SEGREDOS DE UMA PAIXÃO


Tem que ter alguma confiança. Nenhum tipo de relacionamento é viável se não houver um mínimo de confiança. É aquela velha história do “eu não compraria um carro usado daquele cara”. Se não há confiança, não é possível estabelecer qualquer relação saudável, produtiva.

Serviços públicos envolvem muita confiança. Alguns, pela própria natureza, são vinculados a pessoas, como o médico nos serviços de saúde. Quem mantém o serviço é o governo, mas é o médico que fica na cabeça de quem é atendido. Em outros casos é o contrário. O beneficiário do serviço se sente diretamente conectado à marca, à empresa, sem qualquer outra interface significativa. É quando acaba a energia em casa. Ninguém pensa em outra coisa diferente de algum ícone da empresa fornecedora. Aquele nome fica na cabeça e não se apaga até que a luz acenda.

As telecomunicações são o caso mais surpreendente. Começa pela expansão tecnológica do conceito em si. Está em praticamente tudo na vida das pessoas. Não é só uma ou outra conversa fiada rápida, nem afiadas fofocas ou conversas de trabalho. Equiparam com bits e agora compra, vende, faz consulta médica, exibe vídeos, fotos, manda nudes, furta, sequestra e negocia resgates. Faz sexo, casa pessoas, destrói casamentos, manda prender e manda soltar, elege, impede. Fatos, boatos e também sensações, que hoje, no Brasil, trafegam nas plataformas de três grandes operadoras. Sob o escrutínio de todos. Excetuando o ar e a água, é difícil lembrar de outra coisa tão presente na vida de tantos, em qualquer outro momento da história.

É muita confiança envolvendo um serviço público. Em poucos segundos, neste mundo celularizado, podem encontrar você em qualquer parte. Sabem os trajetos que você escolhe, de quem se aproxima. Agora, no passado recente ou bem antes. Ninguém mais, nem Receita Federal ou polícia, tem tanta disponibilidade de informações – embora protegidas por lei – sobre tantas pessoas.

Conferindo na vida real as operadoras de telefonia decepcionam. Desde as coisas mais básicas, como a fidelidade do sinal na hora necessária. Não cumprem leis simples de proteção à privacidade. No estado de São Paulo, por exemplo, desde 2008 funciona a lei “Não me ligue”. Baseada no direito à privacidade, garantido pela Constituição, a lei disponibiliza um cadastro onde qualquer pessoa pode se inscrever. Feito isso, todas as operadoras vão saber que aquela pessoa não quer ser incomodada por chamadas de empresas de vendas ou propaganda. Mas nem todas as empresas respeitam a decisão desses cidadãos. No topo de todas as empresas cujo call center não respeita a lei, estão a Claro e a Vivo. A Tim vem logo depois. É o que apurou o Procon-SP no ranking das “empresas perturbadoras”.

Ora, que banalidade. Seria, se fosse um caso único. No último mês de agosto, por exemplo, o Ministério Público Federal (MPF) pediu a condenação da Vivo (Telefonica), Claro e Oi por “atuação coordenada em licitações”. Eram as três concessionárias, dos tempos da privatização. A Tim, que veio depois, é permissionária, um contrato diferente com o governo. Agora que a Oi está sendo “dissolvida”, a Tim parece estar se preparando para tomar o lugar dela no mesmo cartel (quem afirma “cartel” é o MPF e o CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

O caso se refere principalmente à licitação para conectar todas as agências do Correio no país. O certame foi realizado em 2015 e uma das concorrentes, a BT Brasil, denunciou o consórcio por dificultar a concorrência. As três operadoras argumentaram que, atuando em consórcio, puderam oferecer o melhor preço, vindo ao encontro do interesse público. No entanto, a Superintendência Geral do CADE rebate, pois a vantagem obtida pelas empresas, “não é repassada aos consumidores”. Onde estaria o “interesse público”? Outros casos semelhantes estão sendo investigados e estariam acontecendo desde 2012.

O leilão do 5G será o maior negócio já realizado internamente por um governo brasileiro. Tudo que foi estabelecido até agora na preparação do ato licitatório foi discutido entre o governo e as três grandes operadoras. Para que as capitais tenham 5G antes das eleições presidenciais foi estabelecido um cronograma apertado. A entrada de outras empresas, que viessem de fora, ficou prejudicada. Ventilou-se a hipótese de adotar um calendário mais elástico para quem não conhece e não tem nada instalado por aqui. Ficou só na ventilação. O calor da disputa parece ter se dissipado desde já, uma vez que as três – que devem concorrer entre elas – têm uma associação que as representa e levou muitos pleitos aos órgãos governamentais sobre o leilão. Na grande maioria, aceitos. Há quem aposte em um ou outro concorrente de última hora, que também pode ser apenas um figurante. A relação entre as três é tão coesa, que começa a comprometer a confiança em outra relação, a mais lucrativa, que é entre elas e os consumidores.

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