UM JOGO DA IDADE DA PEDRA



O jogo não é nenhum dos videogames que estão por aí. É exatamente o que é jogado pelos grandes players do mercado digital quando lidam com seus negócios. Nada que algum auditor fiscal possa enquadrar, muito menos calotes ou qualquer outro desabono de cartório. A coisa está mais ao olimpo, algo como Apollo castigando Tício.


O exemplo do momento pode marcar um primeiro grande confronto. O banimento do game Fortnite da plataforma Apple Store está sendo um espetáculo de arrogância e desprezo à honra pelas próprias palavras. Não procure um personagem correto no imbróglio. Nessa história cada um quer agir segundo a verdade(??) criada por ele mesmo.


Para quem não acompanha o mundo dos games é bom saber que, em pesquisa realizada no ano passado, o Fortnite era o conteúdo que mais frequentava as telas de televisores americanos. A Netflix veio em segundo lugar. A criadora do game, a empresa Epic, lançou recentemente uma atualização do Fortnite com um conteúdo oculto, em flagrante desrespeito às normas da App Store (Apple) e da Play Store (Google). O usuário encontrava a atualização do game nas duas grandes lojas virtuais e quando decidia comprar aparecia, como alternativa, um desconto de 20% para quem comprasse diretamente da Epic Games. As duas grandes lojas de aplicativos cobram 30% de comissão.


Obviamente, quando a Epic urdiu tal estratégia, ela sabia que seria descoberta em pouco tempo. Quer dizer, planejou uma briga. A Apple pediu que a empresa retirasse a alternativa de venda e, diante da recusa, retirou o Fortnite da loja. A Play Store fez o mesmo. A artilharia da Epic então começou a disparar em várias direções. Entrou na Justiça contra a decisão das lojas, lançou nas redes sociais a hashtag #FreeFortnite, publicou no blog ataques às lojas e até uma campanha publicitária foi preparada, ironizando um comercial histórico da Apple, produzido em 1984. A inspiração do comercial foi o livro de George Orwell que, escrito em 1949, tem como título “1984”. Uma distopia ficcional, projetada para o futuro de então (o ano de 1984) com forte crítica ao controle exercido por parte de governos e corporações. A Epic parodiou o comercial com elementos do Fortnite contra o “sistema vigilante”, citado no livro e, agora, comparado à Apple.


Algumas grandes empresas, como Spotify e Samsung, aderiram abertamente ao protesto da Epic, outras de maneira mais velada, como Facebook e até a Microsoft. Como se a Apple fosse a única a cometer esse tipo de pecado. O site Tilt, do portal UOL, comentou vários detalhes dessa briga, narrados pelos colunistas Gabriel Francisco Ribeiro e Guilherme Rambo. E citou casos de empresas como Sony (Play Station), Microsoft (Xbox) e Nintendo, que cobram os mesmos 30% de desenvolvedores. Eles consideram que a Apple é mais visada por ter criado a primeira loja de aplicativos e principalmente, pelo fato de seus clientes serem mais ativos em compras de apps.


Ademais, a Apple costuma colocar seus interesses sem considerar qualquer projeto fora de suas fronteiras. Serviços de jogos em nuvem, como Google Stadia e Microsoft xCloud não foram permitidos no sistema operacional iOS porque a Apple considerou que seria difícil controlar a quantidade de jogos disponíveis. O site Mobile Time revelou ainda que, por conta do problema com o jogo Fortnite, a Apple pretendia bloquear a plataforma de design Unreal Engine. É outro produto da Epic, utilizado pelo cinema, programas de TV e também para o desenvolvimento de jogos porém, não tem qualquer relação com as vendas do Fortnite. A plataforma gera em computador cenas realistas e ultrarrealistas.


Há um velho ditado que diz “dois bicudos não se beijam”. É a curiosa situação em que as rusgas surgem exatamente por causa das semelhanças. As grandes empresas de TI já ganharam até o acrônimo GAFAM – Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft, como sinal de poder e empáfia. Mas a soberba não para por aí. Outros gigantes do setor também desafiam leis e tradições sem qualquer recato. Não gostam de pagar impostos e outras obrigações, típicas em diversos países. Muitas vezes operam com pouquíssimos custos, mas não aceitam qualquer discussão em torno do quanto cobram pelo que entregam. Pouco ou quase nada respondem aos consumidores. Se hoje o mundo vive ameaças de violação da privacidade, se dados pessoais são vendidos para o Steve Banon ou outros estrategistas, tudo isso foi sintetizado nessas empresas. Vendo por esse lado, em nada admira o medo que Trump demonstra por um eventual domínio desse setor da tecnologia pelos chineses.


Quanto à briga do momento – que não inclui o Brasil – os usuários de celulares podem continuar utilizando tudo que já compraram do Fortnite. Porém ontem, na quinta-feira, uma nova atualização chegou ao mercado americano. Essa não vai ser possível adquirir nas duas grandes lojas de apps, a não ser que a Epic – ou alguma das lojas – volte atrás. O grande suspense ficou para essa sexta-feira, 28 de agosto. É quando termina o prazo que a Apple estabeleceu para a Epic regularizar as vendas do Fortnite na App Store. A partir de hoje, a Apple afirma que poderá excluir a Epic de seu programa de desenvolvedores. Potencialmente, isso pode significar a desabilitação remota de todos os jogos da Epic em aparelhos iOS e até computadores Mac.

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