sexta-feira, 26 de julho de 2019

MÁQUINAS, APLICATIVOS E O ALGORITMO DO PODER





Território é, historicamente, uma forte referência de poder. Tem a ver com a própria espécie humana. Mais do que isso, tem a ver com a lógica da natureza, desde os animais que demarcam seus limites até as espécies vegetais, que concorrem para prevalecer no espaço físico.

A única coisa que se atreveu a subverter essa regra foi a Internet. Com um discurso cosmopolita, adornado pelo ideal das liberdades individuais, ela carregou tentações até onde nunca outra mídia tivera chegado. “É o futuro”, disseram os intelectuais, os artistas e os políticos tidos como democratas, também os liberais. E assim ela foi se instalando, sem bandeiras ou governos, nos mais longínquos territórios. Para o bem e para o mal.

O fato é que, no inconsciente coletivo, a Internet tem um “dono”. Não porque Donald Trump, ao assumir o governo americano, tenha tomado medidas autocráticas contra os novos modelos de governança da rede. Nem porque a NSA bisbilhotou a vida pensante do planeta. E sim porque, mais do que qualquer outra nação, os Estados Unidos lançaram mão de todos seus conhecimentos para investir na Internet. Desde o desenvolvimento de hardware, de software, até os detalhes ergonômicos, fisiológicos, físicos, passando pelas técnicas de gestão, marketing e muito mais.

O Pentium não poderia ter surgido na América do Sul ou na África. Mas poderia ser desenhado na Europa ou no Japão, onde há capital suficiente e tradição em pesquisa. Por que ninguém inventou antes o smartphone ou o notebook? Já os grandes softwares, como Google, e principalmente Facebook, poderiam ser brasileiros. Nem que fossem vendidos mais tarde. Mas, todos eles, nasceram em laboratórios americanos, quando não em garagens.

Sabe o que mais!? Tá tudo bem, logo esses gadgets chegam em todo lugar, baratinhos, então ninguém se mexe, deixa rolar. Ou não se mexia, até que a China decidiu protagonizar, concorrer, enfrentar. No 5G já chegou na frente. E já está sentindo a mão pesada que defende a primazia americana. Ainda bem que, até agora, nenhuma falta pra cartão. O jogo ficou mais pegado e, mesmo num clima tenso, a bola continua rolando.

RECONQUISTANDO TERRITÓRIOS


Tem algumas tramas que a história insiste em repetir. Aquela da mão muito apertada, por exemplo: o conteúdo sempre escapa entre os dedos.

Obama sentiu o desgaste da imagem do país por causa do escândalo da NSA. Habilmente, apresentou como prova de boa vontade a agenda para se chegar a uma governança igualmente compartilhada sobre a Internet. Veio Trump e inverteu, insistiu no estilo cowboy, fechou mais a mão para manter o domínio. O resultado é que a Internet está sentindo a pressão dos movimentos “separatistas”, que já tinham começado oficialmente em 2010. Foi quando uma delegação de países esteve nas Nações Unidas pedindo que se estabelecessem fronteiras na Internet, a exemplo do que acontece com sistemas de telefonia. 

Tem sempre um componente cômico nesses scripts. Por exemplo, o sofisma da liberdade de expressão e do livre mercado, debatendo com o paralogismo da soberania e da autonomia das nações. Rússia e China estão construindo suas próprias “internets”, em princípio, sem conexões com a rede tradicional. Alegam que os governos estariam “perdendo a mão” para os algoritmos e que costumes e tradições dos povos precisam ser preservados. Para quem bem conhece czares e mandarins sabe que a preocupação é cerrar ao máximo ouvidos, olhos e bocas de seus próprios concidadãos. E claro, uma reserva de mercado, de imediato, traz dinheiro, além do maior controle.

Tecnicamente a separação nem é tão difícil. Normalmente os cabos e terminais, por onde trafega o sinal de Internet, traçam poucos pontos de conexão de cada país com a rede externa. Basta o governo determinar e o sinal não passa mais por ali, o país fica quase contra a tradicional Internet, como ela é.

