TÉCNICAS DO CINEMA MAIS TRADICIONAL DO MUNDO

 


Depois de um suspense, o desfecho tem de ser glorioso. E a Disney, como maior estúdio de Hollywood na atualidade, cumpriu à risca o script. Aos 99 anos de vida cinematográfica, nos últimos meses levou à mídia o suspense em torno da iminente superação da Netflix no mercado de streaming. No final da semana passada anunciou o glorioso feito de ultrapassar o número de assinantes da concorrente, que está há 10 anos no mercado.


Por enquanto foi só isso. Só!??

Em meio a tantas especulações, parece que a poderosa Disney “pagou” para chegar a essa posição. Suas principais marcas de streaming, Disney+, Hulu e ESPN+, estão praticando alguns preços abaixo da linha do lucro. Valores que já estão sendo reparados – em alguns casos, em torno de 40% – para o próximo trimestre. Ademais, os 400 mil assinantes que deram a vantagem sobre a concorrente, representam 0,2% acima dos 220,67 milhões de assinantes da Netflix.

Se você tem ações da Netflix, possivelmente não vai vende-las por conta desse segundo lugar. Os números da empresa, segundo analistas, estão criteriosamente situados numa faixa de remuneração satisfatória do negócio. E competitivos no mercado. Ou melhor, perante a realidade de um mercado pré pandemia. A Disney entendeu antes a importância de incluir anunciantes, como meio de dar opções mais em conta para os consumidores. E agora a Netflix está cedendo a essa prática que, há muito tempo, já faz parte da relação do público com o audiovisual. O Brasil é o caso mais emblemático.

Essa postura de responsabilidade na gestão financeira do negócio dá fundamentos sólidos para os papéis da empresa no mercado de ações. Por outro lado, a visão empreendedora, que levou a Netflix a se tornar uma forte produtora de conteúdo, mostra que a postura da empresa não pode ser chamada de conservadora. Pelo contrário, algumas visões messiânicas até atrapalham. É o caso da aposta no fim da TV linear. Uma tese que ganhou força há cerca de uma década, mas agora tem todo esse tempo de evidências contrárias à ideia inicial. Outra aposta é no hábito, por ela incentivado, de maratonar. A empresa criou essa condição ao disponibilizar séries completas desde o lançamento. No começo, muita gente achou sensacional, investiu no hábito, até que ela, novamente a pandemia, impôs um porre de filmes e séries. Não havia mais nada pra se fazer no mundo. Foi quando muitos descobriram como é bom estar à luz do sol, como é bom trocar paisagens paradisíacas de uma tela, pela simplicidade da rua de casa em 3D natural – somente natural, que pode incluir aromas de flores e vizinhos muito simpáticos. As novelas brasileiras, que fazem sucesso no mundo todo, não concebidas de forma diferente. Se, num determinado momento da trama, as medições de audiência não sustentarem as expectativas, são testados novos rumos na trama, para recuperar o interesse por parte do público. Se fossem lançadas completas, essas manobras seriam inviáveis.

Outro traço da teimosia da Netflix é o desprezo pelos eventos esportivos. A ESPN + foi a marca da Disney que experimentou o maior crescimento proporcional ano a ano. E deve continuar nadando de braçada nesse nicho, uma vez que a maior concorrente ainda não esboçou reação nesse sentido.

A saga da Disney em busca do primeiro lugar no streaming chegou ao ápice. Não vai ser fácil se manter nessa posição. Também não será fácil perde-la. A Disney é o maior e mais sólido estúdio de Hollywood. Enfrentou bem as transformações do cinema nas últimas décadas, tem franquias poderosas e agora também a 20th Century Fox. Sem contar os parques temáticos, cujo desempenho surpreendente, teria sido um apoio forte para o crescimento dos negócios no streaming. Quer dizer, essa fantasia 100% imersiva que a Disney oferece, tem se mostrado muito mais atraente e lucrativa do que maratonar séries no sofá.

Aí pode estar o lado mais vulnerável da Netflix. Experiência como o Play Out DTV da EiTV, aqui no Brasil, está tornando a tecnologia de streaming algo acessível para emissoras regionais. Com a chegada do 5G, novas tecnologias podem facilitar mais ainda o acesso a essa modalidade de entrega eletrônica. E se o streaming se tornar uma instituição, como os serviços de correio? Esses serviços exclusivos deixarão de ser uma ferramenta de marketing para mega produtores de conteúdo. Do lado da Disney, o Mickey será sempre um grande anfitrião. Já, para a Netflix...

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