sexta-feira, 30 de outubro de 2015

UMA PÍLULA PARA A INOVAÇÃO


O alerta foi feito por vários médicos, tanto urologistas como psiquiatras: o Viagra e similares não funcionam se o usuário não estiver motivado para "partir pra cima". O recado foi para os maridos que, desinteressados pelas intimidades da vida a dois, aparecem em consultórios procurando uma receita para a inquietude das esposas. As cobranças muitas vezes atrasam o sono, tão importante para o sucesso no dia seguinte, nos negócios, pelos quais são verdadeiramente apaixonados. Sem desejo o milagre não acontece em casa e a culpa fica entre o médico e o laboratório.

O mesmo se passa com a inovação. Não havendo motivação, interesse, e até uma certa paixão, ela não vai surgir firmemente nas alturas do sucesso. Por outro lado, exige-se um ambiente adequado, que favoreça a abordagem. É o que não acontece no Brasil. Pelo menos foi o que transpareceu até há pouco o recente episódio envolvendo uma outra pílula, a "pílula da USP", anunciada como a cura do câncer.

Especulações à respeito da eventual eficácia do composto químico são todas uma perda de tempo. Porque só uma confirmação científica terá valor. O que interessa é o enredo desse romance, onde o desencontro de informações até agora tende à conclusões precipitadas, trágicas como as de Romeu e Julieta. No lugar do sonho intenso, do raio vívido, o cenário que prevaleceu foi do berço esplêndido, o "toma que o filho é teu", burocrático e descomprometido.

VAI ESPERAR MAIS O QUÊ!?


Em histórias de amor um ícone recorrente do desejo é Bruna Lombardi, ainda que sexagenária. Em inovação, a cura do câncer é o ícone do desejo há muito mais tempo. Desta vez, ela não foi anunciada num terreiro, numa "garrafada" de um caboclo, nem numa fórmula secreta de algum amador, cheio de boas intenções e esoterismos. Foi um professor da universidade mais conceituada do Hemisfério Sul que estudou e desenvolveu o composto químico em questão. Um professor de carreira científica completa, muitos trabalhos publicados, conceito elevado. Não é médico, é um químico. Profissão responsável pela criação de grande parte dos medicamentos que utilizamos. Por isso, mesmo não tendo esse viés farmacêutico na carreira, o professor buscou todo o embasamento científico para suas afirmações, que não se aprofundaram nos detalhes médicos.

Tudo isso não representa quase nada para se afirmar algo sobre a eficácia do composto. Mas, com certeza, é muito mais do que o mínimo necessário para se pôr o invento à prova. O que até agora ninguém tinha pensado. Enquanto isso, durante anos, centenas e centenas de pessoas procuravam o Instituto de Química da USP, em São Carlos, onde o professor trabalhava. E foram essas pessoas que fizeram a fama que a pílula sustenta até hoje, inclusive dentro dos mais respeitados tribunais brasileiros. Mesmo assim, a discussão continua centrada no passado, o que foi feito de errado, o que deveria ter sido feito. O futuro, que é o tempo da inovação, até a semana passada nem existia para essa trama.

UM PASSO NA DIREÇÃO CERTA


Há uma semana o Ministro Marcelo Castro, da Saúde, deu prazo de dois meses para um grupo organizar toda a agenda de testes clínicos e pesquisas necessárias para responder, cientificamente, se a Fosfoetanolamina Sintética (é o nome do composto) pode ser considerada um medicamento para o tratamento do câncer. Mais uma vez, estourou na mão do "governo". Esse ente quase abstrato, centro de tantas demandas neste país, tem que ser o cupido, o padre e o pai da noiva em muitas ocasiões. É o responsável por tudo! A própria USP, através de seu Reitor, se preocupou em responsabilizar civil e criminalmente os que tivessem contribuído para a distribuição de um composto, sem registro na Anvisa, anunciado como remédio. Mas esqueceu de terminar a pesquisa que foi iniciada dentro da própria universidade. Uma pesquisa que teve o grave inconveniente de ter dado certo. Tivesse falhado, seria muito melhor. Os relatórios teriam descrito as reações adversas e tudo estaria esquecido numa hemeroteca qualquer, sem incomodar a rotina tradicional.