Daí aquele povo, que estaria sendo acossado pelas influências prejudiciais de uma rede sem dono, passa a ser acuado por outra rede, cujo “dono” tem plenos poderes, pelas instituições ou intuições, para controlar a vida das pessoas. São os tais governos fortes, cuja liderança se torna dispensável, por conta da firme autoridade.

O risco desse tipo de situação está principalmente na drástica redução de conteúdos científicos, jornalísticos, culturais e de entretenimento, esvaziando em muito, para aquele povo, a visão de mundo e de sociedade. As ferramentas colaborativas, que agregam tantas vantagens à Internet, são colocadas sob suspeita e afastadas daquelas populações. A rede vai ficando sem graça e o público vai deixando de lado o planeta virtual, que passa a ser um território enfadonho e cansativo.

TRIBUTOS REAIS SOBRE OS NEGÓCIOS VIRTUAIS


Em outros países, onde a lógica capitalista já está bem disseminada, a estratégia em relação à Internet está dominada pela visão de mercado, de empreendimento. E sendo assim, na base do “pagando bem, que mal tem?”, os países tendem a criar tributações sobre os principais canais do dinheiro que irriga os negócios conectados. A França está dando o primeiro passo nesse sentido e outros países próximos já estão convencidos de seus direitos sobre os lucros gerados virtualmente a partir de seus consumidores.

Neste mês o senado francês aprovou o novo imposto, que o presidente Emanuel Macron não conseguiu levar para todo o bloco europeu. Mas, parece uma questão de tempo. A nova lei francesa prevê que, uma vez aprovada uma tributação do gênero para toda a União Europeia, o tributo exclusivo deixará de ser recolhido, evitando o que seria uma redundância tributária. Enquanto isso, Reino Unido, Itália, Espanha, dentre outros países do bloco, estariam estudando seus impostos similares.

A estratégia das grandes empresas da Internet tem sido a instalação de suas sedes em países que cobram impostos mais baixos, como a Irlanda. É de lá que elas faturam muito sobre as nações mais ricas da Europa, principalmente em propaganda e venda de dados de usuários. Autoridades da Comissão Europeia estimam que, dessa forma, as grandes empresas da Internet paguem cerca de 8% a 9% do que faturam por lá, enquanto as demais recolhem cerca de 23%.

O novo imposto francês tem um perfil definido para tributar. Estão sujeitas a ele empresas que faturam acima de 750 milhões de euros pelo mundo, sendo que pelo menos 25 milhões de euros venham da França. O critério inédito faz incidir uma alíquota de 3%, principalmente sobre as grandes americanas, o que valeu o apelido de GAFA ao tributo: um acrônimo de Google, Amazon, Facebook e Apple.

Aos olhos de Robert Lighthizer, representante americano do Comércio na União Europeia, o novo imposto apresenta um direcionamento sobre as grandes empresas americanas de tecnologia, por isso pode ser alvo de retaliações. A França reage alegando soberania sobre suas questões fiscais e sugere mais diálogo no lugar das ameaças.

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sexta-feira, 19 de julho de 2019

O NOVO E O VELHO NAS CILADAS DO FUTURO




Produto, tratamento ou até simpatia, se for para rejuvenescer, todo mundo quer, e paga-se bem. Nunca deu certo. Mas não é que agora a febre é um app para envelhecer? Ah, tá, na fotografia, tudo bem.

O FaceApp é o sucessor de um brinquedo que fez um “vôo de galinha” em 2017. Foi a versão inicial que a mesma empresa russa, Wirelles Lab, de São Petesburgo, lançou. Houve problemas de funcionalidade, mas agora parece que voltou com força.

Surpreendente esse tipo de curiosidade em relação ao futuro. Vamos em busca do que o espelho nos reserva para daqui anos e anos, o envelhecimento. O app, na versão gratuita, ma non troppo, tem 21 filtros que podem ser aplicados sobre a imagem, finalizando algo muito realista. O que se vê é a foto de um idoso (ou idosa), que ainda não existe. Não fica com jeito de desenho ou de jogador de futebol de videogame, parece uma foto verdadeira.

