É O NOVO PETRÓLEO JORRANDO


Nos primórdios da civilização foi a ágora. Só pode ter sido a vontade imensa de se comunicar que levou o homem a criar aquelas praças, onde se discutia as necessidades e soluções da comunidade. Se voltasse a este mundo o idealizador da ágora provavelmente ficaria maravilhado com o WhatsApp. Mais ainda no Brasil. Segundo pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box, por aqui 99% dos celulares têm o aplicativo WhatsApp. O dado mais relevante é que, de todo esse universo, 95% das pessoas afirmam que acessam o app diariamente, ou quase. E já faz tempo que tem mais celulares do que habitantes no Brasil. 

Embora o aplicativo exista, inclusive, para divulgar todo tipo de besteiras, não se pode negar o poder e a influência contidos nesses números. Steve Banon que o diga. Entre os cidadãos comuns o WhatsApp é a base do negócio de muitas micro empresas. Por isso, qualquer mudança é bem complicada. Foi o que se viu quando começou a cobrança de mensagens comerciais, em agosto de 2018. O sistema de cobrança ficou conhecido como “notificação”. Quando uma empresa faz contato com um usuário é cobrada uma tarifa. Enquanto permanecer esse contato não é cobrada nova tarifa da empresa. O usuário nunca paga. Até se a chamada partir dele. Nesse caso nem a empresa paga nada.

No início, a cobrança foi um susto. Porém, no final, todo mundo ficou contente. As empresas, que não podiam contar com o WhatsApp como canal com os clientes – os termos de uso não permitiam – tiveram o sonhado acesso à ágora digital. E uma indústria de bots cresceu consideravelmente no Brasil. O problema é que agora vai mudar de novo.

Na situação atual são cobrados, por mensagem, US$ 0,047 até 250 mil mensagens. O preço unitário vai caindo conforme aumenta o número de mensagens. Quando passa de 25 milhões fica estável em US$ 0,026. A essa altura a empresa já vai estar pagando pelo menos US$ 650 mil. Assim esse grande negócio de Mark Zuckerberg também foi ótimo para muitas empresas. Fecharam vários call centers, por contarem com um canal tão eficiente até seus clientes. Produtores independentes de chat bots e voice bots, os chamados ISVs, cresceram muito no país. Outro estudo da Mobile Time constatou que 94% deles já produziram algum bot para WhatsApp. Para 49% dos ISVs esses bots representam a principal clientela. E hoje, quando se fala em bots no Brasil, 65% são para atendimento a clientes. Empresas do setor garantem que a gratuidade para as mensagem com origem no cliente ajudaram muito nessa escalada.

É justamente o que vai mudar agora. O novo sistema vai chamar “cobrança por conversa” e significa que a empresa também deverá pagar pelos acessos que partirem dos seus clientes. O preço será menor, US$ 0,03 para conversa iniciada pelo cliente. Sobe para US$ 0,05 quando o chamado for da empresa. Todo esse pessoal que se viu numa boa a partir de 2018, está chorando. Estão no papel deles. Do lado do WhatsApp a abordagem está muito dócil, “aberto a conversas” (eles nunca pagam conversas...). Principalmente porque não querem que outra alternativa surja e tome conta desse mercado.

A empresa pensou bastante num jeito para cobrar mensagens comerciais pelo aplicativo. Possivelmente estavam cuidando para que nenhuma mudança interferisse no hábito de uso da plataforma. Começou credenciando seus parceiros oficiais pelo mundo, os BSPs (provedores de soluções de negócios). São empresas conectadas à API do WhatsApp Business, que dão acesso para os ISVs produzirem seus bots. E também parâmetros. Propagandas genéricas, por exemplo, continuam proibidas. O usuário não quer perder tempo abrindo o aplicativo para receber um monte de anúncios.

O poder que o WhatsApp conquistou está colocando-o numa condição muito especial. Começou por operar o milagre das operadoras de telefonia móvel. Elas afirmavam que não podiam reduzir seus preços, sob pena de falência. Com a chegada do WhatsApp os preços reduziram quase aos níveis da telefonia fixa. Tanto que o tradicional telefone de casa está desaparecendo, ficou inviável. E o “revide” das operadoras só pôde ser a plena isenção de tarifas para o app. Pelo contrário, é o WhatsApp que cobra tarifas pelas conversas na sua plataforma, sem nunca ter esticado um único metro de fio para construir essas redes.

Agora é aguardar para ver o que mais vai mudar com o novo sistema de cobrança do WhatsApp. No mínimo vai render mais inteligência aos chats que hoje chegam aos clientes. Assim vai diminuir a necessidade de mais contatos para perguntar o que não foi bem explicado. Porém, para o WhatsApp, a expectativa fica por mais 3 anos. Parece ser o prazo que eles adotam para conferir se a mudança teve sucesso. Se vão recuar por ameaça de alguma nova tecnologia. Ou se vão testar mais estratégias para ganharem mais ainda.

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