sexta-feira, 30 de agosto de 2019

ME ENGANA QUE EU GOSTO





A rotina de trabalho no desenvolvimento de novas tecnologias tem efeitos mentais curiosos. Por exemplo, um certo deslocamento das fronteiras do pensamento. Ilusão e realidade, vigília e sono, possível e impossível, tornam-se territórios voláteis, algo como as águas dos rios Negro e Solimões: percebe-se a diferença, mas as coordenadas dos pontos de encontro mudam a cada instante.

“-Meu Deus, isso fala!”, teria exclamado Pedro II na primeira experiência que teve ao telefone. No entanto, o que parecia sobrenatural para o Imperador, Graham Bell e outros cientistas viam como resultado exato de uma discreta manipulação de leis da natureza. É que eles lidavam com as novas tecnologias da época.

Espanto do tipo está se popularizando hoje com o áudio imersivo 3D do sistema MPEG-H. Desenvolvido no Instituto Fraunhofer de Circuitos Integrados IIS, da Alemanha, o MPEG-H projeta no espaço da sala de TV o arranjo sonoro do ambiente onde o som original foi gravado. Aquele efeito que o Dolby 5.0 produzia, com o uso de várias caixas de som espalhadas pela sala, o MPEG-H oferece com a uma única caixa do tipo soundbar. O som sai da caixa que fica ao lado da TV, mas é percebido como vindo de outras direções.

O MPEG-H cria objetos sonoros, totalmente virtuais, capazes de separar os sons pela sala, da mesma forma que eles são captados no ambiente real. As ondas sonoras refletem no chão e no teto, gerando o efeito de espacialização, que originalmente vinha das várias caixas sonoras do home theater. Sim, você ouve sons vindos de vários pontos diferentes da sala, mas não há qualquer caixa de som nesses pontos. Parte do áudio está atrás de quem assiste ao vídeo, o som de um jato virá de cima, o barulho dos tiros de uma cena de ação pode chegar pelos lados ou de qualquer outro ponto da sala. Quer dizer, do ponto de vista sonoro, você fica imerso no ambiente da trama.

Mesmo em televisores que não possuem uma caixa do tipo soundbar acoplada, o sistema possibilita a interação do usuário com o áudio, manipulando seus objetos sonoros. Por exemplo, em uma partida de futebol, você poderia assistir a partida ouvindo apenas o som do estádio, eliminando a voz do narrador.

Pelo menos uma emissora de TV aberta brasileira já está preparada para gerar o sinal do MPEG-H, de forma que seja captado por antena comum e reproduzido na sala de TV. Nada fantasmagórico, é só mais uma maneira engenhosa de enganar o cérebro humano, esse mesmo que lida com a natureza até produzir tecnologias tão impactantes.

Com poucos anos na praça, o MPEG-H foi um dos temas de destaque na SET Expo 2019. O Instituto Fraunhofer decidiu montar seu próprio stand na feira e recebeu visitantes de vários países. Na montagem do projeto, que simulou uma transmissão convencional de TV Digital ISDB (sistema japonês, no qual está baseada a TV digital brasileira), o Instituto Fraunhofer teve o cuidado de selecionar os melhores equipamentos e serviços disponíveis. O set-top box escolhido, que estava ligado a um televisor de 80 polegadas, era o aparelho da marca EiTV. Como também o implementador de funções EiTV Playout, que ficou na “emissora” simulada da feira.

Isso é parte do efeito onírico que as novas tecnologias provocam em seus desenvolvedores. Com ferramentas amplamente conhecidas no mundo, como alguns equipamentos de ponta, a gestão inteligente de equipes profissionais de alto nível permite um rendimento equiparável ao alcançado entre os grandes especialistas do mundo. E, de fato, quando se trata do sistema de TV brasileiro, a engenharia da EiTV está no primeiro plano.

