GUERRA ENTRE AS ESTRELAS


A constelação digital está cerrando fileiras para uma guerra. Uma coalizão de 13 grandes empresas foi constituída em Washington (DC) para combater de um lado. Na trincheira inimiga estão Apple e Google. Não está em jogo nada do que essas empresas, de ambos os lados, admitem como moral. Só no discurso. E no nome adotado oficialmente, Coalition for App Fairness, ou “coalizão pela justiça de aplicativos”, em tradução livre. Independentemente da emoção que isso provoca – de choro ou de riso – essa história real é uma metáfora do quanto o apego ao dinheiro cresce, na medida em que alguém mais enriquece.

A coalizão, bem ao estilo human rights, lançou seus dez comoventes princípios, tipo “nenhum desenvolvedor deve ser impedido de entrar na plataforma ou discriminado com base no seu modelo de negócios”, ou ainda “nenhum proprietário de loja de aplicativos deve proibir terceiros de oferecer lojas de aplicativos concorrentes na sua plataforma”. Essa última, propõe algo parecido com um suposto “direito” que, por exemplo, a Ford teria de colocar seu último lançamento em exposição nas concessionárias Chevrolet, e vice-versa.

Foi assim que a Epic Games começou essa guerra, há quase dois meses. Ela colocou na App Store (loja de aplicativos da Apple) e na Play Store (loja do Google) uma atualização do jogo Fortnite, com uma opção oculta. Essa opção só abria quando o consumidor escolhia comprar o jogo. E permitia comprar diretamente com a Epic Games, para não pagar os 30% que essas duas grandes lojas de aplicativos cobram, a título de comissão. Exatamente os mesmos 30% que Microsoft, Nintendo e Sony também cobram em suas plataformas. Por sinal a Microsoft, no início da confusão, em agosto, manifestou apoio ao protesto da Epic Games, acompanhada por Samsung e algumas outras grandes. Mas, entre elas, nenhuma quis “mostrar a mão” na hora de formar a coalizão. Apenas deram o tapa quando sobrou fácil, no começo da briga.

Talvez essa ausência da parte delas seja estratégica. Combina com um enredo recorrente dos jogos de lutas, o fraco desafiando o forte, como David enfrentou o gigante Golias. E abre espaço para a criatividade dos designers, que estão lançando postagens sugestivas na Internet. Numa delas, a maçã da Apple aparece ligada a um grilhão, como o peso a ser atado no tornozelo de um escravo (ou de um criminoso?). Em outra, a logomarca aparece mordendo um celular, tendo como boca justamente a parte mordida da maçã. Tem a mesma maçã na porta de uma cadeia. Na home do site da coalizão se lê que a Apple é uma “trituradora da inovação”, aquela que “todos os dias cobra impostos dos consumidores”.

Embora oficialmente a briga seja contra Apple e Google, de certa forma, este último tem sido poupado. O inimigo a ser batido é claramente a Apple. A culpa dela estaria em ser a criadora do modelo “loja virtual de aplicativos” e em ter como consumidores natos, justamente os que mais compram aplicativos. Aquela pretensa elite que não abre mão dos caros modelos da Apple. De resto, os pecados parecem ser os mesmos, dentro do que permite o poder de cada uma das empresas litigantes. Os 30% cobrados sobre aplicativos vendidos nas plataformas – abusivo, com certeza – parece ser o sonho de todas as empresas envolvidas na disputa. A revolta deve vir mais pela frustração do sonho.

Por enquanto é a Corte Distrital Norte do Estado da Califórnia que arbitra a disputa. Um processo que rende novidades quase toda semana. No entanto, uma artilharia pesada pode disparar contra os dois lados dessa guerra. Além de Google e Apple, também Facebook e Amazon, que apoiam o lado da Epic Games, foram interrogados em julho passado, numa audiência do congresso dos EUA. O tema foi a lei antitruste. Ela deve embasar um processo que o Departamento de Justiça vai abrir contra o Google por esses dias, segundo informações de Isabel Butcher, do site MobileTime. Na União Europeia já começou uma investigação antitruste sobre os negócios da App Store no continente e a Amazon também já estaria na alça de mira dos europeus.

Em todas essas instâncias, americanas ou não, dificilmente não vão achar alguma coisa relacionada a práticas abusivas. Mais difícil ainda vai ser encontrar um jeito de fazer com que essas grandes corporações mudem a forma de atuar no mercado. Porém, isso tudo ainda deve demorar um tanto.

No momento, pelo que se vê daqui, a principal expectativa fica em torno de uma eventual atitude isolada da parte do Google. Por exemplo, se decidir que a Play Store passará a cobrar uma comissão menor para a venda de aplicativos. Isso deixaria a Apple totalmente isolada. E as medidas que ela precisaria impor para manter a supremacia, seriam mais difíceis de serem aceitas na Justiça. Como o poder, o dinheiro, é a única bandeira nessa disputa, atos de fidelidade são muito menos prováveis.

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