CORRENDO PARA NÃO CHEGAR


Os Estados Unidos decidiram pagar pra ver! A partir de agora o mundo começa assistir a uma disputa que pode se comparar à corrida espacial, encerrada com a chegada do homem à Lua, em 1969. Desde então nenhuma outra potencia havia ameaçado a liderança mundial tecnológica dos Estados Unidos. Com a superioridade evidente do 5G chinês, nesses últimos anos a posição americana sofreu um arranhão contundente. Afinal é uma tecnologia disruptiva de ponta, com potencial de promover profundas mudanças na forma como a sociedade produz e se relaciona. Deve repercutir em todas as áreas de negócios e do conhecimento, do videogame à Medicina.

Nesta sexta-feira o Conselho Consultivo Tecnológico (TAC, na sigla em inglês), ligado à FCC – Comissão Federal de Comunicações, tem a primeira reunião do ano com uma missão desafiadora: “-Os Estados Unidos deverão liderar o mundo no avanço ambicioso na pesquisa e desenvolvimento do 6G”. Essa é a determinação de Jessica Rosenworcel, presidente da FCC. Nessa missão estão representadas no Conselho as empresas Intel, Microsof, AT&T, T-Mobile, Viasat, Apple, Nokia, Motorola, Verizon e Samsung, além da Qualcomm, cujo representante, Dean Brenner, preside o Conselho.

Do outro lado, a China vem se preparando há décadas para uma queda de braço com o Tio Sam. Se, nesse percurso, chegou a superar em alguma área, possivelmente foi algo considerado insignificante. Agora não dá mais para desqualificar o feito chinês. O 5G é estratégico, pode abrir espaço para a liderança em muitas outras tecnologias. Isso coloca as duas potencias numa prova de fogo. Na prática a corrida pelo 6G já vem se desenrolando há alguns anos. Porém, com a postura apresentada publicamente por Jessica Rosenworcel, ficou no ar a sensação de que os Estados Unidos nem pensam em aceitar mais uma derrota. Quem vai ganhar é uma previsão que não vale a pena fazer agora. Mas já dá para ter uma ideia de quem vai perder: o Brasil é um dos muitos países que podem ficar no prejuízo.

Por aqui o leilão do 5G está servindo para fazer circular um ar quase de pioneirismo. Não é verdade, o Brasil está atrasado. Ao que parece perdemos o timing, deixamos passar a hora certa. A promessa é ter o 5G em todas as capitais brasileiras ainda este ano. Como assim? Cidades como Recife, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia vão ter cobertura para fazer uma chamada pelo 5G de qualquer bairro? Será que isso já é possível com o 4G? Que dirá o 5G, que exige mais do que o dobro de estações rádio base (ERBs). E ainda, como o protocolo escolhido foi o release 16, o 5G não poderá contar com nada da infraestrutura das gerações anteriores. Até os celulares dos clientes terão de ser trocados. Ainda que essa mágica aconteça, não será suficiente para o impulso tecnológico que a nova geração de comunicação de dados promete. E o que isso tem a ver com a corrida Estados Unidos X China?

O 6G está previsto para entrar em operação em 2028 no mundo desenvolvido. É justamente para quando está prevista a conclusão da implantação do 5G aqui. Se tudo der certo, vamos estar atrasados em uma geração em relação às grandes economias mundiais. (Concorrer como??) Porém, a determinação americana de chegar primeiro com o 6G, leva a crer que esse calendário está sendo revisto pelos dois lados. Então, quando o 6G chegar, é mais provável que ainda nem o 5G seja uma realidade no Brasil.

O governo já destinou R$ 45 bilhões para as empresas privadas que vão implantar o 5G. Essas empresas sustentam que o projeto inteiro, ao longo desses 6 anos, vai custar mais de R$ 160 bilhões. Difícil entender como chegaram a esse número. Até o final do ano passado havia muitas dúvidas sobre os projetos. As três grandes operadoras brasileiras, Tim, Claro e Vivo, que ficaram com a maior parte do 5G a ser implantado, assumiram compromissos um tanto abstratos ao arrematarem seus lotes no leilão. Ao aceitar, por exemplo, a “implantação do 5G em toda a cidade de São Paulo”, quanto por cento do município vai ser coberto e qual a qualidade desejável do sinal?

Ninguém pode dizer que o planejamento foi ruim, porque não se sabe sequer se existe. O que existe é uma eleição marcada para o dia 2 de outubro. E agora, passamos a conviver com a dúvida a respeito da real vantagem do 5G, mesmo na data prevista. Pelo preço que vai custar, será que valeria mais a pena ter esperado o 6G?

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