A velhice, que muita gente tenta esconder até quando tá na cara – “-não pergunte a minha idade!” – chega antecipada por redes neurais, tipos de algoritmos de inteligência artificial. Talvez o app se torne tão atraente por colocar, nas mãos dos “envelhecedores”, o total controle da presumível velhice. Você branqueia os cabelos quanto quiser, a calvície não se altera, o aumento ou redução de peso, típicos do avanço da idade, não são incluídos nas alterações. Olha lá que graça de velhinha!

O que o app tem de velho mesmo, de verdade, é a esperteza em tomar seus dados. Quer dizer, não é muito gratuito, só mais ou menos. Na política de privacidade apresentada aos interessados consta que “ao usar nosso serviço, nossos servidores automaticamente gravam certas informações do arquivo de registro, incluindo solicitações da web, endereço de IP, tipo de browser, páginas de referência/saída e URL, número de cliques e como você interage com os links no serviço, nome de domínios, páginas iniciais, páginas visualizadas e outras informações”. Então, né...

O FUTURO DO PASSADO E O FUTURO DO PRESENTE


O futuro é essa ficção, de um tempo que nunca chega. Tudo bem que um dia a casa fica pronta, o carro novo chega, até o corpo fica saradão. Muitas vezes são bem parecidos, mas nunca exatamente iguais àqueles futuros, de um breve passado. Na verdade o que chega é sempre o presente. Enquanto ele não vem, cada um usa o futuro como quiser. Pode ser para projetar fantasias pessoais, um dos casos da vertente otimista. Ou para traçar criteriosos cenários, sobre os quais são construídos planos, estratégias, alternativas. Nesse caso o pessimismo é a regra.

É o que estão fazendo agora os trabalhadores chilenos da rede Walmart. De acordo com o site Computerworld, 17 mil empregados da rede no Chile resolveram entrar em greve, por tempo indeterminado. Eles reivindicam uma compensação salarial pelo aumento da automação nas lojas. O sindicato afirma que as “colegas-máquinas” estão fazendo com que eles realizem múltiplas tarefas diariamente. Com a greve,124 das 375 lojas do país, estariam fechadas nesta semana. Os empregados devem ter previsto uma grande onda de demissões.

Difícil acreditar que o pessimismo da estratégia de automação do Walmart, no Chile, tenha chegado a tanto. Reações desse tipo, por parte das vítimas da tecnologia, parecem incomuns nesses nossos dias. Mas o presente está aí, confirmando que as empresas querem mesmo inventar maneiras de reduzir custos. Choques entre futuro e passado são situações muito mais presentes, na medida em que as mudanças acontecem muito mais rapidamente.

Mesmo diante desse cenário a “transformação digital” continua muito em voga. Tem que achar um jeito de decompor cada tarefa, cada produto, nas elementares peças de um lego zero-um. Tudo que entra nesse universo ganha escala infinita e pode estar ao mesmo tempo em todos os lugares. E assim está sendo. O entretenimento, o trabalho braçal e até algumas atividades ditas intelectuais, estão “bitadas”. Nas fábricas, no comércio, nos bancos, nos serviços públicos.

De alguma forma, pelo menos desde a Era Moderna, o mundo vem perseguindo exatamente esse objetivo. Não vai ser agora, que estamos vivendo bem diferentemente daquele passado – embora diferente também daquele antigo futuro – que vamos retroceder o presente. Os pacotes de inovações chegam fechados, trazendo coisas com as quais sonhamos, mas também alguns pesadelos. O que falta é inventar algo que permita uma adaptação menos traumática. A gente não consegue perder o medo de certas assombrações, como o desemprego, a queda brusca do padrão de vida, a declaração de obsolescência dos nossos conhecimentos e habilidades. Embora todo mundo saiba que as coisas são assim. “Eis que chega a roda viva, e carrega o destino pra lá.”

EM BUSCA DA TECNOLOGIA CIDADÃ


Se a conversa é sobre os pacotes de inovações, o começo deste mês teve bastante assunto. Além do “futuro do seu espelho” a partir de uma foto atual, e da greve anti-tecnológica no Chile, um “monstrinho” começa a experimentar mais uma tentativa de domesticação. Na última terça-feira começou o cadastramento dos números de telefones, cujos titulares, não querem receber chamadas de telemarketing.