Depois da expansão do cérebro, desde a imprensa até as telecomunicações, a tecnologia agora cuida de enganar o próprio cérebro, com efeitos convincentes até para aqueles que conhecem os detalhes da “mágica”. São prazeres acrescentados à experiência de viver, cada vez mais acessíveis à todas as camadas sociais.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

LEVANTA, DÁ A VOLTA POR CIMA... E GINGA



Ela está voltando a ser um momento quente no inverno brasileiro. É a SET Expo, feira e congresso que ferveram São Paulo nas edições da década passada, com a chegada da TV digital aberta. Nas últimas edições vinha apresentando um relativo esfriamento, por causa da concorrência do broadband. A banda larga aumentou continuamente a capacidade, trazendo uma Internet com formatos sempre inusitados, com muita diversificação. O modelo de negócios da TV aberta foi envelhecendo.

O sucesso do OTT, que bateu de frente com a TV aberta e também com os canais por assinatura, ironicamente, pode ter sido também um dos fatores da previsível retomada das emissoras. Filmes e séries fizeram o consumidor de audiovisual redescobrir o aconchego da sala de casa, o prazer de mergulhar em enredos interessantes ilustrados pela sétima arte. O televisor, como hábito, está reconquistando lugar nos lares. De tal forma que até a festa do Oscar vem perdendo parte de seu brilho. A TV traz as melhores produções para o espaço íntimo que o público está resgatando, aí mesmo, no sofá de casa.

Ficou a dica! A combinação de broadband e broadcast era tudo que o público queria, mas não sabia. Aplicativos como Globoplay, TV SBT, Cultura Digital e similares avançaram na experiência dessa combinação. E agora é a “TV conectada”, ou híbrida, que deve começar a reinar, e seguir firme até o absoluto domínio, como principal entretenimento da espécie humana.

O conceito de TV conectada começou a se expandir a partir da ponta de recepção, com os televisores smart, que têm conexão com a Internet. E conquistou uma forma final na ponta de transmissão, nas emissoras de TV aberta. A TV conectada é capaz de registrar automaticamente hábitos e preferências de milhões de telespectadores. E ainda, num mesmo intervalo comercial, pode enviar diversos anúncios diferentes ao mesmo tempo. Cada telespectador vai ver apenas o anúncio que foi direcionado ao perfil dele.

No Brasil, um antigo conhecido – digitalmente falando – da TV Digital reaparece mais uma vez, como solução 100% brasileira, para nosso sistema evoluir: uma nova geração do middleware Ginga vai conectar broadband ao broadcast, de onde ele é nativo.
  

PARCEIROS INTERNACIONAIS PROCURAM OS MELHORES NO BRASIL


Um dos destaques da SET Expo 2019 vai ser a presença do instituto alemão Fraunhofer, um centro de pesquisa voltado para sistemas de microeletrônica e tecnologia da informação (TI). O Fraunhofer desenvolveu, dentre outros, o sistema de áudio imersivo 3D MPEG-H, que transforma o som num “objeto”, dentro do qual você se acomoda como se estivesse no local onde tudo foi gravado.

Assim, a partir de uma única caixa de som, como aquela embutida na própria TV, o telespectador tem a sensação de que o som vem de várias direções. Numa cena de ação, por exemplo, o som do helicóptero vem do teto da sala, o personagem perseguidor vai ser ouvido atrás do telespectador, lateralmente chegam os respectivos sons dos ambientes mostrados em cada lado da tela. Na transmissão de um jogo de futebol o telespectador pode baixar bastante o som da voz do narrador e aumentar o som ambiente do estádio.

O sistema MPEG-H vai passar a ser uma opção de som 3D na transmissão de TV digital aberta no Brasil, que continuará tendo como padrão o sistema de som HE-AAC. O instituto Fraunhofer vai montar um estúdio para demonstração no estande do Fórum SBTVD. E convidou a EiTV para integrar a experiência.  Equipamentos de hardware e software da marca vão ser usados na codificação de sinal. Rodrigo Araújo, diretor comercial da EiTV, disse que “o instituto Fraunhofer nos procurou em função da nossa identificação com a pesquisa e o desenvolvimento da TV digital, gerando inovações.” A EiTV é uma startup formada por ex-alunos da Unicamp que desenvolve software e equipamentos para emissoras de TV compatíveis com o padrão da TV digital aberta adotado no Brasil.

