O QUE ACONTECE COM AQUELAS BANDAS



Coisas boas ou coisas estranhas? Para quem acha que bom não combina com estranho, é melhor observar o que está acontecendo no mercado de banda larga no Brasil. Fatos que podem mudar seus caminhos na Internet. À primeira vista a sensação é de que muitas coisas boas estão acontecendo. O estranho fica por conta de algumas indefinições e fatores inesperados, além do coronavírus. Vai precisar esperar um tempo para tirar conclusões.

Em muitas localidades a rede de fibra ótica deve aumentar bastante, a preços competitivos. O governo federal decidiu conectar mais de 16 mil unidades básicas de saúde (UBS) em todo o Brasil, para facilitar o intercâmbio médico assistencial durante a pandemia. São locais distantes, muitas vezes isolados, que até agora não contam com nenhuma conexão com a Internet. O serviço será preferencialmente em fibra ótica. Onde não houver condições técnicas poderá ser por enlace em rádio ou satélite. Boa parte dessas conexões são de pequenos provedores, mais conhecidos por ISPs. Atualmente essas pequenas empresas de telecomunicações operam 60% das conexões por fibra ótica no país. No rastro das novas redes para UBSs, esses provedores querem atender empresas e domicílios pelo caminho. Devem aumentar bastante a clientela.

A confiança dessas empresas parece ter crescido bastante nesse período de quarentenas pelo Brasil. De acordo com o site Teletime, o representante de uma distribuidora de equipamentos relatou recorde de vendas de unidades de rede ótica para ISPs. O salto em abril foi de 30% sobre março. Outra distribuidora confirmou a tendência, teve até que aumentar o financiamento direto.

Mesmo assim, o futuro dos pequenos provedores não está tão iluminado. Basílio Perez, diretor da Abrint, associação que representa os ISPs, disse que a inadimplência começa a preocupar. E não são os clientes domiciliares, de quem eram esperados muitos atrasos. São pequenas e médias empresas, como shoppings, hotéis, cadeias de restaurantes. Segmentos que não estão faturando, por isso apresentam propostas de renegociação, de parcelamento de débitos.

Outra novidade – pelo menos para o grande público – foi a proposta de distribuição de sinal de Internet fixa com o número do telefone fixo. A velha caixa do alô, que está sendo desativada na maioria dos lares, poderá ser mantida com o mesmo número, por onde também vai trafegar o sinal de dados. O que pareceu uma opção tecnológica excludente, agora vai ser servido no mesmo prato. A proposta da Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações, que já vinha sendo debatida há anos, agora está em consulta pública, para que a população possa opinar até meados do próximo mês de junho. Um conselheiro da Anatel, Carlos Baigorri, disse ao site Tilt, do portal UOL, que se trata de "uma dívida histórica da agência com os pequenos provedores". O objetivo seria ampliar a competição. Essa nova configuração do sistema vai atender também à demanda de Internet das Coisas (IoT), que prevê mais de 100 milhões de pontos de acesso até 2025. Mudanças que parecem significativas para aparecerem em meio à pandemia. Curioso que as teles, as quatro grandes operadoras, assistam a isso de braços cruzados. Será?

O leilão de frequências para o 5G, por exemplo, por causa do coranavírus está para ser adiado para o ano que vem. As teles falavam em realizar o leilão no final de 2019. Depois que o Senado aprovou as mudanças na Lei Geral das Telecomunicações, disseram que seria mais oportuno neste ano. Agora discutem o adiamento para 2021, em função da pandemia.

Por sinal, esse debate está sendo oportuno para trazer mais realismo ao varejo. Paulo César Teixeira, CEO da Claro, nesta semana afirmou, durante uma conferência, que é necessária maior “maturidade tecnológica” no Brasil para se falar em 5G. O comentário foi feito enquanto ele argumentava sobre o contexto de crise em função do coronavírus. Mas o problema não seria só a crise. O executivo afirmou que "não adianta colocar tecnologia nova, que impõe custo maior, sem essa maturidade". Citou como exemplo o que aconteceu com o lançamento, em 2017, da tecnologia apelidada de 4,5G. Os aparelhos capazes de utilizar todo o potencial da banda só chegaram ao Brasil depois de 5 meses. Até hoje, a operadora só teria cerca de 20% dos clientes com smartphones compatíveis.

Essa “maturidade tecnológica” é importante ser considerada em muitas outras frentes tecnológicas, por exemplo, naquelas relacionadas à indústria 4.0. Atualmente, as diferentes marcas de sistemas não conversam entre si, o que representa um risco adicional para quem vai investir ao preço de tecnologia de ponta. Esse cenário se agrava na medida em que o Brasil corta investimentos em pesquisa e desenvolvimento, ficando mais atrás ainda em termos de inovação.

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