Para inovar, assim como nas histórias de amor, tem que haver um certo atrevimento. Não precisa ser a tara que alguns participantes da pesquisa em causa demonstraram. Mas não vale persistir somente no pleito primário do paternalismo governamental. No caso da "fosfo", apelido dado à substância, no ambiente científico quase ninguém acredita que seja a cura do câncer. Mas se for um protagonista a mais nessa conquista, já será uma grande e valorosa inovação. Caso contrário, será uma experiência importante. Por enquanto, um efeito significativo já pode ser anotado: a fosfo demonstrou que o Brasil está precisando de um "Viagra" para os processos de inovação. Revivendo os momentos universitários, uma adaptação pudica pode ser simbólica: "Sem tesão, não há solução".

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

TEMPO INSTÁVEL PARA A TV BRASILEIRA


"Na compra de um novo, garantia de três anos ou até 10 mil quilômetros". Em menos de uma linha, um contrato claro no mercado de automóveis. Nem sempre é tão fácil assim. Quando uma condição não exclui claramente a outra fica na base do "tá escrito ali", só que não, "porque antes tá escrito isso aqui". É o que parece estar acontecendo no caso do "switch off" brasileiro, tecnicamente traduzido por "desligamento do sinal analógico de TV" ou ainda, "apagão", para os íntimos.

As razões dessa confusão começam a ficar claras quando se entende os interesses em jogo. Por que é importante desligar o sinal analógico? Não dá pra deixar o sinal digital e o analógico no ar e cada um escolhe o que quiser? Não pode, porque seria um grande desperdício. A Internet, o crescimento das telecomunicações, dependem muito de espaço no chamado espectro eletromagnético. Esse espaço depende muito da melhor organização das frequências, o que acabou ficando nas mãos dos governos nacionais. No Brasil, determinadas faixas de frequência valem bilhões de reais, e o governo ganha muito dinheiro só pra organizar isso. Se o país já tem todas as emissoras digitalizadas, ao desligar a transmissão analógica essas frequências ficam disponíveis, e o Governo vende para outras empresas.

Outro grande interesse relacionado ao desligamento do sinal é a audiência. É exatamente o que as emissoras de TV vendem. Cada cidadão a mais no sofá, valoriza a propaganda da emissora que ele está assistindo. No modelo brasileiro, é a audiência que sustenta as empresas privadas encarregadas do serviço público do tipo televisão, concedido pelo Governo às emissoras. E já que falamos em serviço público, tem aí a obrigação do Governo de garantir esse serviço a toda a população.

O OVO OU A GALINHA?


Na portaria do Ministério das Comunicações, que obriga o desligamento do sinal analógico, vem escrito, no artigo primeiro que "...pelo menos, noventa e três por cento dos domicílios do município ... estejam aptos à recepção da televisão digital terrestre." Significa que em 93% dos lares de cada cidade tem que ter um televisor desses modelos novos ou um set-top box (conversor digital) conectado e funcionando. É uma condição que resguarda o direito do cidadão ter acesso à TV. Lá no final da portaria está o calendário para o desligamento, impondo a obrigação das emissoras liberarem a banda analógica do espectro, numa determinada data para cada região.

O senso comum leva a entender que, o que vem primeiro é o mais importante. No caso, a condição de pelo menos 93% dos moradores de cada cidade, para comprar um televisor novo ou um set-top box. Sem isso, o direito de acesso à TV não estará resguardado. Mas e a obrigação lá do final? Sim, as emissoras tem como dever desligar o sinal analógico na data prevista. E isso pode afetar a preciosa audiência, que paga o serviço e o lucro das emissoras.

Na prática, a perda dessa audiência é maior do que parece. Começa pelos 7%, que vão ficar sem TV quando os outros 93% dos lares já tiverem a recepção digital. Depois vem os aparelhos espalhados por algumas casas. Se a residência tem um novo na sala, que já veio digitalizado de fábrica, na pesquisa conta para a casa toda. Mas o aparelho do quarto do casal ainda é dos antigos, a crise está batendo na porta, melhor esperar pra ver se vai comprar um novo de uma vez, ou se paga menos por um conversor. No quarto do filho tem outro ponto de audiência, a TV antiga que ficou para o videogame, mas ele muitas vezes aproveita pra assistir à TV. Quando desligarem o sinal analógico, esses pontos de audiência somem. Lá na frente, o anunciante vai notar que a propaganda pela TV não deu mais tanto retorno como antes. Isso sem contar o medo das emissoras de que os 93% não sejam bem apurados pelo Governo, apressado em ter mais frequências de volta.