Um dos exemplos recentes dessa atuação inovadora foi a participação oficial no desenvolvimento dessa última versão do middleware Ginga. Como empresa membro do Fórum SBTVD, a EiTV envolveu seus engenheiros diretamente na concretização desse passo histórico da televisão. A experiência da empresa no projeto foi importante para alcançar soluções, tanto para o mercado de fabricantes de televisores como para sistemas voltados à transmissão, para instalação nas emissoras.

A empresa brasileira vai lançar outras soluções na SET Expo 2019. O EiTV Audiolink é uma das novidades voltadas para redações de TV. Trata-se de um software que permite utilizar o sinal de transmissão para agregar um sinal de comunicação com as equipes de externa. Como a banda do sinal de TV digital é mais do que suficiente para a transmissão da programação, o espaço que sobra pode ser usado para ligar a redação às equipes de externa. As conversas são encriptadas de ponta a ponta, evitando o risco de vazamentos. O repórter poderá captar o sinal por meio de um aplicativo para Android ou receptor Down Converter Box.

Para as centenas de emissoras brasileiras que já possuem o implementador de funções EiTV Playout, o Audiolink é uma atualização do sistema, sem a necessidade de um hardware adicional na central de transmissão da emissora.
  

SURPRESAS PODEM ACONTECER NESTE ANO


A partir deste ano a SET Expo tende a retomar um protagonismo cada vez maior diante da cadeia de valor do mercado de TV aberta brasileiro. Esse mercado deve conquistar um novo status com a implantação de sistemas de TV conectada. Tanto que a mídia para divulgação do evento, neste ano, está bem maior, se comparada com o que se viu em eventos anteriores.

Quem pode surpreender neste ano é a TV Globo que, ao inaugurar, no mês passado, a maior área para produção de conteúdos na América Latina, anunciou a implantação da TV conectada em sua rede aberta. Durante a SET Expo 2019 ela pode iniciar alguma campanha para anunciar as novidades tecnológicas que vão dar origem a um novo modelo de negócio na TV brasileira. Nenhum comentário foi feito até agora. Mas tanto os telespectadores, como os anunciantes, precisam entender como o novo sistema vai funcionar. Só assim vão perceber as novas potencialidades da TV aberta, enquanto mídia. Vale lembrar que a Globo foi a empresa que atuou mais efetivamente no desenvolvimento dessa última geração do Ginga, voltada à TV conectada.

A SET Expo 2019 promete muito! É o principal evento do continente voltado para TV, novas mídias e entretenimento. E esse segmento empresarial de peso para a economia brasileira está novamente vivendo um momento de mudanças. Tudo isso representa um conjunto de fortes atrativos para empresas, universidades e centros de pesquisas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

SE A ONDA É GRANDE, PRECISA SABER SURFAR




A gestão pública brasileira quer “levar uma vida moderninha”. Nesta semana o MCTIC – Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações em conjunto com o Ministério da Agricultura lançaram a Câmara Agro 4.0 que terá como objetivo “o fomento da implementação de sistemas de Internet das Coisas na agricultura”. A Câmara faz parte do Plano Nacional de IoT (Internet das Coisas), lançado em junho, que inclui também o Programa Nacional de Estratégia para Cidades Inteligentes, nascido em julho.

Já está previsto incluir instâncias semelhantes para a Saúde e para a Indústria. Esses dois últimos, ainda não anunciados, são justamente os mais sérios e desafiantes. A saúde e a indústria são muito presentes, de forma mais direta, no cotidiano de todas as classes sociais. Quando a coisa – ou melhor, a Internet das Coisas – chegar nesses setores, técnicos e políticos devem mobilizar mais a opinião pública quanto a erros e acertos do plano. Os mais fáceis, e menos arriscados, são os que dá para anunciar logo no começo, sem ter muita preocupação com a efetividade.

