma brisa serena dá a impressão de que tudo mudou. Deve ser o ar condicionado porque na essência nada mudou, muito pelo contrário. A seleção natural se afirma de forma mais implacável nas regras dos negócios. Por exemplo, a disputa pela sobrevivência no "nada" mais precioso desta Era. Um grande vazio, que servia para crianças empinarem pipas, até que entrou para a vida civil com nome e sobrenome pomposos: espectro eletromagnético. É por onde acontece a radiodifusão, quando "está no ar mais um grande sucesso...". Está lá o metro quadrado, cúbico ou linear mais precioso à venda nações afora. Serve apenas para deixar as ondas eletromagnéticas de TVs, celulares, rádios AM/FM, comunicação militar, 2G, 3G, 4G, ecos extraterrestres, dentre outras, trafegarem pra lá e pra cá. Os governos assumiram a missão de somente organizar esse trânsito, mais ou menos como sinalizar ruas e avenidas, evitando colisões. O "pedágio" é bilionário. Em 2014, por exemplo, operadoras de telefonia móvel pagaram mais de R$ 8 bilhões ao Governo Federal, para poderem usar novas faixas de frequência. Por isso algumas ondinhas - as piores são as pequenas, tem menos de meio metro mas ainda não dá pra ver - estão inconformadas com o triplex de 6 MHz das TVs terrestres. E é aí onde está plantado um grande confronto.

O IMPOSSÍVEL PODE ACONTECER


A questão não é complicada, mas tem palco e atores desconhecidos para quem não convive de perto com o assunto. TV terrestre é essa mais convencional, a aberta, que precisa de torres para repetir o sinal (analógico ou digital). As outras são TV a cabo, TV por satélite - que pode ser tipo Sky ou daquelas parabólicas maiores - e a IPTV, que vem só pela Internet. A única que usa o espaço mais concorrido do espectro eletromagnético é a TV terrestre, a mais comum nos países mais pobres. No Brasil está a maior audiência de TV terrestre no mundo. Os países ricos já estão bem familiarizados com as outras modalidades, só uma minoria dos habitantes usa a terrestre. Mas são esses países que fabricam os equipamentos de todas essas tecnologias, inclusive da TV aberta digital. São eles também que fabricam as outras tecnologias de radiodifusão, que dão mais dinheiro.

Para padronizar internacionalmente o uso de tecnologias que funcionam com radiodifusão, acontece periodicamente a WRC - World Radiocommunication Conferences. A próxima é a WRC-23, portanto, marcada para o ano de 2023. Simon Fell, diretor da entidade que reúne as emissoras europeias, afirma que o evento “será a última oportunidade de avaliar a viabilidade e a necessidade de existência da TV terrestre”. A preocupação é que o crescimento da telefonia móvel prevaleça e fique com a faixa de frequência da TV terrestre. Os celulares, ou mesmo a TV terrestre podem usar outras faixas de frequência. Mas ficaria mais caro, exigiria mais equipamentos de transmissão. Por isso a faixa onde trafega o sinal de TV é tão concorrida.

A “CAVALARIA” CHEGA PRA LUTAR


Como negócio, ninguém discorda que a TV terrestre é lucrativa. Mas a telefonia móvel é muito mais, tem mais poder. Quem se levantou para enfrentar essa diferença foi a indústria de TV terrestre americana. Ela criou o padrão de TV terrestre ATSC 3.0. Algo verdadeiramente revolucionário, com imagem de ultra definição (4K), transporte do sinal por IP, interatividade e sintonia em movimento. O mais importante é o diferencial que o sistema oferece para a emissora. A publicidade pode ser segmentada, ou seja, vários comerciais diferentes podem ser enviados ao mesmo tempo, num mesmo intervalo, cada um direcionado ao consumidor de seu interesse. Assim, numa casa onde se sabe que existem muitas crianças, pode passar o comercial de um parque temático, enquanto um comercial de lâmina de barbear é exibido, ao mesmo tempo, na casa de um homem adulto. Isso amplia enormemente o mercado publicitário das emissoras abertas.

