sexta-feira, 29 de novembro de 2019

TECNOLOGIAS DISRUPTIVAS, OU SOMENTE ROMPIDAS




Há pouco tempo “convergência” era a palavra da moda. Indicava a tendência de produtos eletrônicos, com origens diferentes, passarem a funcionar sobre uma plataforma muito semelhante, digital. Foi assim com o telefone, o televisor, computador. Em alguns casos não se tratava mais de similaridade entre as máquinas, mas uma quase identidade, disfarçada apenas pelo design e pelo software. 

A convergência, no entanto, não deixou de acontecer, pelo contrário, ficou apenas mais discreta comercialmente. Agora tem grandes chances de começar a se revelar na transmutação de muitos produtos, tradicionalmente classificados em segmentos de mercado muito diferentes. Por exemplo, carros, computadores, smartphones e até aviões (ou aeronaves). Os sinais mais evidentes, curiosamente, aparecem nas animosidades entre marcas.

Ford, Chevrolet, Toyota, Mercedes Benz e tantas outras marcas parecem fazer de conta que não sabem do interesse de Apple, Google e outras marcas cibernéticas na produção de carros. Novos conceitos, novas aplicações. Mas, carros. No meio desse tabuleiro, Ellon Musk, o famoso sul-africano radicado nos Estados Unidos, começou a produzir carros elétricos. Foi muito bem por um bom tempo, deu uma encalhada no Model 3, que seria um elétrico mais acessível para novas faixas de mercado. Depois começou a criar polêmicas.

Primeiro hostilizando a imprensa, depois fazendo acusações sérias e descabidas contra a equipe de salvamento dos meninos que ficaram presos numa caverna inundada na Tailândia. Mais recentemente, foi alvo de denúncias por uso de drogas, como maconha e cocaína, nas instalações da empresa, em Hawthorne, Califórnia. Porém, depois de tanto desperdício de energia, ele parece ter escolhido uma briga, digamos, saudável, que pode lhe render algo.

Na semana passada, depois de lançar o CyberTruck, um veículo comercial médio, resolveu provocar a Ford. Esperou o final de semana e postou um vídeo no twitter com o CyberTruck Tesla e uma picape F-150 num “cabo de guerra”. Os dois veículos, unidos por um cabo de aço preso às traseiras, aceleraram, um para cada lado. No vídeo, o CyberTruck arrasta a picape da Ford.

A tradicional fabricante de carros e caminhões aceitou a provocação. Sunny Madra, VP da Ford-X, convidou Musk para trazer a CyberTruck para um outro teste, sob condições de igualdade previamente estabelecidas.

A provocação de Musk, dias depois do lançamento do seu mais novo modelo, deu mais visibilidade a um vexame que ele mesmo promoveu durante o evento. Num paradigma semelhante a outras marcas de tecnologia de consumo, Musk quis destacar detalhes surpreendentes de seu veículo. Deu marretadas na porta para demonstrar a resistência do material. A carroceria é de aço inoxidável laminado a frio. Algo tão resistente que influiu no design do carro, uma vez que não pode ser moldado com formas suaves. A engenharia do veículo usou essa resistência para dar mais funções à carroceria na estrutura do carro.

Mas os engenheiros dos vidros não tiveram a mesma sorte. Criaram o “inquebrável” Tesla Armour Glass, tecnologia que inflou o orgulho da marca a ponto de ser batizado como filha legítima. E que quebrou no primeiro teste, ao vivo, fazendo o rei Musk se dar conta da imediata nudez. Pior foi a desculpa que ele mesmo arrumou, novamente via redes sociais. “Explicou” que as batidas da marreta na porta abalaram o vidro. Ahã! Deve vai sair de fábrica com um adesivo do tipo “vidro inquebrável – desde que feche a porta com delicadeza”.