A iniciativa veio cheia de espertezas. A proposta tem cara de raposa, porque é uma iniciativa de auto regulamentação das operadoras de telefonia. Tenta conter um ímpeto publicitário que representa nada mais, nada menos, do que um terço das chamadas telefônicas que trafegam nas linhas dessas operadoras.

No primeiro dia foram mais de 600 mil cadastros no site www.naomeperturbe.com.br . A primeira pergunta é qual das operadoras o cliente quer bloquear no seu telefone. Talvez isso diga respeito a alguma disputa entre as operadoras, uma vez que, entre os que reclamam, até agora ninguém citou alguma operadora mais chata do que outra. O que enche a paciência é atender o telefone para responder sobre algo que você nunca pediu a ninguém.

Outro detalhe é sobre o tempo de espera. Feito o cadastro, o habitante brasileiro desse planeta tão digitalizado, vai ter que esperar mais 30 dias pelo tão sonhado sossego. Só que não. Tem muita gente pensando que, ao se cadastrar, nunca mais receberá uma ligação de telemarketing. No próprio site, a resposta a essa expectativa diz que “esta solicitação de bloqueio diz respeito às chamadas provenientes de telemarketing das Prestadoras de Telecomunicações participantes desta iniciativa e que sejam relativas a ofertas de serviços de telecomunicações (Telefonia Fixa, Telefonia Móvel, TV por assinatura, Internet), que não tenham sido solicitadas pelo cliente. O usuário permanecerá recebendo os demais tipos de ligação, tais como contatos para aquisição de produtos e serviços que tenham sido solicitados pelos usuários, suporte técnico, cobrança e ligações informativas.”

Dá margem para interpretações. Agora é esperar para ver se vai prevalecer a velha esperteza de sempre, ou se vamos mesmo conseguir avançar como um mundo de tecnologia cidadã.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

A HOLÍSTICA DA TECNOLOGIA E NOVOS NEGÓCIOS




Tecnologia: taí uma coisa que não se joga fora. Soluções que explodiram no mercado em determinado momento, de repente minguam, da noite para o dia. 
Acontece que muitas vezes ressurgem pouco depois, combinadas com outras tecnologias, ou integradas em novos modelos de negócio. As TICs – Tecnologia da Informação e Comunicação, são observatório privilegiado dessa realidade. É a mais popular tecnologia de consumo e a de maior poder de encantamento.

O sobe e desce de tecnologias de consumo já é observável em períodos curtos, alguns meses. Muito diferente do que se viu até as últimas décadas do século passado. Por exemplo, nos aparelhos telefônicos, televisores e até automóveis, mudava mais o layout, a “casca”. Na essência, era quase a mesma coisa.

Essa dinâmica de reviravoltas mensais fez surgir o próprio conceito de “tecnologia de consumo”. Troca-se um celular em ótimo estado, pelo prazer de ter um novo. Os televisores tiveram a virada full HD, veio depois a onda 3D, que pouco avançou. Porém, os smart estão fazendo todos trocarem as “velharias” da primeira geração digital. Muitos saltam direto para o 4K. Por sua vez, a definição ultra HD elevou o tamanho “básico” de tela para 55 polegadas.

Vejamos em que direção apontam os sinais dos últimos meses para algumas tecnologias importantes, com base em informações divulgadas pelo site Teletime. Por exemplo, a telefonia fixa, só no último mês de maio, perdeu mais de meio milhão de assinantes. Nos cinco primeiros meses deste ano foram desativadas quase 1,7 milhão de linhas, contra 2 milhões durante todo o ano de 2018. Parece o fim, não é!? Mas o grosso dessas desistências está entre as concessionárias, como Vivo e Oi. Há quase trinta anos elas pagaram bilhões para administrarem essas linhas, assumiram obrigações. Agora o principal negócio está na tecnologia móvel. A enorme rede de cabos que têm à disposição, elas possivelmente vão direcionar para dados, não mais de voz.