Essa nova mudança de sistema, que exige troca de todos os equipamentos, por enquanto está sendo pensada nos Estados Unidos como alternativa. Ou seja, só mudará para o novo sistema a emissora que quiser, não será obrigatório. O que se quer evitar é onerar de novo emissoras e telespectadores, que há pouco tempo trocaram tudo, na mudança do analógico para o digital 1.0. Talvez esteja aí a razão de uma estratégia diferente para implantação mais ampla do novo sistema. O ATSC 3.0, previsto para operar nos Estados Unidos daqui a cinco anos, entra em operação na Coréia do Sul no ano que vem. Um consórcio entre emissoras, fabricantes de equipamentos e governo local está bancando a implantação do novo sistema. O governo assumiu o compromisso de doar os conversores a quem precisar. Lá, o novo sistema digital vai substituir por completo o atual. E isso pode aumentar muito o interesse pelo ATSC 3.0 no mundo todo. Além da melhor TV do mundo, os coreanos saem na frente na fabricação do hardware de todo o novo sistema.

Se você ainda não viu "selvageria" nenhuma nesta luta, convém atentar para o outro lado dessa disputa. A TV digital aberta - que é terrestre - é o meio de comunicação mais abrangente do mundo e o mais democrático. É a única alternativa que bilhões de pessoas no planeta dispõem para o acesso ao vídeo. Além da inclusão cultural e jornalística, tem um papel fundamental para o sucesso de políticas públicas de Educação, Saúde, Segurança e em muitas outras áreas. Porém, se uma tecnologia não tornar essa indústria competitiva em dólares, a Era da TV já era.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

ENTRE TAPAS E BEIJOS, GARANTINDO LUGARES



"A política brasileira é um grande Fla x Flu..." A referência ao clássico do futebol carioca é um antigo sinônimo de briga entre grupos no Brasil. Uma situação que não aceita meio termo, no estilo "ou é contra ou é a favor", impossível a neutralidade. Em São Paulo a rivalidade entre palmeirenses e corintianos também serve à mesma figura de linguagem, embora não seja tão popular. O curioso é que, nos dois casos, os aparentes opostos são mais ou menos uma coisa só, se forem levadas em conta as origens históricas. Tanto o Flamengo surgiu de dentro do Fluminense, foi "feito da costela" do rival, como a torcida palmeirense tem muitos ancestrais corintianos. 

No fundo, no fundo, foram feitos um para o outro. O que seria do futebol do Rio de Janeiro sem o fervilhante Fla X Flu!? Um tédio. Corinthians e Palmeiras também são o auge das festas de torcidas paulistas. Se complementam, assim como no Livro do Gênesis a costela da primeira criatura deu origem ao Ser que completa a existência humana. Sem pôr nem tirar, o exemplo serve para TV aberta, TV por assinatura e o VOD – Video On Demand, a “TV” que a gente constrói usando a Internet. Uma surgiu da outra, se complementam para a alegria da sociedade urbana ocidental. Não falta nem o detalhe da rivalidade que marca a disputa entre esses serviços. Principalmente depois que o sinal digital elevou a TV aberta a outro patamar de qualidade. Em seguida veio a plataforma smart TV e pronto! O VOD colocou cabelos brancos na TV paga.

Na real, não é bem assim. Os dados do mercado brasileiro mostram que, até o momento, as TVs não estão se "canibalizando". Fiéis às origens, ocupam espaços específicos, respeitando a vontade do consumidor.

