TÃO SIMPLES E TÃO RARO


Se você quer fazer um programa precisa saber que seu desejo não vai se resolver na primeira esquina. A principal causa da sua frustração é uma só: faltam profissionais capazes de entender e atender seus sonhos. De materializar aquele seu pensamento fixo, num aplicativo simples. A comprovação dessa carência está no LinkedIn, onde a busca por programadores e desenvolvedores de aplicativos lidera entre todas. E, sem bons programadores, não há novos programas. (pensou que estávamos falando de quê?) 

Dados mostram que nem à base de muito dinheiro se revolve a falta desses profissionais no Brasil. A Brasscom, Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais, comparou os salários. A média nacional, considerando todos os setores, está em R$ 1.945,00/mês. Para o setor de TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação, essa média passa para R$ 4.792,00/mês. Os dados do LinkedIn revelam que a maior oferta de empregos voltados para-recém formados, é no setor de Software e Serviços de TI. De acordo com o site Itforum o relatório de 2020 “Tech Report” coloca “Desenvolvedor de Software” como a profissão que mais cresce no mundo. Mesmo assim, o risco de um apagão profissional está no ar.

O que será que falta para convencer mais pessoas a se tornarem programadores, desenvolvedores de sistemas? A profissão não exige sequer nível superior. Tendo uma boa alfabetização, quem desenvolver a habilidade de programar computadores, será alvo de disputa no mercado. Basta saber os códigos, entender a forma de obter funcionalidades a partir deles e pronto!

A quantidade de cursos em vídeo ou texto, verso ou prosa, disponíveis na Internet para ensinar programação, talvez só perca para as receitas culinárias. O esforço nesse sentido tem participantes de peso. No começo deste mês de junho o Google disponibilizou o Grasshopper em português. É um aplicativo gratuito desenvolvido pela empresa para ensinar programação de uma forma simples. Traz lições interativas da linguagem JavaScript que permitem criar animações, construir site com HTML e CSS e resolver problemas utilizando códigos. Também gratuitamente, a equipe do Grasshopper no Brasil oferece suporte e feedback sobre as atividades.

As características de socorro dessa iniciativa ficam mais evidentes a partir do nome escolhido. A Almirante americana Grace Hopper, PhD em Matemática, foi uma das pioneiras na programação de computadores. Isso aconteceu nos idos da Segunda Guerra mas, ainda hoje, a comunidade de programação tem carência de profissionais do sexo feminino. Certamente isso deve estar entre as principais razões da escassez de profissionais como um todo. Afinal, em todas as áreas de atividade, a quantidade de mulheres é muito próxima, quando não superior, à quantidade de homens.

Só nos três primeiros meses deste ano o número de vagas disponíveis para programadores – obviamente, incluindo programadoras – triplicou no Brasil. Num país que conta 14 milhões de desempregados, há uma quantidade enorme de empregos disponíveis para essa área. E pagando salário quase três vezes superior à média das outras atividades. Essa situação está impactando o desempenho de muitas empresas brasileiras, reduzindo a inovação e atrapalhando o ingresso de novos capitais por aqui. A questão é qual seria a dificuldade para formar programadores? Lembrando que esse não é um problema apenas do Brasil.

Cabem muitas especulações porém, o baixo nível educacional do país, confirmado reiteradas vezes, deve ser o principal motivo. Até porque esse “baixo nível” não tem nada de relativo. Quem consultar o Anuário de Competitividade Mundial 2020 (World Competitiveness Yearbook – WCY), vai ver que o Brasil está em último lugar no fator educação. O problema parece estar principalmente no ensino básico. Justamente onde se forma o cidadão, onde se desenvolve a consciência social, o senso crítico, as habilidades sociais. E onde já se podem formar programadores, não necessariamente diplomados, mas suficientemente capacitados para muitas tarefas profissionais.

O uso dos recursos naturais para produção de comoditties para exportação é uma alternativa econômica interessante para um país como o Brasil. Mas não é sustentável, nem sustentadora da economia como um todo. Ao longo de mais de quinhentos anos vivendo sobre tanta riqueza natural, já deveríamos ter aprendido outras habilidades, capazes de nos garantir uma relativa autonomia. Algo que nos permitisse plantar sem depender de insumos importados. Ou explorar jazidas minerais com equipamentos nacionais. E de ter a certeza de que, quando alguém disser que vive fazendo programas, não deixará dúvidas de que o programa é de computador.

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