Enrubescimentos à parte, o lançamento pode, sim, revelar-se um bom golpe de marketing. Tanto para o CyberTruck, que mostrou qualidades inegáveis, como para a Ford, que já não é mais aquela Ford toda, e anda precisando de holofotes. Momentos como esse despertam para os novos rumos da indústria. Faz tempo que não se vende mais carro falando do motor. O que faz a diferença é o computador de bordo, comandos de voz, manobras autônomas e outras peripécias digitais. Carros tendem à motorização elétrica, assim como aeronaves, pelo menos as do tipo que o Uber vem anunciando para as grandes cidades. Com o desenvolvimento de novos materiais, as perspectivas de uma nova “convergência” tecnológica tende a se acentuar. Quem sabe, até chegar a “transformers” pacíficos, funcionais.

O CyberTruck terá opções de dois ou três motores e as baterias podem ter autonomia de 400 a 800Km, dependendo da escolha do cliente. Vai de zero a 100Km/h em 6,5 segundos e pode carregar até 1,6 tonelada de carga. Só vai chegar ao mercado em 2021, a partir do preço de US$ 40 mil porém, segundo a empresa, já foram encomendadas 200 mil unidades. Como a encomenda custa US$ 100,00, nem é tão difícil colocar o nome na lista. Vai ser interessante saber, daqui a dois anos, quem de fato vai completar os US$ 40 mil para retirar o carro.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

DINHEIRO, PRA QUÊ DINHEIRO!?




Fim de ano e as contas governamentais ganharam tipo um “décimo terceiro”. Os R$ 70 bilhões do leilão do pré-sal destravaram todas as verbas contingenciadas nos ministérios, repuseram em atividade várias obras, vão pagar salários atrasados de servidores de vários estados e municípios.

A magnitude desse valor é algo para se refletir. É mais do que a soma de todos os leilões de petróleo realizados pela Petrobras, desde a década de 1990. Foi o maior leilão do gênero já realizado no mundo. No orçamento do Governo Federal, esse valor corresponde à quase o dobro de todo o investimento previsto para este ano de 2019, já que as despesas obrigatórias, as receitas vinculadas, são as que consomem mais dinheiro. Imagine se chegasse aos R$ 106 bilhões previstos inicialmente!

Sob um determinado ponto de vista pode-se supor que não aconteceria nada. Em uma audiência pública, realizada nessa semana, sobre a qualidade da telefonia móvel, foi citado um fato emblemático. Falou-se sobre usar o dinheiro do Fust – Fundo de Universalização das Telecomunicações, para melhorar os serviços. O Fust foi criado com a privatização do sistema Telebrás, para levar os serviços de telecomunicações às regiões mais remotas e em áreas de pobreza.

Desde então a contribuição é recolhida por empresas ligadas ao setor, que repassam o valor para as contas que a população paga. Segundo José Bicalho, Diretor do SindiTelebrasil, que é o sindicato patronal das empresas, o Fust já arrecadou R$ 100 bilhões. Quase 50% a mais do que o valor arrecadado no leilão do pré-sal. Porém, só 8% desse valor foram usados. Segundo Bicalho, tem R$ 92 bilhões já arrecadados, esperando para serem usados em alguma coisa.

É por isso que uma proposta de emenda constitucional (PEC) prevê acabar com boa parte dos chamados fundos públicos, ou setoriais. São aqueles “tantos por cento” sobre o faturamento de determinados setores, que formam fundos destinados às melhores intenções. Em outras palavras, é dinheiro que chega sem um projeto prévio, visando realizar algo objetivo. Muitos outros fundos estão por aí, arrecadando muito, sem reverter em benefícios para a população, nem sequer aos setores aos quais estão vinculados.

A extinção desses fundos não significa, absolutamente, que algum tipo de problema estará resolvido. Se os valores deixarem de ser cobrados, antes será necessário se certificar que as empresas não vão incorpora-los ao preço, já que existe o hábito de paga-los, na tarifa que vem na conta da população.

Aqui é oportuno lembra de outra centena de bilhões que andou virando manchete neste ano. O Congresso Nacional aprovou a doação de bens reversíveis das concessões, para as empresas de telefonia que arremataram antigas subsidiárias da Telebrás. Pelo cálculo apresentado há alguns anos, o conjunto desses bens reversíveis valeria cerca de R$ 100 bilhões. Os deputados e senadores disseram que o objetivo da medida é exigir que o valor da doação seja revertido em investimentos para a expansão da infraestrutura de telecomunicações. É o mesmo objetivo para o qual ainda não foram usados R$ 92 bilhões do Fust.