UMA COISA E OUTRA COISA


No começo deste mês, durante o Congresso da Abert, a associação dos radiodifusores, os empresários do setor juntaram todas as ansiedades e empacotaram num pedido de adiamento do apagão. Querem mais 4 anos de sinal analógico no ar. O pedido foi desembrulhado perante a Presidente Dilma e o Ministro das Comunicações, na abertura do Congresso, onde também estavam muitas outras autoridades do setor. A expectativa era de que alguma resposta viesse no último dia 22, na reunião ordinária do Gired, o grupo encarregado da transição do sinal de TV. Mas ninguém tocou no assunto.

O prazo de quatro anos, para as emissoras, é o suficiente para que a substituição dos televisores antigos aconteça espontaneamente. Ninguém espera que a crise dure tanto e nem os aparelhos dos anos 90. Daí a audiência entraria na onda digital sem nenhuma pressão. A proposta parece consistente, mas as emissoras, talvez por conta da ansiedade, acabam forçando alguns argumentos descabidos. Por exemplo, sobre a distribuição dos conversores para os atendidos pelo programa Bolsa Família. Trata-se de uma compensação que está na conta das teles, as empresas de telefonia móvel, que compraram antecipadamente algumas faixas que transmitiam sinais analógicos. Pode ser só pra aumentar a base de apoio, mas as emissoras propõem que as teles não gastem com os conversores do Bolsa Família nas cidades menores, onde tem frequências de sobra para muitas transmissões.

A TV digital é muito mais do que uma tela mais bonita. Agrega serviços inestimáveis, já prontos para atender a população carente, através do programa Brasil 4D, da EBC - Empresa Brasileira de Comunicação. Depois do acordo firmado com as teles em 2014, da formação do fundo de compensações, é um completo absurdo propor uma economia que seria lesiva até para a tecnologia nacional. Venha quando vier, a TV digital para todo o Brasil precisa ter a alternativa Ginga C, já definida pelo Gired como padrão mínimo garantido aos lares carentes.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

ENTRE O ADOLESCENTE E O "ABORRECENTE"


Adolescência é uma idade complicada. A gente espicha, a voz muda, a cara começa a ficar de adulto, mas a criança dentro da cabeça ainda decide muitas coisas. Tem o lado prosaico, tipo ser flagrado pelo Inspetor bem na hora em que pulou o muro da escola. Daí o marmanjão vai pra diretoria e dá aquela desculpa esfarrapada: "-É que eu esqueci o livro de história, eu queria ir busca-lo em casa." O Diretor fica pasmado, pensando o que é que tem a ver uma coisa com outra! Até quando vai precisar fazer de conta que é possível acreditar nesse tipo de explicação?

O outro lado dessa mistura de criança e adulto numa só pessoa é muito mais preocupante. Melhor nem exemplificar, até porque os casos são cada vez mais assustadores, na medida em que este mundo fica mais complexo. A sociedade está cada vez menos flexível, cada um tem de agir dentro de um padrão, o meio termo atrapalha o ritmo das coisas.

É assim que surgem alguns tropeços dessa jovem democracia que adolesce num país já idoso, como o Brasil. Às vezes, falta seriedade. Do lado do cidadão, que precisa trabalhar e pagar impostos como gente grande, fica aquela mesma dúvida do Diretor de outrora: "-o que é que uma coisa tem a ver com a outra!?" O exemplo concreto está na recente tentativa de empurrar com a barriga, mais uma vez, a data em que os brasileiros terão uma televisão no padrão digital.

A LEI? ORA, A LEI.


Já faz tempo que foi definido o atual calendário do "switch off", ou "apagão", ou simplesmente desligamento do sinal analógico de TV no Brasil. Todos puderam questionar, opinar e finalmente as datas ficaram estabelecidas entre 2016 e 2018. Foram assim para o livro da história, tem alguns anos. À época, um "céu de brigadeiro" dava teto para os vôos da Economia, pleno emprego, negócios aquecidos. 

