O NEGÓCIO DA CIÊNCIA



E o homem se lança ao espaço na busca de desvendar segredos do universo! Em meio a incertezas e desafios, em cada missão embarca a determinação de consolidar, pelo menos, um conhecimento em especial: novas formas de ganhar dinheiro, de obter mais poder. Não aparece no cartaz, não está na fala dos atores principais, mas todo mundo sabe que é a parte mais importante do enredo.

Já se falou bastante sobre essa objetividade escondida pelo glamour científico. Portanto, agora é hora de avançar na compreensão das novas estratégias que vão conduzir o homem a pisar com mais segurança... na Terra. O Dragon Crew, que entrou em órbita no último sábado com dois astronautas americanos, é o primeiro foguete “particular” tripulado da história. Um marco para o mundo dos negócios, mas também para a ciência. Esse empreendimento aponta para mais um avanço nos patamares de investimento e de responsabilidades de empresas privadas perante à ciência. Num nível anterior à inovação, a empresa sai em busca da base do conhecimento científico, com todos os riscos inerentes, para tentar chegar antes ao mercado.

O que já vem acontecendo em outros segmentos, como TIC, laboratórios farmacêuticos, agora tende a se estender não apenas mundo afora, mas também fora do mundo. É verdade que o investimento não é tão privado assim. A partir de 2010, só em um dos programas ligados a lançamentos espaciais por empresas privadas, o governo americano adiantou investimentos para seis delas – todas americanas – de valores que variam entre US$ 1,4 milhão até US$ 4,8 bilhões. Dentre elas, a SpaceX, que construiu o Dragon Crew. Um capital que deve retornar em maior volume ao longo do tempo.

Os lançamentos da missão Apollo, que levou o homem à lua há 50 anos, foram importantes para um período de ouro da indústria americana. Do velcro aos relógios digitais, muitos produtos surgidos das experiências espaciais, enriqueceram grandes corporações do país. O efeito simbólico da conquista inusitada sustentou um marketing vigoroso para as marcas americanas. Quase meio século depois, foi também o marketing que justificou a condução do primeiro brasileiro à órbita terrestre. O astronauta Marcos Pontes decolou numa nave russa, cujo “bilhete” custou US$ 10 milhões à AEB – Agência Espacial Brasileira. Os experimentos que ele realizou em ambiente de microgravidade não foram considerados relevantes, mas representaram um ponto de partida para o Brasil.

A estratégia de transferência de tecnologia espacial, do governo americano para empresas, segue uma lógica de terceirização. Os quatro ônibus espaciais fizeram mais de 130 incursões no espaço para levar materiais e substituir pessoas na estação espacial internacional (ISS, na sigla em inglês). A tendência é que esses serviços passem a ser feitos pelas empresas espaciais privadas. Outro detalhe é que todas as empresas têm nacionalidade bem definida. São americanas, o que deve garantir que utilizem essas tecnologias para trazerem divisas ao país. O que deve acontecer também a partir das novas tecnologias que elas próprias vão desenvolver.

A questão da propriedade intelectual está se tornando um assunto cada vez mais sensível. Há anos os produtores locais pagam royalties para empresas estrangeiras, para plantar os cultivares que estão na maioria dos canaviais do Brasil. Cultivares que foram desenvolvidos aqui, por pesquisadores brasileiros, com financiamento de agência de fomento nacional. Mas a empresa brasileira que recebeu o financiamento, aceitou a proposta para vender os direitos para uma empresa agrícola estrangeira. No contrato não havia uma única cláusula que impedisse a negociação.

O Brasil perdeu vários bondes da história e agora, que a história viaja de trem bala, novas tentativas precisam ser bem planejadas. Nesse caso, é preciso consultar a comunidade científica e as empresas nacionais de alta tecnologia, antes de tomar qualquer rumo específico.

O astronauta Marcos Pontes, atual Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, acompanhou o lançamento do Dragon Crew na Flórida. Na emoção do momento ele disse que o Brasil precisa voltar a investir mais em desenvolvimento tecnológico. Até aí, música para os ouvidos dos cientistas brasileiros. Mas logo em seguida ele falou da intenção de direcionar recursos para o programa espacial nacional. Alguns especialistas já se manifestaram. Eles entendem que outras áreas poderiam ser priorizadas no momento. Talvez eles estivessem pensando na Agroindústria. O Brasil é uma potência produtora no segmento, mas importa praticamente todos os agroquímicos utilizados nas lavouras. Um melhor desenvolvimento da química fina nacional poderia deixar bilhões e bilhões de dólares circulando por aqui. A compra de insumos nacionais puxaria para baixo os custos de produção. Taí um bom investimento para a Tecnologia Nacional, com retorno seguro de investimento. A “foguebras” poderia esperar mais.

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