COQUELUCHES DA TECNOLOGIA



A antena parabólica grandona lá na favela, também na casa isolada à beira de estrada, nos lugares mais diferentões. Pois é, aquele é o jeito que muitos domicílios encontraram para ter o sinal de TV aberta. Quem passa não imagina que é assim que a TV aberta chega para pouco mais de 10% da população brasileira. Dados de 2017 indicam que cerca de 21 milhões de pessoas no Brasil utilizavam essa tecnologia à época.

É uma clandestinidade sem culpa. Há cerca de 50 anos a então estatal Embratel posicionou o satélite Brasilsat para atender emissoras de televisão. Foi assim que se consolidaram as grandes redes nacionais de radiodifusão. O satélite leva o sinal pelo “continente” brasileiro afora. Uma emissora que tenha a geração principal, por exemplo, em São Paulo, manda por satélite o sinal para emissoras de Recife, Manaus, Rio de Janeiro e outras cidades distantes de São Paulo. Para as cidades vizinhas, tanto de São Paulo como das outras grandes cidades, o sinal vai por torres de retransmissão, que levam o sinal que veio do satélite.

O sinal do satélite é aberto, não tem código, Quem não consegue captar o sinal de uma retransmissora, tenta direto do satélite. São essas parabólicas que a gente vê por aí. Seria uma audiência perdida, porque a rede formal das emissoras, por torres, não alcança esses locais. Então, que sintonizem pelo satélite. A emissora não vai ter custo adicional nenhum. Essa gambiarra tecnológica ficou com o nome oficial de TVRO. É a campanha do “Zé Gotinha” que aparece durante o jogo de futebol, as orientações para eleitores, combate à dengue e muitas outras ações de interesse público, que trafegam por essas parabólicas. Ficou bom pra todo mundo, então deixa como está.

O sinal de satélite utiliza faixas de frequência da chamada “banda C”. É a mesma banda por onde se espera que trafegue o sinal do 5G, a quinta geração da (telefonia Internet móvel. Aí não dá. Nas maiores cidades brasileiras, onde o tráfego de dados é intenso, a banda C não dá conta. E assim a banda se tornou o centro de uma disputa que tem, de um lado, as grandes operadoras de telefonia, conhecidas como “teles”. Do outro, as grandes redes de TV aberta.

Nesta semana o site Tilt, divulgou os cifrões e alguns detalhes técnicos dessa disputa. Os dados impressionam mas, mesmo assim, não devem ser decisivos para o rumo que a questão vai tomar. Vai depender mais da visão estratégica adotada. Essa visão deve apontar para a verdadeira política de desenvolvimento nacional, não apenas nas telecomunicações, mas na economia como um todo.

O Brasil está entre os maiores mercados do mundo e talvez seja, entre os grandes, o que menos produz valor agregado. Nem no café conseguimos agregar valor, produto em que temos liderança mundial, tradição, tecnologia – antiga, mas de qualidade. Ele sai daqui como produto primário para virar matéria prima em indústrias que agregam valor, multiplicam o retorno em dezenas de vezes e tomam as primeiras posições na ponta que paga mais. São essas grandes empresas estrangeiras que ditam os preços do café no varejo e, por consequência, também para os produtores. Somos o sétimo maior produtor de automóveis do mundo e, entre estes maiores, o único que não tem uma marca nacional. A Embraer, cuja tecnologia de aviação é muito respeitada no mundo todo, foi para a Boeing, que mandou de volta na pandemia, e agora corre o risco de insolvência. Temos poucos destaques tecnológicos, como é o caso na área de informática, mais especificamente na produção de software. Mesmo assim, ainda pelas mãos de pequenas empresas.

Isso deve explicar o Brasil como o paraíso para quem vende qualquer coisa um pouco mais sofisticada. E até sofisticada demais. “-O Brasil não pode ficar fora da indústria 4.0 de jeito nenhum!” E por quê? Não estamos nem na 1.0. Por que não começar por aprender o básico para conquistar e fidelizar clientes? “O Brasil precisa ter o 5G custe o que custar”. Ora, quantos brasileiros nem conhecem o 4G em todo seu potencial?

São essas respostas que vão aparecer na disputa pela banda C satelital. Do lado das teles, afirmam que manter a TVRO na banda C, é um custo enorme para um serviço precário. Verdade. O satélite manda sinal para ser captado por antenas enormes, posicionadas no alto, nos locais de melhor sintonia. O pessoal que capta lá na favela não tem TV no dia de chuva. O sinal é muito fraco. E com a pandemia ficamos sabendo que esse pessoal também não tem água todos os dias, nem sabão e nem comida. Será que é de 5G que o Brasil está precisando? É verdade que a “Internet instantânea” deve gerar muitos novos modelos de negócios, com base em novos sistemas. Deve! Mas será que se isso acontecer aqui no Brasil, haverá apoio para manter como tecnologia proprietária? Ou vai ser vendido no dia seguinte para alguém com capital para expandir mundo afora? Talvez seja melhor manter a TVRO funcionando nos dias de céu limpo. Se o hábito já existe, que permaneça. Evidente que o 5G será bem vindo. Então as teles, que já ganharam até lugar no espectro, que se entendam com as emissoras de TV, sem que o estado precise gastar ou se desgastar com isso.

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