A TV NOSSA DE CADA DIA




Tem aquela conversa do “seo” Zé da venda, onde se comprava de tudo, marcava no caderninho e pagava no fim do mês. No dia de zerar a conta um filho ia junto e ganhava um punhado de balas, para compartilhar com os irmãozinhos.

Que coisa jurássica! Hoje as relações de mercado no varejo são muito mais impessoais, há sistemas de pagamentos ágeis, tecnologias digitais simplificam todos os procedimentos.

Pra falar fica bonito, mas a respeitosa cortesia do “seo” Zé, a proximidade dos consumidores e outros vínculos humanos são preciosas lições para o comércio em qualquer tempo. Principalmente agora, quando o consumidor já se encheu do discurso “moderninho” e não aceita mais ter a cara de código de barras.

A TV por assinatura parece que não se deu conta dos novos tempos. Pelo menos é o que se observa aqui no Brasil. Fica naquele discurso de “tecnologias do primeiro mundo”, onde tudo funciona de maneira diferente e que por aqui a gente tem que se acostumar. Então tá, a base da TV paga caiu 3,9% no Brasil nos últimos 5 anos e desde então só registra queda de assinantes ano a ano. É o que aponta pesquisa divulgada nesta semana, realizada num total de 14 países pela Amdoc, fornecedora de software e serviços para empresas de mídia e comunicação. A Vanson Bourne, especializada em pesquisas no mercado de tecnologias, atuou em parceria.

O ambiente tecnológico influiu, considerando principalmente a entrada dos serviços SVoD via OTT, como Netflix. Uma realidade aparentemente irreversível, que só valoriza mais ainda as lições do “seo” Zé. A pesquisa, divulgada no site Teletime, traz alguns dados qualitativos que denotam algum descaso das operadoras diante das expectativas dos clientes.

De acordo com a pesquisa 70% dos clientes de TV paga, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos e no Reino Unido, estariam dispostos a manter uma única assinatura de TV se contassem com um pacote personalizado, a seu gosto, como os tomates que o “seo” Zé escolhia na frente do freguês. Por enquanto, os pacotes oferecidos parecem contemplar mais os interesses das empacotadoras e das próprias operadoras.


O QUEBRA CABEÇA DA TECNOLOGIA E DO EMPREENDEDORISMO


As escolhas para formar esse pacote ideal convergem em direção a um conjunto de opções, que apontam um padrão. Dele fariam parte todos os jogos e competições do time preferido, eventos e shows ao vivo e principalmente, uma oferta variada de séries de alto nível. Dentre elas, hoje as quatro principais seriam "Game of Thrones", "The Walking Dead", "Stranger Things" e "The Big Bang Theory". No Brasil esse pacote custaria cerca de R$ 400,00 por mês, o que corresponde a um aumento de 60% do valor médio pago pelos assinantes.

Daí começam a aparecer as particularidades típicas desse “país que vai pra frente”. O Brasil é onde o cliente paga o valor mais alto pela assinatura de TV, se comparado com o que paga pelos vídeos via streaming. Na média, o que o consumidor paga para a operadora corresponde ao valor suficiente para pagar 4,6 plataformas de vídeo. Na Suíça, o que uma operadora cobra não chega ao valor da contratação de uma única plataforma de vídeo.

Isso contribui para que 39% dos lares brasileiros que possuem um televisor abriguem clientes de plataformas OTT. É 50% a mais do que as assinaturas de TV paga. O número de clientes OTT pode estar revelando uma demanda reprimida, pois corresponde a 85% dos lares com banda larga fixa. Faz pensar que, se a infraestrutura de Internet fosse maior no Brasil, o serviço de vídeo via OTT estaria em muitos outros lares. Se considerar o total de lares onde existe TV por assinatura, 61% têm também ao menos um serviço de vídeo OTT ativo.

O cancelamento da TV paga, fenômeno chamado cord cutting, tem sido mais intenso nos Estados Unidos e na Europa, se comparado com o Brasil e a América do Sul em geral. Lá a TV aberta sempre esteve em segundo plano. Porém, o crescimento do streaming de vídeo (OTT) é mais lento do que se vê por aqui, onde a TV aberta ainda lidera. Mesmo considerando as outras alternativas é de se supor que a TV aberta esteja ganhando espaço no mundo desenvolvido. Com as plataformas híbridas abertas, do tipo NGTV, a expectativa é de que o ritmo de crescimento da TV aberta acelere mais ainda.

A TV paga está em crise no mundo todo justamente num momento em que é muito difícil escolher um rumo para investir. A conexão 5G está chegando para oferecer às plataformas móveis a velocidade de 1 gigabyte por segundo. A rede fixa deve alcançar 10 gigabytes por segundo nos próximos anos. Outras infraestruturas estão surgindo. Optar por mudanças nesse momento pode implicar na necessidade de rever novamente seus sistemas em muito pouco tempo. Talvez o investimento ideal agora fosse na imagem dessas operadoras diante de seus clientes. O que o “seo” Zé pensaria agora se tivesse mais de 10 milhões de fregueses para agradar?


DEVE VALER A PENA


Sem dúvida, há um custo Brasil a ser considerado nessa lógica. Impostos, “gatos”, carência de mão de obra, dentre outras mazelas. Mas esse custo não aparece apenas no preço do serviço. Dá a impressão de que é descontado também na qualidade do que é oferecido ao cliente.

É muito cedo para afirmar que bases de operação tão grandes e consolidadas desapareçam tão rapidamente. Porém, no rastro das grandes mudanças tecnológicas, também não dá para dizer que seria impossível acontecer.

O que resta incontroverso é que o consumidor quer mais conteúdo e as redes de TV paga ainda são a via preferencial de distribuição no mundo como um todo. Se está difícil manter essa posição, também não está nada fácil para as tecnologias concorrentes assumirem o lugar.

Para a realidade brasileira alguma mudança precisa aparecer em pelo menos um dos lados: ou os preços são reduzidos ou a qualidade dos serviços, em todos os níveis, precisa aumentar. Não adianta falar em mudanças regulatórias porque do plano político só virão remendos e tudo demora muito a acontecer. Se fosse diferente, os problemas estruturais como ligações clandestinas e aparelhos piratas teriam pelo menos um encaminhamento, mas ninguém está vendo nada disso acontecer.

Por fim, é a própria “marca” Brasil que tem de ser avaliada. Estamos ali entre as dez maiores economias do mundo, somos um país de extensão continental, mais de 200 milhões de habitantes e aquela série de outras verdades que nos fazem, há mais de 50 anos, o país do futuro. Que fique clara, para aqueles que pensam em investir no mercado brasileiro, a máxima que está se firmando entre os consumidores daqui: respeito é bom e nós gostamos.

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