VINTAGE



O que pode ser considerado, na tecnologia da informação, algo antigo, que desperte algum saudosismo? Que simbolize uma era que já se foi? Em 2017 tentaram criar esse clima em torno do celular Nokia 3310, conhecido como “o indestrutível”. Fizeram um relançamento do modelo, originalmente apresentado ao mercado no ano 2.000. Vez por outra insistem com outros antigos gadgets buscando o mesmo clima retrô.

Falar em “era” da informática parece impróprio pois, numa visão história, ela estaria apenas começando. Mas nesta semana o “fim de uma era” foi anunciado pelos principais veículos de imprensa, com o encerramento da fabricação do iPod, o contra intuitivo tocador de músicas da Apple. Ninguém esperava que um device com um propósito tão diferente surgisse. Agora, depois de centenas de milhões de aparelhos vendidos ao longo de 20 anos, a empresa vai manter a venda apenas das unidades em estoque, até que acabe.


Vinte anos é muito pouco tempo para se falar em “era”. No entanto, o codinome da etapa passa a ter alguma plausibilidade se forem contadas as transformações, em quantidade e em distanciamento do hábito anterior. A explosão musical dos anos 60 e 70 se deu muito pelo rádio. Equipamentos como vitrolas para discos de vinil, depois pick ups, até chegar aos gravadores de fitas magnéticas, levaram a música comercial para os mais variados espaços. Das festas de garagem até as boites e grandes eventos em espaços abertos. Era assim que se captavam ouvidos, infiltravam pelos nervos, reagiam nas danças da moda, até dominarem corações e mentes. Para nunca mais perderem o lugar na memória afetiva. Tudo isso mudou a partir do iPod. Como bem disse Greg Joswiak, um executivo da Apple, o aparelhinho “... impactou mais do que apenas a indústria da música — também redefiniu como a música é descoberta, ouvida e compartilhada.”


No caso da indústria musical, as grandes gravadoras eram vistas como poderosos titãs. Reza a lenda, eram capazes de fazer surgir ou fazer desaparecer qualquer ídolo no mercado. Criaram “em laboratório” grupos que arrastaram multidões, acumularam fãs e desapareceram com a puberdade. Consta que as rádios tinham contratos com gravadoras, segundo os quais eram obrigadas a tocar determinadas músicas por um número estabelecido de vezes, e até em certos programas ou horários. Hoje isso foi transformado em gigantes do streaming, que usam uma estratégia de venda muito diferente.


A partir do iPod foram inventados recursos de “rotulagem” de músicas, novas formas de apresentação, que se tornaram quase obrigatórias em outros tocadores, como nos carros. E esses são apenas alguns exemplos, para ajudar a lembrar de tantas outras mudanças que chegaram a partir do lançamento do iPod. No ritmo do mundo analógico, talvez demorasse uma era para acontecer. Não por menos, Joswiak usou frases de biografias de celebridades (as verdadeiras!) para enaltecer o iPod: “- Hoje, o espírito do iPod continua vivo...”.


Vamos combinar que o iPod não é caso único a partir da eclosão da informatização da sociedade. Começou com um estampido agudo na chegada dos primeiros PCs e continuou numa reação em cadeia cada vez mais estrondosa. O iPod teve o privilégio de estar intimamente vinculado à música, talvez a mais genial criação da humanidade. Por isso sempre vai ter um lugar especial na memória. Outros pequenos marcos tecnológicos podem ser considerados até mais transformadores, principalmente a partir da super infraestrutura Internet – incluindo ela própria.


Como isso tudo ainda não nos tirou o direito de sentar numa soleira, olhar para o céu e contemplar as galhofas do tempo, ... como será um mundo sem a saudade? Ou será um mundo de seguidas saudades efêmeras? Os velhos do fim deste século, o que terão desse mundo para afagar suas memórias? Será que, de tanto inventar, um dia o mundo fica pronto? Não. Nem faz sentido especular. Definitivamente esta não é uma época de previsões, pelo contrário, é de imprevistos. O que se observa é que, enquadrar qualquer coisa num algoritmo, torna essa coisa muito melhor e bem diferente, em muito pouco tempo. Foi assim com a caixa registradora, depois com a máquina de escrever, com o correio, o telefone, a TV, o rádio – com o tocador de música, obviamente – com instrumentos de navegação, com a medicina, o cinema, o direito... Essa maquininha de escrever, ler e acelerar algoritmos, combinando-os indefinidamente, ainda tem muito pela frente. Mais do que eras, ela trouxe um novo tempo.


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