QUEBRANDO A QUARENTENA



Nada de sair de casa! “Quebrar a quarentena”, neste caso, significa sair do assunto onipresente em todas as emissoras de TV, rádio, sites, piadas do WhatsApp, receitas de saúde, correntes de oração e até liberação das cadeias. O covid-19, que começou invisível, agora é a imagem mais popular do mundo, capaz de ser identificado até por uma criança pré-letrada.

A quarentena brasileira coincide com a quaresma e, no embalo da tradição cristã, ao final do recolhimento virá uma grande transformação. É por aí a tentativa de quebrar a quarentena agora apresentada. O que virá desse mundo diferentão que todos os cientistas profetizam para depois da pandemia? (portanto, fora da quarentena!)

Por falar em profecias, todo final do ano alguns gurus acham espaço na mídia para propalarem suas previsões. Entre os itens genéricos sempre tem “uma grande transformação que pode acontecer” e, na falta de uma comprovação mais convincente, já devem ter usado até a Tamy Gretchen. Para este fim de ano pode contar com um monte de astrólogos afirmando que foi ele quem lacrou a pandemia na previsão anterior.

Ainda fora da quarentena – após, portanto – especula-se a expansão de alguns hábitos tecnológicos disponíveis há algum tempo mas, até então, de pouco uso. Delivery de refeições, por exemplo, maratonar séries e filmes, teleconferências. Mas algumas coisas mais simples ainda, mais íntimas, podem passar a fazer parte de uma nova cultura pós covid. Por exemplo, o hábito de dar as mãos.

Faz tempo, mais de 30 anos, um professor de inglês, nativo dos Estados Unidos, reclamava do hábito dos brasileiros darem as mãos o tempo todo. Ele não tinham aprendido assim na terra dele e agora precisava apertar os dedos de cada um que lhe esticasse o braço. De fato, até nos filmes americanos, são raros os momentos em que os personagens se dão as mãos. E tem uma lógica implícita aí. Agora não tem bar aberto para observar in loco, mas a arquitetura dos banheiros masculinos denuncia. Você vai encontrar 3 ou 4 vasos sanitários isolados, por portas, um pouco mais que isso de mictórios, daqueles só para fazer xixi e uma única pia! Sim, e nos dias de movimento, no rush da balada tem fila nas portas, filas no mictório e a pia fica lá, esperando alguém pra se olhar no espelho. 

Lavar as mãos antes das refeições ou quando “chega da rua” – ou sai do banheiro, claro. Parar de lamber os dedos para folear livros ou contar dinheiro. Isso sem falar no dedinho que elas põem na boca pra fazer charme, quando estão em dúvida para aceitar ou não seu convite para sair.

O mais sério disso tudo, no entanto, foi a liberação legal da telemedicina no Brasil. Há anos essa tentativa era driblada pelos médicos, que dificultavam ao máximo o atendimento remoto. No Japão o padrão de imagens 8K, ligado à câmeras compatíveis, aumenta em muito a capacidade dos olhos do médico. E ainda permite o uso de ferramentas de inteligência artificial, para diagnósticos mais rápidos e muito mais precisos. Imagine um doctor call center para compensar eventuais faltas de médicos em “postinhos de saúde” de bairros.

As possibilidades de soluções remotas podem representar uma grande transformação política. Se os juízes já fazem audiências por teleconferência, os médicos já atendem remotamente, por que os senhores e as senhoras parlamentares não se reúnem remotamente? Antes de mais nada é bom lembrar que já existe uma infraestrutura, pelo menos complementar, que são as TVs legislativas. Todo município pode ter uma TV Câmara, o estado tem o canal da respectiva Assembleia Legislativa, além dos canais da Câmara Federal e do Senado. Pode-se desenvolver uma aplicação específica para evitar que os deputados estaduais tenham que se reunir sempre na capital do estado, e os deputados federais e senadores em Brasília. Até os vereadores poderiam dispensar as sessões presenciais na câmara municipal. Assim, eles se reuniriam remotamente a partir de suas casas ou escritórios locais e o respectivo canal de TV legislativo irá transmitir ao vivo as sessões remotas para toda a população. Uma forma de trabalharem na frente do povo. E terão muito mais tempo para se “reunirem com a base”, ao invés de “enforcarem” as sessões das segundas e sextas-feiras. Todos os ministros e secretários dos poderes executivos teriam seus próprios terminais para se conectarem com os parlamentares. E, nas sedes de ministérios e secretarias, também teria um terminal para eventual agendamento com funcionários de primeiro escalão de órgãos técnicos. Sem contar nas centenas de cargos de confiança que poderiam ser eliminados.

Ora, e um deputado não poderia ir à Brasília para participar de uma sessão presencial? Claro que poderia e neste caso teria a passagem custeada pelo estado. Agora, para viagens por motivos diversos, ele deverá recorrer ao partido, ou ao próprio bolso para comprar a passagem e pagar a estadia. Com o que ganham, não vai faltar para as férias de fim de ano.

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