Recomendações para tempos difíceis


Ele é novo na empresa. Engenheiro formado há pouco tempo, terminou o programa de trainee e foi contratado naquela filial. Era a primeira sexta-feira no happy hour do departamento (antes da pandemia!). O novo chefe estava pra chegar na mesa. Voltou de férias do Exterior e achou melhor reencontrar os amigos no bar, antes da segunda-feira. O cara tem fama de boa praça e foi anunciado como novo chefe na véspera de entrar em férias.

“-Olha ele lá!”, anunciou alguém. Aquela festa, abraços, algumas piadas velhas. Até o garçom veio cumprimentar o habittuè. Copo cheio, dois dedos de colarinho e, antes de chegarem os petiscos, o assunto era economia. A conversa começou a esquentar, já tinha política no meio e o chefe decretou: “-Tem que privatizar! Não tem outra solução para o país se não privatizar tudo.”

“-Uau”, pensou o jovem engenheiro. “-Esse cara deve saber tudo de economia!” Em geral, engenheiros não entendem nada de economia, mas não sabem disso. Costumam usar observações estatísticas sobre frases repetidas por figuras de destaque na mídia. E pronto. Tem ali um repertório para jogar na mesa, como se fosse um “três” numa rodada de truco: não define nada, mas dá moral.

O chefe foi mais longe. Começou a citar exemplos do Exterior, até que chegou no mais específico:

“-Austeridade é o caminho. Estou tão convencido disso que vou começar a implantar em casa. Sabiam que eu vou vender o meu carro? É cara, fiz as contas, vou andar de Uber e alugar carro, quando necessário.” A mesa começou a ficar surpresa, mas com um ar de aceitação, até alguma admiração. Que durou pouco: “-Ano que vem vou colocar o meu mais velho na escola pública. A caçula continua no colégio das freiras. Não vou mais pagar uma fortuna para manter os dois em escolas particulares. Vou guardar esse dinheiro. Faculdade, ele que faça qualquer uma, pega financiamento do governo. O dinheiro guardado fica para um apartamento quando ele se formar.” O clima na mesa começou a mudar. Educação é investimento, vai além de passar no vestibular. Mesmo assim, alguns ainda concordavam com a estratégia. Até que o chefe falou em vender a casa dele. Pôr o dinheiro a juros e alugar uma casa “razoável”, num bom bairro. Ahh, deve ter acontecido alguma coisa durante essas férias. Ele não parece normal.

Mesas de bar à parte, “privatizações” e “austeridade” estão nas pautas dos candidatos mais competitivos das eleições brasileiras nos últimos anos. A mídia referenda com louvor. Com o atual governo não poderia ser diferente. Prometeu esse caminho na campanha e foi apoiado. Agora é cumprir. Já tentou algumas vezes e nada. A nova data agora é 2021, depois da troca nas mesas do Senado e da Câmara Federal.

Objetivamente, a controvérsia pode ser resumida em três casos: Telebrás, Serpro e Dataprev. A Telebrás tem as senhas do SGDC – Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações. É o primeiro satélite genuinamente brasileiro, cuja negociação rendeu a formação de um quadro técnico nacional, por conta da transferência de tecnologia. Isso sem falar na política de expansão da banda larga e outros programas estratégicos.

No caso da Serpro e Dataprev, por onde passam dados sensíveis de praticamente todas as pessoas físicas e jurídicas do país, a contraindicação veio de uma entidade insuspeita. A OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, num estudo divulgado no último mês de outubro, chamou a atenção para o fato de que “... ambas as empresas processam uma parte substancial de dados pessoais de interesse do Governo Federal e de outros órgãos públicos”. Sim, a OCDE, aquela que Trump prometeu arrumar uma carteirinha de sócio pleno para o Brasil. No mesmo estudo a entidade concluiu que “... o Governo Federal deveria dedicar uma atenção maior à avaliação dos impactos à proteção de dados decorrentes da privatização”.

Reportagens do site Convergência Digital e da BBC Brasil trazem opiniões de especialistas, do Brasil e do Exterior, que não veem a privatização como meta de governo. Recomendam pensar de forma pragmática. Quer dizer, avaliar bem as vantagens e desvantagens, caso a caso, antes de vender. A questão é bastante extensa e inclui a tão falada “lição de casa” por parte do governo. Falando à BBC Brasil, Armando Castelar, do Ibre – FGV lembra que “o Estado precisa desenhar um bom modelo regulatório, estar bem aparelhado para fiscalizar e desenhar bons contratos, ... para que a desestatização também gere eventuais benefícios sociais.”

Foi bom lembrar da mesa de bar, não foi!? Pois é, enquanto você se prepara pra volta, convém avaliar melhor as opiniões sobre privatizações. Elas estão ficando mais diversificadas.

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