Há várias outras iniciativas no poder público, nos vários níveis, voltadas à preparação do país para a nova onda tecnológica, caracterizada principalmente pela IoT e pelo 5G. Mas ainda é difícil entender exatamente o que esses programas esperam da parte dos agentes econômicos e de que forma eles vão oferecer alguma contrapartida concreta.

A Câmara Agro 4.0 responde também a uma movimentação dos BRICS, o bloco de países emergentes incluindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Numa recente reunião dos ministros das comunicações dos países do bloco, houve recomendações nesse sentido.

As iniciativas oficias que estão sendo anunciadas são importantes, reúnem grupos de ministérios/secretarias, abrem espaço para reflexões. No entanto, é necessário se situar mais claramente nesse ambiente de expectativas. A indústria de ponta fez investimentos monumentais em tecnologias disruptivas, cuja resposta do mercado precisa ser compensadora. Sem contar que só a convivência das pessoas com essas novas tecnologias vai indicar os rumos para as implementações mais promissoras. A indústria sabe que ainda vai ter que investir muito. Por isso a ordem do dia é vender, faturar. Daí tanta mobilização via governos e instituições, as mais variadas possíveis.

TECNOLOGIAS E NEGÓCIOS EMBEDED


Além do esforço de vendas por parte dos fabricantes, os políticos estão percebendo que o ufanismo tecnológico é um bom apelo eleitoral. O tema abre qualquer porta porque, as pessoas em geral, já aceitam a ideia de que tecnologias de informação e comunicações (TICs) estão presentes em todas as atividades humanas. O risco está no fato de que isso é quase tudo que a população sabe a respeito. Investimentos e decisões no setor são facilmente aceitas pelo contribuinte, na esteira da “modernização”, mesmo sem entender bem o que está sendo feito e o quanto custa de fato.

Em São Paulo o governador João Dória, publicitário das cabeça aos pés, do passado ao futuro, está inventando o “vale do silício” brasileiro. A alusão é à região dos Estados Unidos onde nasceram e prosperaram as principais indústrias TICs do mundo. Ao ritmo de “meu bem me deixa/ sempre muito à vontade/ ela me diz que é muito bom/ ter liberdade”, ele quer levar a opinião pública a concordar com um investimento altíssimo, que vai alterar bastante a logística de abastecimento da cidade.

Dória quer mudar o maior entreposto de alimentos da América do Sul para outro endereço, ainda não definido. No local ele pretende implantar o tal vale do silício – bras. Ou seria brasesp? O quanto isso interessou até agora à indústria ou aos centros de desenvolvimento nacionais de tecnologia, ainda não é possível enxergar. Mas o setor imobiliário já faz planos mirabolantes para faturar em cima da nova configuração espacial da maior cidade brasileira.

O Brasil, curiosamente, talvez seja o próprio vale do silício. Aqui estão as maiores reservas naturais de quartzo do mundo, uma das principais fontes de obtenção do silício, necessário para produzir chips e outros componentes da indústria de TICs. E mesmo tendo o mineral em tanta abundância e qualidade, temos pouca tecnologia para produção de silício de alto grau de pureza. Se até o beneficiamento do mineral ainda não é uma sólida realidade por aqui, como pensar em desenvolver uma indústria nacional de componentes de silício?

O avanço tecnológico impressiona todo o planeta, mas a realidade brasileira é pouco conhecida entre os brasileiros. De um lado, os partidos eventualmente de situação exageram, ampliam excessivamente as conquistas nacionais. Do outro lado, os eventuais oposicionistas descrevem um cenário muito pessimista. Eles “se mordem de ciúmes”.

COMPRAR O PEIXE OU A VARA DE PESCAR?


