NAS TRILHAS DA INOVAÇÃO NA TV


Quem esteve em uma redação de TV no início dos anos 1980 viu muitas máquinas de escrever. Tinha também telefones, telex, alguns VTs U-Matic, monitores e um dicionário num armário, onde ficavam as canetas e blocos de notas para repórteres. Não existia VHS, nem fax, nem Internet. Hoje tudo isso está no microcomputador de cada mesa, de cada editor, produtor. E muito mais.


A NABSHOW -2022 promovida pela associação dos radiodifusores americanos (National Association of Broadcasters), que voltou neste ano às edições presenciais, refletiu esse percurso histórico. Maior exposição e congresso técnico do setor de mídia e entretenimento, desta vez a NABSHOW montou um campus no espaço do evento no Las Vegas Convention Center. Mais de 900 expositores foram distribuídos pelas três trilhas do precioso “conteúdo”: criação, conexão e capitalização. Essa é a configuração para a qual convergiram as tecnologias do setor.


Quem acompanha o evento há muito tempo percebeu que a tendência agora é retornar mais para o audiovisual. Na década passada, diante das incertezas sobre o futuro da TV, a NABSHOW ampliou o foco, se colocou como evento para os setores de mídia e entretenimento. Deixou de ser voltada exclusivamente para TV. De fato, a convergência tecnológica tem aproximado, quase unificado esses dois setores. Porém, no momento, consumir conteúdo audiovisual pela TV, se firmou como nunca na posição de entretenimento mais consumido no mundo. A soma de investimentos nesse negócio ultrapassou as expectativas e a tendência ainda é de alta. Nesse rumo, a TV aberta, como alternativa spot de programação, ligada nos fatos do dia a dia pelo Jornalismo, está ganhando relevância. Uma nova tendência tecnológica, que aponta para esse modelo renovado, está ganhando muita força.


A conexão por meio de satélites de baixa órbita – ainda uma aposta – como tudo que acontece hoje no mundo da tecnologia, pode se tornar uma realidade iminente do dia para a noite. E, se isso acontecer, a organização de faixas de transmissão no modelo de espectro de frequências, perde importância. Essas faixas hoje são licenciadas por governos nacionais a preços de até bilhões de dólares. Vão passar a ser desnecessárias na nova tecnologia. Em entrevista publicada no mês passado o Consultor da Revista Top C-Level, Fernando Lopez Cisneros, comentou as novas perspectivas de conexão. O telefone da Tesla, já anunciado por Elon Musk, não será conectado por nenhuma operadora, mas por uma constelação de satélites de baixa órbita. A Apple está investindo na mesma tecnologia, para ser testada já pelo iPhone 13. Se essa tecnologia se firmar os celulares, do jeito que conhecemos, vão mudar completamente. As operadoras de telefonia vão desaparecer – ou virar constelações de satélites.


Nessa hipótese, as frequências do espectro vão passar por um choque de oferta e consequente deflação. Isso deve facilitar muito a expansão da TV aberta. Como os televisores estão migrando mais e mais para a configuração smart, também terão total facilidade para trafegarem entre os satélites, para selecionar o melhor dessas duas órbitas de conexão. Mas isso deve ser assunto para outras NABSHOWs.


Neste ano o Pavilhão Brasil na NABSHOW -2022 ganhou mais destaque por conta da parceria que a Apex – Agência Brasileira de Promoção de Exportações – fez com a ABINEE, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica. A entidade da indústria assumiu o papel de organizadora do Pavilhão. A presença formal da indústria eletroeletrônica brasileira num evento desse porte foi muito oportuna. O televisor é o produto eletroeletrônico mais presente nos lares brasileiros. Também muito presente na América do Sul, onde o Brasil apresenta avanços tecnológicos e vantagens logísticas. Mais importante ainda o fato de termos uma Engenharia de Televisão reconhecida mundialmente como uma das melhores. Isso torna o país um território fértil para o crescimento de uma indústria própria para o hardware dessa engenharia.


A EiTV, desenvolvedora de software nesse segmento, é fornecedora para marcas mundiais de televisores e equipamentos para emissoras. Durante a NABSHOW -2022 a empresa mereceu destaque pela atuação na tecnologia de áudio imersivo. O sistema MPEG-H, desenvolvido pelo instituto de pesquisas Fraunhofer, da Alemanha, está sendo adaptado para a terceira geração da TV digital brasileira (TV 3.0). E a EiTV está entre as principais parceiras nessa adaptação. O MPEG-H tem tudo para revolucionar o áudio da TV no ambiente doméstico. O som é tratado como objeto, de forma que pode ser separado, destacado, movimentado dentro do ambiente, como se faz com um pequeno móvel. Por meio de uma barra horizontal posicionada abaixo da tela do televisor o som do MPEG-H é direcionado para os lados, para o fundo ou para frente, pra cima ou pra baixo, de acordo com o posicionamento da imagem na tela. Seria como as pequenas caixas de som de um home theater porém, as caixas não existem fisicamente. A sensação sonora é “posicionada” pelo sistema. Esse é apenas um dos recursos do áudio imersivo MPEG-H que, no Brasil, conta com a equipe de engenheiros da EiTV apoiando o desenvolvimento. Imagine assistir a um carnaval com MPEG-H no seu televisor.

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