INTELIGÊNCIA E ALGO MAIS NAS RELAÇÕES HUMANAS



Relacionamentos não acontecem “simples assim”. Eles precisam ser construídos. Demandam tempo e uma dose razoável de confiança. Ele a viu uma primeira vez... Na verdade já tinha visto antes, é que a partir daquele momento ele percebeu o que havia de especial. Mas mantinha uma distância, talvez por insegurança. A admiração foi crescendo, ao mesmo tempo que um certo desdém tentava trazer mais naturalidade. Não teve jeito! A aproximação ficava cada vez mais estreita, a sensação era de que ela estava em todo lugar.

Até que um dia a conta bancária já fazia parte daquela relação. Parece muita intimidade? Não, uma certa frieza colocava tudo num nível de mera conveniência. Ela nunca errava, e ele com a mania de ver defeitos. Reclamava do que ele entendia serem “limitações”, aquela mesma postura diante de tudo. Sim, ele tinha uma admiração cada vez maior porém, a paciência se esgota mais rapidamente a cada eventual falha, por menor que seja. Agora, todavia, tudo tende a se encaixar! Ele está trazendo-a para sua casa e aquela frieza tem tudo para desaparecer. É, a tecnologia inteligente está chegando aos lares. Ela está sendo concebida para conquistar definitivamente os humanos.

Pesquisa recente da Kantar Ibope Media, baseada na ferramenta TG.Net, apurou que a tecnologia inteligente mais presente nos lares brasileiros é a smart TV. Ela está em 69% da amostra analisada. Aparecem também, em escala nacional, outros dispositivos inteligentes acionados por voz, como luzes e alto-falantes, além do uso crescente de assistentes de voz como Alexa e Siri. De acordo com o site Tela Viva o trabalho realizado pela TG.Net “visa abordar hábitos, opiniões, consumo de mídia, produtos e serviços, estilo de vida e características demográficas relacionadas à web, permitindo conhecer de forma ampla suas características e usos, além de entender em detalhes o comportamento dos conectados.” Os dados foram levantados junto a 3 mil internautas brasileiros entre julho e agosto deste ano.

O mercado de tecnologias de uso pessoal, compartilháveis ou não, parece apostar muito na inteligência artificial como forma de gerar vínculos inseparáveis. Um movimento que a ficção explora com criatividade e até algum lirismo. No filme “Ela”, de quase dez anos, uma metáfora envolvente já conseguia trazer alguma preocupação sobre onde podemos chegar. Ótimo roteiro, que conta com o talento de ninguém menos que Joaquin Phoenix, o filme é uma produção muito barata que faz pensar em limites com certa urgência. O personagem se apaixona por uma assistente de voz que fazia parte do sistema operacional do seu novo computador. Ao assistir ao filme nos vemos diante de uma inteligência artificial não tão distante do que se vê hoje em dia. E ela é realmente muito interessante, envolvente.

Num nível mais imediato, os ecos da entrevista de Mo Gawdat ao The Times, em meados deste ano, ainda estremecem setores do meio científico. Já fora da empresa, o ex-gerente da Google X – que seria uma divisão pouco divulgada da Alphabet – falou sobre um susto que lhe veio do futuro. Gawdat contou sobre uma experiência com um braço robótico que lidava com uma bolinha. Como toda ferramenta ligada à inteligência artificial, o sistema aprende. Porém, além das habilidades acrescentadas, aquele braço esboçou um certo desafio aos presentes, exibindo destreza que conotava algum orgulho. O executivo se disse “congelado” durante certo momento. No relato divulgado no Brasil pela Tecmundo, Gawdat se mostra receoso, ao afirmar que esses sistemas podem estar criando um deus cibernético.

Ainda bem que, antes disso, já se vive a expectativa de um mundo mais prático e eficiente a partir de tecnologias como o 5G e a internet das coisas (IoT). Diagnósticos médicos se tornarão mais confiáveis e muito mais rápidos. Alternativas de tratamentos também. Além, é claro, do ponto exato da carne no churrasco, da temperatura da cerveja e da combinação de alimentos saudáveis e saborosos.

Por isso, diante das tantas advertências que surgem, mais catastróficas ou menos, vale pensar num equilíbrio lúcido entre prudência e eficiência. Tecnologias já experimentadas ainda assustam instituições importantes, que acabam decidindo de forma precipitada. Por exemplo, a Assembleia Legislativa de São Paulo quer votar uma lei que interrompa temporariamente o PIX no estado por falta de segurança. Começa por dar um prazo ao Banco Central para criar mecanismos de proteção eficientes. Neste caso, a lógica da segurança parece vestir um revanchismo político entre correntes antagônicas. Melhor seria estimular a geração de soluções tecnológicas que garantam maior tranquilidade aos cidadãos.

De fato, é assustadora a perspectiva de a inteligência artificial superar a humana. Porém, não se deve esquecer que, ainda que se torne inferior, a inteligência humana precisa continuar existindo.

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