O GIGANTE DOBROU AS PERNAS




O nome oficial do ato é “declaração de emergência nacional”, mas não deve ser só assim que passará para a história. A decisão do Governo Trump, anunciada nesta semana, é uma constrangedora declaração de que a toda poderosa indústria de tecnologia dos Estados Unidos está assustada.

A ameaça se chama IT chinesa e vem se somar à outros monstros tecnológicos que, há algum tempo, chegam do Oriente para assombrar o capital americano. A alarmante diferença é que, dessa vez, trata-se da principal ponte entre o passado e o futuro. O 5G chinês, da gigante Huawei, é mais eficiente e barato do que os concorrentes, americanos ou identificados com o Tio Sam.

Os Estados Unidos já deram por perdida a concorrência com os japoneses na indústria automotiva ciclo Otto. Fica o suspense sobre como será quando vierem os carros do futuro. As telas de televisores, tablets, celulares, estão no domínio da Coréia do Sul. Os chineses já colocam sua marca em quase toda a tecnologia de consumo, mas nesses casos, estão associados ao capital americano. Ocupam o lugar que lhes foi determinado pela estratégia americana.

Com o 5G é diferente. A “conexão imediata” tende a se tornar as veias que irrigam a vida empresarial do planeta. Esteja onde for o coração deste mundo, vai depender do 5G para chegar às “células produtivas” em nível global, as funções vitais do poder. O medo é como pode se espalhar o genoma high tech amarelo a partir dessas conexões e determinadas compatibilidades.

Parece que ao estilo Trump, no grito, pode ficar pior. As dúvidas sobre a superioridade da tecnologia chinesa para o 5G estão desaparecendo. Pelo menos comercialmente. Os chineses chamaram no peito: “-Façam os testes que quiserem”, e dão todas as garantias de que não há vulnerabilidades ocultas. Dizem isso aos americanos, mas é para o mundo todo escutar. Governos que se sentirem ameaçados estarão diante da alternativa de auditar completamente o sistema chinês. Quem não aceitar estará declarando incompetência para proteção cibernética da nação. Seria também essa a confissão de Trump?


JURANDO DE PÉS JUNTOS


Nesse episódio, os chineses se colocaram de tal forma acima dos americanos que até ensaiaram uma aula de segurança na rede: “-Restringir a Huawei (...) não tornara os EUA mais seguros ou mais fortes”, ensinam os chineses, como quem tranquiliza uma criança assustada. Na mesma nota, a Huawei esnoba uma posição de “líder indiscutível em 5G” e lamenta prejuízos para “interesses das empresas e consumidores americanos”, relegados “a alternativas inferiores e mais caras, deixando o país atrasado na implantação do 5G.”

Esse tapa com luvas de pelica foi o revide aos esculachos proferidos por Trump na declaração enviada ao congresso americano. A Huawei foi encaixada no rol de empresas "pertencentes, controladas ou sob jurisdição ou direção" de adversários estrangeiros, qual seja, o governo chinês.

Talvez os chineses estejam gostando do desespero público de Washington. Pelo menos dessa vez. Na primeira investida, ainda neste ano, os chineses ficaram inconformados. O clinch surpreendente dos americanos começou pelo artigo do National Defense Authorization Act (NDAA), que proibiu órgãos do governo de comprarem produtos da Huawei. A empresa está movendo processo contra a Casa Branca na justiça americana, acusando golpe baixo. Agora, são os clientes americanos privados que estão sendo limitados quanto aos negócios com a gigante chinesa.

O CEO e fundador da Huawei, Ren Zhengfei, desmente enfaticamente práticas de espionagem a partir de equipamentos e serviços fornecidos aos clientes mundo afora. E nega que a empresa tenha qualquer envolvimento com o governo de Pequim. Por sinal, até o momento, o líder do Partido Comunista Chinês não fez qualquer pronunciamento direto sobre o caso. E, embora um governo tenha o direito de defender as empresas privadas de seu país, Xi Jinping deve permanecer calado.

É uma forma de contribuir com a estratégia da defesa da Huawei na corte americana. Quanto a espiões embarcados na tecnologia, deve mesmo ser difícil. No entanto, sobre vínculos oficiais, convenhamos, não é simples convencer qualquer pessoa de que, uma corporação empresarial da China comunista não tenha qualquer proximidade com o governo central. Quando uma “causa revolucionária” passa a ser mais importante do que qualquer outra existência, visível ou invisível, não se pode supor até onde agirão em nome dessa causa. Até os menos devotos da esperteza costumam prevaricar em favor de suas causas. Edward Snowden tem muito a revelar sobre pecados desse tipo.

“GATO RUIVO, DO QUE USA, CUIDA”


Quem dá a exata dimensão do que pode representar uma liderança tecnológica são os Estados Unidos. O governo americano já criou leis que lhe permitem exigir, de empresas americanas, dados de usuários, mesmo que esses dados estejam armazenados em outros países. O Consultor Jesper Rodhes, da Hyper Island, dá o tom desse debate, ignorando a hipocrisia de praxe: “-Não tenha dúvida que qualquer Estado que tem a tecnologia e a oportunidade de se informar e capturar inteligência de outros países irá fazer isso. Toda e qualquer instituição de inteligência de um país sabe disso. No final das contas, é uma competição entre culturas.”

No caso do 5G ele pode, literalmente, abrir portas no mundo todo. A tecnologia tem potencial para conectar quaisquer tipos de aparelhos, tornando-os “internautas” habilitados à IoT, a Internet das Coisas. É ela que, em poucos anos, vai dar acesso à sua garagem e aos depósitos de matéria prima das grandes indústrias.

Por isso a reação dos Estados Unidos a essa ascensão da tecnologia chinesa está sendo tão agressiva. No ano que vem isso deve ser debitado eleitoralmente. O governo Trump, que chegou atrasado no lance e teve que praticar o anti-jogo, deveria ter percebido a falha muito antes e ter se preparado para faturar globalmente no novo negócio.

As implicações dessa reação extemporânea tendem a gerar problemas em cadeia. Além da venda de produtos da Huawei, Trump está dificultando a venda de componentes americanos para a Huawei. Prejuízo para fornecedores americanos e uma exceção perigosa num segmento industrial que nunca se verticalizou dessa forma. A China, que já desenvolveu o processador de seus próprios celulares – da marca Kirin – vai ter também que criar seu próprio sistema operacional para dispositivos móveis. Por força das sanções de Washington o Android não poderá equipar os novos modelos da Huawei.

Esses novos paradigmas podem levar muitas outras nações a criarem programas internos para desenvolvimento de tecnologia própria em TI. Isso sem falar no pacote chinês completo que inexoravelmente virá.

Um dos fatores que deve ter tornado possível o avanço tão rápido do setor de TI foi justamente a especialização de fabricantes de componentes, que produzem em escala global. É o que permite uma redução de custos capaz de popularizar novas tecnologias. Se os preços vão subir ou se uma nova fase da tecnologia vai mudar essa configuração quase colaborativa, só o tempo vai dizer. Por enquanto, não se sabe se os chips do futuro vão ser produzidos em casa, por impressoras 3D.

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