POR QUE NÃO DEIXAR PARA DEPOIS?


O mundo era ali, na Europa. Em vários outros lugares também era mundo, mas lá na Europa começaram a se comunicar mais. Desenvolveram bem a escrita, registram seus caminhos, investigaram até as estrelas. Na cabeça deles, ali era o umbigo do planeta.

Eles sabiam que existiam os povos do Oriente, também os asiáticos – para eles, o Egito era asiático – e, por fim, os mares. O que poderia existir além mares? Saíram navegando e olha nós aqui. Registros históricos indicam que, entre os exploradores, cogitou-se a hipótese de que a costa brasileira fosse o paraíso. Sim, um povo ingênuo, gentil, que vivia em paz. Isso era difícil para aquele povo briguento entender. Na terra deles, era um querendo tomar o lugar do outro.


Bom, se o mundo não era só ali, a verdade é que o mundo todo ficou muito parecido com a Europa. A cultura ocidental foi se replicando séculos afora e hoje, até as culturas mais antigas, como China, Japão, Índia, vivem de um jeito cada vez mais parecido. Talvez o nome mais apropriado para esse fenômeno seja comunicação. O bicho gente quer se comunicar mais e mais. Fatos, ideias e até as mais perigosas misturas desses dois, circulam o tempo todo. Todo mundo exige saber do tardígrado, a vida mais resistente já encontrada na Terra. Querem saber do computador quântico, do resultado do clássico, do casamento da Gisele Bündchen, da fantasia da Paola Oliveira no carnaval, além de algumas informações úteis. E tem que saber na hora em que todo mundo fica sabendo. Muito bem, então liga a televisão. É só ligar e já corre o risco de receber informações, ideias, emoções.


E quanto custa ligar a televisão? Ah, se você quer televisão com qualidade de som e imagem, vai ter que pagar todo mês. Mas compensa, você vai ter acesso a centenas de canais pelo mundo e ainda a conteúdos premium. Funcionou por algumas décadas no mundo todo, menos no Brasil. Aqui adotaram um modelo que, bem mais tarde, foi necessário para a popularização da Internet. Quer entrar num site? Fique à vontade, é de graça. Assim era a TV no Brasil, aberta, gratuita... e de qualidade. Dia de chuva, ou muito vendo, tinha imagem duplicada, ruídos, às vezes saia do ar mas, na média, ia bem. Veio a TV digital e problemas de som e imagem acabaram. Agora a integração com a Internet oferece conteúdo premium, pagando a parte. É o streaming. E aquela centena de canais extras? Sei lá, nunca os assisti e, se procurar, já encontro alguns pela Internet. Só pago o que me interessar.


Uma bela combinação. E quem vai tomar conta? Pois é, aquele jeito briguento, que fomos adotando ao longo do tempo, nos leva a esse tipo de situação. Afinal, quem é que manda nisso aqui? A indústria do streaming, depois de um avanço vertiginoso no mercado do audiovisual, entrou nessa vibe. Como todo menino de sucesso que está entrando na adolescência, está querendo tomar conta do pedaço. E faz previsões um tanto apressadas.


Não se trata de subestimar o streaming, esse negócio gigante e poderoso que apareceu de uma década pra outra. Mas é o tom que dirigentes das grandes redes de TV do Brasil adotaram durante a última edição da SetExpo 2022. Num painel sobre a transformação do consumo de mídia, Raymundo Barros, diretor de estratégia e tecnologia da Globo, observou que “hoje, podemos afirmar que esse modelo não se sustenta a longo prazo.” Ele usou como exemplo a trajetória da Netflix, que neste ano parou de crescer. O diretor de assuntos institucionais e regulatórios do SBT, Roberto Dias Lima Franco seguiu uma visão semelhante ao  admitir que “... me arrisco a dizer que concorremos com modelos que não são sustentáveis.” Para ele, “a indústria do streaming é complementar ao que fazemos.” Trata-se de um comportamento coletivo que leva as pessoas a quererem ver, na mesma hora que os outros, o jogo de futebol, o debate eleitoral, as notícias e até as novelas. E essa é a TV linear, aqui no Brasil, também aberta. Da Record TV, José Marcelo Amaral, diretor de engenharia e operações, entende que “com as novas mídias, vemos uma pulverização tremenda de receita, mas nós, como empresas tradicionais, que ... sabem o que o público gosta, vamos perdurar.” 


O Jornalismo ao vivo é a modalidade de informação que mais cresce. Um sinal da força desse “comportamento coletivo”, segundo o qual “a hora é agora”. E as novas tecnologias deixam isso claro. Hoje é muito simples assistir a um jogo quando chegar em casa, ou ver os gols de graça na Internet. Mesmo assim, a partir de novembro, vamos ver o Brasil parar diante das telas para assistir aos jogos da Copa do Mundo do Qatar. Essa linearidade de emoções e programações é bem mais do que uma mera alternativa.

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