Durante a mesma audiência pública, segundo informações do site Teletime, Henrique Lian, Diretor da Proteste, lembrou que de nada adianta o investimento em infraestrutura, se não houver beneficiários na outra ponta, usuários dos serviços. Pois a infraestrutura vai ficar sem uso, não vai ser amortizada, torna-se obsoleta e acaba representando mais um custo, o de desfazer uma solene orelhada gerencial. Diante da situação tão esdrúxula, o representante da Vivo, Enylson Camolesi, até sentiu-se à vontade para sugerir a criação de “uma espécie de bolsa”, talvez a bolsa celular ou bolsa banda larga, para que os usuários carentes usassem dinheiro do Fust para pagar serviços de telecomunicações.

Definitivamente, não é dinheiro que resolve problemas. É a criatividade, a imaginação capaz de gerar projetos interessantes. Vários investidores têm muito dinheiro esperando para fazer funcionar coisas úteis, pelas quais muitas pessoas vão pagar. De um modo geral a Administração Pública no Brasil não demonstra capacidade para criar soluções. Temos “apenas” o melhor pedaço de chão do mundo, sem terremotos nem furacões, com muita água, vento “funcional”, mercado interno, minérios em abundância – inclusive petróleo – terras agricultáveis. E temos dívidas, muitas dívidas.

Sob o ponto de vista em análise, faz sentido a redução de 40% nas verbas do Governo Federal para investimentos, em 2020. É o que está previsto no orçamento. Falta, porém, o planejamento para médio prazo, que deve se tornar a principal referência a ser considerada, quando mentes criativas pensarem em projetos para o Brasil crescer.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

PENSO, LOGO... POSSO PENSAR MELHOR AINDA




Você sabe onde fica a primeira Cidade Inteligente Social do mundo? Como ninguém vai acertar – a não ser quem já sabe – fica no Ceará, sem outra dica pra pensar. A proposta é muito diferente em tudo, a não ser no “social”, quase uma marca registrada brasileira. Tudo por aqui é “social”, inclusive o nome do maior problema que temos a resolver.

A cidade vai se chamar Laguna e terá cerca de 25 mil habitantes, pelo projeto original. Hoje faz parte do distrito de Croatá, pertencente ao município de São Gonçalo do Amarante, a 60 quilômetros da capital Fortaleza. A localização escolhida, dentre outros motivos, considerou a proximidade do porto de Pecém, da Companhia Siderúrgica de Pecém e da ferrovia Transnordestina, além de ter “logo ali” uma ZPE – Zona de Processamento de Exportação, uma espécie de polo industrial onde as empresas têm redução nos impostos.

Quando se diz “diferente em tudo” quer dizer, por exemplo, que começa por ser um projeto privado, de uma empresa ítalo-britânica, associada a uma empresa brasileira. O investimento é de US$ 50 milhões. Não tem dinheiro público nisso, até onde se sabe. É uma smart city porque, em seu projeto, vai conciliar o uso intensivo de tecnologias de ponta associadas aos conceitos de desenvolvimento humano, sustentabilidade e otimização da mobilidade urbana. E é social porque prevê lotes para projetos financiados pelo Minha Casa Minha Vida, para famílias com renda de até 1,5 salário mínimo. Portanto, vai ser necessário um tempo para confirmar o “social” da marca, uma vez que, com 1,5 salário mínimo não há desenvolvimento humano possível.

A cidade fica a poucos quilômetros de praias famosas, como Paracuru, Taíba, Cumbuco, Lagoinha e Flecheiras. Vai ter pavimento semi permeável para evitar enchentes, lagoas, cachoeiras, amplas áreas verdes e para esporte e lazer. Além de uma distribuição racional de comércio e serviços, sem exigir grandes deslocamentos, independentemente do bairro onde estiver. Tem ainda a previsão de parque tecnológico, hub de inovação, ilha para abastecimento de veículos elétricos, ciclovias, conexão total e gratuita em toda a cidade, totens digitais ... e vai ter também um aplicativo, onde cada morador poderá acessar até as câmeras de vigilância do seu trajeto.

