ME ENGANA QUE EU GOSTO





A rotina de trabalho no desenvolvimento de novas tecnologias tem efeitos mentais curiosos. Por exemplo, um certo deslocamento das fronteiras do pensamento. Ilusão e realidade, vigília e sono, possível e impossível, tornam-se territórios voláteis, algo como as águas dos rios Negro e Solimões: percebe-se a diferença, mas as coordenadas dos pontos de encontro mudam a cada instante.

“-Meu Deus, isso fala!”, teria exclamado Pedro II na primeira experiência que teve ao telefone. No entanto, o que parecia sobrenatural para o Imperador, Graham Bell e outros cientistas viam como resultado exato de uma discreta manipulação de leis da natureza. É que eles lidavam com as novas tecnologias da época.

Espanto do tipo está se popularizando hoje com o áudio imersivo 3D do sistema MPEG-H. Desenvolvido no Instituto Fraunhofer de Circuitos Integrados IIS, da Alemanha, o MPEG-H projeta no espaço da sala de TV o arranjo sonoro do ambiente onde o som original foi gravado. Aquele efeito que o Dolby 5.0 produzia, com o uso de várias caixas de som espalhadas pela sala, o MPEG-H oferece com a uma única caixa do tipo soundbar. O som sai da caixa que fica ao lado da TV, mas é percebido como vindo de outras direções.

O MPEG-H cria objetos sonoros, totalmente virtuais, capazes de separar os sons pela sala, da mesma forma que eles são captados no ambiente real. As ondas sonoras refletem no chão e no teto, gerando o efeito de espacialização, que originalmente vinha das várias caixas sonoras do home theater. Sim, você ouve sons vindos de vários pontos diferentes da sala, mas não há qualquer caixa de som nesses pontos. Parte do áudio está atrás de quem assiste ao vídeo, o som de um jato virá de cima, o barulho dos tiros de uma cena de ação pode chegar pelos lados ou de qualquer outro ponto da sala. Quer dizer, do ponto de vista sonoro, você fica imerso no ambiente da trama.

Mesmo em televisores que não possuem uma caixa do tipo soundbar acoplada, o sistema possibilita a interação do usuário com o áudio, manipulando seus objetos sonoros. Por exemplo, em uma partida de futebol, você poderia assistir a partida ouvindo apenas o som do estádio, eliminando a voz do narrador.

Pelo menos uma emissora de TV aberta brasileira já está preparada para gerar o sinal do MPEG-H, de forma que seja captado por antena comum e reproduzido na sala de TV. Nada fantasmagórico, é só mais uma maneira engenhosa de enganar o cérebro humano, esse mesmo que lida com a natureza até produzir tecnologias tão impactantes.

Com poucos anos na praça, o MPEG-H foi um dos temas de destaque na SET Expo 2019. O Instituto Fraunhofer decidiu montar seu próprio stand na feira e recebeu visitantes de vários países. Na montagem do projeto, que simulou uma transmissão convencional de TV Digital ISDB (sistema japonês, no qual está baseada a TV digital brasileira), o Instituto Fraunhofer teve o cuidado de selecionar os melhores equipamentos e serviços disponíveis. O set-top box escolhido, que estava ligado a um televisor de 80 polegadas, era o aparelho da marca EiTV. Como também o implementador de funções EiTV Playout, que ficou na “emissora” simulada da feira.

Isso é parte do efeito onírico que as novas tecnologias provocam em seus desenvolvedores. Com ferramentas amplamente conhecidas no mundo, como alguns equipamentos de ponta, a gestão inteligente de equipes profissionais de alto nível permite um rendimento equiparável ao alcançado entre os grandes especialistas do mundo. E, de fato, quando se trata do sistema de TV brasileiro, a engenharia da EiTV está no primeiro plano.

Depois da expansão do cérebro, desde a imprensa até as telecomunicações, a tecnologia agora cuida de enganar o próprio cérebro, com efeitos convincentes até para aqueles que conhecem os detalhes da “mágica”. São prazeres acrescentados à experiência de viver, cada vez mais acessíveis à todas as camadas sociais.

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