A HOLÍSTICA DA TECNOLOGIA E NOVOS NEGÓCIOS




Tecnologia: taí uma coisa que não se joga fora. Soluções que explodiram no mercado em determinado momento, de repente minguam, da noite para o dia. 
Acontece que muitas vezes ressurgem pouco depois, combinadas com outras tecnologias, ou integradas em novos modelos de negócio. As TICs – Tecnologia da Informação e Comunicação, são observatório privilegiado dessa realidade. É a mais popular tecnologia de consumo e a de maior poder de encantamento.

O sobe e desce de tecnologias de consumo já é observável em períodos curtos, alguns meses. Muito diferente do que se viu até as últimas décadas do século passado. Por exemplo, nos aparelhos telefônicos, televisores e até automóveis, mudava mais o layout, a “casca”. Na essência, era quase a mesma coisa.

Essa dinâmica de reviravoltas mensais fez surgir o próprio conceito de “tecnologia de consumo”. Troca-se um celular em ótimo estado, pelo prazer de ter um novo. Os televisores tiveram a virada full HD, veio depois a onda 3D, que pouco avançou. Porém, os smart estão fazendo todos trocarem as “velharias” da primeira geração digital. Muitos saltam direto para o 4K. Por sua vez, a definição ultra HD elevou o tamanho “básico” de tela para 55 polegadas.

Vejamos em que direção apontam os sinais dos últimos meses para algumas tecnologias importantes, com base em informações divulgadas pelo site Teletime. Por exemplo, a telefonia fixa, só no último mês de maio, perdeu mais de meio milhão de assinantes. Nos cinco primeiros meses deste ano foram desativadas quase 1,7 milhão de linhas, contra 2 milhões durante todo o ano de 2018. Parece o fim, não é!? Mas o grosso dessas desistências está entre as concessionárias, como Vivo e Oi. Há quase trinta anos elas pagaram bilhões para administrarem essas linhas, assumiram obrigações. Agora o principal negócio está na tecnologia móvel. A enorme rede de cabos que têm à disposição, elas possivelmente vão direcionar para dados, não mais de voz.

A telefonia fixa, em proporções bem menores, vai migrando para empresas ditas “autorizadas”, principalmente as pequenas. Elas não têm todas as obrigações das concessionárias, nem usam cabos. A Tim, por exemplo, somou mais de 21 mil clientes de telefonia fixa em maio. No mesmo segmento e período a Algar, pequena operadora, fechou 10,4 mil contratos.


PEQUENAS EMPRESAS, GRANDES TECNOLOGIAS


Não é só na telefonia fixa onde os pequenos estão crescendo. Os provedores regionais de banda larga, conhecidos como ISPs, mostram os pequenos ameaçando os grandes.

Ainda com dados do último mês de maio, o conjunto de pequenos provedores brasileiros somou 7,236 milhões de assinantes, muito próximos dos 7,425 milhões da Vivo, então a segunda maior do mercado. Com as taxas de adições observadas mês a mês, os ISPs já devem ter ultrapassado a Vivo em junho. Os dados do período devem ser divulgados nas próximas semanas.

O segredo do crescimento deve estar na qualidade dos serviços. A TV a cabo no Brasil chegou com a banda larga fixa, sufocando os pequenos provedores de então. Mais tarde os smartphones deslancharam o tráfego de dados móvel. A banda larga fixa, durante algum tempo, tornou-se quase que um acessório.

Um belo dia o Netflix começou uma mudança profunda. Caiu no gosto do consumidor, que não tinha banda suficiente para baixar tudo o que queria. Os televisores smart viraram gênero de primeira necessidade, enquanto as operadoras de TV a cabo boicotavam o tráfego do Netflix. Olha aí o espaço para a volta dos pequenos provedores!

O maior provedor de banda larga do Brasil é o grupo América Móvil, controlador das empresas Claro, Embratel e Net. Não vai ser fácil perder essa liderança, mas os ISPs parecem muito focados em seus negócios. No último mês de maio, quando houve o maior salto da fibra óptica para banda larga, os pequenos levaram essa tecnologia para 430 mil clientes, de um total de quase 600 mil no mês. São mais de 70% da adição da melhor tecnologia (fibra).

Por enquanto, aqui no Brasil, o que se vê é uma queda expressiva no número de assinantes de TV paga. Também com base em maio/2019, caiu abaixo de 17 milhões de assinantes, inferior ao patamar de 2013. Num país onde esse serviço não tem tanta tradição, o longo período de quedas mensais acende um sinal de alerta. Em outros países, onde a TV paga é hábito antigo, o número de assinantes de TV também vem diminuindo. Difícil imaginar o que está por vir.


O QUE FALTA PARA PRODUZIR NOSSA TECNOLOGIA?


O encolhimento do mercado de TV paga no Brasil tem exemplos marcantes. No mês passado a Echostar, que pretendia operar TV por assinatura em DTH (pequena parabólica, tipo Sky), rescindiu a outorga de operação de satélite junto à Anatel, em comum acordo com a agência.

A outorga foi conquistada em 2011, por US$ 90 milhões, num leilão memorável, em que se viu uma disputa acirrada com a Sky. No ano seguinte a Echostar saiu em busca de um parceiro local mas não conseguiu acordo com a Oi e nem com a Telefonica. Quase fechou com a GVT. O plano era trazer a operadora Dish, do mesmo grupo, para o Brasil. Em 2017, para atender exigências do edital, a Echostar lançou um satélite para ocupar a posição orbital da outorga. Somando mais o custo do satélite, do lançamento e ainda o seguro, o investimento deve ter chegado a meio bilhão de dólares.

Com o movimento de queda das operadoras de TV no Brasil, a solução foi buscar um acordo para cancelar a outorga. Pra não dizer que o prejuízo foi total, o satélite ainda pode ser remanejado para outra posição.

Por outro lado a HughesNet, do mesmo grupo, está crescendo aqui com a operação de satélites para banda larga. Há 3 anos no mercado nacional, já alcança mais de 150 mil clientes, em 5 mil cidades brasileiras. O foco está no atendimento de clientes distantes dos grandes centros, principalmente na área agrícola. A empresa planeja lançar mais um satélite para atender também clientes brasileiros e anunciou a formação de uma joint-venture com a Yahsat, pensando nos negócios por aqui.

Essa concorrência está elevando o padrão de qualidade dos serviço de banda larga no Brasil. A maior base de assinantes no momento é a dos conectados acima de 34 Mbps. De acordo com a metodologia da Anatel, essa velocidade é considerada ultra banda larga.

Como mercado, já provamos a nossa importância. É a principal condição para sustentar o crescimento enquanto produtor de tecnologia. Nesse sentido, o governo federal deve estar pensando em uma nova política de apoio. Afinal, está pondo abaixo algumas políticas tradicionais.

No final do mês passado, o Ministro Paulo Guedes editou a portaria 309, que tende a zerar tarifas de importação para bens da Tecnologia de Informação e Comunicação. Na semana passada a Abinee, entidade que representa os fabricantes nacionais, disse que as empresas foram pegas de surpresa pela novidade e querem a revogação da norma. Com a palavra o Ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia, Inovação e Telecomunicações.

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