“Investir em tecnologia” é uma promessa muito genérica. Isso pode acontecer de inúmeras formas, segmentos, etapas de produção. Antes precisa ter uma eficiente “tecnologia de fomento da tecnologia” para que os recursos investidos revertam em benefícios mais imediatos e estratégicos.

Diante do afã de vendas da indústria hi tech é necessário, primeiramente, apurar a real necessidade e a relação custo/benefício. E, dada à magnitude do mercado brasileiro, deve se considerar, entre os benefícios, o grau de transferência de tecnologia a partir dos negócios realizados. Muito do que se vê na indústria chinesa veio desse tipo de exigência.

Outros gargalos históricos importantes devem ser considerados. O IoT vai reduzir custos no campo e aumentar a produtividade. Porém, enquanto não houver solução viável para a devida manutenção da malha viária, muito desses ganhos de produtividade vão literalmente se perder pelo caminho.

Desenvolver a própria tecnologia nacional sempre vai interessar, o que implica em começar pela importação e uso em determinada escala. Essa escala não vai estar, necessariamente, de acordo com as metas de vendas das fabricantes. Além disso, a difusão do uso desta ou daquela tecnologia é só o começo. A parte mais importante é justamente aquela onde o governo está cortando ou contingenciando aos bilhões. Que efeito, então, terá a criação de “programas nacionais” e “câmaras temáticas” pelo mesmo governo?

Essa “vida moderninha” que o país está encenando inclui “ser mais seguro/
e não ser tão impulsivo”, como diz a música da banda Ultraje a Rigor. Também é importante “não bancar o possessivo”, aquele que quer ter o domínio de todas as tecnologias. O adequado meio termo chama-se política nacional de desenvolvimento tecnológico e industrial. Se é que isso existe, ainda é um segredo bem guardado.

x

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

MUITOS BILHÕES E MUITAS INCERTEZAS




Pode ter mudado muito. Mas em alguns círculos a adolescência ainda acontece daquele mesmo jeito. Por exemplo, o garoto apaixonado. Ele já trocou olhares com a pretendida, tentou alguma gracinha que não foi bem recebida. Até que percebe não ter todo o tempo do mundo, então faz um plano. Na próxima festa da escola, num determinado momento, vai convida-la para alguma brincadeira da gincana, para dançar, algo assim. Ele sabe que ela deve resistir, então planeja uma resposta para cada possível negativa.

Chega o grande dia, veste a melhor roupa, faz pose de galã e, antes que se aproxime dela, é a menina que sorri e o convida pra dançar. Ele não sabe o que fazer da sorte com a qual nem sonhou.

Para adolescentes é aceitável. Para um país como o Brasil, nunca. Se somos uma democracia adolescente, como alguns dizem, com certeza somos mais ainda uma burocracia obsolescente. Como a nossa idosa “bisa”, confusa, que nos pede algo e, quando trazemos, ela pergunta por que lhe entregamos aquilo.

O caso concreto é o FUST – Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações. Um imposto que nos é cobrado indiretamente desde 2001 e que, até o último mês de abril, acumulava uma arrecadação de R$ 22 bilhões. Como o próprio nome diz, ele deveria ser utilizado para universalizar os serviços de telecomunicações, ou seja, leva-los até os locais mais distantes e isolados do país. No entanto o senador Styvenson Valentim (Pode-RN), em relatório apresentado no ano passado, cita uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). A auditoria, referente ao período de 2001 a 2016, concluiu que menos de 0,002% dos recursos do fundo teriam sido utilizados na universalização dos serviços de telecomunicações. Há outras estimativas, nenhuma chega a 1,5%.

Se faz tempo que você ouve governos dizerem que “não tem dinheiro”, agora você entende o que pode ser essa tal “adolescência” do país. Os gestores ficam perdidos, não sabem o que fazer quando têm recursos disponíveis. Planejam com base num cenário muito diferente da realidade. Ou, para usar mais do universo adolescente, é quase aquela piada que aparecia em adesivos colados no vidro de fuscas reformados: “Arrecadar nóis arrecada, mas nóis num breca a cobrança”.