A telefonia fixa, em proporções bem menores, vai migrando para empresas ditas “autorizadas”, principalmente as pequenas. Elas não têm todas as obrigações das concessionárias, nem usam cabos. A Tim, por exemplo, somou mais de 21 mil clientes de telefonia fixa em maio. No mesmo segmento e período a Algar, pequena operadora, fechou 10,4 mil contratos.


PEQUENAS EMPRESAS, GRANDES TECNOLOGIAS


Não é só na telefonia fixa onde os pequenos estão crescendo. Os provedores regionais de banda larga, conhecidos como ISPs, mostram os pequenos ameaçando os grandes.

Ainda com dados do último mês de maio, o conjunto de pequenos provedores brasileiros somou 7,236 milhões de assinantes, muito próximos dos 7,425 milhões da Vivo, então a segunda maior do mercado. Com as taxas de adições observadas mês a mês, os ISPs já devem ter ultrapassado a Vivo em junho. Os dados do período devem ser divulgados nas próximas semanas.

O segredo do crescimento deve estar na qualidade dos serviços. A TV a cabo no Brasil chegou com a banda larga fixa, sufocando os pequenos provedores de então. Mais tarde os smartphones deslancharam o tráfego de dados móvel. A banda larga fixa, durante algum tempo, tornou-se quase que um acessório.

Um belo dia o Netflix começou uma mudança profunda. Caiu no gosto do consumidor, que não tinha banda suficiente para baixar tudo o que queria. Os televisores smart viraram gênero de primeira necessidade, enquanto as operadoras de TV a cabo boicotavam o tráfego do Netflix. Olha aí o espaço para a volta dos pequenos provedores!

O maior provedor de banda larga do Brasil é o grupo América Móvil, controlador das empresas Claro, Embratel e Net. Não vai ser fácil perder essa liderança, mas os ISPs parecem muito focados em seus negócios. No último mês de maio, quando houve o maior salto da fibra óptica para banda larga, os pequenos levaram essa tecnologia para 430 mil clientes, de um total de quase 600 mil no mês. São mais de 70% da adição da melhor tecnologia (fibra).

Por enquanto, aqui no Brasil, o que se vê é uma queda expressiva no número de assinantes de TV paga. Também com base em maio/2019, caiu abaixo de 17 milhões de assinantes, inferior ao patamar de 2013. Num país onde esse serviço não tem tanta tradição, o longo período de quedas mensais acende um sinal de alerta. Em outros países, onde a TV paga é hábito antigo, o número de assinantes de TV também vem diminuindo. Difícil imaginar o que está por vir.


O QUE FALTA PARA PRODUZIR NOSSA TECNOLOGIA?


O encolhimento do mercado de TV paga no Brasil tem exemplos marcantes. No mês passado a Echostar, que pretendia operar TV por assinatura em DTH (pequena parabólica, tipo Sky), rescindiu a outorga de operação de satélite junto à Anatel, em comum acordo com a agência.

A outorga foi conquistada em 2011, por US$ 90 milhões, num leilão memorável, em que se viu uma disputa acirrada com a Sky. No ano seguinte a Echostar saiu em busca de um parceiro local mas não conseguiu acordo com a Oi e nem com a Telefonica. Quase fechou com a GVT. O plano era trazer a operadora Dish, do mesmo grupo, para o Brasil. Em 2017, para atender exigências do edital, a Echostar lançou um satélite para ocupar a posição orbital da outorga. Somando mais o custo do satélite, do lançamento e ainda o seguro, o investimento deve ter chegado a meio bilhão de dólares.

Com o movimento de queda das operadoras de TV no Brasil, a solução foi buscar um acordo para cancelar a outorga. Pra não dizer que o prejuízo foi total, o satélite ainda pode ser remanejado para outra posição.

Por outro lado a HughesNet, do mesmo grupo, está crescendo aqui com a operação de satélites para banda larga. Há 3 anos no mercado nacional, já alcança mais de 150 mil clientes, em 5 mil cidades brasileiras. O foco está no atendimento de clientes distantes dos grandes centros, principalmente na área agrícola. A empresa planeja lançar mais um satélite para atender também clientes brasileiros e anunciou a formação de uma joint-venture com a Yahsat, pensando nos negócios por aqui.

