ODE À ESPERTEZA E MALANDRAGEM


O malandro é um dos personagens da cultura brasileira que já passou por momentos de desconstrução. Por razões consistentes. No país da malandragem, com uma população de espertalhões, a coisa só fica pior... De Pedro Malasartes, que vem da raiz portuguesa, até o Zé Carioca, o brasileiro é o esperto por excelência. E o povão malandro só no rolo.

A tentativa de desconstrução desse personagem começou como piada – metodologia bem brasileira! Foram inventados vários tipos de malandros. Cada um deles se revelava o maior dos otários, a saber, aquele que pensa que está sendo esperto enquanto, na verdade, paga mico. O que talvez tenha sido o mais popular, personagem de músicas da banda Blitz e de Zeca Pagodinho, é o “malandro agulha”: aquele que toma no buraquinho mas não perde a linha, mantém a pose de bacana. Ele não dá o braço a torcer.

Casos materiais estão surgindo com frequência ultimamente. A HVT, caixinha pirata de IPTV, aquela que grampeia (furta) sinal de TV por assinatura e OTT, está chegando ao Brasil com malwares. Sim, o otário que paga mil reais para ter a caixinha ilegal contrabandeada, pode ter prejuízos pagos por ele mesmo. A Anatel criou um grupo de trabalho para estudar as caixas piratas de IPTV ou TV Box. De acordo com o site Telesíntese, depois de uma parceria da agência com a ABTA – entidade que representa as operadoras de TV por assinatura – especialistas já identificaram parte do modus operandi da caixinha HVT, a marca mais presente no Brasil. Na primeira vez em que é ligada a caixinha busca uma porta para conexão, sem passar pela autorização do usuário. Faz até updates de novas portas, caso o usotário... ops, quer dizer, o usuário descubra a porta inicial. Todo o controle da TV Box pode passar para o malware. Porém, como um parasita esperto de fato, ele “não mata o hospedeiro, para que continue trabalhando por ele”. É que uma boa parte da capacidade de processamento da TV Box não é utilizada para as funções corriqueiras. Através de um botnet essa capacidade é disponibilizada para alguma central de fraudes que armou tudo isso. Se a tal central resolver fazer um ataque DDoS, por exemplo – aquele que bloqueia sites com uma enxurrada de acessos num mesmo tempo – ela vai usar as máquinas dos “malandros”. Que pagam mensalidades para a fraudadora.

As investigações do grupo de trabalho da Anatel são lentas, por questão legal. Não basta ter o aparelho. Para conhecer todo o sistema é preciso conecta-lo à fonte do sinal. Isso não pode ser feito pela agência, pois ela estaria pagando por um serviço ilegal. Um aparato que simula o uso real está sendo usado porém, as simulações são mais lentas. Agora estão testando o eventual uso dessa capacidade de processamento para mineração de criptomoedas. Ou seja, o usuário pode estar pagando para que um terceiro use sua TV Box para ganhar bitcoins e congêneres. Já se sabe que dados pessoais e talvez documentos dos usuários estão sendo acessados clandestinamente por essas máquinas. Dirão os espertos, é mais barato do que a TV por assinatura. Que perde clientes, então paga menos impostos para manter serviços públicos e emprega menos. Quantos desses “malandros” poderiam estar direta ou indiretamente empregados por essas empresas?

Outra grande “esperteza reversa” foi protagonizada pela Receita Federal há menos de 15 dias. Uma portaria desativou o sistema SISCORI, que divulga dados sobre as importações brasileiras. O argumento é de que o Comex Stat, da Secretaria de Comércio Exterior, traz informações sobre importações. Assim, a desativação do SISCORI representaria uma economia.

A CNI – Confederação Nacional da Indústria não concorda e emitiu nota esclarecendo que “... As informações disponibilizadas pelo Siscori são únicas, diferentes das disponibilizadas pelo Comex Stat. ... a retirada do ar acarretará grandes riscos e dificuldades no combate às importações ilegais e fraudulentas". Seria a volta do chamado “mercado cinza”, onde muitos importados entram no país de forma ilegal e fazem concorrência desleal com a indústria brasileira. Ivair Rodrigues, especialista ouvido pelo site Convergência Digital, disse que o SISCORI – que foi criado em 2016 – traz informações mais detalhadas como preços das importações e unidades de desembaraço. Quer dizer, a indústria nacional vai empregar menos, vender menos e, como consequência, recolher menos impostos. Cadê a economia em cima da desativação do SISCORI?

A galinha dos ovos de ouro sempre será a produção. Tudo que se fizer em prejuízo do setor produtivo, reverterá em prejuízo para o país como um todo. Essa regrinha é velha e muito clara. E malandro que é malandro, não pode passar batido nessa.

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