SEDUÇÃO E ABANDONO NA HISTÓRIA DO 5G



O que é um sujeito descolado? Já tem definição até nos dicionários da língua culta, cada turma tira ou acrescenta alguma coisa, mas o descolado raiz, com certeza, usa certas palavras ou expressões: resgatar, inclusão, fake news, viralizar, 5G, ... Sim, quem não fala em 5G corre o risco de ser classificado como ogro.

Quase ninguém sabe exatamente o que é a quinta geração da conexão móvel, mas o assunto rende. É certo que será a Internet mais rápida que já existiu, mesmo sem fio. E que isso pode mudar muito a indústria atual, vai permitir inventar muitos novos negócios. Uma panaceia, daquelas tipo “quem não tiver estará fora de condições para competir” (inclusive nos videogames).

Por isso tudo, aqui no Brasil a meta era leiloar as frequências ainda este ano, para que em março do ano que vem já fosse oferecida comercialmente ao público. Era a meta. Em agosto a Anatel concluiu que as TVs por antena parabólica (TVRO), espalhadas por todo o Brasil, vão sofrer interferência. Então, primeiro precisa resolver o problema da interferência, para depois implantar o 5G.

A Abinee – Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica foi a primeira a advertir sobre o atraso que esse adiamento vai representar para a indústria nacional. Houve outros lamentos, mas agora o problema está tomando mais uma forma. É o edital para o leilão das frequências.

Um conselheiro da Anatel propôs um formato que permitiria a entrada de pequenos provedores nas disputas dos leilões. Ele entende que isso aumentaria a concorrência, trazendo benefícios para o consumidor. Por outro lado, essa tal fragmentação, num país com a extensão territorial do Brasil e a concentração populacional que temos, faz técnicos desconfiarem que podem surgir mais problemas do que soluções.

Como o 5G está nas rodas dos descolados, operadoras nacionais já anunciam demonstrações espetaculares do que a nova tecnologia possibilita. Coisas de encher os olhos e seduzir irresistivelmente, para algo que vamos demorar um tanto para ter.

É compreensível que empresas invistam o quanto antes na divulgação de produtos inovadores. Principalmente quando esses produtos estão custando fortunas para desenvolvedores e vão chegar caros para os provedores. Mas o papel das administrações públicas deve ser mais prudente. Quando o governo promete, empreendedores se mobilizam, dedicam tempo e outros recursos preciosos, para projetos que podem envelhecer muito, antes de serem implementados.

O que era para chegar em março de 2020 já está virando uma possibilidade para 2021. Mesmo assim são muitas as incertezas para se fazer qualquer marquinha no calendário. Um exemplo recente foi a migração do modelo de televisão aberta, do analógico para o digital.

Na ocasião, a tecnologia da TV digital já estava implantada em muitos países, tinha uma série de protocolos internacionais definidos, e contava com a ativa ação das várias grandes redes nacionais de TV em todo o processo. Foi feito um planejamento bem estruturado, a condução do programa foi firme durante o momento mais crítico. Mesmo assim o atraso foi de dois anos. Quer dizer, dois anos foi o atraso para a maior parte da população, que ocupa menos da metade do território brasileiro. Para a maior parte do país a TV digital vai chegar quando der, não tem previsão de data. Na medida em que o tempo passa, os preços de equipamentos vão diminuindo, as peças de reposição do analógico vão desaparecendo, então as emissoras que sobreviverem vão finalmente digitalizar o sinal.

Por que com o 5G as coisas seriam mais ágeis por aqui? A briga pelo domínio dessa tecnologia, que a China até aqui vence folgadamente, vai impactar os padrões internacionais para o setor. Isso levaria à incompatibilidades entre sistemas, com risco de tornar a expansão do 5G mais cara e menos eficiente. O Brasil nem participa desse debate, porque muito pouco produz a respeito. Com a redução drástica das verbas para pesquisas, isso tudo fica ainda mais distante.

Esse atraso do 5G, portanto, pode ser encarado tanto como um problema como uma oportunidade. O Brasil, que representa um mercado importante, poderia investir em alguns segmentos para desenvolvimento dessa tecnologia. Por exemplo, em software. Afinal, como teremos que acompanhar tudo bem de perto, podemos fazer alguma coisa enquanto olhamos. Vamos deixar de lado o tipo “descolado”, que fica só na tagarelice, para assumirmos um real protagonismo nessa tecnologia tão decisiva para o futuro.

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