sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A SAGA DA "TELEVISÃOZINHA"


Na época do guaraná de rolha, do sapato Passo Doble, do brim Coringa, dos drops Dulcora e da Sukita, exatamente como hoje, era no cinema que o futuro chegava primeiro. Geralmente na ficção científica, porém, também de um jeito prosaico nos filmes de ação. Muitas coisas que até já existiam, só que vinham combinadas de uma forma improvável, como se viu nas primeiras edições do eterno 007. Nunca faltava uma "televisãozinha". Da poltrona a gente ficava pensando que logo alguém arrumaria um jeito de "encolher" o aparelho que nos era tão íntimo.

O futuro chegou e se materializou no smartphone que é bem melhor do que as telinhas 3 por 4 do 007! Tem o tablet também. Já vêm até com câmera, GPS e aplicativos que tirariam James Bond de várias enrascadas. O roteirista da próxima continuação que se vire, vai ter que inventar, talvez turbinando a caneta - outro instrumento que costuma vir cheio de truques. O celular vai ter que aparecer, não tem jeito, porque hoje é tão personagem do cotidiano quanto as pessoas. Mas não vai fazer inveja para ninguém. Se tiver um aplicativo muito especial quando você for comentar com os amigos diga do jeito certo: "-o agente usou um mobile para perseguir o bandido", assim mesmo, "mobáil". Esse papo de "televisãozinha" já era.

O tempo mostrou que não era só tiozinho que pirava na televisãozinha. Nesta semana, em Barcelona, mais uma edição do Mobile Word Congress consagrou o vídeo no celular como a mais recente "killer application" do mercado. As aplicações que transformam o celular numa plataforma OTT estiveram no centro do evento. Enfim, o sonho do "mobile video".

ATÉ AÍ, ESTAMOS EM DIA


Já houve outras tentativas, mas não decolaram. Exceção em alguns países como o Japão, onde o público aceitou logo. Talvez por causa da tecnologia 1-seg do sistema de TV digital japonês. Mas não era exatamente a programação da TV aberta que o público queria em mãos. Foi a solução OTT, a partir do advento de serviços como YouTube e Netflix, que caiu como luva no gosto popular. Para uma parte considerável da audiência, o conteúdo dessas plataformas tem tudo. E o próprio usuário faz a programação que quiser.

Cada vez mais o desafio se concentra nas mãos de quem produz conteúdo. As limitações físicas de som e imagem, que qualquer mobile sempre vai ter diante de uma sala de TV UHD, são também limitações da fisiologia humana. Olhos e ouvidos precisam de mais espaço para maior conforto. Isso sugere conteúdos específicos para o mobile, mais curtos, tomadas de imagem menos abertas, cenários menores. O lendário "Chaves", por exemplo, tem um formato que é a cara do mobile video.

Mas a grande conclusão é que, quem tem uma tela na mão, quer vídeo, mais do que uma programação pronta. E essa é a bandeira de largada para que os produtores de conteúdo invistam, uma vez que o mercado não esconde mais o que quer. A outra variável forte aponta para redes sociais, mais especificamente para o todo misterioso WhatsApp. Nunca os celulares foram tão acessados por qualquer outro aplicativo. No entanto, o aplicativo ainda não custa nada, não vende propaganda, o Facebook paga a conta. Na sua apresentação durante o MWC, Mark Zuckerberg disse que está muito otimista em relação ao vídeo, especialmente o vídeo ao vivo. Isso e só pra constar, porque alguma novidade relacionada a vídeo ao vivo deve surgir em breve no WhatsApp.

JAMES BOND DE PIJAMA... COMPUTADORIZADO


Como já comentado aqui neste blog, no Brasil o mobile video tem dificuldades estruturais. A boa notícia é que tem também inteligência cibernética preparada para superar parte da precariedade. Num balanço entre prós e contras, o mercado interno é promissor. Tanto para os conteúdos convencionais, como para nichos específicos, como modalidades esportivas, áreas de conhecimento, círculos culturais, EAD, treinamento empresarial... As possibilidades são infinitas, a capacidade de armazenamento "cloud" também. Foi essa reciprocidade tão complementar que levou a EiTV a desenvolver a plataforma de mobile video EiTV CLOUD a partir do know how avançado em tecnologias de computação em nuvem e OTT.