FELIZES PARA SEMPRE


Quem tem boas estatísticas são as TVs pagas. Elas tem condições de acompanhar cada movimento do consumidor e por isso coletam dados com facilidade. De acordo com Renata Policicio, da área de pesquisa da ESPN, no Brasil a TV convencional, que tem uma programação pronta numa grade (TV linear) "não está caindo, mas o WatchESPN (plataforma online da programadora) tem batido recordes a cada mês. Quanto mais opções a gente dá, mais tempo o assinante passa consumindo conteúdo". Ainda no universo das TVs pagas, Fernando Magalhães, diretor de programação da América Móvil Brasil, constatou um aumento da audiência da TV linear no último ano. Para ele, é o on demand (VOD) que está ajudando a vender o linear: "-Boa parte da venda dos pacotes a la carte do Telecine ou da HBO é feita pelo controle remoto, quando o assinante tenta ver um conteúdo ao qual não tem direito através do Now". Ele acredita ainda que, nos dias de hoje, a venda do serviço de TV depende diretamente da oferta do VOD e da alternativa de acesso por qualquer plataforma (everywhere), evoluções recentes no setor.

Um detalhamento mais claro dessas tendências do consumidor foi apresentado recentemente por João Mesquita, CEO do Telecine: para assinantes que contam com as 3 alternativas a seguir, o linear representa 61% da audiência; o VOD online, que exige um outro equipamento conectado à Internet para baixar, é a preferência de apenas 4% dos assinantes. Mas pelo set-top box, aquela caixa que fica na casa do assinante, o VOD fica com 35% da audiência. Ou seja, o telespectador se confirma como um animal sedentário. Ele não quer complicação para consumir vídeos. Por isso o aplicativo da Telecine já está nas smart TVs da Samsung e da Sony, com promessa para breve em televisores da Panasonic, LG e Phillips.

As TVs pagas acreditam que o pior da crise já passou. Para elas os assinantes, que hoje só representam 30% da audiência de TV como um todo (70% só sintonizam TV aberta), ainda vão aumentar muito. A melhora na infraestrutura das TVs por assinatura e até o aumento do nível de escolarização da população, estariam ajudando a vender canais pagos. A banda larga, segundo dados, estaria alavancando as TVs via fibra ótica, que as operadoras de telefonia estão oferecendo. Isso pode ter a ver com as dificuldades que o DTH enfrenta, possivelmente por não oferecer Internet.

A NATUREZA E SUAS VARIEDADES


Talvez algum dia a ciência comprove que vídeo é uma das necessidades fundamentais da espécie humana. Enquanto isso não acontece, as mais variadas experiências confirmam que, no mínimo, é um grande negócio. Produzir vídeo é trabalhar para uma demanda ainda imensurável. Principalmente depois que os algoritmos do Google passaram a garantir receita para qualquer produtor que gere muitos cliques. Tem de aulas de culinária até os humorísticos. Os OTTs, como o Netflix, atualmente são a principal preocupação das TV pagas, que incluem no VOD serviços similares, com filmes e séries.

Por outro lado, o que a ciência já sabe há muito tempo é que somos animais sociais. Precisamos conviver com pessoas, conhecer nosso território, nossa comunidade. Tecnologias com esse potencial – as redes sociais – são tratadas como fenômenos surpreendentes, quando simplesmente confirmam um perfil da espécie. É o que se passa no Facebook, Instagram, WhatsApp, pra citar apenas alguns exemplos. No contexto de televisão é o que está acontecendo com as emissoras abertas. Elas estão aproximando as comunidades, agora com muito mais facilidade para entradas ao vivo, muito mais qualidade de som e imagem e total fidelidade do sinal. Tudo bem, sempre vai sobrar algum espaço para TVs pagas. Mas, com certeza, não vai ser mais nas dimensões que se viu nos Estados Unidos, na casa dos 85% dos domicílios. Lá, muitos entre os consumidores mais exigentes do mundo, estão deixando os canais pagos e compondo o VOD com a TV digital aberta. É ela que está se confirmando a “variedade mais resistente” entre os serviços de vídeo.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A REGRA E A EXCEÇÃO VIA SATÉLITE



