AGITANDO ONDAS PARA POUCOS SURFAREM



Lembra da Internet discada? Que suplício para conseguir uma conexão no domingo à tarde! O que seria a Internet hoje se as conexões custassem tanto... a conectar.

A qualidade de uma mídia qualquer é fundamental para manter o público. Revistas em papel couché, jornais impressos em cores, rádios FM. Mesmo a TV a cabo surgiu porque o público americano queria algo melhor que aquele som e aquelas imagens que chegavam pela antena, instáveis, chuviscadas, com várias interferências. A qualidade é fundamental para agradar os sentidos físicos. Décadas depois foi a estrutura da TV a cabo que virou a primeira grande via de expansão da Internet.

O modem 3G, na forma de um pen drive, foi um passo adiante. A Internet chegou pelo ar, sem conexões físicas, sem fios. E com boa qualidade, através de um sinal reservado às operadoras de celular. Dentro das residências o predomínio tem sido as conexões Wireless Fidelity – popular Wi-Fi – que não tem um sinal tão robusto como o do celular, mas funciona muito bem para conexão de dispositivos dentro de uma casa ou escritório. Segundo levantamentos, hoje é nesse puxadinho telemático onde a Internet mais é acessada. Aquele “cabo de rede” virtual que a gente nunca esquece em casa, não incomoda no bolso e nem pesa. Por isso ele está mudando a organização do espectro eletromagnético. Uma solução tecnológica e econômica que o mundo conectado exige.

Como o Wi-Fi é um sinal que se estende apenas por poucos metros, ele trafega por espaços reservados do espectro. Esse espaço é gratuito e conhecido como o “não licenciado”. Ao longo do tempo o Wi-Fi foi conquistando mais espaços, começando na faixa de 2,4 GHz, depois também com a faixa de 5 GHz e agora tem parte da faixa de 6GHz. Já faz algum tempo que esse pedacinho de faixa é insuficiente para uso em jogos mais sofisticados, por exemplo. Esse pouco está ficando muito complicado para um segmento de mercado que já conta com notebooks especialmente projetados. E notebooks são plataformas móveis. Como um videogame normalmente é jogado numa cadeira, até passa. Mas uma prateleira de novos headsets começa a entrar no mercado com força. No centro dela está a realidade virtual. Dentre outras aplicações, médicos podem usar desse recurso para planejar e simular cirurgias. Quem assistiu a The Good Doctor viu várias “palhinhas”. No mínimo, merchandising de sistemas que já devem estar no mercado. Se for, está funcionando.

Com tanta responsabilidade envolvida, esse sinal muitas vezes ainda trafega por cabo, o que é incômodo, quase limitante para o uso de determinados equipamentos. Um Wi-Fi mais robusto resolveria esses problemas. Foi nesse sentido que criaram o wi-fi6. A chegada de um sinal mais intenso abre aqueles espaços multidimensionais que a criatividade cibernética logo preenche com um monte de novos aparelhos. Que vendem demais. Empresas americanas resolveram ir além e desenvolveram o wi-fi6e, a “banda ultra larga de metros”, verdadeiramente um super Wi-Fi. Conseguiram convencer a FCC – a “Anatel” americana – e tomaram posse de toda a faixa de 6GHz, “na faixa”, dentro do critério “não licenciado”.

As padronizações de tecnologias de informática e comunicações, que tendem a abranger um âmbito planetário, precisam de amplas discussões em organizações de perfil técnico. Essas organizações são formadas por representantes da academia, de desenvolvedores e do mercado. No caso do wi-fi6E, por enquanto, só os Estados Unidos já decidiram destinar toda a faixa de 6GHz. Porém, a GSMA, a organização global de tecnologia móvel, sugere que os outros países esperem um pouco mais. A Diretora Sênior de Espectro Futuro da GSMA, Luciana Camargos, acha precipitado definir agora qualquer coisa a respeito. Primeiro porque ainda faltam muitos testes para validar essa tecnologia. E ainda, porque os Estados Unidos são um mercado a parte, têm uma demanda que não se compara ao que é visto em qualquer outro país. A entidade acredita que parte da faixa de 6GHz pode ser destinada para o 5G, uma tecnologia que tende a marcar época na história das redes celulares.

Do outro lado estão muitas empresas interessadas em alcançar mais e mais internautas, para aumentar a sua audiência. Elas se estruturaram em uma organização conhecida como Coalizão wifi6e Brasil. A coalizão reúne 21 entidades que congregam algo em torno de 1.500 empresas. Dentre elas estão Amazon, Apple, Google, Facebook, Qualcomm, Oi, muitos pequenos provedores, fabricantes.

A coalizão está promovendo um frenético oba-oba. Já conseguiu que a Anatel indicasse o uso total da faixa de 6GHz para o wi-fi6E. A proposta está em consulta pública e pode ser confirmada pela agência reguladora após a manifestação da sociedade. Caso assim aconteça, de imediato, será aberto um grande mercado para as fabricantes de equipamentos de conexão e, claro, as principais plataformas da Internet tendem a garantir presença ainda maior junto à sua audiência no Brasil.

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