AS DUAS TECNOLOGIAS 5G JÁ ESTÃO NO BRASIL



"A fronteira da nova revolução digital..." é mais um apelido pomposo que o 5G ostenta, desta vez nas palavras de Paulo Guedes, Ministro da Economia. Foi durante entrevista à CNN Brasil. Como é típico, e até desejável da parte dos economistas, Guedes demonstrou pragmatismo. Chamou de “suspeição geopolítica” as acusações contra a tecnologia da chinesa Huawei, no momento a mais eficiente e mais em conta. Nem cabe dizer “a mais ... do mundo”, uma vez que só tem uma ou outra, no caso, a sueca Ericsson. O ministro gostaria que o governo adotasse a livre concorrência. Iria ampliar as possibilidades de negociação, trazendo vantagens para o Brasil.

Desde que Trump começou a bombardear verbalmente a tecnologia chinesa os Estados Unidos lançaram forte pressão sobre seus aliados, para não adotarem o 5G da Huawei. A Inglaterra, exemplo usado pelo ministro durante a entrevista, de fato adotou parte dos equipamentos da Huawei. O que talvez Guedes ainda não saiba é que, por conta da pressão americana, o Reino Unido já está revendo sua posição para novos contratos. Por aqui a pressão americana não deve chegar. O mais provável é que o governo federal não conteste em nada as orientações de Trump, pelo contrário, fará coro. O presidente Bolsonaro até arrumou um ministro novo para tratar da questão, ao recriar o Ministério das Comunicações, por conta de outras negociações políticas. Portanto, Paulo Guedes não estará diretamente ligado à decisão.

Acontece que o mundo das disputas comerciais vai muito além do Palácio do Planalto e até da Casa Branca. As duas empresas concorrentes já criaram um jeito de fincar os pés por aqui, antes das decisões palacianas. Durante algum tempo a largada do processo seria o leilão de faixas de frequência exclusivas para o 5G. No mundo todo esses leilões são promovidos por autoridades nacionais. A expectativa é de que no Brasil, o edital, que determina as regras para as empresas participantes, cerque de embaraços a aquisição dos equipamentos chineses. As “teles”, as operadoras de telefonia móvel que vão operar o sistema, devem encontrar mais facilidades para comprar a tecnologia da Ericsson. Como o novo ministro das comunicações já decidiu que o leilão vai ficar para o ano que vem, a concorrência deveria esfriar um pouco. Mas a tecnologia é mais rápida do que a política. A Ericsson desenvolveu o DSS, um sistema que permite o compartilhamento dinâmico de frequências do espectro. Quer dizer que, numa mesma faixa, onde o 4G já opera, o 5G poderá ser compartilhado. Não vai ser necessário esperar pelas faixas exclusivas.

Era só o que faltava para que a Claro anunciasse, na semana passada, o lançamento do primeiro 5G no Brasil. As operadoras já implantaram a infraestrutura LTE Advanced Pro, que faz parte do 5G e, no momento, dá suporte ao chamado 4,5G. O DSS, que é basicamente software, precisa de várias faixas no espectro para o compartilhamento. Foi o que a Claro conseguiu há um bom tempo, depois de comprar a operação da Nextel no Brasil. Então tudo se encaixou. Só falta agora o lançamento do Motorola Edge. É o único celular no mundo compatível com o sistema. De acordo com o Tecnoblog, os testes em São Paulo chegaram a velocidades em torno de 400 megabits/s.

A estratégia da Claro para esse lançamento exibe traços de puro marketing de pioneirismo. Nos Estados Unidos o Motorola Edge é vendido por US$ 1.000,00. A área de cobertura anunciada para o lançamento só tem bairros nobres do Rio de Janeiro e São Paulo. A “nobreza” é somente de atitude, na rede da comunidade paulistana de Paraisópolis. Uma iniciativa da Claro para apoiar projetos de Internet relacionados à saúde e educação. Ou seja, esse lançamento é para muito poucos, tímido enquanto projeto comercial.

Bem diferente está sendo a estratégia chinesa para o Brasil. A Huawei vai colocar seus equipamentos para operar mineração não tripulada numa jazida em Minas Gerais. A operação é da SAM – Sul Americana de Metais. O CEO da mineradora no Brasil, Sin Yongshi, disse ao site Teletime que equipamentos imensos, como caminhões e perfuradoras, que operam remotamente, precisam ser sincronizados por um sistema de baixa latência, que é o 5G. A Huawei quer incluir alguma operadora de telefonia no projeto, o que permitiria estender “serviços de telecomunicações de melhor qualidade à comunidades locais”. A promessa da empresa é também capacitar mão de obra local para a sua tecnologia e ainda, para inteligência artificial e nuvem, em parceria com instituições de ensino. Um Centro de Inovação Tecnológica está previsto para ser implantado junto com a operação do projeto. Em tempo: quem controla a SAM é a Honbridge Holdings, uma empresa de capital chinês.

Essa é a realidade que os Estados Unidos devem encarar na hora de enfrentar a Huawei. Com tanto capital chinês investido em projetos empresariais mundo afora, fica difícil pressionar contra a tecnologia mandarim. São pequenas “fronteiras” onde a “cooperação” interna, típica do regime chinês, não pode ser impedida.

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