Na Europa, o mobile video cresce ao ritmo de 50% ao ano. E os modelos de negócios ainda podem variar muito, desde aplicativos patrocinados, TV Everywhere, até o modelo de venda de assinaturas. São alternativas já prontas no pacote da EiTV. Rodrigo Araújo, diretor da empresa que esteve no estande da EiTV na MWC, afirma que, em termos de software para mobile video "não apareceu nada na Feira que já não tenhamos no nosso pacote. Colocamos o Brasil up-to-date nesta tecnologia." Para ele, quem está buscando novidades são as fabricantes de hardware. "A tendência é utilizar o enorme potencial que as plataformas de mobile video tem para desenvolver novas funcionalidades", concluiu.

Nesse sentido, houve lançamentos de aparelhos que fazem vídeos e fotos em 360 graus, celular com bateria removível para abrir espaço de conexão com outros aparelhos, inclusive óculos de realidade virtual. A realidade virtual, aliás, desponta como uma nova tendência, ao lado da IoT, a Internet das Coisas. Um exemplo foi a Oral-B que apresentou escovas inteligentes que avisam quando todos os dentes foram devidamente escovados. Teve ainda micro caixas de som com capacidade para sonorizar eventos como churrascos ou festas de aniversário, com a mesma qualidade das caixas que você usa atualmente. Isso sem contar a "computação de vestir", que começou pelos smart watches, mas quer evoluir para pulseiras, colares e até roupas. Quem sabe, um pijama computadorizado para o velho James Bond. Se continuar assim, não vai sobrar nem a caneta para os roteiristas de filmes de ação tentarem surpreender.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O MOBILE, MAIS LONGE DO QUE SE PREVIA


A sabedoria popular não erra. Mas já começa a ganhar alguns adendos. As vovós de tempos atrás - quando era mais comum receber visitas em casa - tinham um aforismo na ponta da língua: "crianças, ou namorados, quando estão muito em silêncio, convém dar uma olhada". E tinham razão! Crianças em silêncio estavam procurando coisas no armário alto da cozinha, fuçando na geladeira, enchendo alguma pia de água, fazendo traquinagens. Já no caso de namorados... bem, os próprios exemplos ninguém esquece.

Nos dias de hoje o silêncio no cômodo ao lado pode ter um motivo plenamente aceitável. Sim, um bom filme, um desenho animado ou videogames. O "adendo" ao saber popular surgiu depois que smartphones e tablets se popularizaram. Cada pessoa passou a ter uma tela pessoal, acessível em qualquer lugar. Não demorou nada para que inventassem maneiras de preencher esse espaço de exibição tão privado. A tecnologia "mobile" não sai mais da cabeça de quem produz conteúdo de qualquer espécie.

Um dos segmentos fortes na disputa por essas telas é o OTT (Over The Top), que tem como principal estrela mundial o Netflix. A empresa, desde a fundação, vive uma expansão vertiginosa. Surgiram concorrentes, que também crescem rápido, reforçando a impressão de que o limite desse mercado ainda está longe de ser avistado. O que atrapalha é a falta de infraestrutura, que fez uma Internet bem menor do que as reais necessidades do mercado.

OBSTÁCULOS EXISTEM PARA SEREM SUPERADOS


Em países em desenvolvimento, como é o nosso caso, o OTT está engessado com os provedores de banda larga. As redes são insuficientes, instáveis em muitos pontos, caras. Relativamente, cobrem uma parte reduzida deste imenso território e ainda, em boa parte, são providas por empresas de TV por assinatura, que não gostam da concorrência dos serviços OTT. O problema é que "o caminhão está maior do que a estrada", fica difícil fazer a entrega.

Neste mês de fevereiro foi divulgado um estudo, realizado pela MTM, sobre as perspectivas de crescimento do OTT Premium na América Latina. As principais dificuldades apontadas passam pela má qualidade da banda larga, pela desigualdade típica do continente e pelos altos níveis de pirataria. Mesmo assim, a expansão projetada para 2018 aponta avanços substanciais tanto no Brasil, como no México e na Argentina. E, a partir dessa expansão, a indústria do OTT Premium já prevê outros desafios: enfrentar a concorrência do conteúdo da TV aberta e viabilizar formas mais ágeis de pagamento. Os cartões de crédito e os hábitos de uso mais prático dessa tecnologia estão restritos a um público proporcionalmente pequeno, diante do potencial do OTT.

ARQUIVO OU ESTOQUE?


