O NOVO E O VELHO NAS CILADAS DO FUTURO




Produto, tratamento ou até simpatia, se for para rejuvenescer, todo mundo quer, e paga-se bem. Nunca deu certo. Mas não é que agora a febre é um app para envelhecer? Ah, tá, na fotografia, tudo bem.

O FaceApp é o sucessor de um brinquedo que fez um “vôo de galinha” em 2017. Foi a versão inicial que a mesma empresa russa, Wirelles Lab, de São Petesburgo, lançou. Houve problemas de funcionalidade, mas agora parece que voltou com força.

Surpreendente esse tipo de curiosidade em relação ao futuro. Vamos em busca do que o espelho nos reserva para daqui anos e anos, o envelhecimento. O app, na versão gratuita, ma non troppo, tem 21 filtros que podem ser aplicados sobre a imagem, finalizando algo muito realista. O que se vê é a foto de um idoso (ou idosa), que ainda não existe. Não fica com jeito de desenho ou de jogador de futebol de videogame, parece uma foto verdadeira.

A velhice, que muita gente tenta esconder até quando tá na cara – “-não pergunte a minha idade!” – chega antecipada por redes neurais, tipos de algoritmos de inteligência artificial. Talvez o app se torne tão atraente por colocar, nas mãos dos “envelhecedores”, o total controle da presumível velhice. Você branqueia os cabelos quanto quiser, a calvície não se altera, o aumento ou redução de peso, típicos do avanço da idade, não são incluídos nas alterações. Olha lá que graça de velhinha!

O que o app tem de velho mesmo, de verdade, é a esperteza em tomar seus dados. Quer dizer, não é muito gratuito, só mais ou menos. Na política de privacidade apresentada aos interessados consta que “ao usar nosso serviço, nossos servidores automaticamente gravam certas informações do arquivo de registro, incluindo solicitações da web, endereço de IP, tipo de browser, páginas de referência/saída e URL, número de cliques e como você interage com os links no serviço, nome de domínios, páginas iniciais, páginas visualizadas e outras informações”. Então, né...

O FUTURO DO PASSADO E O FUTURO DO PRESENTE


O futuro é essa ficção, de um tempo que nunca chega. Tudo bem que um dia a casa fica pronta, o carro novo chega, até o corpo fica saradão. Muitas vezes são bem parecidos, mas nunca exatamente iguais àqueles futuros, de um breve passado. Na verdade o que chega é sempre o presente. Enquanto ele não vem, cada um usa o futuro como quiser. Pode ser para projetar fantasias pessoais, um dos casos da vertente otimista. Ou para traçar criteriosos cenários, sobre os quais são construídos planos, estratégias, alternativas. Nesse caso o pessimismo é a regra.

É o que estão fazendo agora os trabalhadores chilenos da rede Walmart. De acordo com o site Computerworld, 17 mil empregados da rede no Chile resolveram entrar em greve, por tempo indeterminado. Eles reivindicam uma compensação salarial pelo aumento da automação nas lojas. O sindicato afirma que as “colegas-máquinas” estão fazendo com que eles realizem múltiplas tarefas diariamente. Com a greve,124 das 375 lojas do país, estariam fechadas nesta semana. Os empregados devem ter previsto uma grande onda de demissões.

Difícil acreditar que o pessimismo da estratégia de automação do Walmart, no Chile, tenha chegado a tanto. Reações desse tipo, por parte das vítimas da tecnologia, parecem incomuns nesses nossos dias. Mas o presente está aí, confirmando que as empresas querem mesmo inventar maneiras de reduzir custos. Choques entre futuro e passado são situações muito mais presentes, na medida em que as mudanças acontecem muito mais rapidamente.

Mesmo diante desse cenário a “transformação digital” continua muito em voga. Tem que achar um jeito de decompor cada tarefa, cada produto, nas elementares peças de um lego zero-um. Tudo que entra nesse universo ganha escala infinita e pode estar ao mesmo tempo em todos os lugares. E assim está sendo. O entretenimento, o trabalho braçal e até algumas atividades ditas intelectuais, estão “bitadas”. Nas fábricas, no comércio, nos bancos, nos serviços públicos.

De alguma forma, pelo menos desde a Era Moderna, o mundo vem perseguindo exatamente esse objetivo. Não vai ser agora, que estamos vivendo bem diferentemente daquele passado – embora diferente também daquele antigo futuro – que vamos retroceder o presente. Os pacotes de inovações chegam fechados, trazendo coisas com as quais sonhamos, mas também alguns pesadelos. O que falta é inventar algo que permita uma adaptação menos traumática. A gente não consegue perder o medo de certas assombrações, como o desemprego, a queda brusca do padrão de vida, a declaração de obsolescência dos nossos conhecimentos e habilidades. Embora todo mundo saiba que as coisas são assim. “Eis que chega a roda viva, e carrega o destino pra lá.”

EM BUSCA DA TECNOLOGIA CIDADÃ


Se a conversa é sobre os pacotes de inovações, o começo deste mês teve bastante assunto. Além do “futuro do seu espelho” a partir de uma foto atual, e da greve anti-tecnológica no Chile, um “monstrinho” começa a experimentar mais uma tentativa de domesticação. Na última terça-feira começou o cadastramento dos números de telefones, cujos titulares, não querem receber chamadas de telemarketing.

A iniciativa veio cheia de espertezas. A proposta tem cara de raposa, porque é uma iniciativa de auto regulamentação das operadoras de telefonia. Tenta conter um ímpeto publicitário que representa nada mais, nada menos, do que um terço das chamadas telefônicas que trafegam nas linhas dessas operadoras.

No primeiro dia foram mais de 600 mil cadastros no site www.naomeperturbe.com.br . A primeira pergunta é qual das operadoras o cliente quer bloquear no seu telefone. Talvez isso diga respeito a alguma disputa entre as operadoras, uma vez que, entre os que reclamam, até agora ninguém citou alguma operadora mais chata do que outra. O que enche a paciência é atender o telefone para responder sobre algo que você nunca pediu a ninguém.

Outro detalhe é sobre o tempo de espera. Feito o cadastro, o habitante brasileiro desse planeta tão digitalizado, vai ter que esperar mais 30 dias pelo tão sonhado sossego. Só que não. Tem muita gente pensando que, ao se cadastrar, nunca mais receberá uma ligação de telemarketing. No próprio site, a resposta a essa expectativa diz que “esta solicitação de bloqueio diz respeito às chamadas provenientes de telemarketing das Prestadoras de Telecomunicações participantes desta iniciativa e que sejam relativas a ofertas de serviços de telecomunicações (Telefonia Fixa, Telefonia Móvel, TV por assinatura, Internet), que não tenham sido solicitadas pelo cliente. O usuário permanecerá recebendo os demais tipos de ligação, tais como contatos para aquisição de produtos e serviços que tenham sido solicitados pelos usuários, suporte técnico, cobrança e ligações informativas.”

Dá margem para interpretações. Agora é esperar para ver se vai prevalecer a velha esperteza de sempre, ou se vamos mesmo conseguir avançar como um mundo de tecnologia cidadã.

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