A CULPA É DA TECNOLOGIA


Para quem nunca teve R$ 22 bilhões em mãos é bom fazer algumas comparações, para se ter ideia do quanto representa esse valor. É mais do que o orçamento de todo este ano para estados como Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Ceará, Acre, Paraíba e para a maioria dos estados brasileiros. Ou então, mais do que o dobro do custo de todo o Congresso Nacional em 2019, incluindo benefícios e todas as mordomias de cada parlamentar, de servidores.

E agora são eles mesmos, deputados e senadores, que sonham em utilizar os recursos do FUST em projetos que podem dar projeção política e eleitoral. Enquanto isso, o dinheiro do fundo tapa buracos no orçamento e trapalhadas de Brasília. No ano passado, por ocasião da greve dos caminhoneiros, o Governo Temer usou R$ 777 milhões do FUST para subsidiar os preços do diesel. Pelo menos R$ 10 bilhões do fundo já teriam sido usados sob a rubrica “nada a ver”. E o povo reclamando que é a conta de telefone que está alta.

Na verdade, os desvios do fundo, feitos com base em leis para situações de desespero, têm raízes burocráticas. E tecnológicas! Sim, a rapidez da evolução dos sistemas de telecomunicações fez até as leis do setor se tornarem anacrônicas. No caso do FUST, quando ele foi criado, no ano 2000, era para levar linhas de telefone fixo para locais remotos. O bom e velho telefone representava quase tudo em termos de serviço essencial de telecomunicação. Internet era um luxo, para diletantes. Banda larga era só um tipo de pneu para carros esportivos.

A Lei Geral das Telecomunicações, ou LGT, é de 1997 e trouxe muitas regulamentações no bojo das próprias diretrizes. Foi uma lei completa porém, para um cenário que nunca se confirmou. Seria impossível alguém prever tantas mudanças de hábitos, em tão curto espaço de tempo, por conta da tecnologia.

O mais estranho é que, afinal, as coisas já aconteceram, o mundo mudou. E os gestores públicos continuam atônitos, como o adolescente surpreendido pela sorte que o tempo lhe antecipou, muito além dos seus melhores planos. Se, ainda assim não agem com base na nova realidade, talvez estejam vislumbrando interesses inconfessáveis nas entrelinhas da história.

O TOMA LÁ E O DÁ CÁ


Ao que parece o FUST foi criado como uma providência estratégica. As telecomunicações, fundamentais na sociedade contemporânea, estavam deixando definitivamente a mão generosa do estado, para serem entregues à gestão de empresas privadas estrangeiras. A lógica do lucro precisaria de um amplo contrato para garantir, à parte mais carente da sociedade, aquilo que o estado se desincumbia.

A interligação nacional do sistema, que transferia recursos dos estados ricos para investir no desenvolvimento dos estados mais pobres, estava se decompondo entre empresas independentes. E o FUST foi a solução proposta para garantir os investimentos que precisavam chegar a todos os brasileiros, em todas as regiões.

Para que isso acontecesse de forma organizada foi criado o PGMU – Plano Geral de Metas para a Universalização, voltado ao Serviço Telefônico Fixo Comutado (SFTC). As siglas são muitas, mas vão ajudar a compreender o contexto legal que está originando esses problemas.

O telefone fixo (SFTC) era o único serviço previsto na LGT com o status de regime público. Esse status só é admitido para serviços essenciais, “de interesse coletivo, cuja existência, universalização e continuidade a própria União comprometa-se a assegurar.” Significa que precisam ser, pelo menos em parte, concedidos pela União a empresas que se comprometam, inclusive, com metas de universalização.