Esperteza, valentia ou cara de pau? É por aí que passam aqueles que se recusam a simplesmente obedecer. No caso, obedecer regras. Invenção humana, uma regra bem feita pode representar a vontade da maioria, ou a necessidade da maioria. Faz parte do esforço para se ter alguma inteligência social, porque a única inteligência que existe mesmo é do indivíduo. É também um instrumento para enfrentar a burrice da violência, o que exige da regra uma certa dose de burrice. Luz vermelha numa esquina, enquanto regra, adquire um poder virtual. Ela não vai gritar, bater em você, muito menos levar para o delegado. Mas quem não esperar apagar para acender a luz verde, estará se opondo à regra e se expondo a um sério risco.

Ninguém gosta de regras. Mas o mundo seria muito melhor se todos respeitassem as regras. Isso na teoria, porque boa parte delas é mal feita. Contaminam-se com "exceção", nome do vírus traiçoeiro que destrói ou adoece quase todas as regras humanas. Nos casos de contaminação, os sintomas que acometem as vítimas são ira elevada, inconformismo e prejuízos generalizados, levando à típicas mudanças de comportamento tal como esperteza, valentia ou cara de pau.

O Brasil é um dos países do mundo que se destaca pela quantidade e diversidade de regras. Até pra dar um tapinha na bunda do caçula tem regra. Esse excesso facilita muito a ocorrência de exceções. É o que está acontecendo com a regra proposta para as empresas de TV por assinatura com sistema DTH, o que usa uma pequena antena parabólica para recepção do sinal. As operadoras discordam da regra e pedem exceções.

UM CONTROLE REMOTO A MAIS


O foco do problema é justamente um caso de sucesso, situação típica daquelas que não são muito bem aceitas no Brasil. E a regra em que querem inocular a exceção chama-se Lei do SeAC - Serviço de Acesso Condicionado, nome burocrático das TVs por assinatura. As operadoras DTH querem oferecer aos assinantes a programação aberta local da TV Globo. Pela lei, quem oferece uma emissora local, tem que oferecer todas as outras locais. Ficaria inviável colocar no sinal do satélite todos os canais locais em cada uma das regiões. Além disso, o Brasil já tem TV digital, garantindo som e imagem de qualidade. "-É só pegar o outro controle remoto e sintonizar os outros canais locais por outra antena", dizem as operadoras. Mas esse stress de trocar de controle remoto é maior do que parece. Quem garante - sem falar nada - são as próprias operadoras, que fazem questão de ter a Globo no line up via satélite. É zapeando no controle predileto que vão encontrar tanto a Globo como os canais da operadora.

A Anatel, que fiscaliza a tal lei, apresentou uma proposta conciliatória (não chega a ser uma exceção): a caixa do DTH - ou set-top box - seria híbrida, com capacidade para sintonizar tanto o satélite como a TV digital terrestre, que sempre traz toda a programação local. As operadoras não concordam! Mandaram exércitos de advogados, daqueles de língua bem afiada, pra proferir todos os palavrões “lex” contra a Anatel. Alguns arriscam o exercício informal da medicina empresarial, diagnosticando problemas para a saúde das operadoras. Contas mal feitas ou comparações com os negócios do mercadinho da esquina, dão um tom trágico aos prognósticos. Um terror “fake”.

EXCEÇÕES DAS MAIS ENGAJADAS


Cada um já tem a exceção preferida para a Lei do SeAC. Parte das grandes operadoras defende que a caixa híbrida seja uma opção do usuário, pela qual ele deverá pagar. Aqui, a palavra de ordem é o “direito à livre escolha”. Já as pequenas operadoras querem que a regra da caixa híbrida valha apenas para as grandes operadoras, cada uma que tiver mais de 5% do mercado nacional. Palavra de ordem, no caso, é "bolsa caixinha" ou qualquer outro papo de "excluído".