No ano passado um outro fato, completamente a parte, acrescentou um investimento importante para os radiodifusores: foi o leilão da banda de 700MHz para as empresas operadoras de celulares, conhecidas como "teles". Elas precisam dessa banda para baratear a expansão da Internet 4G no Brasil. Como algumas emissoras do país só iriam sair dessa faixa de frequência quando migrassem para o sinal digital, o Governo Federal obrigou as participantes do leilão a formarem um fundo de compensação, que juntou mais de R$ 3,6 bilhões. Esse fundo, além de socorrer essas emissoras na antecipação do desligamento analógico, se encarregaria de bancar os conversores digitais (ou set-top boxes) para 14 milhões de lares atendidos pelo Bolsa Família. Assim o apagão, antecipado ou não - dependendo da região do país - não deixaria ninguém sem TV. O leilão, portanto, só contribuiu, e muito, para a universalização da TV digital.

Então estamos conversados, foram centenas de reuniões, anos de estudos, acordo fechado, fio de bigode na mesa. Até que, na semana passada, um lapso sequencial irrompeu no ar, para mudar tudo que estava no livro da história. E tem que ser pra semana que vem. Isso parece sério?

A EVOLUÇÃO VAI À LEILÃO


A TV digital não é apenas um aprimoramento da TV. É uma plataforma de comunicação que não se compara a nenhuma outra que já existiu na sua casa. Vai viabilizar serviços e soluções com potencial de diminuir até os congestionamentos nas grandes cidades. É exatamente essa evolução que um grupo está querendo tomar da imensa maioria das cidades brasileiras, deixando os brasileiros de lá à margem dessa conquista. Eles se declaram preocupados com a economia popular e com os lucros das teles - Claro, Tim e Vivo. Mas as razões desse pretenso altruísmo parecem muito mais egoístas e imediatistas.

O álibi parte de questões técnicas. Excetuando as grandes cidades brasileiras, com mais de 500 mil habitantes, há espaço sobrando no espectro de frequências. Então, nas pequenas cidades, as emissoras que estiverem na banda de 700MHz podem escolher outras faixas de frequência que hoje estão na sobra, sem precisar entrar na faixa digital.

Tá, e daí?

Daí as teles vão poder usar os 700MHz sem precisar pagar as compensações para as emissoras - que continuariam analógicas - e nem para as famílias carentes, que ficariam sem set-top box em casa, porque a TV vai continuar analógica.

E por que vocês estão preocupados com isso, se não puseram um centavo no fundo formado pelas teles!?

Porque assim o Governo Federal adiaria o apagão analógico e o povo brasileiro não precisaria ter as vantagens da TV digital em suas casas.

Só faltou um detalhe: o maior interesse dos mobilizadores desse "estelionato tecnológico" deve estar no uso do dinheiro das compensações para pagar campanhas publicitárias nas próprias emissoras. Ah, sim, daí tudo soa mais lógico.

Pra ter certeza de que o apagão não tem nada a ver com o leilão é só examinar um pouco mais os interesses do pessoal que está agitando. Dizem que o dólar subiu muito e que a maioria das emissoras está fora dos 700MHz. Por isso, essas emissoras não vão receber os equipamentos de compensações das teles. Vão ter que comprar equipamentos importados com dólar alto, num momento de crise.

Ora, ora, o calendário está fixado há anos, período em que a economia estava aquecida, dólar lá em baixo. Por que não investiram, não planejaram? E mais. Alguém sabe em que data o dólar vai baixar e a economia vai reaquecer? É simples, estão querendo adiar mais um avanço do Brasil, para atender a comodidade de poucos. E, de quebra, vão aproveitar o tempo que querem ganhar para inviabilizar o Ginga C, nivelando por baixo a qualidade da TV brasileira.

Na próxima semana, no dia 22, o livro da História vai abrir de novo, na reunião do grupo denominado Gired. Vamos ver se a resposta do Brasil vai ser algo plausível ou se, mais uma vez, a democracia adolescente vai insistir no lado moleque.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

COLOQUEM OS CINTOS, O PILOTO MUDOU


Máquina de escrever, identificador de chamadas telefônicas, sensor de movimentos Kinect, avião e até o Facebook. Tem muita coisa que brasileiros inventaram, total ou parcialmente, mas que enriqueceram empreendedores de outros países. A explicação pra esse tipo de mico é que o dinheiro chega para quem inventa uma forma de uso. Santos Dumont inventou o avião mas a aviação foi inventada em outro país, para que todos pudessem usar aviões. O câmbio automático é uma criação brasileira de 1932, dos engenheiros José Braz Araripe e Fernando Lemos, mas ninguém fabricava carros aqui naquela época. Usar onde, então? Seis anos depois a General Motors comprou a patente e passou a usar e comercializar devidamente o invento brasileiro.