Hoje o telefone fixo é a modalidade de comunicação de menor interesse para a população em geral. O mais importante parece ser o serviço de banda larga, que ainda não poderia receber verbas do FUST. Para isso, seria necessário que o serviço de banda larga constasse do PGMU. No PGMU só podem constar serviços em regime público e, de acordo com a lei, isso exigiria que pelo menos parte do serviço precisa ser concessão da União. Já imaginou o Governo Federal abrir uma concorrência pública para concessão de serviços de banda larga? Considere que a empresa vencedora teria de assinar um contrato com várias obrigações, prevendo também investimentos para universalização da banda larga.

É isso que congela os R$ 22 bilhões que o FUST arrecadou. Só mudando a LGT esse dinheiro poderia ser posto a serviço da real necessidade nacional, que é a universalização da banda larga. Agora o problema é que a mudança da LGT foi proposta pelo PLC 79, que está parado no Senado há cerca de 3 anos. O PLC 79 é polêmico, pois ali, diz a oposição, estariam embarcados diversos “presentes” da União para as atuais empresas concessionárias de SFTC. Convém avaliar cuidadosamente.

x

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A CONTA DOS IMPROVISOS TECNOLÓGICOS DO PASSADO




Nos anos 70 do século passado a sigla JB teve alguns significados marcantes no Brasil. O Jornal do Brasil era um destacado veículo da imprensa carioca e nacional, João Batista era o general da vez para ocupar a Presidência da República, o whisky JB estava entre os mais vendidos nas boates de destaque ... e o “jeitinho brasileiro” rabiscava uma nova cara para o Brasil do milagre econômico.


Por conta do “jeitinho” padrões e normas foram reclassificados como meras bobagens: “- Se podemos fazer o mais fácil, por que complicar?” Favelas “facilitaram” a política habitacional, mais tarde a urbanização de favelas “viabilizou” a infraestrutura – mas não resolveu a segregação e muitas outras carências. Agora procura-se soluções para a violência, que vem de todos os bairros, para o desemprego e tantas outras deformidades. Muitos problemas nacionais de hoje descendem de ajeitadas que foram se acumulando.

Quanto mais a ciência avança, mais fica evidente que o jeitinho é antinatural. Na natureza tudo é muito cheio de regras precisas e detalhadas. O improviso às vezes funciona, mas por pouco tempo e deixa sequelas.

Na alta tecnologia, que utiliza os detalhes profundos das regras da natureza, a gambiarra fica mais crítica ainda. Um caso simbólico, neste momento, está assombrando a infraestrutura de telecomunicações no Brasil. Um improviso, que vem dos tempos JB, agora pode atrasar a implantação do 5G. “-Quem poderia imaginar uma coisa dessas?”, vão dizer. E a resposta está no fato de que normas e padrões existem justamente por ser impossível prever tudo que virá.

Nos tempos em que a Embratel era uma estatal, o satélite Brasilsat foi posicionado para atender, em banda C, todas as grandes redes de televisão. A “cabeça” de cada rede enviava o sinal para o satélite, que distribuía para as emissoras regionais das cidades mais distantes. Naquelas regiões, onde é inviável construir muitas torres retransmissoras, o Brasilsat garantia o sinal via satélite, que as emissoras repetiam para a audiência dentro do alcance.

Então fabricantes de antenas parabólicas descobriram que os sinais do Brasilsat não eram codificados, poderiam ser facilmente captados em domicílios em qualquer lugar. Foi a conta para começar o grande problema de hoje para o 5G.

ATÉ QUANDO ATUALIZAR O JEITINHO


A posição orbital do Brasilsat se tornou o principal alvo de parabólicas Brasil afora. De luxuosas casas de campo até casas de madeira, na periferia das grandes cidades, traziam de lá o sinal gratuito, de qualidade. Para as emissoras, tradicionalmente abertas, foi uma forma conveniente de ganhar uma audiência significativa, sem fazer nenhum investimento a mais.

A casa que não podia receber sinal terrestre, por falta de antena retransmissora próxima, ficou acessível pelo satélite. Aponte a parabólica na direção do Brasilsat e, uma simples caixa, sintoniza qualquer canal aberto. É o que, tecnicamente, chama-se TVRO. A programação comercial não chega, mas o merchandising das programações artística e esportiva está garantido.