O estudo, que foi encomendado pela Ooyala e Vindicia, traz informações importantes para o mercado Latino Americano. Mas não considerou uma variável presente principalmente no Brasil. É a capacidade de adaptação às condições adversas, inclusive nos produtos que exigem alta tecnologia. É a evolução do "jeitinho brasileiro". Afinal, alta tecnologia não funciona na gambiarra, "jeitinho" não resolve, tem que ser solução. Mas, solução abrangente, capaz de mitigar as carências de um mercado em transformação.

A plataforma EiTV CLOUD tem funcionalidades capazes de compensar parte do aperto na banda larga. Em situações de tráfego restrito ela automaticamente reduz, de maneira seletiva, parte do sinal. O conteúdo chega à audiência normalmente, ainda que com uma queda de qualidade. Na maioria das vezes é imperceptível. O aplicativo EiTV Play, para a audiência mobile, em versões Android e iOS, traz a conveniência da TV Everywhere, ampliando no tempo as possibilidades de acesso ao conteúdo. Produtos que já estão no mercado, atendendo clientes exigentes. O potencial projetado é para atender emissoras de todo porte, para dar nova oportunidade de mercado para a extensa produção nacional da TV aberta. São ferramentas disponíveis de imediato para transformar arquivos, em estoques de produtos altamente vendáveis.

A sabedoria popular, de longa data, já contava que, em casa que não tem TV, a filharada é grande. As facilidades da tecnologia mobile chegaram mais além, para colocar o entretenimento em outras importantes situações, mais furtivas ainda. É o eficiente efeito que a televisão já exercia há tempo, preenchendo o tempo e o pensamento com algum sossego. Perguntem às vovós de hoje.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

UM NOME QUE É QUASE UMA SINA


Era quase carnaval quando nasceu o Instituto Ginga. O fato mereceria manchetes de jornais, embora a grande maioria da população pensaria antes que se tratava de uma federação de sambistas. Mas não, Ginga é o software 100% nacional que se tornou a única tecnologia produzida pelo Brasil adotada como padrão mundial. O anúncio foi feito em 2008 pela UIT, a União Internacional de Telecomunicações, Agência especializada da ONU para tecnologias de informação e comunicação. Mas por que um Instituto Ginga? E justo na semana do carnaval deste 2016?

A iniciativa, que reúne pesquisadores de 20 laboratórios de mídia digital pelo Brasil, é mais uma "gingada" da Tecnologia Brasileira na tentativa de fazer com que o Ginga não seja simplesmente jogado fora. Sim, gingada, para tentar escapar de ataques disfarçados, das dificuldades impostas pela grande indústria de tecnologia. Num país como o Brasil, o Ginga permite que muitos serviços públicos e privados cheguem a qualquer lugar, usando simplesmente uma TV. Contribui para a inclusão digital, para a distribuição de conteúdo audiovisual de interesse público, tudo gratuitamente. E permite também a criação ilimitada de aplicativos de interesse empresarial. Para a grande indústria, seria melhor que as pessoas e os governos comprassem tablets, smartphones ou mesmo computadores para realizar essas funções, que o Ginga disponibiliza pela TV. Para entender melhor, convém conhecer a rica e breve história dessa criação brasileira.

O QUE É E DE ONDE VEIO


O Ginga é um software do tipo "middleware" ou, mais especificamente, uma camada de software intermediária, que pode ser acrescentada num sistema. Para entender o que um programa desses faz, lembre o caso das smart TVs. Se um desenvolvedor fizer um aplicativo para uma smart TV de determinada marca, ele só funciona naquela TV. Não vai rodar em smart TVs de outras marcas.

Os set-top boxes (ou conversores digitais) também são sistemas fechados, produzidos por vários fabricantes diferentes. Todas as tarefas executadas internamente seguem a programação do respectivo fabricante. Para um aplicativo rodar num determinado set-top box, em princípio, seria necessário escrever o aplicativo naquele padrão daquela marca, que adotou determinada arquitetura e componentes. Assim, todas as emissoras teriam de enviar os conteúdos interativos também no mesmo padrão. Ou seja, teria de ser escolhido um único modelo de set-top box para todo o Brasil e para quase todos os países da América do Sul, que usam o SBTVD. O Ginga supera essa limitação. Ele permite que qualquer aplicativo escrito em Java ou em NCL-Lua funcione em qualquer tipo de set-top box, de qualquer fabricante. O middleware, pra dizer de uma maneira que todo brasileiro entende, faz um "meio de campo".