Essa concorrência está elevando o padrão de qualidade dos serviço de banda larga no Brasil. A maior base de assinantes no momento é a dos conectados acima de 34 Mbps. De acordo com a metodologia da Anatel, essa velocidade é considerada ultra banda larga.

Como mercado, já provamos a nossa importância. É a principal condição para sustentar o crescimento enquanto produtor de tecnologia. Nesse sentido, o governo federal deve estar pensando em uma nova política de apoio. Afinal, está pondo abaixo algumas políticas tradicionais.

No final do mês passado, o Ministro Paulo Guedes editou a portaria 309, que tende a zerar tarifas de importação para bens da Tecnologia de Informação e Comunicação. Na semana passada a Abinee, entidade que representa os fabricantes nacionais, disse que as empresas foram pegas de surpresa pela novidade e querem a revogação da norma. Com a palavra o Ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia, Inovação e Telecomunicações.

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sexta-feira, 5 de julho de 2019

DESCENDENTES SIMPLES DO COMPLICADO BITCOIN




Um visionário, por definição, é alguém que não pisa exatamente no solo convencional. No popular, é cara que não tem os pés no chão, está fora do lugar comum. Foi dessa dimensão do espaço que surgiu o bitcoin, a primeira criptomoeda.

Quem inventou, pessoa ou grupo, sonhou em dar ao mundo uma moeda independente de todos os governos, livre e soberana por natureza. Teria fracassado de imediato se o microcosmo onde foi plantada não fosse povoado principalmente por loucos e maníacos, a saber, o tal mercado de capitais. Por isso, se você até agora não entendeu bem o que é um bitcoin ou outra criptomoeda, tenha certeza de que faz parte da grande maioria sã do planeta.

Acontece que toda criação disruptiva tem inteligência, garante pelo menos alguma coisa útil para o mundo normal. No caso das criptomoedas, a tecnologia blockchain é uma delas.

Uma moeda sem banco central precisaria de um sistema não-humano, absolutamente seguro, para contabilizar toda a movimentação e definir as regras de operação. Isso é o blockchain, um algoritmo que gera e organiza cadeias infinitas de blocos de registro das transações. Transações com bitcoins. Ou com qualquer outra criptomoeda inventada. Transações de logística, de insumos numa fábrica, do que quiser.

O uso de algoritmo blockchain é quase tudo o que tem de criptomoeda no Libra, a “criptomoeda” (entre aspas) lançada pelo Facebook. A boa notícia é que você vai usar o libra com facilidade, ele vai servir para um monte de coisas e será seguro – tudo que até agora o bitcoin não conseguiu. Vale a pena se informar sobre como obter e como usar.

O libra só começa a circular no ano que vem nos Estados Unidos, se tudo der certo. Depois deve seguir para outros países. Segundo o economista Gustavo Cunha, Consultor Financeiro registrado na CVM, as stablecoins representam um passo importante no rumo das profundas mudanças que o sistema financeiro internacional deve passar, por conta das criptomoedas. A perspectiva é de que, desse emaranhado de ativos, que estão nascendo da tecnologia blockchain, surja uma alternativa de moeda mais simples e eficiente para negociações em qualquer lugar do mundo. Uma nova moeda internacional.

FACEBOOK VAI MUDAR DE RAMO?

Tecnicamente o libra é uma stablecoin, uma “moeda estável”. Tenta ser uma versão do dólar em token (sequência de números que representa um bitcoin ou outras unidades de criptomoedas). As stablecoins têm um lastro de várias moedas fiduciárias comuns, como dólar ou euro e mais outros ativos. De forma que, se o usuário quiser sair do mundo cripto, ele pode trocar os tokens do stablecoin por algum tipo de valor que faz parte do lastro, por exemplo, reconverter em dólares.

