A LUTA INSANA CONTRA JACARÉS E CRIPTOMOEDAS


Fazer alguma coisa, em grande parte das vezes, não é o mesmo que fazer a coisa certa. Quando uma coisa implica na outra, surgem heróis. Um caso clássico aconteceu no parque Everglades, em Miami, em julho de 1996. Uma família passeava de bicicleta quando um dos filhos, então com 7 anos de idade, caiu num canal, cheio de jacarés tipo alligator. O menino foi abocanhado por uma das feras. Qual seria a coisa certa a ser feita? Antes de saber exatamente a resposta, o pai pulou no canal na base do “faça alguma coisa” e, com as mãos, tentou abrir a boca da fera. Lutou decididamente com as mandíbulas do jacaré de 400 Kg. A mãe foi ajudar e tirou o filho da boca do animal. A família é brasileira, o pai virou herói no planeta, embora seja pouco afeito à popularidade.

Hélio Teixeira, o pai herói, é professor da USP, na área de Economia. Ainda que seja um economista brasileiro, daquela vez o tipo do susto foi muito diferente e a reação não teve como se ancorar em nenhuma teoria. Aos alunos, possivelmente ele recomenda que se faça a coisa certa.

Essa imersão nas razões psico ilógicas é um exercício para reflexões à respeito da segurança cibernética. A situação atravessa um momento muito preocupante, no qual os dois extremos estão enriquecendo demais. O crime cibernético, cada vez mais organizado, assume proporções ameaçadoras. Com o 5G a tendência é complicar bem mais. E a indústria da defesa digital só faz crescerem os preços de seus produtos e serviços.

Nesta semana, o presidente americano Joe Biden reuniu em videoconferência autoridades de mais de 30 países, Brasil entre eles. O objetivo é dar uma resposta global aos ataques cibernéticos, principalmente de ransomware, que aumentaram muito este ano. Biden lembra que “ataques de ransomware interromperam hospitais, escolas, departamentos de polícia, oleodutos de combustível, fornecedores de alimentos e pequenas empresas”. Para ele, é uma situação de segurança nacional, que põe em risco a vida de americanos. Diante do problema, o conjunto de representantes nacionais, liderados pelos Estados Unidos, propôs começar pelo combate à infraestrutura financeira que está facilitando essas ações criminosas. Eles querem pressionar operadores do mundo todo relacionados às criptomoedas.

Faz sentido. A corrosão de alicerces financeiros tem contribuído bastante no combate às várias formas de terrorismo pelo mundo. A estratégia funciona bem desde a Chicago dos anos 1930, quando Al Capone foi preso por evasão fiscal. Mas, por enquanto, é difícil saber se é por aí que se vai tirar a criança da boca do jacaré. É verdade que o desenvolvimento de tecnologias mais seguras também faz parte. O rastreamento de contas bancárias, nas diversas moedas, está entre as medidas já adotadas. No entanto, as criptomoedas em geral, livres do controle dos bancos centrais, parecem ser uma incômoda afronta aos líderes de muitas nações. O que também se busca é uma forma de domá-las, trazê-las para dentro do jogo de cada cúpula de governo. Nessa hora de pânico “alguma coisa” está sendo feita. Ninguém pode ter a pretensão de dizer agora qual é o certo a se fazer. Deve vir por aí uma era de clandestinidades imperscrutáveis. Se, há quase 100 anos, garrafas de whisky não puderam ser apreendidas como provas de crimes, o desafio agora é deter bits e algoritmos.

São vários os exemplos dessas clandestinidades, algumas domadas, outras nem tanto. O WhatsApp fez com que todas as operadoras de telefonia do mundo cedessem um lugar especial a ele. Enfrentá-lo como clandestino seria impossível. O Telegram, formado na mesma lógica, já veio com mais ferramentas suspeitas. Ele funciona também como rede social, onde Trump e Bolsonaro ancoram canais com milhões de seguidores. Notáveis que escaparam do controle das redes sociais mais tradicionais sobre temas polêmicos, de alto risco potencial para a sociedade. O Telegram já é “TV” e balcão de negócios de drogas, armas pesadas, documentos falsificados, prostituição, pornografia infantil e outras atividades criminosas altamente nocivas e ameaçadoras.

Entre os 31 países convidados por Biden para o evento desta semana não estavam a Rússia e nem a China. Para o caso da Rússia, suposto território do QG do crime cibernético, a explicação foi uma cúpula exclusiva com os americanos, para um acordo específico. Sobre a ausência da China, nenhuma explicação protocolar.

Enquanto isso, no Brasil a última vítima anunciada foi a Porto Seguro. A empresa divulgou ontem um comunicado lacônico à CVM para cumprir uma formalidade legal. Nenhum detalhe foi revelado. Ela entra para o desafortunado clube que, só em 2021, reúne no Brasil empresas como a CVC, Lojas Renner, Grupo Fleury, Embraer. Todos os resgates divulgados até agora são em bitcoins, transacionados via deep web. Nada mal para os bandidos, num momento em que as operadoras de criptomoedas preveem uma supervalorização desses ativos até o final do ano. O mundo está na dependência do surgimento de algum herói para essa causa. Afinal, até agora, é muito improvável que a criança morda o jacaré.

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