O Ginga foi criado numa parceria entre a PUC-Rio e o Lavid, da Universidade Federal da Paraíba. O trabalho foi liderado pelo Prof. Luiz Fernando Soares, da PUC-Rio, que faleceu prematuramente no ano passado. Ele é considerado o "pai" do Ginga e, quando batizou o middleware escolheu esse nome justamente numa alusão à capacidade do brasileiro de fazer as coisas acontecerem, mesmo diante de dificuldades. Ele queria que o Ginga transformasse um set-top box num verdadeiro terminal digital, contando apenas com um sinal de radiodifusão e uma tela de TV. E a equipe dele conseguiu! É o que atesta a UIT.

O Ginga é um software livre, que roda sobre o Linux. A implementação mais completa atualmente é o Ginga C, sobre o qual foi desenvolvido o Brasil 4D. É um conjunto de aplicativos que a EBC, a emissora pública nacional, criou para rodar sobre o Ginga C, capaz de levar cursos profissionalizantes gratuitos, em vídeo, nos mais distantes rincões do país. Permite a consulta de vagas de emprego, por região, profissão, qualificação, etc. Tudo atualizado a qualquer momento. São tantas as possibilidades que a TV se torna até um equipamento de inclusão digital. Está aí, tudo pronto, já testado em cidades brasileiras, tudo de graça.

MAIS UM PASSO NESSE COMPASSO


Promover o Ginga não é criar inimigos. É simplesmente reconhecer que qualquer espaço no mercado é sempre muito concorrido. Isso torna natural que as grandes corporações de tecnologia tentem avançar no espaço do Ginga. Elas vão atualizar seus produtos, sempre em escala global, com a experiência que dá mais segurança aos setores atendidos. Por isso, quem tem o papel de promover o Ginga são os governos. O atual Governo Federal já demonstrou que está fazendo isso.

No ano passado o então Ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, conseguiu viabilizar set-top boxes com Ginga C para 14 milhões de lares atendidos pelo Bolsa Família. É uma compensação, da mesma forma que está acontecendo em todos os países que implantam a tecnologia de TV digital. Ele conseguiu ainda que as operadoras de celulares, por conta de outra compensação devida, assumissem os custos dos set-top boxes. Só que agora os interesses adversários começam a atrapalhar esses planos, antes da entrega dos aparelhos para as famílias.

O Instituto Ginga surge para isso. Para fazer valer, aqui no berço, tudo que o Ginga provou internacionalmente. A primeira reunião vai ser no dia 19 de fevereiro. Espera-se que a posição seja clara e expressa em favor do Ginga C, a versão mais avançada, que vai poder fazer frente à concorrência. O projeto de cidadania via Ginga já está pronto, é o Brasil 4D. Falta agora o Instituto promover o desenvolvimento de aplicativos com alternativas empresariais. Do outro lado, é necessário encontrar uma fórmula para incentivar o comércio de set-top boxes com Ginga C, para que esses aplicativos sejam executáveis em qualquer televisor, e não apenas entre os atendidos pelo Bolsa Família. O Ginga C não é um desafio ufanista. Ele tem que ser encarado como um produto de sucesso, que depende de ser aceito pela sua base de infraestrutura, ou seja, as emissoras de TV. Só mais uma gingada oficial nessa apoteose pode garantir a alegria por muitos carnavais. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

MUITA CONFIANÇA, POUCA FIRMEZA


O goleiro estava tão tranquilo naquele jogo que o atacante adversário parou um pouco ali na área e até pediu um gole de água:"- Ôpa, a garrafinha tá aqui, fique a vontade." O jogo estava todo do outro lado do campo. Naquela condição, se um lançamento chegasse, o atacante estaria impedido. Mas a bola saiu de campo e, na cobrança de lateral, a lei do impedimento não vale. Eis que o atacante devolve a garrafinha pro goleiro, recebe a cobrança do lateral e "pimba". A bola foi parar perto da garrafinha, lá dentro da rede. O fato é real. Lance polêmico, decretou a crônica esportiva. Só que nenhum jornalista questionou a legalidade da jogada. O goleiro, que só pensou em ser bom jogador, esqueceu de prestar atenção na lei.

Se no futebol as coisas são assim, o que dizer de gambiarras tributárias? É um outro tipo de "jogo", onde ninguém precisa ser bom de bola, mas não se pode descuidar da lei. Por isso, quando órgãos oficiais tomam um drible no campo da legalidade, a gente acha tudo muito polêmico. Será que são tão ingênuos assim?