A questão é que a hegemonia da Globo acaba gerando distorções na regra. E isso não é culpa da emissora. O hábito de assistir ao canal líder da TV aberta brasileira não deixa alternativa para qualquer TV paga que não carregue o sinal global. As operadoras pagam para ter o sinal da Globo em cada região. Com as outras emissoras locais é o inverso, a maior parte teria que pagar para entrar no line up de uma TV por assinatura. Porém, se a obrigatoriedade de carregamento for decretada, daí cada uma dessas emissoras locais se verá no direito de cobrar, como faz a Globo local. Com a caixa híbrida, que coloca no mesmo controle remoto o sinal terrestre, as operadoras menores talvez até arriscariam não pagar para ter o sinal da Globo no line up do satélite. Quem quiser que acesse pelo sinal terrestre.

Num cenário desses, parece que ninguém tem vontade de ser o juiz. Mas a caixa híbrida parece ser a única maneira de atender minimamente a lei e os interesses das operadoras. Acontece que isso custa e, num país onde exceções contaminam tanto as regras, é claro que ninguém vai pôr a mão no bolso enquanto não esgotar os estoques de esperteza, de valentia e de muita cara de pau. Vai que...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

DESBRAVAR O BRASIL PELO AR



Quando começou-se a falar em TV digital no Brasil o grande público ainda não tinha se dado conta da dura realidade do setor. Foi só mexer na transmissão para perceber que, numa parte significativa do território nacional, nem TV analógica existe. Ou, se existe TV, falta RTV - Retransmissora do sinal de TV terrestre (que não vem direto do satélite). Milhões de brasileiros ficam a-ver-navios na hora de ver novela ou noticiário. Com certeza, você já viu várias RTVs. Normalmente são torres altas, onde tem daquelas antenas tipo painéis, slots, parabólicas, entre outras mais mirabólicas. A função de uma RTV é expandir o sinal de uma emissora - ou geradora, como preferir. No padrão tecnológico legal a potência do sinal garante boa qualidade até alguns quilômetros de distância. A partir daquele limite o que chega da geradora precisa de uma RTV, que padroniza novamente o sinal, fortalece e emite por mais alguns quilômetros adiante. E é de RTV em RTV que se forma uma ampla cobertura.

Essa grande rede nacional foi construída aos trancos e barrancos. Tinha localidades em que o público a ser atendido era pequeno, não interessava comercialmente, então nenhuma emissora investia em RTV naquela região. A qualidade do sinal ficava ruim, o povo reclamava. Em muitas cidades a pressão dos eleitores fez prefeitos investirem verbas municipais para construir RTVs. Foi assim que as RTVs chegaram a grande parte dos mais de 5 mil municípios espalhados pelo Brasil.

Agora, com a nova tecnologia, tem que mandar também o sinal digital. O equipamento de retransmissão para cada geradora instalar nas RTVs não é barato e, até determinada data, a lei exige que se mantenha os dois sinais, o analógico e o digital. Mas cadê os técnicos capacitados para fazer essa instalação? Uma RTV costuma funcionar sozinha. Muitas vezes fica sem a visita de um técnico por meses, até pela falta desses profissionais. No começo deste mês Daniel Slaviero, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) alertou para a necessidade de se resolver essa situação. Ele acredita que não haverá como fazer o switch-off (desligamento definitivo) da TV aberta analógica, se não houver uma solução para as RTVs.

NÃO É POUCA COISA


Hoje existem cerca de 22 mil RTVs pelo país, muitas delas em locais isolados, contando no máximo com um zelador. Empresários do setor afirmam que não há condições técnicas para instalar o sinal digital em todas nos próximos dois ou três anos. Deve precisar de mais de cinco. Há quem questione. A única certeza é de que o custo dos equipamentos importados explodiu com a alta do dólar. E muitos deixaram para comprar na última hora, contando com o dólar estável. Por fim, tem a burocracia pra atrapalhar. A ABERT diz que 29 RTVs com todo o equipamento digital já instalado estão desligadas, aguardando apenas a liberação ministerial.