Isso é muito diferente de um bitcoin, que é totalmente autônomo em termos de emissão da moeda, cotado só pelo que pagam no mercado. O bitcoin não tem também nenhum órgão regulador, não está associado a nenhuma comunidade produtora, como são as nações, que emitem suas próprias moedas. Tudo que pode acontecer com o bitcoin ou está no próprio algoritmo, ou vai ser definido pelo mercado, ainda assim sob as regras do algoritmo.

No caso do libra é tudo muito diferente. Tem algo muito parecido com um órgão regulador, a Fundação Libra, uma organização independente, sem fins lucrativos e até com sede em Genebra. Quem vai bancar é o grupo de empresas parceiras que estão se juntando ao Facebook nessa empreitada. Gigantes como Mastercard, Uber, Spotify, PayPal, Visa, Lyft, Vodafone, PayU, dentre outras. O Facebook vai criar ainda uma subsidiária, para separar os dados pessoais dos financeiros. Vai ser a Calibra, que estará sob regulação do setor financeiro. Vai ter uma carteira para estocar o libra, fazer pagamentos e transferências. Muito diferente do bitcoin.

Tudo isso traz uma sensação de que Zuckerberg está mudando de ramo. O libra vai concorrer mesmo com o chamado “dinheiro de plástico”, como operadoras de cartões – já engajadas como parceiras do libra – as “maquininhas” em geral. Deve se tornar uma espécie de “dot”, uma “moeda” paralela que circula em espaços específicos do mercado. Com o tempo, se as coisas andarem bem, esses parceiros podem avançar em outros mercados, outras nações.

O libra tem vocação para simplificar a vida da imensa população mundial que não tem conta em bancos. Quem melhor do que o Facebook para abrir esse caminho? Quem mais tem bilhões de pessoas, de quase todas as nações, frequentando seu espaço cibernético?

O RUMO DA HISTÓRIA PODE MUDAR

O uso de moedas lastreadas faz parte de um longo período da história da economia, cujo encerramento começou depois da Segunda Guerra. Hoje em dia, cada moeda se garante pela qualidade de governança e pelos outros detalhes que lhe dão credibilidade no mercado. Como o libra está nascendo agora, resolveram criar um lastro para dar mais segurança. Possivelmente para superar traumas que muitas pessoas já viveram por conta de criptomoedas.

Até os contratos futuros de commodities, por exemplo, são negociados apenas com base nos reflexos de determinados mercados. Por exemplo, um contrato futuro de café tem como referência o valor de 100 sacas (30 toneladas) de café num determinado padrão mínimo. No entanto, em bolsas como a B3, não existe liquidação física do contrato. Ou seja, na data de vencimento, ninguém vai até a bolsa entregar um caminhão de café. A liquidação é financeira, paga-se valores em dinheiro. O “lastro” é a governança e a credibilidade da instituição.

Na medida em que os tokens avancem, tanto criptomoedas, tipo bitcoins como outras versões baseadas em blockchain, caso das stablecoins, tipo libra, o que pode acontecer? Alguns analistas acreditam que a credibilidade desse sistema torne desnecessário o lastreio e a governança humana. Aí sim, as criptomoedas totalmente geridas por algoritmos, podem ocupar um espaço fundamental no sistema de trocas.

Se isso vai ser bom ou ruim, até agora ninguém sabe. Quem desconfia que vai ser prejudicado com isso, trata de prever a derrocada das criptos. Do outro lado, quem vê vantagens, simplesmente exalta.

O que vale considerar é o movimento que vem sendo observado no setor financeiro, em direção às soluções cibernéticas. As bolsas não operam mais com pits e pregoeiros, mas sim pela Internet. As fintecs estão aproximando poupadores e investidores com muito mais eficiência, custos reduzidos. E agora, as soluções de moedas atreladas à tecnologia blockchain. Por todas as vantagens que esses sistemas apresentam, a mudança parece inexorável. A menos que algo dê muito errado nessas experiências, o mundo vai insistir no caminho cibernético do dinheiro até conseguir.

Uma curiosidade para o momento é que os irmãos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, os mesmos que Zuckerberg passou para trás na criação do Facebook, há anos entraram no mercado de criptomoedas. É a atividade principal deles. E, novamente, vão ter a sombra de Zuckerberg num empreendimento.