A ALDEIA GLOBAL E OS POUQUÍSSIMOS CACIQUES


“Todo cidadão tem direito à atenção à saúde, à educação básica, à pelo menos três refeições diárias e à duas horas de audiovisual a cada dia.” Não, você não leu errado! Nós é que escrevemos um item ficcional numa declaração genérica de Direitos Humanos, num provável futuro.

Há um século ninguém sabia, porque ainda nem existia. Mas o conteúdo audiovisual, tipo o que se vê em TV, cinema, celular, notebook, tablet e outros que virão, está se revelando uma necessidade fundamental da espécie. Uma extensão da vida projetada nos fatos do cotidiano – caso dos noticiários – ou em enredos envolventes – como no cinema, séries – em abstrações surpreendentes, vistas com efeitos especiais de ficções fantásticas. No recente período de migração para a tecnologia digital o que se repetiu, em praticamente todos os países que adotaram a nova tecnologia, foi governos subsidiando aparelhos para os cidadãos mais pobres. Ninguém poderia ficar sem TV pra assistir em casa. Tem aí um reconhecimento implícito dessa virtual “necessidade fundamental” da sociedade.

Em recente artigo publicado no site TelaViva, Fábio Lima, fundador da Sofá Digital, fala sobre uma “Primavera Digital da TV”, marcada por uma série de fatos no último mês de setembro. A comemoração dos 70 anos da TV brasileira, no mesmo mês, deu um toque cabalístico às alvíssaras que Lima vislumbra, a partir da tal “primavera”. A Sofá digital atua entre as distribuidoras e as grandes plataformas de vídeo (Netflix, Globoplay, Amazon,...), por isso tem uma visão muito ampla sobre as reais tendências do setor.

Embora o artigo não aponte num único sentido, sob alguns olhos, ilumina um caminho de centralização, numa nova vertical audiovisual. Por exemplo, o que conhecemos como canais de TV, agora tendem a uma gestão compartilhada em nível mundial, com parte do conteúdo customizado nos âmbitos nacionais. Cabe aqui a interpretação de que, o sucesso do Globoplay enquanto player mundial, seria a única forma de manter boa parte da própria programação numa rede aberta para todo o Brasil. Sem a produção própria de muito conteúdo, em nível competitivo em outros mercados, grandes redes de TV aberta não vão conseguir enfrentar as gigantes do streaming. Possivelmente vão depender dos pacotes delas, assim como nos primórdios da TV: era só filme americano, os chamados “enlatados”, que preenchiam a programação. Com a diferença de que agora o público vai poder escolher individualmente o que quiser assistir.

Netflix, Apple, Google, Amazon, dispõem de um capital imenso, de grande capacidade de gestão de clientes, de pagamentos, e da tecnologia que faz tudo isso funcionar. Disney, talvez Microsoft ou Samsung, podem aumentar esse clube, que raramente terá mais membros do que os dedos de uma mão. Fora isso, haverá a audiência de países pobres, atendida principalmente por emissoras estatais abertas, sem relevância enquanto mercado. Ainda que, dentro desses países, as pequenas elites sociais possam acessar o mainstream da mídia.

Voltando ao artigo de Fábio Lima, o que fica claro enquanto “primavera da TV” é o papel central que terá a tela da casa. O hábito histórico em torno do “aparelho de televisão” vai ser a coluna dorsal de toda a cadeia audiovisual. A rotina de se acomodar no sofá e dizer “decifra-me ou... te desligo”, continuará reservando ao televisor a missão de apresentar algo interessante após o play. Ou logo depois, no toque do próximo botão, que poderá levar a um outro canal aberto, ou a uma plataforma de streaming. Os canais por assinatura devem se manter como alternativa, onde já estão consolidados. Muito por conta do hábito formado em torno do televisor. Pois, em termos de conteúdo, o streaming oferece maior variedade, mais qualidade e preço menor, em muitos casos, pago por unidade.

Com o aumento das bandas de Internet, 5G e novas tecnologias de distribuição de sinal, como o Wi-Fi 6, a tendência é que a TV aberta tenha um papel relevante nesse mercado. Será o caminho mais simples e barato para ligar o varejo do consumo audiovisual, às grandes do streaming global. A base de sustentação da TV aberta deve estar principalmente no Jornalismo local e em grandes eventos esportivos. Com certeza, muitos outros modelos de negócios vão oferecer o conteúdo audiovisual, tendo em vista a grande quantidade de tecnologias disponíveis e a versatilidade dessas. Porém, dificilmente algum desses caminhos vai conseguir atender numa escala comparável à que as gigantes do streaming vão abranger.

Assim como no mundo físico em que vivemos, à primavera que viceja de um lado, corresponde a um outono farfalhando do outro lado, com a queda das folhas. O negócio nesse apuro deve ser a TV por assinatura. Não dá pra prever que ela vá desaparecer, mas a liberação de canais lineares pela Internet, mostra que os televisores smart tendem a dar mais liberdade de escolha para o público. Se a TV aberta começar a ocupar esse espaço em outros países, a experiência brasileira, que hoje é a maior nesse modelo, pode criar outras oportunidades de negócio. TV aberta vai passar a ser uma tecnologia em ascensão.

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