O SABOR – E O VALOR – DO QUE É FEITO EM CASA


Primeira metade do século passado. O mundo prestes a entrar em guerra, preços em alta. Um grupo de velhos amigos, de uma importante cidade do Interior paulista, falava sobre altas nos preços do feijão, do arroz, da carne. Diante da preocupação de todos um deles, solteirão, homem simples, dava de ombros: “-Ainda bem que eu como de pensão. Fico tranquilo nessas horas.”

Comer de pensão era aquilo que hoje se tornou delivery ou fast food (até os nomes são importados!). Setores que se viram abalados ao longo da “impossível” pandemia da covid-19, que comprimiu a oferta. Quem sabia cozinhar é que ficou “tranquilo nessas horas”. Pois o know how é a verdadeira segurança. A ilusão do personagem, por um tempo, lhe trouxe a sensação de que a alta dos preços não chegaria até ele. Por fim, além dos alimentos mais caros, sua marmita trouxe parte dos custos que repercutiram nos salários de todos os empregados da pensão.

Há quem diga que o melhor é comprar pronto. Mas os povos mais desenvolvidos do mundo são os que possuem mais know how e capacidade de produção. É assim desde a invenção da máquina de fiar e do tear a vapor. Os produtores de lã, de algodão, acabavam se submetendo à vontade de quem tinha as máquinas a vapor. O importante era o tecido pronto, não a fibra. O tempo foi passando e esses gargalos de produção mudaram. Há algumas décadas eram os automóveis. Tão importantes que, há cerca de 60 anos, o terceiro maior PIB do mundo era da maior fabricante e dona das principais marcas. Por conta disso, mais tarde o gargalo passou a ser o petróleo. Sem ele, de que vale um carro? Agora descobriu-se que o gargalo já é outro. Os chips, ou semicondutores, se quiser chamar pelo tipo de material do qual são feitos.

Esses materiais dependem muito da sílica vítrea, obtida do quartzo, para serem produzidos. Assim como o petróleo, estão em várias partes dos carros e em muitos outros produtos. O valor agregado à sílica é bem maior do que pode chegar no caso do petróleo. As jazidas de quartzo do Brasil são maiores do que todas as outras do mundo somadas. No balanço das contas, o que se vê é o Brasil exportar navios inteiros de quartzo, cujo faturamento permite comprar alguns poucos contêineres de sílica vítrea.

Claro que, até agora, você não se abalou com essa história. Se nasceu no Brasil, já ouviu muitas outras semelhantes. Agora vamos para a página seguinte. Em toda a América Latina existe uma única fábrica de semicondutores. Uma estatal brasileira chamada Ceitec, fica em Porto Alegre-RS. A fábrica não tem nem 15 anos e, como é natural nesse tipo de empreendimento, ainda não dá lucros. Neste ano o governo federal tentou fechá-la, mais foi impedido pelo Tribunal de Contas da União. Era para ter terminado aí. Mas, de acordo com o site Convergência Digital, o governo fala em negociar a venda do terreno onde a fábrica está instalada. Talvez uma forma de insistir num caminho para fechar a empresa, pois o terreno não pode ser vendido. Ele originalmente foi doado à prefeitura de Porto Alegre por uma imobiliária, com uma cláusula de encargo que impede outro uso.

Enquanto isso na Índia, outro país do mesmo BRICS, o governo local está investindo o equivalente a R$ 57 bilhões para atrair fábricas de semicondutores. A fórmula indiana parece mais com o que diz pretender o atual governo. A Optiemus Electronics, maior distribuidora local de celulares e equipamentos de telecomunicações, vai atrair as maiores marcas mundiais da tecnologia de consumo para instalarem ali fábricas de semicondutores. Primeiro é bom lembrar que a Optiemus é uma estatal indiana. Depois convém avaliar as questões geopolíticas. A Índia faz fronteira com a China, maior centro mundial de produção e distribuição de semicondutores. Tem uma população 5 vezes maior do que o Brasil, ou o dobro da população da América Latina inteira. Tudo concentrado num território que é menor do que a metade do brasileiro. As grandes fabricantes mundiais devem preferir esses dados para suas fábricas.

A vontade de privatizar não tem encontrado toda a lógica que a justificaria no Brasil. A Telebrás, que estava na lista do Ministério da Economia, foi retirada. Afinal o governo quer uma rede privativa de telecomunicações como questão de segurança nacional. Só uma estatal poderá administra-la. Porém, Dataprev e Serpro, que têm desde os seus dados pessoais até a contabilidade das Forças Armadas, estão com previsão de venda para o segundo semestre de 2022. Contra todas as leis e a lógica de administração.

A história indica que está chegando a hora de comprar o fogão e as panelas. Pois, nesses nossos dias, o bolo de aniversário até dá pra comprar pronto. Mas café da manhã, almoço e jantar, têm mesmo que serem feitos em casa.

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