Outra preocupação da ABERT é zelar pelo modelo de negócio das emissoras. A ameaça vem de RTVs que não são nem de geradoras, nem de prefeituras. São de empresários que construíram torres com toda a infraestrutura e alugam para as geradoras instalarem as antenas. Na Amazônia Legal, onde a densidade populacional é muito baixa, o governo permite que até 15% do tempo de programação sejam gerados de um microcomputador conectado na RTV. Ela se torna uma mini geradora e a propaganda veiculada localmente fica muito mais em conta. O comércio da redondeza paga para anunciar e o dono da RTV tem mais receita. Existem hoje no Congresso Nacional vários projetos propondo estender essa possibilidade para RTVs de todo o Brasil. A ABERT afirma que essa micro concorrência espalhada pode desestruturar o negócio das emissoras regulares.

PENSAR NUNCA É DEMAIS


Os entraves legais possivelmente seriam muitos para autorizar a mini geração diretamente de RTVs. Mas a proposta deve ser estudada com mais carinho. Geração local é uma tendência muito antiga, limitada não apenas pela lei, mas principalmente pela tecnologia. Quem tinha uma câmera de vídeo em casa há 30 anos? Hoje todo cidadão tem uma, no próprio celular. A qualidade da imagem é superior à exibida no sinal analógico e qualquer notebook pode se transformar numa ilha de edição simples, instalando um software apropriado.

Uma boa oportunidade para testar a ideia seriam as próximas eleições municipais. No horário da propaganda eleitoral as RTVs mais distantes não podem veicular nada, porque o programa que chega da geradora é apenas dos candidatos da maior cidade da região. Pode confundir o eleitor das pequenas cidades. Esse tempo ocioso poderia ser oferecido aos candidatos das cidades menores, que produziriam pequenos programas.

É bom lembrar que a geração da RTV traz clientes que jamais teriam condições de anunciar em toda a região da emissora. É difícil chamar de “concorrência” esse mercado minúsculo. Pode ser apenas uma questão de encontrar espaço na grade. Outra coisa a ser discutida seria a participação das emissoras no lucro da RTV privada. Afinal elas já investiram mais de R$ 6 bilhões na digitalização aqui no Brasil. Nas retransmissoras próprias, essa situação já estaria solucionada. O caminho começa por pensar livremente, sem preconceitos.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O DESAFIO DE SOBREVIVÊNCIA DO YAHOO!


O topo tem o poder particular de transformar qualidades em defeitos e vice-versa. No caso das mulheres então... Marissa Mayer, CEO do Yahoo, é a mais recente candidata a "loira burra" do Vale do Silício. Ela chegou à empresa com um currículo que incluía a criação do design da barra de pesquisas do Google, mas também uma capa da Revista Vogue. Há outros pontos fortes do lado técnico, mas as bênçãos que a natureza mantém naquela mulher de 40 anos, são imperdoáveis para algumas mentes. O design da barra foi o detalhe que deu a simplicidade como característica mais atraente para o Google. À época, representou um duro golpe contra o Yahoo, pioneiro como site de busca. Seguiram-se outros reveses e o Yahoo, um ícone da história da Internet, continuou perdendo posições.

Foi em 2012 que a estrela Marissa emergiu ao cargo de CEO do Yahoo, com a missão de reverter estragos que amargavam aquele que é o decano entre os grandes investimentos da Internet. Estava diante, inclusive, das cicatrizes que ela própria causou, quando trabalhava no Google.  A posição que ela estava assumindo, nos 5 anos anteriores já tinha passado por seis mãos, daquelas peludas, que não têm esmalte nas unhas, nem sofrem censuras machistas. O plano da CEO era mudar o balanço da empresa em 3 anos, mas o prazo venceu, antes de ela mesma conseguir anunciar qualquer vitória.

