DESCENDENTES SIMPLES DO COMPLICADO BITCOIN




Um visionário, por definição, é alguém que não pisa exatamente no solo convencional. No popular, é cara que não tem os pés no chão, está fora do lugar comum. Foi dessa dimensão do espaço que surgiu o bitcoin, a primeira criptomoeda.

Quem inventou, pessoa ou grupo, sonhou em dar ao mundo uma moeda independente de todos os governos, livre e soberana por natureza. Teria fracassado de imediato se o microcosmo onde foi plantada não fosse povoado principalmente por loucos e maníacos, a saber, o tal mercado de capitais. Por isso, se você até agora não entendeu bem o que é um bitcoin ou outra criptomoeda, tenha certeza de que faz parte da grande maioria sã do planeta.

Acontece que toda criação disruptiva tem inteligência, garante pelo menos alguma coisa útil para o mundo normal. No caso das criptomoedas, a tecnologia blockchain é uma delas.

Uma moeda sem banco central precisaria de um sistema não-humano, absolutamente seguro, para contabilizar toda a movimentação e definir as regras de operação. Isso é o blockchain, um algoritmo que gera e organiza cadeias infinitas de blocos de registro das transações. Transações com bitcoins. Ou com qualquer outra criptomoeda inventada. Transações de logística, de insumos numa fábrica, do que quiser.

O uso de algoritmo blockchain é quase tudo o que tem de criptomoeda no Libra, a “criptomoeda” (entre aspas) lançada pelo Facebook. A boa notícia é que você vai usar o libra com facilidade, ele vai servir para um monte de coisas e será seguro – tudo que até agora o bitcoin não conseguiu. Vale a pena se informar sobre como obter e como usar.

O libra só começa a circular no ano que vem nos Estados Unidos, se tudo der certo. Depois deve seguir para outros países. Segundo o economista Gustavo Cunha, Consultor Financeiro registrado na CVM, as stablecoins representam um passo importante no rumo das profundas mudanças que o sistema financeiro internacional deve passar, por conta das criptomoedas. A perspectiva é de que, desse emaranhado de ativos, que estão nascendo da tecnologia blockchain, surja uma alternativa de moeda mais simples e eficiente para negociações em qualquer lugar do mundo. Uma nova moeda internacional.

FACEBOOK VAI MUDAR DE RAMO?

Tecnicamente o libra é uma stablecoin, uma “moeda estável”. Tenta ser uma versão do dólar em token (sequência de números que representa um bitcoin ou outras unidades de criptomoedas). As stablecoins têm um lastro de várias moedas fiduciárias comuns, como dólar ou euro e mais outros ativos. De forma que, se o usuário quiser sair do mundo cripto, ele pode trocar os tokens do stablecoin por algum tipo de valor que faz parte do lastro, por exemplo, reconverter em dólares.

Isso é muito diferente de um bitcoin, que é totalmente autônomo em termos de emissão da moeda, cotado só pelo que pagam no mercado. O bitcoin não tem também nenhum órgão regulador, não está associado a nenhuma comunidade produtora, como são as nações, que emitem suas próprias moedas. Tudo que pode acontecer com o bitcoin ou está no próprio algoritmo, ou vai ser definido pelo mercado, ainda assim sob as regras do algoritmo.

No caso do libra é tudo muito diferente. Tem algo muito parecido com um órgão regulador, a Fundação Libra, uma organização independente, sem fins lucrativos e até com sede em Genebra. Quem vai bancar é o grupo de empresas parceiras que estão se juntando ao Facebook nessa empreitada. Gigantes como Mastercard, Uber, Spotify, PayPal, Visa, Lyft, Vodafone, PayU, dentre outras. O Facebook vai criar ainda uma subsidiária, para separar os dados pessoais dos financeiros. Vai ser a Calibra, que estará sob regulação do setor financeiro. Vai ter uma carteira para estocar o libra, fazer pagamentos e transferências. Muito diferente do bitcoin.

Tudo isso traz uma sensação de que Zuckerberg está mudando de ramo. O libra vai concorrer mesmo com o chamado “dinheiro de plástico”, como operadoras de cartões – já engajadas como parceiras do libra – as “maquininhas” em geral. Deve se tornar uma espécie de “dot”, uma “moeda” paralela que circula em espaços específicos do mercado. Com o tempo, se as coisas andarem bem, esses parceiros podem avançar em outros mercados, outras nações.

O libra tem vocação para simplificar a vida da imensa população mundial que não tem conta em bancos. Quem melhor do que o Facebook para abrir esse caminho? Quem mais tem bilhões de pessoas, de quase todas as nações, frequentando seu espaço cibernético?

O RUMO DA HISTÓRIA PODE MUDAR

O uso de moedas lastreadas faz parte de um longo período da história da economia, cujo encerramento começou depois da Segunda Guerra. Hoje em dia, cada moeda se garante pela qualidade de governança e pelos outros detalhes que lhe dão credibilidade no mercado. Como o libra está nascendo agora, resolveram criar um lastro para dar mais segurança. Possivelmente para superar traumas que muitas pessoas já viveram por conta de criptomoedas.

Até os contratos futuros de commodities, por exemplo, são negociados apenas com base nos reflexos de determinados mercados. Por exemplo, um contrato futuro de café tem como referência o valor de 100 sacas (30 toneladas) de café num determinado padrão mínimo. No entanto, em bolsas como a B3, não existe liquidação física do contrato. Ou seja, na data de vencimento, ninguém vai até a bolsa entregar um caminhão de café. A liquidação é financeira, paga-se valores em dinheiro. O “lastro” é a governança e a credibilidade da instituição.

Na medida em que os tokens avancem, tanto criptomoedas, tipo bitcoins como outras versões baseadas em blockchain, caso das stablecoins, tipo libra, o que pode acontecer? Alguns analistas acreditam que a credibilidade desse sistema torne desnecessário o lastreio e a governança humana. Aí sim, as criptomoedas totalmente geridas por algoritmos, podem ocupar um espaço fundamental no sistema de trocas.

Se isso vai ser bom ou ruim, até agora ninguém sabe. Quem desconfia que vai ser prejudicado com isso, trata de prever a derrocada das criptos. Do outro lado, quem vê vantagens, simplesmente exalta.

O que vale considerar é o movimento que vem sendo observado no setor financeiro, em direção às soluções cibernéticas. As bolsas não operam mais com pits e pregoeiros, mas sim pela Internet. As fintecs estão aproximando poupadores e investidores com muito mais eficiência, custos reduzidos. E agora, as soluções de moedas atreladas à tecnologia blockchain. Por todas as vantagens que esses sistemas apresentam, a mudança parece inexorável. A menos que algo dê muito errado nessas experiências, o mundo vai insistir no caminho cibernético do dinheiro até conseguir.

Uma curiosidade para o momento é que os irmãos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, os mesmos que Zuckerberg passou para trás na criação do Facebook, há anos entraram no mercado de criptomoedas. É a atividade principal deles. E, novamente, vão ter a sombra de Zuckerberg num empreendimento.

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