Pois é, hoje a invenção brasileira com maior potencial de uso e geração de negócios no Brasil é o Ginga C. Se tem outra, está bem escondida. O Ginga é um software, do tipo middleware, que instalado num set-top box (conhecido como "conversor digital"), transforma uma TV qualquer num parque de diversões - com cinema! As comparações meio exageradas vão na linha dos marqueteiros, que não poupam a criatividade para fazer tudo virar um grande negócio.

Como o Ginga é pra ser usado numa das máquinas mais importantes do Brasil - o televisor - ele entra num ambiente de negócios altamente regulamentado. Na prática, depende do Governo Federal, pelo menos no começo, para se encaixar na complicada rede de interesses do setor. E de fato, nesse detalhe, há poucos meses houve uma resposta assertiva e corajosa de Ricardo Berzoini, Ministro da Comunicações. Ou melhor, ex-ministro da pasta. São essas duas letras que agora assustam um pouco alguns empreendedores.

PASSANDO O COMANDO


André Figueiredo, o novo Ministro das Comunicações, chegou sob um discurso de independência. Sem entrar nesse mérito, o importante é não esquecer que acertos já definidos e fechados, devem ser respeitados. Político de carreira, que já ocupou secretarias municipais e estaduais do Ceará, Figueiredo tem formação nas áreas de Direito e Economia. Foi Deputado Estadual e Federal, cadeira para a qual foi reeleito em 2014, pelo PDT. Agora licenciado do Legislativo, assume um Ministério de uma área nova para ele. As experiências executivas anteriores foram mais relacionadas à Juventude e programas sociais. Empresário, o Ministro é sócio em uma companhia que atua em Comércio Exterior.

Por enquanto, o fato objetivamente favorável é o nome que ele deve trazer para chefiar a Assessoria Técnica da sua gestão: Flávio Lenz. Profissional experiente e de visão, Lenz atuou no mesmo ministério com Hélio Costa e também com Paulo Bernardo. Ele acompanhou todo o processo de implantação da TV Digital no Brasil e agora volta para atuar num projeto que ele mesmo começou. Um detalhe que pode fazer a diferença foi o esforço proposto pelo então Ministro Hélio Costa, para que mais modelos de celulares fossem fabricados com a capacidade para captar o sinal digital de TV. Possivelmente, Lenz influenciou nesse pleito.

A ROTA PARECE ESTAR MANTIDA


O Ministério das Comunicações tende a crescer em importância dia a dia, talvez até exigindo um desmembramento em breve. Já foi uma pasta mais burocrática, nos tempos em que se relacionava praticamente só com estatais. Com a privatização da telefonia, o crescimento dos dispositivos móveis e agora, com a TV Digital, o Ministério regulamenta os limites de empresas privadas que ainda não viram limites nem nos lucros. No ano passado, um leilão de faixas de frequência - que não custam um centavo para o governo - levantou mais de R$ 8 bilhões só de compensações. As teles disputaram frequências na faixa de 700MHz, então ocupada por sinais de TV. Esse remanejamento de sinal obrigou às compensações, que incluem equipamentos para algumas emissoras e, principalmente, set-top boxes para 14 milhões de lares atendidos pelo Bolsa Família.

Foi exatamente a definição dos set-top boxes que levou o Ministro anterior, Ricardo Berzoini, a uma queda de braço com alguns setores. Berzoini exigiu que as "caixas" - outro apelido dos set-top boxes - tivessem o Ginga C, que garante o mais elevado nível de interatividade entre telespectadores e emissoras. Foi aí onde o Ginga C passou a ser uma conquista nacional, um invento promissor para os mais diversos ramos de negócios.