Aplicativo! É por aí onde começam as mudanças nas cidades que já nasceram há tempo, cresceram muito e vivem um reumatismo crônico em todos seus papéis urbanísticos. É por aí também onde cresce uma indústria que pode transformar importantes fluxos econômicos da noite para o dia.

Há 10 anos podia-se dizer que um dos melhores negócios do mundo era ter uma companhia telefônica. O WhatsApp mudou essa realidade completamente em pouco mais de um ano, contra todas as previsões. Pouco antes, precursores da modalidade app, como Google e Facebook – este último, nem usou tanta ciência assim – já tinham feito um straight no mercado publicitário, além de nadarem de braçada num novo mercado, o de perfis pessoais. Mais recentemente o Uber tomou um enorme excedente de preço que era cobrado nos serviços de táxi e ainda incluiu milhões de pessoas nesses serviços.

Pois é o Uber que está desbravando suas próprias potencialidades para ser muito mais do que uma multinacional taxista. Nesta semana assinou com o governo paulista uma parceria para integração dos transportes públicos com os carros privados de transporte de passageiros.

Quando o usuário digita o destino no aplicativo aparece como opção “transporte público”, ao lado do ícone pelo qual chama-se um carro. As informações sobre linhas de ônibus, metrô e trens são atualizadas em tempo real. O app orienta até a caminhada para chegar ao ponto. E dá a opção de planejar uma viagem multimodal até o seu destino, comparando custos e tempo a ser dispendido. O recurso está disponível na região metropolitana de São Paulo e em outras metrópoles, como Nova York, Washington, Denver, Sidney, Londres e Paris.

Ao que tudo indica, não tem “bola nas costas” na novidade. Pela experiência brasileira, por exemplo, dá para perceber que o usuário não escolhe o Uber porque não sabe que ônibus pode tomar. Mas, com a nova funcionalidade, o aplicativo passa a estar presente no cotidiano de muito mais pessoas, que vão ficar mais próximas do Uber.

Inteligência não serve apenas como sobrenome de cidades descoladas. É uma variável exigida mais e mais em todo tipo de negócio. E, pelo menos por enquanto, é um atributo disponível em todos os seres humanos, até naqueles que ainda não a descobriram. Agora, que se trata de um recurso cada vez mais aplicável, é bom conferir diariamente se não falta um pouco de inteligência no seu negócio. Quem sabe, com uma boa ideia, você consegue até reservar seu lote em Laguna.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

NOVOS TEMPOS, NOVOS VÍCIOS




“Eu queria ser, o seu caderninho
pra poder ficar, juntinho de você...”

A música é dos tempos da Jovem Guarda, autoria de Erasmo Carlos. A composição tem mais de 50 anos. Pudera! Se fosse hoje, o “caderninho” perderia de longe o protagonismo para o celular. O que não é demérito nenhum. Em defesa do caderninho pode-se dizer que, de certa forma, ele pelo menos tem descendentes virtuais no celular, ao contrário de muitos outros tradicionais objetos que simplesmente desapareceram de cena.

Na verdade, nem é tão correto atribuir o fenômeno adicto ao celular. Essa foi a caracterização inicial do primeiro handset, o telefone móvel, um aparelho inegavelmente útil, mas sem potencial para promover tanta dependência. O nome do problema é smartphone, que também é o nome de muitas soluções, sem dúvida. Utilidades e futilidades num só lugar, acionadas pelos polegares, até dominar todo o resto do corpo.

Uma máquina tão polêmica assim “faz xixi na mão de criança”, diriam nos tempos da Jovem Guarda. Objetos complexos nunca são indicados para crianças, a não ser sob supervisão cuidadosa dos pais. É o caso até do televisor, do automóvel e de tantos outros do convívio diário.