COM AÇÚCAR, COM AFETO


Glamour e beleza já eram marcas do veterano Yahoo antes da chegada de Marissa. A sede da empresa tem área construída equivalente a dez quarteirões. Fica a beira mar, em Sunnyvale, com paredes de vidro que dão vista para a Baía de São Francisco, dentre outras maravilhas da vizinhança. A executiva levou para o Yahoo o charme típico das grandes do Vale do Silício, cercado de uma "perfumaria" supostamente capaz de energizar o ambiente. As refeições melhoraram e ficaram gratuitas, biombos foram abolidos, transformando os escritórios em salas imensas. Os funcionários tiveram que comprar smartphones novos - segundo ela, mais compatíveis com quem produz aplicativos - técnicas de reunião do Google foram adotadas e até o cafezinho passou a receber elogios. Como resposta, os habitantes solares daquele local deveriam criar novos produtos e aprimorar os antigos. Assim Marissa esperava ampliar o número de usuários, em torno de 1 bilhão de pessoas por mês. Hoje, ela já fala em contenção de gastos, redução de 15% de funcionários e revisão estratégica.

Como empresa, o Yahoo tem um valor difícil de alcançar consenso no mercado. Por outro lado, enquanto holding, o grupo possui 15% do gigante chinês Alibaba, avaliados em US$ 29 bilhões, além de outras participações que somam um total de US$ 43 bilhões. No final de abril, o fundo de hedge Starboard Value ganhou 4 assentos no Conselho da empresa, como parte de um compromisso que sinaliza para a venda do Yahoo. Por enquanto, os interessados de destaque são a Verizon e YP Holdings, o editor das Páginas Amarelas americanas. Eles sabem que estão em vias de comprar um grande nome, o que é importante para uma empresa. Mas essa grandeza, nos últimos anos, chamou mais atenção para as seguidas quedas que o mais famoso tiozão da Internet tem experimentado. Quem comprar o Yahoo estará comprando também o grande desafio de inovar, de torna-lo novamente agradável aos olhos dos internautas, assim como agrada a bela imagem de Marissa Mayer.

ENTRE A HISTÓRIA E O FUTURO


Em "tempo digital", onde tudo fica velho muito rápido, o Yahoo até que é bem longevo. O lugar desse nome na história da Internet vai sempre merecer respeito. A questão é que alguns bondes já passaram e ele ainda não mudou de estação. É preciso decidir se o que a história já conta é o suficiente, ou se existe o desejo de seguir para novos capítulos.

A culpa não é da beleza de Marissa Mayer. É a Internet que é totalmente imprevisível e cosmopolita, características que não costumam ajudar no mundo dos negócios mais conservadores. Cifrões e adrenalina formam uma combinação atraente para o mercado de capitais, onde riscos e dinheiro mudam de mãos em segundos. A Internet já mostrou que pode construir bilionários em muito pouco tempo, mas não necessariamente por muito tempo. O risco estará principalmente em outros algoritmos, capazes de atrair mais atenção de uma massa de audiência impossível de imaginar antes do surgimento da grande rede mundial.

Por enquanto, os algoritmos mais inovadores parecem sair das cabeças do Google. Eles criaram a maior porta de entrada da Internet, a mais rápida e segura. Desenvolveram aplicativos de utilidade inquestionável, que já fazem sucesso, mas ainda estão longe do potencial que podem alcançar. O Google parece ter elevado o nível da web, tanto para o usuário comum como para grandes empresas, dispostas a pagar bem por soluções rápidas. No outro extremo, o Facebook se apropriou das futilidades para criar um novo hábito de comunicação, cujo nome genérico é rede social.

Num cenário desses, o que seria capaz de gerar um novo polo de audiência na Internet? É exatamente este o desafio que o gigante grisalho chamado Yahoo tem pela frente.