O caso tem a ver com a reformulação da chamada Lei da SeAC, que regula os Serviços de Comunicação Social de Acesso Condicionado, principalmente as TVs por assinatura. Um acordo meio estranho foi feito. O valor do Fistel, recolhido pelas operadoras de telefonia (as "teles") foi reduzido, e uma alíquota de Condecine - contribuição que mantem a Ancine - foi criada no mesmo valor. Dava na mesma, só que o recolhimento era feito a dois cofres diferentes. Foi aí que as teles "pediram a garrafinha de água". Elas tinham interesse na vigência da nova lei, que abria a elas o direito de operar TVs por assinatura, como já se vê na praça. Durante algum tempo ficou tudo bem. Só por um tempo, porque a confusão tributária agora pode zerar o orçamento da Ancine, entidade federal que financia a produção de cinema no Brasil.

JOGANDO LIMPO OU ENTREGANDO O JOGO?


O bote também não foi à toa. No final do ano passado a alíquota da Condecine foi "reajustada" em 28,5%, quase o triplo da inflação oficial. As teles não gostaram e daí já questionaram a legalidade da taxa toda. Ora, o juiz Itagiba Catta Preta Neto, da 4ª Vara Federal da Justiça de Brasília, não teve muita dúvida e já concedeu liminar ao SindiTelebrasil, que representa as empresas. O Juiz reconheceu que as operadoras móveis, que pagam o grosso da contribuição, pouco ou nada se beneficiam da produção audiovisual. Portanto, elas não deveriam paga-la. Afinal, a criação de qualquer imposto tem que seguir o que diz na Constituição, considerando o "fato gerador" e muitos outros princípios. Não é por conta de um acordo entre partes que se inventa impostos.

Esse argumento as teles já tem no "bico da chuteira" há anos. Foi assim que ganharam outra liminar na Justiça, contra a Contribuição para a Radiodifusão Pública - CRP, que mantém a EBC, a emissora de TV educativa gerida pelo Governo Federal. A contribuição foi criada no mesmo modelo da Condecine: tira um pouquinho do Fistel e passa para a CRP. Por enquanto o caso está parado na liminar, as teles estão depositando a taxa em juízo há anos. Se ganharem na sentença final esse placar vai estourar. Elas pedem, adicionalmente, até a devolução de tudo que já pagaram a título de CRP. Um olé de quase R$ 3 bilhões.

Por outro lado, não dá pra ver anjos nessa história. Se o Governo já tomou um nas costas no caso da CRP, por que insistiu na mesma "linha burra" para garantir a Condecine? A única certeza, por enquanto, é que o Fistel ficou bem mais barato para as teles. Para se ter uma ideia, em 2014 as teles recolheram mais de R$ 700 milhões de Condecine, o que representou 90% da receita da Ancine. A entidade agora reclama da ação na Justiça, mas também não deixa claro porque pediu aumento de 28,5%, se apenas um terço da verba que arrecadou está alocado em ações de apoio ao audiovisual. Mais uma vez, cadê os anjos!?

LEVANDO 3 GANHA UM BÔNUS


Já que as teles entendem tanto de impostos, por que não agir em favor da finalidade tributária? O propósito original dos fundos de telecomunicações (Fistel e Fust) é aplicar em programas de inclusão digital ou em políticas de universalização de serviços de telecomunicações. É a área de negócio delas. A popularização da tecnologia Ginga pode propiciar esses benefícios, principalmente a partir das aplicações interativas voltadas para a população de baixa renda. No entanto, o que se vê é as teles "fazendo beiço" a cada vez que se fala no Ginga, o software brasileiro que transforma os set-top boxes (conversores digitais) na mais poderosa ferramenta de inclusão digital em massa para um país como o Brasil.

Depois do leilão da faixa adicional para a Internet móvel as teles assumiram, como compensação, apoiar as famílias de baixa renda a acessarem a TV digital. Um investimento que passa de R$ 3 bilhões. Nesse caso não tem nada a ver com imposto, foi um compromisso assumido no edital do leilão, que passou a incluir a popularização do Ginga. Porém, agora reclamam dos custos que essa obrigação pode representar por causa da alta do dólar.

Maior contradição que essa só a "doação" de mais de R$ 100 milhões que o governo acaba de conceder às teles. O Ministério das Comunicações autorizou o adiamento, por um ano, do pagamento do valor que as teles teriam que depositar até o final de janeiro para a compensação assumida no leilão. O valor é de R$ 1,1 bilhão, que não terá qualquer acréscimo ou correção pelo adiamento. Na inflação que estamos vivendo, no mínimo R$ 100 milhões vão parar no fundo da rede, bem ao lado da garrafinha de água.