O smartphone, em particular, oferece riscos totalmente transparentes para crianças e adolescentes. A OMS – Organização Mundial da Saúde enquadrou numa faixa de risco semelhante à do cigarro. A radiação emitida é nociva para qualquer pessoa a partir de mais de 20 minutos numa mesma ligação. Para adolescentes, e principalmente para crianças, onde novos tipos de tecidos estão em formação, o risco é maior ainda, chega no “contraindicado”.

Nada de novo!? Até aqui, não. Mas a pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box, divulgada recentemente, apontou que a proporção de crianças com smartphone próprio, na faixa entre 4 e 6 anos de idade, aumentou de 23% para 30% de 2018 para 2019. Consequência natural, caiu de 16% para 10% o percentual das que não acessam nem o smartphone dos pais. Na faixa de 7 e 9 anos subiu de 44% para 50% o smartphone próprio.

Ora, mas a radiação não é um problema que só existe quando o aparelho está ligado a uma linha móvel? É, sim. E essa linha está em 41% dos smartphones próprios de crianças de 4 a 6 anos. Na faixa de 7 a 9 anos esse percentual sobe para 61% e chega a 80% entre 10 e 12 anos. Antes de aprender a falar, crianças aprendem a pedir o smartphone. O dado é de que 40% das crianças com até 3 anos de idade já manifestaram o desejo. Curioso imaginar como isso teria acontecido... Esse interesse chega aos 96% na faixa de 10 a 12 anos de idade.

Os pais, não têm nada a ver com isso. Pelo menos, eles acham que não. A mesma pesquisa indica que só 13% deles acham que, usando smartphones influenciam os filhos. A principal influência viria das amizades dos filhos.

Vamos convir que, de fato, não se pode colocar todo o problema na conta dos pais. O smartphone é um objeto irresistível, é onipresente em todos os ambientes, desde o meio social – seja ele qual for – na mídia, nas conversas entre amigos. Porém, se os pais aceitarem que eles podem ser os principais influenciadores das crianças, pela simples introdução do celular na convivência familiar, já seria um bom começo para corrigir esses exageros.

Falta agora tentar entender para quem o smartphone é mais nocivo, se para as crianças ou para os adultos. (Logicamente, considerando que os benefícios do smartphone são inegáveis, incomparáveis aos malefícios conhecidos.) Trata-se de um fenômeno social de abrangência imensurável, cuja inserção social mais adequada ainda vai exigir muitos estudos e memes.

Por exemplo, no que diz respeito ao tempo perdido. Se considerar a qualidade que poderia ser agregada à maior parte do tempo perdido no smartphone, fica difícil dizer se realmente é compensada com o tempo que o handset economiza em várias tarefas corriqueiras. O smartphone, pelo potencial que possui, acaba sendo um incentivador eloquente do desperdício.

Outra pesquisa, com 6 milhões de usuários anônimos do Avast Cleanup (Android, MAC), entre dezembro de 2018 e junho de 2019 analisou mais de 3 bilhões de fotos e dados. Em média, as pessoas guardam 952 fotos em seus celulares. No Brasil, 17o lugar no hanking mundial, a média é de 911 fotos. As mulheres costumam armazenar 24% a mais do que os homens. 

Quase um terço desse total vem pelo WhatsApp. E para cada 5 fotos armazenadas, pelo menos uma é repetida ou de qualidade descartável. Se o peso dessas fotos fosse em gramas, e não em bytes, certamente não suportaríamos tanto desperdício.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

NOTÍCIA BOA OU NOTÍCIA RUIM. VOCÊ DECIDE!




“-Rapaz, eu tenho duas notícias para você. Uma boa e uma ruim. Qual você quer ouvir primeiro?”

“-Caramba! Fala logo a notícia ruim, pra diminuir a minha ansiedade.”

“-Acabou de acontecer um acidente nuclear aqui na sua cidade.”

“-Deus do céu! Depois de uma notícia dessas, qual pode ser a notícia boa!?”