O jeitinho TVRO, totalmente clandestino e totalmente legal (não há normas, ou não se aplicam no caso) era o único sinal de TV para 6 milhões de lares, dados de 2017, do IBGE. Algo em torno de 21 milhões de brasileiros estão bem ali, no incerto e não sabido, mirando a posição do Brasilsat. Após a privatização do sistema Telebrás a Claro, que arrematou a Embratel, colocou na mesma posição orbital um outro satélite, que opera na banda C, o StarOne C2, que presta os mesmos serviços até hoje.

Estamos em 2019 e, dentro de um ano, o governo vai leiloar a banda de frequência de 3,5 GHz do espectro eletromagnético, para que as operadoras possam oferecer o 5G, quinta geração da banda larga móvel. Detalhe: o sinal 5G interfere no sinal de satélites banda C!

Em geral, interferências de sinal são tratáveis. Pode ser simples como no caso da TV digital, onde um filtro comum, instalado na recepção dos aparelhos interferidos, é suficiente. Outras situações exigem estudos caso a caso, como acontece no 5G x banda C satelital. Precisa testar várias alternativas, até encontrar a solução para cada posição específica de receptor. O que funciona para um receptor no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, não funciona necessariamente num receptor no quarteirão vizinho, nem no Tatuapé, também em São Paulo. Muito menos para um receptor no Realengo, no Rio de Janeiro, ou para um outro aparelho em Manaus. Cada caso, um estudo específico.

Na banda C do nosso espectro trafegam os sinais de 11 satélites brasileiros e de outros 26 satélites estrangeiros licenciados aqui. A imensa maioria atende clientes corporativos, que vão contratar empresas especializadas para estudos e providências contra interferências. E aquele monte de usuários clandestinos de boa fé que recebem o sinal de TV? Cada moradia, de várias comunidades carentes, vai contratar especialistas? É o que a Anatel está tentando resolver até o início do ano que vem, antes do leilão da faixa de 3,5 GHz.

ALTA TECNOLOGIA NÃO COMBINA COM IMPROVISOS


A função social da TV aberta no Brasil é indiscutível. Ela é fundamental para as campanhas de vacinação e várias outras campanhas de interesse público, oferece orientações nos períodos eleitorais, divulga alertas. Por isso mesmo, governos não poderiam ter feito vista grossa para a forma de expansão da TVRO. Deveria, no mínimo, ter começado um cadastro, um mapeamento desses domicílios.

É o que vai ser necessário fazer agora, afirma Vitor Elísio Menezes, secretário de telecomunicações do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Ele está aguardando os relatórios dos testes feitos pela Anatel. 

Acredita-se que a solução para a TVRO vai ser a transferência do sinal de TV para a banda ku, que não teria qualquer interferência no 5G. Os detalhes mais técnicos podem ser obtidos a partir de artigo de Samuel Possebon, publicado no site Teletime (https://teletime.com.br/24/07/2019/banda-c-o-primeiro-grande-desafio-do-5g-no-brasil/ ). O noticioso foi o primeiro a tratar da questão gerada a partir da interferência 5G x banda C satelital.

É importante muita atenção durante todo o processo de avaliação e mitigação dessas interferências. O assunto está longe do domínio popular e ninguém pode ter a certeza de que não se trata de um susto ingênuo, como foi o bug do Milênio. A situação vai alterar os preços no leilão das faixas de frequência do 5G e envolve muitos outros interesses. Já se discute, inclusive, eventuais compensações para a população que depende do satélite para ter TV em casa.

Em tempos de novas tecnologias, se superando no mercado, em ciclos cada vez mais curtos, o icônico jeitinho brasileiro vai se tornando uma ameaça grave. Soluções improvisadas dificilmente são duradouras e costumam carregar riscos preocupantes.
x