O ex-Ministro sabe bem todos os motivos que fazem da implementação C do Ginga uma conquista da Tecnologia Brasileira e agora, de toda a população. E ainda, o "ex" das Comunicações é o atual Secretário de Governo, função com status de Ministro. Portanto, nesse cenário, apesar das turbulências tão alardeadas, não parece existir risco para a interatividade na TV pela TV. Mesmo sabendo que alguns setores empresariais ainda não se conformaram com a conquista da Tecnologia Brasileira. Em Rio Verde - GO, onde o sinal analógico já está em contagem regressiva para desligamento, estão reservadas as primeiras caixas para o Bolsa Família. O modelo EiTV smartBox, para o mercado, marca mais um momento de pioneirismo da empresa na TV Digital Brasileira.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

CRIADOR E CRIATURA


O efeito da indústria do cinema na sociedade é algo que ainda vai demorar um tempo pra ser aquilatado. Pense no efeito que ele teve na sua vida. Filme inesquecível, cena, atitude, talvez até na escolha da profissão, da namorada, na decisão de se casar. O cinema é tudo isso e é também o criador da TV. Foi a produção da telona que preencheu e trouxe vigor para a telinha virar companhia íntima do mundo todo.

Outro sério efeito na sociedade! A TV acabou com a mesa do jantar, com as cadeiras nas calçadas, trocou o voyerismo das janelas pelos reality shows e assumiu uma vida própria. Nesse meio tempo foi acusada de ameaça contra o próprio cinema, quando inventaram os vídeo cassetes. Mas as salas só mudaram para os shoppings e se multiplicaram. Os arautos dos fins dos tempos também previram o fim dos shoppings. Foi quando inventaram o comércio eletrônico. Desde então os lançamentos de novos shoppings cresceram consideravelmente. Agora é o fim da TV aberta que está em pauta, portanto, para sorte de quem investe nas emissoras.

A TV, com a outra metade do DNA, além da que herdou do cinema, criou a "plataforma audiovisual doméstica", desta vez, por vontade dos japoneses. Eles inventaram as TVs LCD e a transmissão HD, que chegou a trafegar até em sinal analógico, com uma banda 3 vezes maior. A meta era levar para dentro dos lares o máximo possível da qualidade de som e imagem que o cinema oferece. Acabou levando mais que isso.

O QUE UM LORD PENSARIA A RESPEITO


A nobreza inglesa tem um padrão de exigência elevado. E é daí que vieram rasgados elogios à televisão na última edição da IBC, em Amsterdã. Lord Michael Dobbs, autor do livro que deu origem à série "House of Cards", do Netflix, se disse encantado com o que a plataforma audiovisual doméstica está propiciando aos lares mundo afora. Enredos e protagonistas que só se via nas grandes salas, estrelando produções que tiveram estréia na TV. Foi além do sonho japonês. "-Mas isso foi pelo Netflix", dirão os tendenciosos. Ora, e isso não fortalece a mesma "plataforma", ainda chamada TV? É por onde chega também a TV por assinatura, a gravação do aniversário, a TV aberta, etc. Ou será que o Netflix vai destruir a indústria de games?

Pensar a TV de hoje é algo maior. Ela criou um lugar cativo, um jeito de ser feliz que é só dela. Assim como o cinema, é um tipo de lazer que tem um público de todas as gerações. A TV aberta deu um sentido especial ao ato de ficar em casa. E é neste hábito, no mesmo aparelho, que os investimentos estão crescendo assustadoramente.

A INCONTORNÁVEL LINHA DO TEMPO


A grande plataforma audiovisual está levando grandes empresas, como a Apple, a desenvolverem alternativas quase completas. Um sistema operacional próprio, o TV OS, vai tentar integrar os domínios do sofá ao Ipad, ao IPhone e ao notebook ou PC, desde que da dinastia Apple. O "quase" completo da alternativa fica por conta dos cord cutters, que também aumentam na ponta de lá. Justamente, por conta da TV aberta, agora com a mesma qualidade de som e imagem da TV por assinatura.

Lá do luxo da nobreza, o Lord Dobbs acredita que não há mais sentido em assistir à TV linear. Aqui no mundo real, onde as descendências da plebe tem uma mesma rotina semanal, é importante estar em dia não apenas com a cotação da libra esterlina,  mas também do euro, do dólar e até do yuan. Aliás, as lições da história nos últimos séculos apontam que o que está sumindo do planeta são as monarquias, a plebe só aumenta. Tendências! Nesse rumo, a academia de Hollywood que se cuide. O célebre Oscar vai ter que reconhecer as conquistas de outros gêneros, descendentes do cinema. Os grandes investimentos na "PAD", a "plataforma audiovisual doméstica" inventada pelos japoneses, vão continuar levando grandes produções a estrearem mais vezes nas salas familiares. Naquele mesmo lugar onde a vida não deixa, nem por um instante, de ser linear.