“-A boa notícia é que você está sendo avisado a tempo para seguir até um local seguro e escapar ileso desse acidente.”

A estorinha já é bem conhecida, em várias nuances. Na maioria dos casos como piada, humor negro, que combina com um final trágico. Do jeito que está apresentada aqui, pode até se tornar realidade, uma vez que sistemas de segurança para uso em massa estão cada vez mais presentes nas atividades humanas.

Nesta semana, o teste de simulação para evacuação da cidade de Angra dos Reis, onde está o maior complexo nuclear brasileiro de geração de energia, incluiu um novo dispositivo. Um sistema de alerta que, uma vez acionado, por um único botão, manda uma mensagem sobre acidente, para ser exibida em todos os televisores ligados. Ele funciona nos aparelhos compatíveis com o sistema EWBS, que são os modelos recentes vendidos no mercado. A mensagem pode ser configurada da maneira escolhida pelos órgãos de segurança local, incluindo sinais sonoros.

O sistema foi testado na TV Rio Sul, emissora afiliada da TV Globo em Angra dos Reis. Ele vem de uma parceria da EiTV com a Hitachi, com o Fórum SBTVD – Sistema Brasileiro de TV Digital e o Governo Federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação. A televisão é o tipo de lazer mais consumido no mundo portanto, qualquer alerta divulgado pela telinha, terá as maiores chances de chegar ao maior número de pessoas. A cidade pode optar por estender o sinal de alerta das TVs para todos os aparelhos celulares, usando algumas adaptações. Assim vai ser difícil alguém não ficar sabendo.

A EiTV tem fornecido o sistema para vários países andinos, onde os riscos de terremotos sempre estão presentes, em alguns casos, também tsunamis. Uma tecnologia que faz refletir sobre uma certa ironia envolvida. Por exemplo, o fato de ser um investimento que precisa ser feito, na esperança de que jamais seja usado. Ou ainda, por ser um dispositivo que fica num lugar de destaque, ligado e pronto para funcionar, recebe manutenção preventiva ordinariamente, tudo porque, se num único instante for necessário usar, ele jamais poderá falhar.

Ou seja, quem se propõe a oferecer segurança, precisa estar habituado a só produzir com qualidade, eficiência e segurança. Com esses “ingredientes” só lida quem está devidamente habilitado, quem nunca deixa de usar em nenhuma das “receitas” da casa.

As novas tecnologias se relacionam com esses paradigmas com crescente intimidade. Primeiro porque elas surgem para serem produzidas em altíssima escala, pois só assim se viabilizam economicamente. A decorrência natural é que, qualquer falha nessas tecnologias será muito custosa para o fabricante.

Tem ainda o fato de que o mundo está se acostumando a elas, a convivência é muito frequente, os laços de confiança se consolidam. Vamos imaginar sistemas de IoT falhando! Quantas pessoas direta ou indiretamente seriam afetadas? O que dizer do transporte de pessoas por drones ou veículos autônomos?

A palavra “falha” vai esvanecendo no dicionários da engenharia. Vai migrando para a página dos horrores e dá lugar a uma série de novas técnicas e protocolos de prevenção e antecipação. É a questão que se coloca de forma ostensiva diante de todos que querem produzir tecnologia: você está preparado para perseguir a perfeição incansavelmente?

Como corolário natural, essa mesma questão vai se impondo a quem vende, quem opera e principalmente para quem fabrica. Qualidade, eficiência e segurança não são escolhas triviais. É um compromisso para o qual deve haver um extenso preparo, até que se tenha clareza do significado dessa escolha.

Nos últimos anos o Brasil teve exemplos históricos de falhas de segurança em Mariana, no Museu Nacional do Rio, em Brumadinho, e agora somos vítima de uma falha que está poluindo todo o Litoral Nordestino. O rigor de novas rotinas de qualidade precisam passar a serem aceitos com naturalidade nas esferas de governos, nos órgãos de fomento, entre os fornecedores de produtos e serviços. Caso contrário, nossa história pode ficar mais à mercê do humor negro, comum nas piadas sobre a notícia ruim e a notícia boa.